Crises

Personagens: Oto, Juca e Jurandir.

Cenário: Balcão de um bar, algumas mesas e cadeiras.

CENA

Juca e Oto estão sentados ao balcão do bar. Do outro lado, na extremidade oposta, Jurandir está ocupado limpando e organizando os copos.

JUCA - Pode falar pro teu chefe, Jurandir, que eu gostava mais do balcão como era antes. Tinha muito mais classe… Não tinha, Oto?

OTO - Ahn?! Do que você está falando, Juca?

JUCA - Porra, Oto, você está onde?

OTO (desligado e meio sem graça) - Desculpa...

JUCA - Eu estava falando pro Jurandir que o balcão tinha muito mais charme antes, era muito mais bonito, guardava a classe dos velhos e bons tempos.

OTO (já sintonizado) - Nossa!… Não tem nem comparação!... Agora ficou metido a besta... Frio, sem personalidade, com esse mármore gelado!

JUCA - E aquelas mesinhas ali também não estão com nada. Isso aqui perdeu aquele ar envolvente, aquela... aquela... sei lá, aquela aura, ou não sei que porra era, que convidava a gente para a introspecção. Fala a verdade, Jurandir, não era melhor antes?

JURANDIR (secando e ajeitando os copos do outro lado) - Pra mim tanto faz...

JUCA - Pra você, tudo sempre tanto faz, Jurandir! Tu não tens opinião não, Jurandir?

JURANDIR - O que não tenho é tempo pra perder. Pra mim, balcão é balcão, tanto faz! As mesinhas também não me importam, não sou eu que sirvo!

Jurandir faz um muxoxo, apanha seu copo e toma um gole do uísque. Momento de silêncio.

JUCA - Lembra do Frei, Oto?

OTO (novamente distraído) - Hein?!

JUCA - Porra, Oto, hoje tu estás mal, hein!

OTO - Desculpa... É que eu estou aqui meio...

JUCA - Estou falando do Frei! Lembra dele?

OTO (voltando à tona) - O Frei?... Claro, que lembro! Grande Frei, barman de primeira!

JUCA - Aquele sim! Sabia de tudo! Não era que nem o Jura aí!

Jurandir resmunga, enquanto enche o balde de gelo.

OTO (pensativo) - Faz tempo isso…

JUCA - Porra, se faz...

OTO - Quanto tempo faz que a gente vem aqui?

JUCA - Desde que eu me conheço por gente. Praticamente todas as nossas crises nós choramos aqui, exatamente como estamos fazendo agora... Você já reparou que a gente só vem aqui quando está mal? Não me lembro de termos comemorado nada nesse bar!

OTO - É!… Mas tem o que comemorar?

JUCA (querendo afastar o pessimismo do amigo) - Pára com isso...

Juca pensa um pouco e torna-se sério.

JUCA - Pode ser que você tenha razão, está difícil ter alguma coisa pra comemorar...

Momento de silêncio.

JUCA (absorto) - Acho que quando meu pai me pôs na escola, a vontade que eu tinha, e não sabia explicar, era de vir para um lugar como esse e encher a cara! No fundo, tudo começou ali!

Momento de silêncio.

JUCA - Se a gente for pensar, acho que só a crise da adolescência não foi afogada aqui, nesse bar… as outras…

OTO (nostálgico) - Adolescência… Parecia que nada poderia ser pior do que aquilo. Lembro que teve uma época em que eu ia te chamar pra jogar bola e você não queria nem sair do quarto… sua mãe ficou desesperada. Lembra disso?

JUCA - Se lembro… A gente tinha o quê?… Doze ou treze anos… Coisa estranha… meio menino, meio homem. Tremenda insegurança.

OTO - Medo de parecer bobo...

JUCA - Medo de virar veado…

OTO (começando a rir) - Imagina, que besteira, medo de virar veado!

Oto e Juca começam a gargalhar. Param abruptamente. Olham-se fixamente em silêncio por alguns segundos.

OTO (espantando o olhar do amigo) - Sai pra lá, ô!

