A
Ratoeira
Valdir
olhou-se no espelho, de meio perfil. Passou a mão pela lateral do
cabelo, enfiando as pontas dos dedos por entre os fios, separando-os e
observando-os atentamente. Os mais de quarenta e cinco anos vividos
ainda não tinham sido capazes de encanecer-lhe totalmente a cabeça. O
grisalho ainda era do tipo que as outras pessoas, em geral,
principalmente as mulheres, qualificam de charmoso, ainda não chegara
àquele que dá a idéia de maturidade e sabedoria – mesmo que muitas
vezes falsa -, muito menos ao que realmente nos envelhece a fisionomia.
O branco não era tanto, porém, Valdir achava que tinha chegado rápido
demais. Tudo muito breve, muito breve mesmo. Não
era hábito seu gastar tanto tempo diante do espelho, nunca fora um
homem vaidoso e não era por isso que examinava tão detalhadamente sua
imagem refletida. Ainda estava meio adormecido e o sonho que tivera
durante a noite, do qual ainda mantinha lembranças, foi o verdadeiro
motivo de estar ali. Sonhara com o tempo de escola. Lembrava-se de estar
na sala de aula, conversando com um velho professor do ginásio e havia
uma pilha enorme de livros, de onde o professor retirava alguns
exemplares, para depois se sentar ao lado dele e juntos se deliciarem
admirando as gravuras estampadas nas páginas – fotografias e ilustrações
de vários lugares do planeta. Eram livros de geografia, matéria que
Valdir mais tinha gostado. Através deles, viajara pelo mundo todo,
conhecera cidades, montanhas, rios e vegetações. Nessa época, ele
imaginava que um dia percorreria todos esses lugares, de verdade, e,
para isso, bastaria tornar-se adulto e ter um pouquinho de dinheiro para
se sustentar, o que, teoricamente, parecia ser bastante simples. Talvez
por isso, ele acabou se transformando num taxista, foi uma forma de se
aproximar do desejo de rodar pelo mundo - um mundo bem mais reduzido, é
verdade. Certamente,
aquele professor já tinha morrido, pois não era muito novo na época.
Ao pensar nisso, Valdir teve uma estranha sensação. Como aquele homem
podia ter desaparecido do mundo, se estava ali, tão presente, com o
mesmo rosto e as mesmas palavras? De pequeno, Valdir tinha aprendido a
ver o mundo assim, fixo, com determinadas coisas e pessoas fazendo parte
dele; o fato do professor já não existir, dava-lhe a impressão de que
tudo aquilo de que se lembrava também nunca tinha existido, era como se
a vida se evaporasse diante de seus olhos. E o espelho insistia em
mostrar sua figura, um Valdir meio dormindo, meio acordado, meio menino,
meio adulto. Ele
parecia não dar importância ao que sentia, ou não conseguia entrar
verdadeiramente em contato com isso, mas uma infinidade de sonhos
frustrados também tinham sido despertados por aquelas lembranças,
gemiam dentro dele, camadas e mais camadas sedimentadas, sonhos
soterrados e esmagados pelas conveniências sociais, pelas supostas
necessidades da vida, pela estranha sobrevivência. Valdir afastou-se um pouco do
espelho para poder observar a barriga. Virou-se para um lado, depois
para o outro, estufou o peito, encolheu a pança, apertou os pneus das
laterais da cintura. Nesse aspecto físico o peso do tempo não tinha
sido tão complacente quanto o fora com os cabelos. Um cinturão de
gordura localizada fazia-se presente, a vida sedentária do nosso
taxista cobrava seu preço. Ele suspirou e sacudiu ligeiramente
a cabeça, para acabar de acordar. Precisava ficar esperto, entrar na
correria, na pressão do dia-a-dia, essa que nos faz esquecer a dor dos
sonhos perdidos, consumindo-nos a alma em troca. E não há alma que resista, que se
mantenha íntegra. Valdir, porque saiu mais tarde, porque perdeu seu
tempo olhando-se no espelho, enfrentou um congestionamento de amargar.
