REDES E CONHECIMENTO
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Marcelo Franco I Penso que as reflexões que escrevi na minha dissertação de mestrado sobre redes e conhecimento ainda são as linhas básicas de meu pensamento sobre o tema. Se vocês leram a dissertação ou a versão em livro, já têm uma boa idéia da minha linha de investigação. Vou encaminhar inicialmente o mesmo tema por um outro caminho que não é a filosofia, como fiz anteriormente, mesmo que eu termine por usar e talvez mesmo abusar desse saber. Não é um fenômeno recente que o poder de avanço da ciência e da técnica provoca uma desvalorização de outros saberes. A filosofia por muitos séculos havia sido uma das mais importantes fontes de conhecimento. Mas desde o século passado ela fez tantos recuos e concessões que quase se tornou uma disciplina sem objeto. Desde então muito da filosofia é a própria lamentação do seu fim. No entanto há outro panorama. A redução do poder especulativo da filosofia tornou este pensamento nômade. Ele realizou migrações. Assim, nos últimos séculos também surgiu uma grande literatura impregnada de metafísica e filosofia. Esse é um dos motivos que me leva a começar este texto falando de literatura. Em que a literatura poderia ajudar a compreensão do nosso tema e mesmo das coisas em geral? Não vou explanar como a literatura e filosofia estão imbricadas, mas em vários pensadores entre os chamados pós-modernos, encontramos que estes campos são relatos e por isso não ciências. O mesmo se aplicaria ao marxismo e à psicanálise. Acredito que na grande literatura, como na filosofia, há um saber que desvela parte daquilo que a ciência não pode responder sobre a vida. Comparando texto e hipertexto, Umberto Eco mostra que apenas livros, sistemas limitados e finitos, podem-nos dar a visão que permite aprender a lição sobre a vida e a morte, que as pessoas precisam saber para serem livres. Para ele, outro é o papel de sistemas abertos e infinitos como o hipertexto, que podem sempre ser alterados, modificados e atualizados. Mas a ilimitada possibilidade de liberdade do hipertexto não nos confronta com a severa lei da necessidade que rege a vida, pois o que aconteceu não pode ser modificado. No nosso século, as obras literárias, de ficção científica ou não, muitas vezes realizaram denúncias, levantaram questões e fizeram especulações, com uma profundidade que deixa as "ciências" humanas em dificuldades pela fragilidade do conhecimento que elas produzem sobre os mesmos problemas. Em férias recentes pude ler um livro que há algum tempo havia comprado em um sebo e que deixara guardado na esperança de um dia poder degustar. Este livro foi usado para a produção de um clássico do cinema americano que creio recebeu a tradução de "Assim caminha a humanidade". A obra que me refiro é do escritor norte-americano John Steinbeck. East of Eden é uma estória que vai do final do século passado até a Primeira Grande Guerra Mundial. São três gerações. Como cenário importante, estão descritos muitos dos acontecimentos tecnológicos do período, como o telégrafo, o trem, os primeiros carros, a eletricidade e até a conservação de alimentos com o uso de gelo. O desfecho de uma tentativa de desenvolvimento desta última tecnologia é responsável por uma das passagens mais tensas do livro. Por toda/nos a estória está subtendida uma falta de sintonia e de articulação entre os personagens e as novas tecnologias. Na visão de Steinbeck, nas gerações mais antigas a evolução técnica parece estar ligada mais ao desafio de conseguir fazê-las funcionar, e nas mais novas, ao mais dinheiro que elas podiam gerar. A erudição e retidão dos antigos ficava para trás e era substituída por novos valores mais ligados ao extraordinário desenvolvimento da qualidade de vida. Também aparece muitas vezes o momento de passagem de um forma de comportamento prático ainda ligado a um pensamento idealista para a ação pragmática e instrumental. Sem dúvida nenhuma, a divulgação da filosofia de William James, citado em East of Eden, teve influência nesta mudança. Hoje podemos ver claramente a ambigüidade entre riqueza e desenvolvimento