Bandeira Amarelada Da cozinha, ouço a voz do locutor: "A bola espirra, quica e sai pela lateral do campo... Vandeílson vai e cobra com rapidez, tem pressa... só faltam dois minutos para o fim de jogo... agüenta coração... Charley domina já na intermediária, toca para Jackson, Jackson sai de lado, Roberci tenta tomar... Jackson recua para Edimílson, Edmílson enfia de primeira no meio para Charley... ele avança, vai com a bola dominada... pára... descola um lançamento espetacular para Orobó na direita... ele corre pra linha de fundo, cruza para o meio da área... subiu de cabeça... a bola explode no travessão!!... Voltou... afaaasta o zagueiro... mas ela vem fraca, Marula retoma a posse de bola no ataque... enfiou cruzado para Charley... entrou na área... chutou... e gol... gol... gooooooool!!! Um golaaaço..." Meu time ganhou de virada? Eu deveria me empolgar, sair gritando cheio de alegria? Qual nada, podem desligar a tevê, isso não me entusiasma mais. "Você não gosta de futebol?", muitos se perguntarão indignados. "Mas que sujeito mais estraga prazeres... ranzinza!... elitista!... perdeu a capacidade de desfrutar os prazeres da vida?" Eu sei, eu sei, isso parece um crime terrível... mas não é bem assim... Vou tentar argumentar da maneira mais breve possível, porém, quero que entendam que esta crônica está sendo escrita numa segunda-feira, e que eu passei o domingo acamado, e que, por completa falta de opção, gastei o dia procurando algo interessante para ver na tevê, e tudo o que consegui foi ficar entulhado de programas esportivos, todos eles recheados de profundas discussões a respeito de futebol. Assim, se eu carregar na tinta ou me prolongar demais, perdoem-me, posso estar querendo dar o revide. Na verdade, esse fato foi responsável apenas por trazer o assunto à tona, minha apatia com relação a esse esporte já vem de anos. Tudo começou num domingo também, eu me preparava para assistir a uma importante partida pela televisão - um clássico. Sofá confortável, cheio de almofadas, maço de cigarros ao lado (na época eu ainda fumava), uma cerveja na mão, várias outras na geladeira e, na mesinha de centro, um pote cheio de bolinhas de amendoim e uma bela porção de queijo prato cortado em cubinhos, com azeite e orégano. Tudo pronto. Parecia impossível ser melhor. Cenário perfeito, não? Pois é, o problema era justamente esse, tudo não passava de cenário, o prazer era apenas aparente; e penso que nessas situações a coisa seja sempre assim - se não acreditarem, parem um dia para observar atentamente. Mas não achem que foi fácil eu chegar a essa conclusão, foi preciso que um extraterrestre viesse lá do planeta Zíper, da longínqua galáxia Ilhós, ainda desconhecida pelos Terráqueos, para me fazer entender. O jogo estava prestes a começar, o árbitro e seus auxiliares (aprendi num desses programas esportivos que não se deve mais chamá-los de juiz e bandeirinhas) já subiam para o campo - e eu fui obrigado a praguejar sozinho, porque o amigo que eu convidara para compor a torcida ainda não tinha chegado. Instantes depois, ouvi um barulho na porta e imaginei que fosse esse meu comparsa; gritei então para que entrasse. Vi o vulto chegando na sala mas não pude lhe dar atenção, os times já entravam em campo e eu não queria perder nenhum detalhe. Quando terminei de acompanhar a agitação do estádio, voltei-me para cumprimentar aquele que supostamente seria meu parceiro de torcida. Imaginem qual não foi minha surpresa, quando dei de cara com um alienígena de cor verde e enormes orelhas, sentado ao meu lado no sofá. Levei todo o primeiro tempo para me recuperar do susto. Só depois de tomar o quarto copo de água com açúcar senti-me em condições de perguntar-lhe quem era e o que estava fazendo ali. Com a simplicidade característica dos Ziperianos, ele explicou-me que chegara à Terra havia algumas semanas e que, desde então, vinha tentando entender aquele esporte que tanto movimentava seus habitantes. Tinha acompanhado diversos jogos