Um caminhão gigantesco, desses de dois volumes, que metem medo só de
olhar, e que, quando manobrados em marcha à ré, a cabine vai para um
lado e a carreta para o outro, resolveu entrar numa rua em que não
cabia, entalou. Do lado de fora, o ajudante desdobrava-se em acenos
tentando orientar o motorista, cujo humor oscilava entre irritação e
desespero. “Vem, vai... vira, esquerda... mais... volta...”. Mas não
havia meios, nem de seguir em frente nem de voltar. Centenas de carros
ficaram atulhados, tanto na avenida de onde vinha o caminhão quanto na
rua por onde ele ainda tentava entrar. Os motoristas dos veículos mais
distantes procuravam desafogar suas neuroses com buzinadas longas e
ruidosas – mas apenas os que estavam longe, camuflados, porque os mais
próximos não tinham coragem de enfrentar sequer um olhar do
brutamontes que manobrava a carreta. Valdir aprendera com o tempo a não
reagir a essas tensões do trânsito, foi uma maneira de proteger-se,
caso contrário, essa sua profissão de taxista acabaria por deixá-lo
louco. E são lições desse tipo que vão soterrando as nossas vozes
internas, essas que de vez em quando tentam despertar, como as que
gemeram dentro de Valdir diante do espelho. Sufocamos o que sentimos
para não sofrer, achamos que estamos ficando fortes, e assim vamos
seguindo, cada vez mais insensíveis, até que não haja mais como
sentirmos dor, porque a dor só se manifesta naquilo que tem vida.
Chegou no ponto de táxi quarenta
minutos mais tarde do que de costume, completamente esquecido do que
sentira diante do espelho, das digressões de seu sonho, estava disposto
a recuperar o tempo perdido – boas corridas costumavam acontecer nas
primeiras horas do dia. Ainda teve tempo de trocar alguns dedos de prosa
com os colegas de ponto. Os mesmos assuntos de sempre, as mesmas piadas,
a rixa no futebol – que Valdir só acompanhava sorrindo, visto que não
gostava desse esporte -, tudo pura repetição, como no filme “O feitiço
do tempo”. Todos tinham mais ou menos o seu papel e, bem ou mal,
aceitavam-no. Havia o gozador, o resmungão, o sabichão... Sabiam
perfeitamente as deixas, o que comentar, como reagir, a hora de rir, o
momento de entrar e de sair. Chamaram pelo rádio e foi a vez de Valdir.
Atravessou a manhã na rotina de
sempre. Vai, volta, zona norte, zona oeste, uma esticadinha para o sul,
quatro viagens boas, duas ruins, um ligeiro probleminha com o troco –
ossos do ofício – e muita conversa com os passageiros. Talvez algo
interessante tenha sido dito, mas passou despercebido, havia muito para
correr. Pois,
foi seguindo nessa barafunda, que no final daquela tarde, atendendo a um
chamado, Valdir foi apanhar Lucinha. Ela
o esperava em frente de um simpático prédio, não muito longe do ponto
de táxi. Era uma mulher de estatura mediana, magra e de cabelos pretos
na altura dos ombros. Na sua magreza, o que chamava mais a atenção
eram as pernas: compridas, finas e separadas, como quem acabou de descer
do cavalo. Alguns diriam que ela era uma mulata bem clarinha, outros que
era uma branca moreninha; ou seja, o tom de sua pele resultava de uma
combinação bem brasileira. Vestia-se de maneira simples, calça jeans
– que só fazia salientar ainda mais a finura das pernas – e
camiseta branca de mangas longas, arregaçadas até o cotovelo. Trazia
consigo um enorme mochilão. Bem, não era exatamente uma mochila, era
quase uma mala, mas com cara de sacola, alta, que, quando apoiada no chão,
quase alcançava a cintura da mulher. Para Valdir, isso não fez muita
diferença, o que contou era que pesava um bocado. -
Nossa! – reclamou Valdir, quase num gemido, quando ergueu a
mochila para guardá-la no porta-malas do táxi. – A senhora está de
mudança? -
Pesada? – perguntou ela, como se não soubesse. Valdir
acomodou aquele trambolho e prontamente abriu a porta de trás para que
a mulher entrasse – ele partia do princípio de que os passageiros,
ainda mais do sexo feminino, preferiam ir no banco traseiro.