cultural quando comparamos por exemplo a América do Norte e a Europa. Também é esclarecedor fazer uma comparação entre a ignorância dos últimos presidentes americanos e a conhecida erudição dos pais da independência. Quis mostrar com Steinbeck que a sensação que temos que tudo está acontecendo agora é enganosa, como se antes as pessoas não tivessem ficado perdidas e admiradas com os grandes acontecimentos técnicos de suas épocas. Imaginem as pessoas vendo pela primeira vez uma lâmpada elétrica, um filme, um carro. As excepcionais transformações técnicas do fim do século até a Segunda Grande Guerra estão presentes não só em Steinbeck, mas nos grandes escritores do século. Lembro que em "A Montanha Mágica" de Thomas Mann há uma passagem que o diretor do sanatório para tuberculosos apresenta um equipamento fantástico para diagnóstico. Era uma máquina de raio X. Também Marcel Proust escreve sobre as mudanças acarretadas por telefones, carros e aeroplanos. II Pode parece redundante mas é necessário lembrar que o passado também foi cheio de transformações e de novidades. Mas tudo muda constantemente ou, algumas coisas mudam e outras se mantém? A problemática do tema deste seminário, "redes e conhecimento" é nova? Em princípio ela remete a uma tecnologia hodierna, a Internet, que na verdade está longe de responder à questão. Na minha visão o conhecimento tem duas facetas: para estar de acordo com a multiplicidade do mundo só pode ser plural e para permitir os fluxos de pensamento entre os indivíduos tem que estar em rede. Essa condição é uma das que possibilitaram o desenvolvimento da civilização. A civilização foi concretizada primeiramente graças aos recursos da fala e da escrita; há poucos séculos foi profundamente modificada pela imprensa; há dezenas de anos foi sacudida pela eletricidade e motores; e recentemente foi perturbada pela microinformática e a Internet. A rede de conhecimento tornada possível por essas técnicas é que ampliou a multiplicidade do saber humano. Assim parece estranhamente contraditório que quando temos possibilidade de acesso a todos os saberes, à mais alta tecnologia de informação, as características principais do conhecimento na passagem do milênio sejam o instituto da especialização, o fracionamento do conhecimento, a formação de doutores em parcelas mínimas da totalidade. Tudo isso redundando em uma espécie de ignorância objetiva. Acredito que o mundo poderia ser melhor compreendido dentro das suas multiplicidades e o homem preparado para trafegar pelos vários campos do conhecimento, inclusive o conhecimento técnico, sob a pena de sermos personagens anacrônicos em uma sociedade tecnológica. III Não devemos nos enganar tão facilmente com a afirmação que rede técnica e rede de conhecimento se confundem, que são a mesma coisa. Técnica e conhecimento são coisas distintas. A rede de conhecimento não é uma funcionalidade tecnológica. Funções e algoritmos são ferramentas científicas e técnicas, conceitos são máquinas filosóficas (Deleuze). Nesse sentido, a informática trabalha com funções operacionais e não com conceitos. Talvez seja esta a explicação que muitos dos melhores técnicos de informática não possuem nem necessitem de formação superior e de erudição. Sempre uma teoria científica poderá ser falsa e uma técnica demonstrará não ser operacional. Não é preciso pensamento especulativo para trabalhar com funções, para isso os algoritmos são mais úteis. No entanto com outros saberes não são assim. Por exemplo, conceitos filosóficos nunca são suficientemente claros para se tornarem operacionais. Na verdade grande parte do conhecimento é permeada de noções indefiníveis e de múltiplos sentidos. Isso esquecendo o conhecimento preceptivo, que é de dimensão ainda mais distante do que estamos falando. Por isso não podemos confundir a rede de conhecimento, com a rede técnica de transmissão de dados, como às vezes vemos ser apresentada a Internet. Ao contrário do fluxo possível e provável de dados na rede tecnológica, graças à redundância que torna a incerteza desprezível, a rede de conhecimento é feita de infinitos planos virtuais. IV A rede de