Correndo atrás do Rabo 

De vez em quando, gosto de entrar numa padaria desconhecida para matar a fome. Geralmente, os lanches são surpreendentemente saborosos. Não sei qual é o segredo, mas o fato é que em casa o sanduíche nunca sai igual. Talvez seja a gordura acumulada na chapa. Porém, o mais gostoso mesmo nessas ocasiões é observar o ambiente. Comendo um bauru, um misto-quente ou um americano com a gema do ovo meio mole, disfarçadamente, fico de olho nas pessoas que encostam no balcão. Por via de regra, surgem curiosos personagens que, de alguma forma, mesmo que sem a minha consciência, emprestam algumas de suas características àqueles que crio na ficção.

Dia desses, tinha uma consulta com o dentista e cheguei mais cedo do que esperava. Estacionei o carro em frente à padaria ao lado do consultório e, assim que desci, fui violentamente atacado pelo cheiro do pão que saía do forno. Meu apetite aguçou-se de tal maneira que não deu outra, lá fui eu para o balcão pedir um sanduíche. Sentei-me timidamente na única banqueta que guardava uma certa distância dos personagens que já estavam no local - parece melhor assim, pois, por alguma razão, comer quase grudado a quem não se conhece causa um certo desconforto. Fiquei com os ouvidos atentos e espiando de esguelha. À minha esquerda, havia um sujeito barrigudinho que ria de tudo que se falava. Mas o riso dele era antes ansioso do que falso, como se estivesse numa busca desesperada por alguma alegria que justificasse sua presença ali (ou talvez que desse sentido à sua existência). Ele pediu mais uma pinga e o atendente do balcão, um rapaz de olhar cansado e beiço caído, evidentemente íntimo seu, aproveitou que a garrafa já estava no fim e caprichou na dose. Acho que se eu tomasse aquela quantidade de aguardente, ficaria meses também rindo de qualquer coisa que me dissessem. Ao lado dele, um amigo de bochechas e nariz vermelhos tomava uma respeitável dose de conhaque e reclamava de suas crises de soluço. “É se-hip-sempre assim... três dias se-hip-sem soluço... e um dia com so-hip-soluço”, dizia ele. Comecei a prestar atenção no problema dele e entrei em desespero. Um soluço a cada seis segundos! Passar um dia inteiro soluçando deve ser coisa para enlouquecer qualquer um!

Um quarto homem entrou e cumprimentou a todos, já eram conhecidos, mas também acenou para mim, por educação. Pediu uma dose de uísque com gelo e trouxe um assunto para a roda. Futebol, claro, não poderia ser diferente. Pensei que ouviria a mesmice de sempre, entretanto, para minha surpresa, a conversa acabou enveredando por um caminho interessante. Em dado momento, entusiasmados, eles começaram a eleger os jogadores que julgavam geniais, usando como argumento lances e gols fantásticos que traziam na memória, e que narravam com precisão de detalhes. Na verdade, eles estavam enaltecendo a impressionante capacidade desses jogadores de realizar de maneira simples o que parecia impossível. E é esse o gancho que eu quero pegar. Antes, porém, vamos sair da padaria, nossos personagens já tiveram a grande virtude de trazer o tema, agora podemos deixá-los a sós, para que conversem mais à vontade, vamos seguir pela calçada e dar o nosso próprio rumo ao assunto.

O grande jogador de futebol é aquele que parece estar sempre no lugar certo na hora certa. Enquanto os outros se matam atrás da bola, correndo ensandecidos, os craques poupam energia para o momento certo. Eles seguem o fluxo do jogo, economizam nos gestos, dispensando ações desnecessárias.

Pensando nisso, remeto-me a uma outra ocasião, há pouco mais de um ano, dois talvez. Um amigo meu montara e dirigia a peça teatral “O Santo e a Porca”, e eu fui assistir. Lembro-me que o Santo era um dos personagens que mais agradava ao público, e ele não tinha nenhuma fala. Para interpretar os personagens Euricão, Caroba, Pinhão, Eudoro Vicente, Benona, Dodó e Margarida, os atores se desdobravam no louco vaivém das peripécias inventadas por Ariano Suassuna, mas o Santo simplesmente aparecia em cena, e com feições e gestos certos fazia a platéia gargalhar. Acho que é isso que distingue fundamentalmente o ator verdadeiro do canastrão. O bom ator não faz caras e bocas, não pretende ser mais nem menos, simplesmente é o que o personagem é. Esperem! Cabe esclarecer que usando esse exemplo não quero dizer que os outros personagens da peça tenham sido mal interpretados pelos atores - pelo amor de Deus, hoje sou amigo de vários deles e não seria aqui que eu iria criticá-los, se preciso fosse -, foi apenas mais uma forma de demonstrar que no fluxo natural das coisas não há ações desnecessárias.