Antecipava-se às expectativas. Valdir é assim, um taxista de mão
cheia. A
corrida não era muito longa e a mulher mostrou-se com um desejo enorme
de puxar conversa. Normalmente, era Valdir quem tinha esse papel, mas
era tanta a ânsia dela em falar, que parecia até que ela queria, à
qualquer custa, desculpar-se pelo peso da mochila e temia não ter tempo
suficiente para fazê-lo. Na verdade, havia ali um pouco de ansiedade. Lucinha
logo se apresentou e, no decorrer do colóquio, Valdir considerou que,
talvez, ela precisasse apenas desabafar. Falando rápido, ela foi
contando sua história recente, a que justificava a mochila tão grande. -
Tô voltando pra minha casa – disse ela, com uma voz
aparentemente cansada. -
Estava de viagem? – perguntou Valdir, no que seria o mais óbvio
de se imaginar, uma vez que ninguém que tivesse saído só para dar uma
voltinha faria uma afirmação dessas. -
Não... eu tava aí na casa da minha mãe. -
Sei... -
Meu marido tava brigando muito, sabe. -
Sei... -
Tem uma hora que a gente cansa. -
Sei... Na
verdade, Valdir não sabia nada, mas logo veio a saber, porque ela
continuou desembuchando. Contou
que tinha sido casada durante sete anos e, no começo, o parceiro
parecia ter vindo diretamente de seus sonhos (bem, isso é o que
normalmente ocorre nos primeiros tempos de um romance), era carinhoso,
prestativo e a cercava de cuidados. Para Lucinha, essas qualidades
identificavam o homem perfeito. Porém, infelizmente, pelo menos para
ela, depois de um tempo, o príncipe transformou-se em sapo, ou o lobo
tirou a pele de cordeiro. O marido tinha perdido o emprego, não quis
mais saber de trabalhar e de uma hora para outra começou a tratá-la
mal. Virou um vagabundo. Grosseiro. Nesse momento do relato, alguém
mais atento teria percebido um esforço discreto na fala e nos gestos de
Lucinha, como que para despertar uma certa compaixão em Valdir. Com a
voz sofrida, confessou que numa das brigas que tivera
com o marido acabou tomando uns tapas na cara. Ela perdoou. -
Mas foi aí que eu errei, viu! – ensinou ela. – Eu não reagi
e ele acostumou. Que
absurdo, pensou Valdir, pobre mulher, onde já se viu? -
Ah, mas a gente cansa – repetiu ela sua conclusão. - Eu não
sou mulher de ficar apanhando. Lucinha
deu a entender que, depois de muito tentar consertar a relação, e de vários
“vai-e-volta”, pediu a separação. Teria sido simples se o marido
tivesse aceitado a situação. -
Mas não tinha jeito de ele ir embora, não queria sair de jeito
nenhum. Ora,
claro que o camarada não queria sair de lá, o apartamento era dela,
era ela quem trabalhava e trazia o dinheiro para casa, que mais ele iria
querer, era o melhor dos mundos. Como há cafajestes nesse mundo,
zangava-se Valdir! Como
o marido não se resolvia, não deixava a casa, e ela já não suportava
mais aquela situação, acabou que foi ela quem saiu. Pegou suas
trouxas, ou melhor, seu mochilão, e foi morar no apartamento da mãe,
onde ficou durante duas semanas. Nessa
parte, o tremor na voz da mulher, que parecia não muito natural, como
na representação de um mau ator, praticamente obrigou Valdir a sentir
pena dela. -
Como é que pode? – indignou-se ele. Mas
a mãe de Lucinha não se conformou, forçou a barra para que a filha
tomasse uma atitude. “Claro”, concordou Valdir, afinal, era um
desaforo um marmanjão desses ficar vivendo à custa da mulher, não
tinha cabimento. Finalmente,
depois de muito brigar e insistir, o marido de Lucinha havia prometido
que deixaria o apartamento. Dissera-o na noite anterior, por telefone. E
então, lá estava ela voltando para casa. Que histórias que a vida
tem, hein seu Valdir? -
E ele foi embora ontem mesmo? – quis certificar-se o taxista. -
É... – respondeu ela hesitante. A
Valdir, pareceu-lhe que Lucinha não estava muito segura de que o marido
tivesse cumprido sua palavra, o que não era de se estranhar, afinal,