JUCA - Que é?! Cai fora! Tá me estranhando?!

OTO (retomando a seriedade) - Adolescência… Cada insegurança boba...

JUCA - Acho que a primeira crise chorada nesse bar foi antes de entrar na faculdade!

OTO - Bela crise! Lembro como se fosse hoje, nós dois naquela ponta, neste mesmo balcão... quer dizer, não exatamente este… Você queria ser jornalista... Dizia: vamos mudar este país, vamos tirar esses milicos a tapa! E depois se punha a chorar… Hoje é até engraçado!

JUCA - E você… queria estudar oceanografia! Tinha ido à praia no máximo duas vezes! Acabou tentando engenharia para agradar o pai, não estudou como devia e entrou para matemática… Não agüentou a chatice do curso e desistiu no primeiro ano. Foi trabalhar em banco e, depois de velho, se formou em economia! (apontando para Oto, com certo desprezo malicioso) Agora está aí…

OTO (deixando cair os ombros) - É, agora estou aqui, desempregado! Ferrado!

JUCA (arrependido de ter sido jocoso) - O que é isso, Oto, ferrado estou eu, naquele emprego do cacete. É só aporrinhação. O ideal dos milicos continua aí, oprimindo todo mundo!

OTO - Você está oprimido, mas pelo menos está ganhando. O duro é ser oprimido e sem dinheiro!

JURANDIR (aproximando-se) - Mais uma dose?

JUCA - Deixa logo a garrafa, Jurandir!

Jurandir deixa a garrafa no balcão e afasta-se, voltando para seus copos.

JUCA (para Oto) - E, também, de que adianta ganhar, se vai tudo para as ex-mulheres?

OTO - É! Dureza!... Para cada uma, uma nova crise.

JUCA - Essa última foi de amargar! Me levou tudo!

OTO - É...

JUCA - Lembra da Norminha? Primeira namorada séria… me deixou mal por mais de um ano…

Juca apanha a garrafa de uísque que está diante dele e espreme os olhos para poder ler o rótulo.

JUCA - Era este que a gente estava tomando, Jurandir?

JURANDIR - Xi! Já estão ficando mal. Melhor parar...

Juca enche os copos, os dois brindam e tomam tudo de um só gole.

JUCA (com a voz meio mole, enquanto torna a encher os copos) - Perdidos mesmo, nós ficamos quando a nossa sociedade foi para o vinagre! Uma garrafa dessas ia numa sentada só!

OTO (apanhando o copo) - De onde é que nós tiramos a idéia de que vender livros nesse país daria certo?

JUCA - Não... A idéia até que era boa, os livros é que não eram… A gente deveria ter escutado aquele cara que queria que a gente vendesse os quadrinhos das aventuras do Batman… Na época ele estava meio caidão… mas, agora, olha só, estourou de novo!

OTO - Estourou, é? Não soube mais dele... O que ele está fazendo da vida?

JUCA - Quem, o Batman?!

OTO - Que Batman?! Estou falando do tal sujeito…

JUCA - Quem estourou foi o Batman!…

OTO - Esquece!

Toca o telefone de Oto. Ele respira, engole seco duas vezes, pigarreia e atende. Fala durante um tempo. Não se entende de que se trata. Desliga e fica em silêncio.

JUCA (não resistindo ao silêncio) - Se não for indelicado da minha parte… quem era? Tua cara ficou esquisita.

OTO - Era o sujeito da tal entrevista que te falei.

JUCA - Ah!... Aquele tal diretor que você falou, "com cara de anta, estúpido e prepotente"?

OTO - Esse mesmo. Ele disse que eu fui aprovado… Estou empregado.

JUCA (surpreso) - Foi aprovado?! Está empregado?!

OTO - Vai começar tudo de novo. Tudo de novo, Juca!

JUCA - Sério? Porra, Oto… mas que porra!

OTO - Jurandir, traz mais uma garrafa que esta aqui já acabou. Ferrou, Jurandir, ferrou! Entrei numa nova crise…

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