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Camisa Nova Personagens: Atendente e Cliente. Cenário: Balcão de uma loja; vários cabides com camisas cinzas CENA ATENDENTE - Boa tarde, senhor, em que posso ajudá-lo? CLIENTE - Bem! Passo aqui em frente quase todos os dias, sempre quis entrar, mas nunca tive coragem. Hoje, finalmente resolvi. É que estou querendo uma camisa nova. Uma que seja diferente desta que me deram, que faça eu me sentir um pouco mais confortável. Algo que tenha mais a ver comigo. ATENDENTE - Uma coisa diferente? Como assim? CLIENTE - Bom... sei lá!... Talvez a cor pudesse sair um pouco deste tom cinza, que, quando estamos misturados na multidão, nos faz parecer tão iguais. ATENDENTE - Desculpe-me, mas o senhor está querendo dizer que o cinza não lhe agrada? O senhor já pensou o que iriam dizer a seu respeito se o vissem por aí desfilando em azul, vermelho, verde, ou sabe Deus que cor mais lhe tenha vindo em mente? Depois, rapidamente, todos saberiam que a camisa teria saído da minha loja! Não, não! Isso que o senhor está me pedindo não posso atender e muito menos entender! CLIENTE - Hum! Talvez se eu ficasse com esta cinza mesmo e mandasse tingir mais tarde… ATENDENTE - Olha! Apesar desse seu pedido estranho, eu até que simpatizei com o senhor, por isso, deixe-me dar-lhe um conselho. Vá por mim, vestindo essa camisa cinza, o senhor não corre o risco de se comprometer, e as pessoas não o verão como alguém que só quer se exibir. Não queira desestabilizar a rotina dos outros. Não os obrigue a pensar, a fazer escolhas, ninguém quer preocupações. Ficando de cinza é mais fácil se misturar aos demais, não é preciso justificar nada e ficam todos felizes. Além disso, as vantagens do cinza todos já conhecem, basta o senhor decorá-las e terá condições de participar de qualquer conversa. Dessas bem animadas. Entende? CLIENTE - É! Estou tentando compreender. Mas é que o cinza realmente não me agrada e talvez se… ATENDENTE - Escute, senhor, estou tentando fazê-lo ver as coisas da forma mais fácil! Apesar disso, o senhor insiste nessa idéia estapafúrdia. Entenda! As coisas podem piorar muito. Por favor, facilite! CLIENTE - Talvez, se você me conseguisse uma camisa com as mangas um pouquinho mais compatíveis com o comprimento dos meus braços, já estaria bastante razoável. Não sei se você percebeu, mas a manga desta camisa que me deram, abotoa o punho praticamente na metade do braço. Veja! Ligeiramente abaixo dos cotovelos. ATENDENTE - Puxa! Agora que o senhor me chamou a atenção, realmente fica muito esquisito! Seus braços são realmente estranhos! Olhe, se o senhor não comentar com mais ninguém, talvez passe despercebido. Eu mesmo só me dei conta depois que o senhor falou. O problema dos seus braços ficará só entre nós. CLIENTE - Mas o fato é que meus braços estão de acordo com o restante do meu corpo. Perceba! Estão em perfeita harmonia com todo o resto. ATENDENTE - Schhhh!! Fale baixo! Dizendo isso, o senhor só está piorando as coisas. Está levando o problema dos seus braços para o resto do corpo. Daqui a pouco vão dizer que o senhor todo é um problema! CLIENTE - Está bem, está bem! Seria possível, então, me arranjar uma camisa, vá lá, que seja cinza, mas com as mangas mais compridas? ATENDENTE - Impossível, senhor! O comprimento das mangas foi padronizado há muito e muito tempo, levando-se em conta o tamanho médio dos braços das pessoas. O processo de confecção tem sido bastante rigoroso para atender o especificado e nunca tivemos nenhuma reclamação. Por isso, por uma questão de prudência, não deixe que ninguém perceba a extensão de seus braços. CLIENTE - É…! Mas… Como é que eu faço então? Você tem alguma sugestão? ATENDENTE - O senhor já tentou encolher um pouco os braços, assim… puxando os ombros para cima? CLIENTE - Para ser sincero, é o que sempre tenho feito! Por essa razão você só percebeu que as mangas eram curtas quando eu mencionei o fato. Mas tem sido péssimo! Causa-me dores terríveis, e tem me trazido muita dificuldade para alcançar as coisas que preciso. ATENDENTE - O senhor insiste em dizer que as mangas é que são curtas. Assuma o seu problema. Já pensou em cortar o pedaço excedente dos braços? CLIENTE - Já cheguei a pensar, sim. Mas creio que se fizesse isso, não conseguiria mais nem sonhar em alcançar as coisas de que preciso. E, no fundo, sei que seria capaz de agarrar essas coisas, se pudesse esticar os braços longos que tenho. ATENDENTE - Nem pense em usá-los! Sinto que o senhor está meio confuso. Venha cá, vou ajudá-lo. Já disse que simpatizei muito com o senhor. Olhe para esse espelho. Dê um leve sorriso com o canto da boca… agora, franza a testa sutilmente… assim... fique meio de perfil… isso… isso mesmo! Note como lhe cai bem o tom cinza! Que me diz então desses braços na medida certa, hein? Encolha-os só um pouquinho mais… isso… levante mais os ombros… Perfeito! Confiança rapaz! Vá em frente! Saia por aquela porta e junte-se aos demais cinzas de braços normais! Vá e seja feliz! |