nada que fosse próprio de um espírito elevado se poderia esperar do
tal sujeito, a julgar-se pela história que acabara de ser contada. Ao
chegarem no local, Lucinha mostrava-se ainda mais apreensiva. Fazia
questão de que sua inquietação transparecesse e Valdir a via como
esse tipo de pessoa que adora enfatizar seus dramas, talvez para dar
mais valor à existência. Lucinha
morava num pequeno prédio de seis andares, mal conservado e de aspecto
decadente. A frente estava inteira pichada. Uma infinidade de rabiscos
ininteligíveis sobrepunham-se, evidenciando a disputa entre grupos
rivais de pichadores que pleiteavam o direito de maior destaque para
suas inscrições. Talvez sonhassem com as futuras gerações de arqueólogos
admirando o valor de seus protestos, quando estivessem explorando as ruínas
de nossa civilização. A
impressão que Valdir tivera parecia estar certa, Lucinha disse que
estava com medo de subir ao apartamento sozinha e acabar levando uma
tunda. Tinha quase certeza de que o marido, ou melhor, ex-marido, tinha
mesmo ido embora, mas... -
Só de garantia... pra ver se não tem ninguém mesmo –
suplicou ela. Ora,
era muito triste a história da mulher, tendo de se virar sozinha,
Valdir não queria que a coitada corresse o risco de levar uma sova. Ela
já era tão magrinha, um tapa mais poderoso era capaz de parti-la em
pedaços. Lucinha
abriu a porta de entrada do prédio com a chave e aguardou o taxista,
que arrebentava as costas para tirar a mochila do carro. Fazendo uma
terrível careta, ele arrastou o peso para dentro e parou diante dos
elevadores. -
O senhor sobe, então? Eu espero o senhor aqui – ela rogou. Como
é que ele iria negar um pedido desses? Sentiria-se culpado se não
ajudasse. Valdir é assim. Procurando
realinhar a coluna, ele avaliou a situação. Os elevadores estavam mais
deteriorados do que o próprio prédio. As portas, de madeira, tinham
tantos riscos - feitos por engraçadinhos com o espírito de porco - que
pareciam entalhadas. Camadas de verniz tinham tentado, outrora, dar-lhes
um aspecto menos deplorável. Valdir inspecionou um deles por dentro, o
que estava identificado como “social”, e uma única lâmpada
fluorescente, onde deveriam existir três, agonizava piscando
freneticamente. No chão, um capacho sujo e cheio de calvas tentava
mostrar o nome do edifício, em fragmentos desbotados de letras que um
dia tinham sido vermelhas. Qualquer pessoa, com o mínimo de bom senso,
teria medo de subir num daqueles elevadores. Se acrescentarmos a isso o
pânico natural de Valdir com relação a esse meio de transporte, fica
fácil a conclusão: -
Eu vou pela escada – afirmou ele categoricamente. Lucinha
quis convencê-lo de que era muito puxado, morava no quinto andar, e, além
disso, não havia perigo, os elevadores eram seguros. Não conseguiu. -
É por aqui – disse ela, abrindo a porta que dava para as
escadas. – Eu espero o senhor voltar – confirmou. O
primeiro lance, Valdir subiu decidido. Mas logo arrefeceu. Cinco
andares, meu Deus do céu! Seu estado atlético já não era grande
coisa, o espelho o havia denunciado logo cedo, não se tratava apenas de
aparência. Não reclame tanto, Valdir, poderia ser pior, imagine se
fosse no sexto! Mas, caramba, não poderia ser no primeiro? A
partir do terceiro andar, a escadaria ficou escura, não entrava a luz
natural e as lâmpadas de dois andares consecutivos estavam queimadas.
Sentiu-se numa tumba. Não se ouvia viva alma. Ele
já soltava os bofes para fora, mas não havia como recuar, continuou
subindo tateando pela parede. Arrastava o pé, cuidadosamente, até
encostá-lo na base do degrau de cima, só então erguia-o para arriscar
o passo. E seguiu assim até o quinto andar. Chegou
no corredor esbaforido, resfolegando. Apenas um fiapo de luz, que vinha
da porta entreaberta de um dos apartamentos, iluminava o ambiente.
