MIMOSA BOCA ERRANTE

Carlos Drummond de Andrade

  

 

 

 

 

Mimosa boca errante

Mimosa boca e santa, 

à superfície até achar o ponto

que devagar vais desfolhando a líquida

em que te apraz colher o fruto em fogo

espuma do prazer em rito mudo, 

que não será comido mas fruído

lenta-lambente-lambilusamente

até se lhe esgotar o sumo cálido

ligada à forma ereta qual se fossem 

e ele deixar-te, ou o deixares, flácido

a boca o próprio fruto, e o fruto a boca, 

mas rorejando a baba de delícias

oh chega, chega de beber-me, 

que fruto e boca se permitem, dádiva. 

de matar-me, e, na morte, de viver-me. 

 

 

Boca mimosa e sábia, 

impaciente de sugar e clausurar

inteiro, em ti, o talo rígido

mas variado de gozo ao confinar-se

Já sei a eternidade: é puro orgasmo.

no limitado espaço que ofereces

a seu volume jato apaixonados,

como podes tornar-te, assim aberta,

recurvo céu infindo e sepultura?

 

in  "O Amor Natural",  1993, Ed. Record, Rio de Janeiro

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