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Apenas
uma História
Era mais um dia comum que começava no centro da cidade. No
calçadão, como sempre, as pessoas corriam contra o tempo e, naquela
manhã, algumas também fugiam da chuva. Caminhavam espremendo-se junto
aos toldos das lojas e apertavam o passo nos trechos descobertos. Havia
outras que desfilavam triunfantes com seus guarda-chuvas pelo meio do
passeio - parcialmente resguardadas da água, andavam esquivando-se das
varetas das sombrinhas rivais, numa espécie de esgrima urbana. Os mais
indóceis transitavam sob a chuva sem nenhum cuidado, fingiam
indiferença.
Vendedores ambulantes, como se tivessem brotado do chão, surgiam aos
montes, oferecendo capas de plástico e guarda-chuvas chineses a preços
módicos aos transeuntes desprevenidos.
No meio do corre-corre, um homem permanecia em pé, estático, obrigando
uma mudança de rota aos que vinham em sua direção. Usava um boné
amarelo bastante gasto, naquela altura encharcado, indicando que já
estava sob a chuva há muito tempo.
Ele carregava no corpo um painel publicitário do tipo mais ordinário,
uma faixa plástica que lhe cobria a frente e as costas, indo do
pescoço até a altura dos joelhos. Nessa peça, o homem só precisava
passar a cabeça pelo furo central do plástico, como se fosse uma gola,
e já ficava vestido. Duas ripas de madeira, uma em cada extremidade,
encarregavam-se de manter a faixa esticada sobre o corpo.
Há seis meses, durante oito horas diárias, esse homem vestia essa
túnica dos tempos modernos, para fazer publicidade no meio do
calçadão, única forma de sobrevivência que havia encontrado, depois
de um ano de procura. Já tinha feito quase de tudo nesta vida: cuidou
de terra, plantou, colheu, pintou casa, varreu cemitério, lavou jazigo,
quebrou pedra, construiu e voltou a quebrar. Ralou muito até cansar, e
quando cansou, ninguém mais precisou dele.
O homem mal sabia ler, e menos escrever. Procurou muito por trabalho,
pois precisava subsistir. Tinha encontrado, e subsistia.
Seu corpo anunciava lojas de uma galeria próxima dali, muito conhecida
no velho centro. Na frente trazia estampado os nomes de duas óticas,
uma loja de discos e uma outra especializada em compra e venda de
telefones celulares. Nas costas, duas agências de empregos dividiam o
espaço e ofereciam vagas das mais variadas, para as quais aquele homem
nunca seria considerado.
No início, também lhe davam folhetos para distribuir às pessoas.
Depois de um tempo desistiram. O homem só precisava ficar parado
sustentando o anúncio e dar informações sobre as lojas, caso alguém
pedisse. Mas quase ninguém pedia.
Os lojistas haviam loteado o espaço do corpo do homem e cotizaram as
despesas para baratear a publicidade. Somadas as cotas de cada
comerciante, o homem tinha o suficiente para comer e se locomover.
Ganhava por dia. Se por algum motivo não pudesse trabalhar, além de
não ganhar, corria o risco de não encontrar seu posto no dia seguinte.
Saía muito cedo de casa, pois gastava mais de meia hora caminhando para
economizar o dinheiro da condução.
Desde cedo a chuva estava castigando seu corpo, e ele permanecia ali,
parado. Um homem comum, num dia comum, sob uma chuva comum.
Tudo estava como sempre, mas ele, algo diferente. Estranhou não estar
sentindo fome. Estava habituado a ela. Normalmente, após o longo
percurso de sua casa até o centro, ele sentia fome, e era obrigado a
esquecê-la. Às vezes, ela apertava demais, obrigando-o a recorrer a um
pão com manteiga - na verdade margarina - no botequim da esquina. Mas,
naquela manhã, não precisou. Seu estômago não deu nenhum alerta.
Parecia que nunca mais teria fome. Seria um alívio - pensou.
Também não estavam presentes a habitual tristeza e o freqüente
desalento que, embora ele não soubesse, eram provocados pela falta
total de perspectiva para a vida. Não saberia explicar o que sentia,
mas, de certa forma, a esterilidade de sensações não lhe caía mal.
O peso do painel sobre seus ombros não o machucava como de costume,
não sentia cansaço, apesar de não estar disposto, não estava triste,
nem tampouco feliz, estava molhado, mas não tinha frio, e nem calor.
Os pingos da chuva não eram percebidos por sua pele. Seu olhar
perdia-se ao longe, muito distante, muito além do que podia
compreender.
As pessoas passavam por ele e mal percebiam sua presença. Quando
paravam, só olhavam para o que estava escrito na placa. Um senhor ficou
à sua frente e se interessou pelo anúncio da ótica, talvez precisasse
de óculos novos. Olhou nos olhos do homem, ensaiou uma pergunta,
vacilou, e mudou de idéia, como se a imaginada conversa lhe tivesse
parecido descabida. Na seqüência, alguém que passava interessou-se
por um dos anúncios de emprego do painel. Sacou uma caneta e um pedaço
de papel do bolso da camisa e, usando as costas do homem como apoio,
escreveu o endereço da empresa que estava admitindo. O homem quis
reagir, não era mesa para servir de apoio. Quis se irritar. Não
conseguiu.
Um cachorro, coisa rara no velho centro, aproximou-se do homem e ficou a
cheirá-lo. O homem pensou em espantar aquele cão sujo, sabia que
bastaria bater forte o pé no chão, que ele se arrancaria, mas não
pôde mover-se. Diante da imobilidade do homem, o vira-lata deu duas
voltas ao redor dele, parou, ergueu uma das patas, e fez xixi em sua
calça.
Mais uma vez o homem tentou se mexer, sem sucesso. Percebeu que só
podia mover os olhos.
Ao olhar para baixo, notou que, lentamente, seus pés desapareciam e
suas pernas enrijeciam e começavam a fundir-se uma à outra. Em pouco
tempo, transformaram-se num cilindro de concreto. Seus braços uniram-se
ao tronco que, pouco a pouco, também ia se transfigurando, tomando a
forma cilíndrica.
O homem não soube, e nem quis saber, como explicar o que estava
acontecendo.
Sua pele, carne e ossos, mudavam de estrutura, transformavam-se em
cimento. Seu corpo metamorfoseava-se em um cilindro rígido.
O homem sumiu e converteu-se em um poste. As pessoas apressadas não
notaram a diferença.
Pela ausência dos ombros, o painel escorregou e amontoou-se no chão.
Precisariam de um arame para fixá-lo. Talvez essa tenha sido a razão
de não terem usado um poste desde o início.
Dezembro/2001 |