de futebol em diferentes regiões do planeta e, aparentemente, eu seria o último a ser pesquisado. Senti-me, assim, na obrigação de fechar com chave de ouro a passagem dele por aqui, imaginei que lhe ensinaria tudo sobre o assunto, mas, no fim das contas, quem acabou aprendendo fui eu. Ao tentar lhe explicar que o futebol era motivo de alegria e uma das principais diversões em nosso planeta - aproveitando para gabar-me da superioridade do Brasil sobre os demais países nesse esporte dei com os burros nágua. Ele não entendeu o significado de país - muito menos de Brasil - e estranhou bastante nosso conceito de diversão e alegria. "Pode ser que algum dia o futebol venha a ser diversão e alegria nesse planeta", disse ele com sua voz de morcego, "mas, pelo que vi, do jeito que vocês estão fazendo, ainda está muito longe de isso acontecer". E não é que eu comecei a achar que ele tinha razão! Analisemos o que acontece. Durante um jogo, os torcedores passam a maior parte do tempo sofrendo! No final, se o time é derrotado, ficam arrasados, a vida perde completamente o sentido; se saem vencedores, aceitando-se que haja uma alegria verdadeira, ela certamente não dura mais do que uma fração de segundo, pois, rápida como um raio, a ansiedade toma posse novamente e todos passam a pensar no confronto seguinte, inconformados com a impossibilidade de segurar para sempre a condição de vencedores. Vem a sombra, a angustia. E esse martírio prossegue, jogo a jogo, até o final da competição. Então, seria razoável supor que pelo menos para o campeão viesse uma recompensa! Mas, não, passada a comemoração vazia, o prêmio é o mesmo: o pesadelo de precisar vencer o próximo campeonato. Essa visão parece negra demais, difícil de aceitar. Lembro-me que eu mesmo na ocasião ainda tentei resistir contra essa idéia, achei que aquele Ser esverdeado estava exagerando na dose, e atirei-me ao ataque quando o alto-falante da tevê anunciou um gol e ouviram-se gritos de comemoração pela vizinhança. "Escuta só!", disse eu, chamando-lhe a atenção. "Isso é a mais pura manifestação de alegria!" Ele não disse nada, apenas apontou seu dedo verde para fora da janela e me fez ver um sujeito que comemorava o gol na sacada do prédio em frente. O camarada gritava ensandecido, estava quase babando, e não havia nenhuma alegria naquilo, eram uivos de raiva, de provocação e desaforo, provavelmente dirigidos a vizinhos torcedores do time rival, que, por sua vez, deveriam estar alimentando-se dessa raiva, armazenando-a para o revide. Notemos as conseqüências disso, estão aí a todo instante. Torcedores transformando-se em gladiadores, que, armados de paus, pedras, facas, bombas e sabe-se lá mais o quê, matam seus rivais, derrubam alambrados, invadem estádios, insultam e agridem jogadores, até do próprio time quando ele vai mal. Vamos aumentar o policiamento!, propõe o coro da inteligência como solução. E a maior parte do restante da massa, que não faz parte dessas gangues, são os explorados, que se alienam, passando os dias discutindo e calculando a pontuação de seus times na tabela do campeonato. Pelo menos temos algo para nos distrair, ponderam os que sempre ponderam. Para que serve tudo isso? Para criar fronteiras, defesas, muralhas, separar ainda mais as pessoas, como religiões e Estados. E pensar que tentei convencer o alienígena de que falávamos de algo que trazia alegria e diversão. Ainda bem que não caí na besteira de enveredar por outros esportes. Já imaginaram se eu lhe tivesse dito que há um esporte chamado vale-tudo, e que as pessoas se "divertem" com ele? Ou então, se eu tentasse mantê-lo acordado diante de uma corrida de Fórmula 1? Poderia ter sido mais complicado. Bem, tenho de confessar que, até hoje, ninguém acreditou muito nessa minha história de alienígena, mas o fato é que ela me modificou. Desde então, toda vez que me olho no espelho e tento me imaginar como torcedor, vejo-me como um ser verde de orelhas grandes, carregando uma bandeira amarelada. |