Encontrou um interruptor e tentou acender a lâmpada. Também estava
queimada. Parado,
recuperando o ar, Valdir observou mais atentamente a porta daquele
apartamento de onde vinha a escassa luz. Conferiu o número. Era o
apartamento de Lucinha. Ele
se aproximou e deu três batidinhas na porta, “ô de casa”! Ninguém
veio atender, parecia que o homem tinha mesmo ido embora. Mas por que a
porta ficara aberta? - talvez saíra com muita raiva. Com um leve toque,
Valdir acabou de abri-la, fazendo ranger as dobradiças. Com um pé
dentro e outro fora, esticou o pescoço para tentar espiar. Chamou.
Nenhuma resposta. Entrou pelo pequeno corredor, passou ao lado da porta
da cozinha e parou na sala. Chamou de novo, ninguém respondeu. Já
ia descer para avisar Lucinha quando um estrondo denunciou a porta que
se fechava bruscamente atrás dele. Valdir tomou um baita susto e
virou-se num pulo. Um homem tinha saído da cozinha e lhe apontava um
revólver, enquanto trancava o apartamento à chave. Levando o dedo
indicador aos lábios, com um psiu baixo e prolongado, o sujeito exigiu
silêncio. Nem era preciso, Valdir estava momentaneamente paralisado. Ficaram
nessa situação incomum por alguns intermináveis segundos, até que o
cérebro de Valdir se refizesse do espanto. -
O senhor deve ser o marido da dona Lucinha - disse Valdir,
tentando manter a calma e dar uma certa civilidade ao encontro. O
sujeito apenas o encarava, mantendo-o sob a mira de seu revólver. Era
um homem branco de estatura média, quase dez anos mais novo do que
Valdir. Em seu rosto ordinário luzia um sorriso nervoso. Seus olhos
tinham um brilho estranho e agitavam-se freneticamente nas órbitas.
Parecia estar decidindo se comeria Valdir frito ou assado. -
Por favor, abaixe a arma que isso é muito perigoso – gaguejou
Valdir - eu só vim porque ela pediu, estava com medo... O pobre perdeu o ar e não
conseguiu terminar a frase. Engoliu seco e inspirou profundamente.
Estava confuso e perplexo com a imobilidade e o silêncio do outro. Além
disso, custa acreditar que há alguém na sua frente ameaçando-lhe a
vida com um revólver. Contendo os gestos, preocupado em não
precipitar nenhuma reação, Valdir sacou de seus argumentos, única
arma que tinha disponível no coldre da imaginação. Tentou esclarecer
a situação e convencer o indivíduo a deixar o apartamento. -
Talvez, depois, com mais calma, vocês voltem a se entender
– disse Valdir, com voz de terapeuta de botequim. – Mas, nessa situação...
era melhor você sair e... Inesperadamente, o outro soltou uma
sonora gargalhada, que misturava as sensações de prazer, euforia e
poder. -
Quer dizer que você acreditou nessa história?! –
perguntou ele, incrédulo. – Não consigo entender como é que tem
gente que ainda cai nessas histórias. Pegou Valdir pelo braço e o
empurrou até um sofá encardido que havia na sala. -
Senta aí! – ordenou o sujeito. – Isso aqui é um
assalto, meu amigo! – declarou sonoramente, enquanto, já não muito
preocupado em manter a arma apontada para o taxista, acendia a luz do
teto. O dia já ia embora lá fora,
ficava escuro, e o cinza do céu parecia encobrir os sentimentos de
Valdir. Um assalto? Cair nessas histórias? Como assim? Quer dizer que a
tal Lucinha era... Tinha caído numa ratoeira? Os fatos que o haviam
conduzido até ali começaram a passar por sua cabeça como um filme.
Seus pensamentos ficaram muito rápidos, principiou a maquinar sobre
tudo o que poderia acontecer. Mas você é uma anta, Valdir!
Sempre tão cuidadoso para não ser assaltado no táxi e agora...
Naquela altura, a mulher safada provavelmente já tinha se mandado com o
carro, para depená-lo... Lucinha, hein? Parecia tão desorientada e
desprotegida. Valdir, você é burro mesmo! Durante um quarto de hora, o
camarada ficou quieto, andava pela sala, de um lado para o outro, elétrico,
ansioso, eufórico e sabe-se lá mais o quê. “Ele vai me forçar a
usar o cartão do banco”, desesperava-se Valdir em pensamento, “vai
sacar todo o meu dinheiro”. E o talão de cheques, o relógio, o
telefone celular, a carteira de couro... De repente, um pensamento gelou
a espinha do taxista. Estar ali era bem diferente do que ser assaltado
na rua, ele fora levado até lá para ser roubado, conheceu o
esconderijo, portanto, jamais o deixariam sair vivo. Meu Deus! Aquele
sentimento de efemeridade da vida, o mesmo que ele tivera pela manhã,
diante do espelho, voltou a atormentá-lo.