conhecimento é o processo de virtualização que se utiliza da rede concreta. Isto não tem nada a ver com rede material, pois os computadores que formam a rede também são máquinas abstratas. A virtualização é o processo de criação. A virtualização envolve a repetição de onde brota a diferença. Existe também a repetição do mesmo, mas esta não é criadora, o que cria é a repetição que gera o diferente. (Deleuze). Hoje muito se fala do cérebro como uma metáfora do computador ou da rede de neurônios como uma rede eletrônica. A mesma relação se tenta estabelecer entre conhecimento e W3. Tudo isso me parece uma mesmice cartesiana, que leva ao fracionamento arbitrário do conhecimento. Na verdade é o computador que está em busca de ser o que o cérebro já é, e a Internet é que procura operacionalizar o que a rede de cérebros sempre foi através de tecnologias já citadas: a fala, a escrita e a imprensa. A idéia de rede pode parecer nova, mas a língua grega foi o primeiro grande fluxo de conhecimento ainda na antigüidade, seguida pelo latim. Nunca o conhecimento deixou de usar e estabelecer novos canais de fluxo. V Também não podemos esquecer que a técnica não é uma coisa neutra. Estamos cansados de ver o resultado das soluções tecnocratas que são implantadas no nosso país no lugar de um possível projeto político de desenvolvimento a partir do que somos. Sabemos também que na técnica está embutida a possibilidade operacional de controle dos indivíduos. Estes problemas causaram grande preocupação nos grandes filósofos do nosso século, como por exemplo Gilles Deleuze. Para ele é uma tarefa primordial resistir à informação, no sentido de palavra de ordem, "de nos dizer o que julgam que devemos crer". Não devemos confundir as redes de informação com as redes de conhecimento. Acompanhando as primeiras, como por exemplo as TVs, podemos facilmente observar como na maioria das vezes trabalham na disseminação do medo e da insegurança, tendo como resultado o enfraquecimento dos indivíduos. Talvez por isso também sejam tão utilizadas pelas religiões criadas para as massas. Pelo contrário, as redes de conhecimento têm como característica desvelar o que está escondido e que nos mete medo, enriquecer o pensamento, fortalecer os indivíduos e aumentar suas potências (Pierre Levy). Eu imaginava em passado recente que a grande infra-estrutura que se estabeleceu com a Internet era o substrato para a expansão de uma grande rede de conhecimento erudito, da mesma forma que foi usada na expansão do conhecimento técnico. Mas não foi isso que se deu. A Internet não é apenas fluxos de conhecimento, ela incorporou também os malefícios das redes de informação. O que se formou também foi uma grande rede que repete da corrida desenfreada e ansiosa do capital de finalmente chegar a lugar nenhum, através do consumismo virtual do que não se precisa. Também nesse momento na Universidade querem nos fazer crer, através da retomada de um positivismo grosseiro, que podemos melhorar as pesquisas considerando que o pensamento é algoritmo e o conhecimento dados. No lugar de usar o potencial da rede para o desenvolvimento do homem em equilíbrio com a natureza e a técnica, buscam no lugar disso reduzir a multiplicidade da vida à signos que não referem a mais nada a não ser a si mesmos, pois poderá não haver ninguém que possa compreendê-los. Espero ter contribuído para esclarecer a questão proposta e para elucidar o que são alguns acontecimentos dos nossos dias que estão transformando as nossas vidas. Quero reforçar que a Internet é apenas o início e uma pequena parte da rede que um dia poderá interligar todos os objetos técnicos, sejam estes singulares ou conjuntos. Mas muito além disso, o mundo é um conjunto de redes interligadas: a rede da natureza, a rede humana e a rede dos objetos técnicos. É através da rede de conhecimento que permeia todas essas redes que o mundo se manifesta. Não existem para nós o que a rede de conhecimento não alcança. E quantos infinitos mundos poderão existir nos buracos negros e galáxias de anti-matéria que não conhecemos e nem compreendemos.
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