Cenas de um novo cotidiano
Lendo o título desta crônica, muitos podem imaginar que se
trata de uma análise sociológica, uma reflexão sobre alguma mudança do comportamento
humano no mundo contemporâneo. Mas não é nada disso, vou falar do meu
cotidiano. É, do meu mundinho mesmo, do arroz com feijão. Mas, esperem... pensando bem,
talvez esse meu novo cotidiano, sobre o qual pretendo escrever, seja um microcosmo
representativo de uma mudança social abrangente; talvez ele seja uma ilustração
exemplar da reação do homem frente às tensões a que é submetido, tensões cada vez
mais fortes e constantes, e, por que não dizer, em grande parte provocadas pela... .
Não, não! Não vou por esse caminho. Quem quiser que faça sua análise e tire suas
conclusões depois... Esperem, acaba de me ocorrer que, por estarmos às portas de um novo
ano, período em que as esperanças se renovam, falar sobre um novo cotidiano possa ser
até bastante pertinente. Talvez traga novas idéias, sei lá. Ou talvez eu esteja apenas
tentando encontrar uma utilidade para essa nossa maluquice de contar o tempo... Ah, meus
santos, já ia me perdendo de novo. Vamos logo ao assunto.
O problema é que, de uns tempos para cá, o meu dinheiro ficou mais curto, minguou. Não
é a primeira vez nem será a última, afinal, sou brasileiro. E como todo bom brasileiro
conheço de cor e salteado as regras para as situações de aperto, fui obrigado a
desenvolver certas habilidades. Aliás, historicamente, nossos governantes orgulham-se de
comandar uma nação com povo tão flexível, e tratam de exaltar essa qualidade, querem
que a desenvolvamos cada vez mais, têm a esperança de que um dia percamos essa mania
besta de querer comer pelo menos três vezes por dia.
Regra básica número um: cortar gastos, começando pelos supérfluos. Essa palavra esteve
muito em moda e ganhou notoriedade na época dos preços tabelados, do fantasma da
hiperinflação, e muita gente custou para pronunciá-la corretamente, diziam
"supérfulo". E foi nesse mesmo período que aprendemos que, com o tempo, e um
pouquinho de boa vontade, tudo pode se transformar em supérfluo.
Fiz minha listinha, mentalmente - minha neurose, ou talvez minha penúria, ainda não
chegou ao ponto de me obrigar a colocar esses itens na ponta do lápis, nem de ficar
fazendo no papel cálculos e projeções financeiras. E é interessante notar como estamos
condicionados culturalmente a primeiro considerar supérfluo tudo o que nos dá prazer.
Resignei-me: é preciso apertar o cinto... Fazer o quê? Só não consegui eliminar o
vinho e os livros do sebo. Ah, não, aí já seria demais!
E a história sempre se repete, os meses correm e percebemos que, apesar de toda a
privação, o saldo bancário continua deficitário. É aí que a lista de supérfluos
aumenta, e começam a ser cortadas aquelas coisas que nos poupam sofrimento. Foi nessa
onda que os serviços que dona Marilda prestava em minha casa, de limpeza e arrumação,
foram considerados dispensáveis. Ainda bem que ela não precisava tanto de mim, senão
seria mais uma a fazer listas de redução de despesas.
Noite dessas, cheguei em casa e arranquei os sapatos logo na entrada - gosto de fazer
isso, sinto-me livre, e o bem-estar de poder entrar no meu mundo é quase imediato. Quando
cheguei ao meu quarto e fui tirar as meias, percebi que as solas dos pés tinham ficado
encardidas, só de caminhar pelo corredor. Então, comecei a prestar atenção nas coisas
ao meu redor, fiz uma vistoria geral. E fiquei extremamente incomodado com o estado de meu
"lar, doce lar". No cesto de roupas sujas não caberia nem mais um lenço; a pia
da cozinha era indecifrável, bem como o cheiro que exalava; papéis e livros estavam
espalhados por todos os lados. Não, não era possível permanecer daquele jeito, resolvi
que faria uma grande faxina no dia seguinte.
Acordei disposto, a tarefa não poderia ser tão difícil assim. Fui direto verificar meu
arsenal de limpeza. Queria traçar a estratégia de ataque. Comecei a ler os rótulos dos
produtos para avaliar as armas que tinha em mãos: desinfetante, desengordurante,
removedor, solvente, água sanitária, limpador instantâneo multi-uso, limpador de pisos
frios, lustra móveis, limpa vidros, álcool líquido, álcool em gel, alvejante sem
cloro, detergente lava-louças, detergente para pré-lavagens, amaciante de roupas, sabão
de coco, sabão em pó com cristais verdes de frescor, sabão em pó com pH balanceado,
sabão em pó com branqueadores ativos... Socorro, eu nem sabia que tinha tudo isso em
casa! Confesso que fiquei indeciso. Temeroso também. Se eu usasse um produto errado
poderia estragar alguma coisa. Será? Resolvi começar pelo básico. Talvez o chão só
precisasse de uma varridinha.