Sem mais nem menos, sem aviso prévio, sua vida poderia estar chegando
ao fim. Pois é, senhor Valdir, é assim que acontece, não há tempo
para arrumar as malas e, nessa hora, nenhuma daquelas pessoas que lhe
condenaram o modo de ser, que lhe disseram como pensar, sentir e agir,
com as quais você tanto se preocupou, e pelas quais justificou o
massacre ao seu verdadeiro jeito de ser, sua essência, virá para
ocupar o seu lugar. -
Você parece que está nervoso. Tá assustado? – disse o
sujeito, impassível. Valdir tentou responder, mas o
outro não deixou. -
A vida não é nada doce, né? – cortou. O sujeito já não estava mais
disposto a gargalhar, foi tomado por uma angustia que lhe apertou a
garganta, abatendo-o. Percebendo essa mudança de ânimo, Valdir tentou
começar seu sermão mais uma vez: -
Olha, eu vou embora e... a gente finge que nunca se viu... Sem dar ouvidos a Valdir, o outro
começou a falar de si. Disse que, um dia, também tivera trabalho,
fizera até um certo sucesso, a ponto de todos os seus amigos
reconhecerem nele um enorme potencial. Esforçara-se, fizera tudo
direitinho e ganhara um dinheiro razoável. Acreditou que estava no
caminho certo. Entusiasmou-se, sentiu-se o maioral. Mas deu um passo
errado. Aplicou dinheiro onde não devia. Errou. Tudo bem, pensara, era
bom o suficiente para se recuperar, além disso, tinha os amigos que lhe
ajudariam. Não foi assim. Por causa do erro, perdeu o emprego. Por
causa do emprego, não tinha estudado. Ficou muito tempo insistindo em
reencontrar o caminho perdido, porque tinha aprendido que aquele era o
certo. Não deu, não tinha mais o perfil. As dívidas aumentaram, os
amigos diminuíram. -
Chegaram a conclusão que eu não prestava mais! –
exaltou-se. “Mas por que eu”?, pensava
Valdir, “havia tanta gente com muito mais dinheiro, por que eles foram
escolher justo eu para assaltar”? Claro, porque com ele não haveria
muito barulho, seria só mais um infeliz taxista assaltado e
assassinado, que amanheceria boiando no rio. Gente de dinheiro rende
mais, mas também faz mais barulho, o risco é maior. -
Aí foi uma bola de neve, meu camarada – continuava
desabafando o homem – percebi que só tem tubarão por aí, é só
competição, a coisa é forte. -
Olha, por favor... – desesperou-se Valdir. -
Daí, você procura por uma saída, por um pouco de prazer
– prosseguiu o outro com uma risada nervosa – e aí achei o pó...
comecei a cheirar – concluiu, tentando fazer troça, balançando a
cabeça como quem se sente zonzo. Caramba, era isso que estava
estranho, o comportamento do indivíduo não era normal, provavelmente
estava drogado. “Está roubando para poder comprar droga”, imaginou
Valdir. Isso tornava a situação muito mais perigosa. Caramba Valdir,
caramba! Pensa numa saída. O tom de escárnio cessou. Uma
profunda raiva tomou conta do indivíduo. -
No começo, te dão a maior força, depois, que você já tá
viciado, começam a cobrar, e é tudo tubarão de novo, você não tem
idéia... ninguém tem idéia! Nesse momento, exaltado, quase
totalmente fora de controle, o camarada começou a sacudir a arma,
apontando-a para Valdir. -
Calma, não vai fazer besteira – alarmou-se o taxista,
soerguendo-se do sofá. -
Tô com raiva, cara, tô deprimido, é tudo uma grande merda! Valdir colocava as mãos à frente,
