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Bolsas,
Sacos e Sacolas Como
todo garoto, olhava para o mundo dos adultos e sonhava em ser grande.
Isso lá pelo ano de 1971, ou seria 72? Nessa época, a imagem de adulto
que projetava não era a do pai, como seria razoável supor, muito menos
a do avô, pois avôs pertencem a um mundo sempre muito distante aos
olhos de uma criança, são de uma realidade imponderável. Não, não
era nem de um nem de outro, sua mira estava voltada para os jovens
cabeludos que revolucionavam os costumes da época. Quando
passeava de carro com seus pais pelas ruas do centro da cidade, ficava
ajoelhado no banco de trás, observando atentamente o movimento pela
janela. Via aquela rapaziada alegre - que sua mãe designava
genericamente como hippies - reunida nas esquinas, exibindo cabeleiras,
roupas e acessórios exóticos, e seus olhos brilhavam, parecia-lhe um
futuro bastante promissor. Além dos cabelos, o que mais lhe chamava a
atenção eram as bolsas de couro que eles usavam, principalmente as
franjadas. Levavam-nas penduradas de atravessado, com a tira comprida e
larga cruzando o peito como um cinto cartucheira. Passou a sonhar com
uma delas e, lá do seu jeito, a lutar por uma. E não foi fácil
convencer os pais, sim, porque naqueles tempos, diferentemente de hoje
em dia, ainda não se almejava fazer dos filhos modelos fiéis dos
ditames da moda, pelo contrário, predominava o conservadorismo, a
resistência - fomos de um extremo ao outro numa velocidade
impressionante. O fato foi que, num belo dia, o garoto recebeu de
presente sua tão almejada bolsa de couro. Pendurou-a de imediato,
admirou-se longamente diante do espelho e circulou com ela pelo quintal
de sua casa. Resolveu, então, ir para a rua exibir-se. Foi quando a
vizinha, que estava achando muito bonitinho ver aquele menino andando
com uma bolsa a tiracolo, resolveu perguntar: “e o que é que você
traz aí dentro?” Caramba,
ele não tinha pensado nisso! Ficou sem graça e voltou correndo para
casa, precisava urgentemente encher a bolsa com alguma coisa:
estilingue, bolinhas de gude, carrinhos, figurinhas... com pedras, que
fosse. Começava ali sua passagem para o mundo dos adultos. E,
ao se falar em bolsas, é quase impossível não lembrarmos do universo
feminino, a associação é imediata. Observar o comportamento das
mulheres com relação às bolsas é extremamente curioso, elas parecem
inseparáveis, como se esse acessório fizesse parte de seus corpos,
como um braço ou uma perna. Uma mulher, caminhando fora de casa, sem
sua bolsa dependurada no ombro é uma cena bastante improvável. Mesmo
que seja daqui até ali, a bolsa vai junto. E ela é tão importante que
influencia até nas principais escolhas da alma feminina, inclusive na
mais essencial de todas, a do sapato. Uma bolsa jamais será
desconsiderada por uma mulher no momento de comprar um calçado. “Será
que esta sandália combina com aquela bolsa?” Definitivamente, bolsas
e sapatos caminham juntos, mas não vamos nos deter nessa
particularidade, porque sapatos são um capítulo à parte, eu
precisaria de muito mais linhas para escrever sobre isso do que as que
tenho disponíveis. A
relevância das bolsas na vida da mulher moderna é uma constatação
trivial, até os encostos das cadeiras dos bares, lanchonetes e
restaurantes, de proprietários um pouquinho mais atentos e conscientes
das necessidades de suas clientes, já são preparados para segurar
adequadamente as inseparáveis companheiras. E
o que elas têm dentro? Ainda é mais improvável saber. Certa vez, uma
amiga sacou do interior de sua bolsa uma latinha de cola de sapateiro e,
antes que eu inferisse algo, foi logo explicando que era para o caso de
descolar o saltinho de borracha, “porque, um dia, ele descolou no meio
da rua e...”, enfim, era para emergências. Resumidamente, poderia se
dizer que na bolsa de uma mulher tem de tudo. Não
gostaria de julgar valores, mas, pelo pouco que tenho observado, a maior
parte desse tudo parece ser absolutamente desnecessária. Mas, ao que
tudo indica, se temos uma bolsa, é preciso pôr alguma coisa dentro
dela. Para
não parecer machista - apesar de já estar parecendo - e não ser tão
previsível, analisando o uso das pastas executivas pelos homens, que
seria o paralelo imediato das bolsas femininas, consideremos agora as
maravilhosas agendas eletrônicas ou, modernizando a nomenclatura, os
“Palm Tops”, que tanto deslumbram o sexo masculino. Não dá nem
para imaginar a quantidade de inutilidades que se pode colocar num
aparelhinho desses. Mas ele faz coisas tão fantásticas, marca
compromissos, armazena textos enormes, planilhas, joguinhos, recebe
mensagens eletrônicas através do telefone, troca informações com o
computador, como deixá-lo vazio? Seria um desperdício. Assim, gastamos
um tempo enorme tentando achar utilidade para a tal maquininha. Se
pararmos para analisar, chega a ser difícil de acreditar. Não temos
nada para carregar, mas cismamos que temos de usar uma bolsa e depois
nos esforçamos em encontrar badulaques para enchê-la, bugigangas que,
depois de um tempo, começam a parecer indispensáveis. A esmagadora
maioria de nós não tem nada para lembrar que sua própria cabeça ou,
no máximo, um bloquinho de papel não possa armazenar – e as pessoas
que não se encaixam nessa realidade deveriam urgentemente repensar suas
vidas -, no entanto, nos encantamos com tranqueiras eletrônicas que se
tornam imprescindíveis às nossas mentes insanas. Claro
que nada disso é regra, existem casos e casos, uma bolsa pode ser
apenas uma bolsa e uma agenda eletrônica pode ser apenas um
brinquedinho divertido. O que foi dito serve apenas para ilustrar o fato
inquestionável de que, conforme vamos nos tornando adultos, vamos nos
aperfeiçoando na arte de complicar as coisas. E
o que fazemos com nós mesmos? Não é exatamente igual? Nos comportamos
como se fôssemos nossas próprias sacolas. Simplesmente não sabemos
nos carregar vazios. Temos uma dificuldade incrível em viver sem uma
“preocupaçãozinha”. A pessoa acorda de manhã e logo pensa com o
que vai se preocupar naquele dia, e, se demora para descobrir,
preocupa-se com o fato de não ter nada para se preocupar. E pobre
daquele que tenta sair de casa leve, sem nada a lhe pesar nos ombros,
logo vem alguém, através de olhares e palavras disfarçadamente
inocentes, fazer o papel que a vizinha fez com o garoto: “ei, você aí,
não vai carregar nada na sua sacola?!” Assim, o delicioso vazio não
consegue persistir durante muito tempo, o diligente sentimento de culpa
vem preencher o espaço. Por
que não podemos simplesmente viver a vida? Não deveríamos começar a
reaprender a caminhar com as mãos e mentes vazias? Talvez fosse hora de
esvaziarmos nossas sacolas, fazer como o garoto, que queria simplesmente
divertir-se com uma bolsa de couro, sem necessariamente ter de colocar
algo dentro para carregar; realizarmos o que os jovens cabeludos talvez
estivessem querendo; pararmos de andar com o saco tão cheio. Ou
ainda, melhor do que isso, nos enxergarmos não como um saco, que
transforma em peso as experiências vividas, mas como o leito de um rio,
pelo qual as novas experiências podem passar. Dezembro/2003 |