E lá fui eu, cheio de coragem, com a vassoura na mão. Escolhi começar pelo meu quarto,
que é o último cômodo. Assim, eu viria "puxando" a sujeira com a vassoura,
passando pelos demais espaços, até chegar à área de serviço, que é onde fica o cesto
de lixo. Muito simples. Mas não funcionou muito bem. A poeira, ao se juntar, forma um
aglomerado lanoso em volta da vassoura, difícil de levar, desprende-se pelos cantos -
você puxa uma parte da poeira, mas acaba deixando outra no lugar. Mas, afinal, de onde
vem tanta poeira? E cabelos, então? Devem brotar do piso! Não é possível que todos
eles tenham caído da minha cabeça, eu já estaria completamente careca! Será que estou
ficando?!
Percebi que seria mais fácil varrer um cômodo por vez, e saí arrastando a pá e o cesto
de lixo pelo apartamento. Ao terminar o serviço, já esbaforido, vi que tinha cometido
uma falha lamentável: eu esquecera de tirar o pó de sobre os móveis. Providenciei
então uma flanela e comecei o trabalho. Só que desse jeito eu tornava a empoeirar o
chão (tive de varrer o quarto novamente). Estava claro que eu precisava de uma solução
mais esperta. Usei um pouco a cabeça e descobri que o truque era passar um pano levemente
umedecido. Empolguei-me, e quando dei por mim, já tinha levado um balde cheio de água
para o meio da sala, e, com o rodo envolto por um pano, esfregava o chão enfurecidamente,
respingando suor pela testa.
Tendo tudo mais ou menos limpo e as coisas que estavam espalhadas parcialmente recolhidas,
fui enfrentar a louça na cozinha. E entendi o que dona Marilda queria dizer com
"essa pia é muito baixa" - terminei com as costas em pandarecos.
Fui para a área de serviço e tirei toda a roupa que estava pendurada no varal. Se
terminasse por aí, estaria tudo bem; mas não, alguém, algum dia, inventou o ferro de
passar! Que falta do que fazer! Pelo menos, o seu funcionamento é bastante simples de
entender. O mesmo não posso dizer a respeito da tábua de passar. Deveria vir com manual
de instruções (será que veio?). Gastei um bom tempo tentando descobrir para que lado
ela abria. Prendi o dedo duas vezes antes de conseguir montá-la. Que coisinha
desengonçada!
Comecei a empreitada e, apesar do calor, gostei de ver o vapor saindo pelas laterais da
chapa quente, principalmente do barulho que fazia, senti-me como um operador de caldeira.
Minha masculinidade estava resgatada. Malditas camisetas de algodão! Você alisa de um
lado e ela amarrota do outro!
Depois de tudo passado, fui encarar a máquina de lavar roupas. Olho no olho. Decodifiquei
os comandos do botão de acionamento e li as instruções da caixa de sabão em pó
(talvez porque a embalagem fosse mais alegre, escolhi o com cristais verdes de frescor).
Não parecia nada de outro mundo. Coloquei as roupas, o sabão e liguei a geringonça.
Ufa!
Nesse momento, lembrei-me da crônica que precisava escrever. Tinha um compromisso
assumido. Então, deixei a máquina funcionando e arrastei meu corpo arrebentado até o
computador, que fica num escritório improvisado bem ao lado da área de serviço.
Permaneço inerte diante do monitor, procurando reaver minhas forças. E como faz barulho
a lavadora! Quase não consigo me concentrar naquilo que quero escrever. Começo a
desanimar. Parece que não dá para trabalhar e cuidar da casa ao mesmo tempo.
Olho impaciente para a área de serviço, como que querendo uma satisfação da máquina
de lavar, e vejo uma espuma branca subindo pelo ralo. Meu Deus! O que será isso? Será
que eu exagerei no sabão em pó? Socorro!
Acho que vou começar o ano juntando trocados para contratar dona Marilda novamente, mesmo
que seja para vir só uma vez por mês. Acredito ter visto umas moedinhas espalhadas pela
casa enquanto limpava, já é um bom começo. Alguém teria uma idéia melhor?
dezembro/2004 |