como escudo, para proteger-se de um possível disparo. -
A sociedade é um lixo, ninguém respeita ninguém! Bonzinho só
leva na cabeça, como eu já levei, e como você tá levando agora. Todo
mundo é louco, tudo é podre! O
homem ficou transtornado, agarrou uma figura de barro de cima da mesinha
de centro e a arremessou violentamente contra a parede, estraçalhando-a
em mil caquinhos. Meu Deus, aquilo parecia uma novela mexicana. Valdir
levantou-se assustado e ficou alerta, pronto para qualquer coisa - ou
para nada, talvez. Sentia sua pobre existência chegando ao fim, não
pensou na mulher nem nos filhos, não conseguia sequer ter consciência
de si mesmo, pelo menos aquilo que imaginamos ser nossa consciência,
aquela impressão mortificante de que estamos fora de nós mesmos a nos
observar (nesse sentido, foi uma ótima experiência). Tudo estava
terminando, era só o tempo do sujeito pegar o dinheiro e, pronto,
acabou, como um frango na granja, sem direito de escolha. Estavam ambos desesperados, tudo
suspenso no ar. Valdir notou algumas lágrimas brotando nos olhos do
homem armado. Lágrimas de desesperança, de tristeza, talvez, que não
condiziam com o quadro violento que havia sido desenhado. O taxista ficou comovido, sentiu
uma certa empatia com o sujeito, afinal, parecia que sofriam do mesmo
mal. Na verdade, um mal comum a todos, sendo diversas apenas as reações;
às vezes, fingimos não ver, tornamo-nos autômatos, zumbis,
emburrecemos, outras, rebelamo-nos indiscriminadamente, ficamos
violentos, embrutecemos, e tantas e tantas outras variações, mas tudo
o que se tem conseguido é alimentar cada vez mais o próprio mal. -
Olha, se você não quiser, não precisa me assaltar –
disse Valdir, numa condescendência bastante estranha. Não houve tempo para uma resposta,
do lado de fora do apartamento batiam na porta com toda a força,
fazendo enorme estardalhaço. –
É a polícia, abre a porta aí! – gritaram. As lágrimas secaram
instantaneamente dos olhos do sujeito, ficou em pânico, levando também
o taxista ao desespero. Valdir sentiu-se no olho de um furacão, as
coisas pareciam dar voltas, misturando-se com os gritos e com os medos.
Vou pegar a arma… Ele vai atirar… Vai me fazer refém… Vou me
esconder… -
Abre aí, é a polícia! Abre! -
Tá vendo como as coisas funcionam? – gritou o sujeito,
encarando Valdir com os olhos esbugalhados. - Isso aqui não vale nada! Sob o olhar atônito do taxista e o
ruído das pancadas na porta, que parecia cada vez mais alto, o sujeito
escancarou a janela da sala e subiu no parapeito. Ficou em pé, de
frente para Valdir. Atrás dele, o precipício, os cinco andares do prédio
e mais um enorme desnível até a rua dos fundos, um salto certo para a
morte. -
Acho que aqui é o fim da história, tubarão – afirmou o
sujeito gelidamente, jogando o revólver aos pés de Valdir. Equilibrando-se no peitoril, o
sujeito virou-se para fora, pronto para se atirar. Seus problemas
certamente chegariam ao fim. O suicida já se soltava, quando Valdir,
numa ação impensada, de dar inveja a qualquer super-herói, avançou
em sua direção. Com uma rapidez que não lhe era peculiar, agarrou o
sujeito pelo cós da calça e puxou-o com toda a força para dentro. O
homem desabou em cima dele e ambos rolaram pelo chão. No mesmo
instante, um dos que gritava do lado de fora meteu o pé na porta.