Seria maravilhoso se conseguíssemos experimentar isso no fluxo da vida. Mas, lamentavelmente, somos amestrados para fazer exatamente o contrario. Temos uma idéia completamente distorcida do significado de “agir”. Agimos como náufragos, debatendo-nos na água. Enfeitiçados pela capacidade de sermos conscientes de nós mesmos e de tudo o que nos cerca, criamos a falsa noção de que somos entidades separadas do resto do mundo e de que estamos no controle. E parece que numa sociedade competitiva como a nossa, essa falsa noção tende a ser cada vez mais reforçada. É o tal “fazer acontecer”. Acreditamos piamente que é preciso agir, agir e agir. Mas esse é um agir enviesado. Na maior parte das vezes, só estamos tentando remar contra a corrente. Quando as coisas fluem bem, é porque fizemos o que era natural fazer, é porque não atrapalhamos o fluxo com nossas “ações”. Complicou? O que eu quero dizer é que só existe a ação, e não é você que a faz, você apenas faz parte dela. Complicou mais ainda? Bem, se o texto ficou difícil, vamos então recorrer às ilustrações.

Pouco antes de deixar meu último emprego, testemunhei uma semana bastante atribulada nos bastidores da empresa. Os resultados não eram satisfatórios. Os burocratas fecharam a cara e saltavam agitados de um lado para o outro, como um bando de babuínos assustados. Daí vieram os líderes: “precisamos agir”. Queriam suas respostas racionais, e, talvez por isso mesmo, não tinham a menor idéia sobre o que fazer. Mas alguma coisa “precisava ser feita”. Assim, convocaram reuniões, fizeram apresentações, gritaram, discutiram, pressionaram, remanejaram, identificaram culpados, demitiram, voltaram a se reunir, se contradisseram, e gritaram novamente, e agiram, agiram, agiram... Depois de um tempo, a tranqüilidade regressou, a sensação de dever cumprido foi reconfortante. Sim, eles tinham agido, e com pulso firme, como manda o figurino do empreendedor de sucesso. Na prática, entretanto, continuou tudo com dantes no quartel de Abrantes. E se houve alguma melhora, que minha miopia para o mundo dos negócios tenha me impedido de enxergar, deve ter sido naquilo em que esqueceram de agir. Talvez, se eles tivessem ficado sentados em suas cadeiras, mascando chicletes para amenizar a ansiedade, os resultados pudessem ter sido melhores. Mas nós não admitimos que as coisas funcionem assim, pois isso fere nossos egos, destrói nossas pretensões de poder.

Ah, se aprendêssemos o valor do silêncio, da economia de gestos... Se acreditássemos na inteligência da vida... se nos deixássemos guiar pela voz interior...

Eu sei, não é nada fácil, o feitiço é forte. Alguns gênios do futebol nem sempre conseguem conduzir suas vidas fora dos campos com a mesma sabedoria; bons atores, numa apresentação ou outra, sucumbem nas armadilhas dos excessos e perdem a naturalidade; e eu mesmo, infeliz, que queria experimentar profundamente o silêncio, não pude suportar a inquietação provocada por esta página em branco diante de mim e acabei escrevendo sobre ele, matando-o instantaneamente.

Mas esses deslizes também são naturais. O que não podemos mesmo é entrar na loucura, ficarmos como cachorros correndo atrás do rabo. Caso contrário, terminaremos todos como os patéticos personagens dessa última padaria, procurando um jeito de esquecer quem somos. E vocês podem imaginar quantas garrafas de pinga, uísque e conhaque precisaremos entornar, para aplacar a ansiedade gerada pela ilusão do “fazer acontecer”? 

Agosto/2004

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