Ouviu-se o som agudo de madeira rachando, seguido do estampido provocado
pela maçaneta batendo vigorosamente contra a parede. Dois policiais
invadiram o apartamento com suas pistolas em punho. Atrás deles vinha
Lucinha. Valdir desvencilhou-se do outro que
lhe caíra por cima e levantou-se ligeiro como um gato, parecia que
tinha deitado em brasa. Ao
ver Lucinha, ficou aflito. De maneira estabanada, tentou orientar os
policiais: -
Ela também, prende ela também – alertava o assustado
Valdir, apontando para Lucinha. - Foi ela que me trouxe aqui, prende ela
- insistiu, atropelando os pensamentos e as palavras. Mas, não obstante os seus apelos,
foi para cima dele que um dos policiais partiu, jogando-o no chão
novamente e deixando-o imobilizado. O segundo policial fazia o mesmo com
o homem que tentara suicídio, que nesse momento desmanchava-se em lágrimas
no chão. -
Qual dos dois é? – perguntou o bruto que torcia o braço
de Valdir. -
É aquele outro – respondeu Lucinha, também debulhando-se
em pranto. O policial soltou Valdir que, sem
entender nada, desesperava-se por segurança. -
É ela e ele, é ela e ele – dizia aparvalhado, indicando
Lucinha e o marido com a ponta do queixo, enquanto massageava o braço e
procurava recolocar os ossos em seus lugares. -
A arma é de brinquedo – disse o policial ao companheiro,
depois de averiguar. Sim, a arma que ameaçara Valdir
durante todo aquele tempo era de brinquedo, não era muito difícil de
constatar. Claro, isso depois de tranqüilizada a situação, porém,
sob a tensão que estivera, até um desses pirulitos de açúcar
queimado, feitos em forma de revólver, teriam enganado o pobre taxista.
Aquele indivíduo, então, quisera assaltar Valdir com uma arma de
mentirinha? -
Mas, e ela? – perguntou o taxista, ansioso e confuso. –
Ela que me trouxe aqui para ser assaltado. Não se tratava de assalto,
esclareceram os policiais. O tal sujeito era mesmo o marido de Lucinha,
ou melhor, o ex-marido, se era assim que ela queria. Toda
a história que a mulher havia contado a Valdir no táxi era verdadeira.
De fato, ela saíra de casa porque tinha cansado do jeito estúpido do
marido, passara uns tempos com a mãe e voltava para o apartamento com a
esperança de que ele já não estivesse mais por lá. Acontece que o
desespero dele fora maior do que o previsto. O desejo de separação
tinha sido a gota d’água, o rompimento do último fio que o prendia a
esse mundo. Quando
disse que deixaria a casa, o marido tinha mentido, só para poder
encontrar-se com a mulher. Planejara fazer um escândalo com ela, para
depois se matar - por alguma razão, atribuía-lhe a responsabilidade
por toda a sua desgraça. Mas não contava que Lucinha seria trazida por
um taxista tão atencioso e surpreendeu-se quando viu Valdir, em vez da
mulher. Ficou com raiva do chofer intrometido que estragava seus planos,
quis assustá-lo, depois teve vontade de matá-lo, e talvez o tivesse
feito, se a arma fosse de verdade. Mesmo sem o testemunho de Lucinha,
deixou-se levar pela torrente de suas emoções. O que queria mesmo era
reagir contra os maus tratos que julgava sofrer do mundo, mostrar sua
indignação para com a sociedade – como se esta fosse se importar;
ingenuidade. Enquanto
Valdir estava sendo constrangido no apartamento, Lucinha o aguardava no
térreo. Depois de alguns minutos, ela começou a se preocupar, o
taxista demorava demais. Tomou coragem e foi tentar descobrir o que
estava acontecendo. Quando chegou no andar, viu a porta trancada e ouviu
a voz do marido, sabia que era confusão na certa, a única idéia que
lhe ocorreu foi chamar a polícia. E
o braço de Valdir ainda doía. Mas não era só isso. Passado o alvoroço,
suas pernas bambearam, não conseguiu manter-se em pé. Auxiliado pelos
policiais teve de sentar-se no sofá. Seu rosto ficou branco como o de
uma gueixa, o sangue parecia não fluir, suava frio, precisou de alguns
minutos para se refazer. Tão
logo a vida voltou a circular pelas veias de Valdir, desceram todos
juntos até a rua, onde uma viatura de aparência agressiva aguardava o
retorno dos policiais, fazendo tumulto com suas luzes coloridas. Valdir
não quis prestar queixa, ele é assim, detesta complicações. Em vez
disso, ficou em pé na calçada, num pequeno transe, acompanhando a
viatura que se afastava levando o casal machucado. Valdir voltou para o táxi incerto
de suas condições para dirigir. Sua experiência no volante, no
entanto, conseguiu suprir as deficiências físicas e psicológicas. No
caminho, olhou seu rosto no espelho retrovisor, permanecia um pouco pálido.
Como fizera pela manhã, observou os fios de cabelo branco nas laterais.
Desejou poder acompanhar o aparecimento de muitos outros ainda, e sentiu
esperança de realizar alguns de seus sonhos. Talvez houvesse tempo. |