TENDÊNCIAS DA EAD
FUTURO DA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA NO BRASIL
Maria Lúcia Scarpini Wickert
O tema "O Futuro
da Educação a Distância no Brasil" propõe uma reflexão não só para os
profissionais que militam na área, mas para todas as organizações e instituições que,
direta ou indiretamente, estão ligadas à educação.
Ao nos referirmos às tendências
da Educação a Distância/EAD, não podemos situá-la como um processo diferenciado de
educação. Sob este angulo de análise, queremos ressaltar a idéia de não extrair o
objeto de reflexão do seu emolduramento maior.
É uma modalidade que, hoje, ainda
apresenta maneiras próprias de execução, mas obedece à concepção geral de
educação, que se transforma, à medida que se modificam as visões humanas do mundo.
É próprio do ser humano desejar,
prever e intervir nos acontecimentos futuros e todos os planejamentos trabalham com essa
possibilidade.
Uma das formas de antecipar ou
antever o futuro é projetar nele as tendências presentes. Não é um método perfeito,
porque nenhuma extrapolação pode ser estanque e a ocorrência de mudanças no momento
atual está a desafiar a nossa capacidade de previsões, mas é uma maneira de nos
aproximarmos da realidade distante, de refletirmos sobre ela e até de mudarmos
posicionamentos presentes, para a construção do futuro que desejamos.
Quando analisamos a história da
humanidade para estudarmos a forma de pensar e agir das pessoas, em diferentes épocas e
lugares, verificamos que as visões do mundo evoluiram paralelamente aos aspectos
visíveis da cultura e há correlação profunda entre as concepções que as pessoas têm
de si ou do universo, com a forma como educam seus descendentes e com o tipo de sociedade
que constróem. Isto é, há um relacionamento inseparável entre o que as pessoas
acreditam ser o seu mundo, a forma como elas transmitem essa visão e as coisas que fazem
para si mesmas e para os demais.
Como vemos o nosso mundo hoje?
Entre os principais condicionantes do contexto atual, podemos ressaltar mudanças
significativas nos campos: político, social, organizacional, da ecologia, do
conhecimento, da tecnologia e da valorização do homem.
Não abordaremos aqui todos esses
aspectos que, de uma maneira ou de outra, são do conhecimento dos participantes deste
Evento.
Para iniciarmos nossa reflexão,
selecionamos alguns fatos significativos que marcaram a visão do mundo, nos últimos
anos, e que podem direcionar as tendências futuras, exigindo profundas modificações no
campo educacional.
No campo da evolução do
conhecimento, verificamos que este se multiplica num ritmo vertiginoso - na Biotecnologia,
na Física Atômica, nas fontes de energia, na mobilidade, na comunicação, no estudo do
cérebro - e constitui a variável mais importante na explicação e transformação da
organização social e econômica. No entanto, estimar a taxa de crescimento do nosso
conhecimento coletivo é tarefa difícil.
Segundo Russel,1992 "uma sugestiva tentativa foi feita pelo
economista francês Georges Anderla para a OECD - Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico.
Ele considera os fatos científicos conhecidos no ano
1d.C., assumindo que nossa aprendizagem coletiva começou com a linguagem e levou aproximadamente 50.000 anos para que a humanidade acumulasse aquela primeira unidade. De
acordo com as estimativas de Anderla, a humanidade duplicou seu conhecimento por volta de
1500 d.C. Em 1750, o conhecimento total tinha duplicado novamente; e em 1900, havia se
tornado oito unidades. A próxima duplicação levou apenas 50 anos e a seguinte apenas
10, de modo que em
Essa aceleração continuou a
aumentar, em ritmo sempre crescente. O astrofísico Jacques Vallé, em 1994, estimou que o
conhecimento humano estava se duplicando a cada 18 meses.
Concordando, ou não, com os números de Anderla, a tendência
que eles refletem é bastante clara. Tão logo nossa espécie ganhou a capacidade de
combinar as aprendizagens individuais, nosso desenvolvimento deslocou-se para a frente a
uma taxa sem precedentes. Nunca, em toda história da evolução na terra, a mudança foi
tão rápida."
As descobertas no campo
científico nos proporcionam respostas e novas maneiras de pensar sobre velhos problemas.
Muitas teorias são analisadas sob perspectivas diferentes, outras tornam-se totalmente
obsoletas e novos princípios e perspectivas
abrem portas e janelas a novas explorações. Assim, cresce
a necessidade da população por formação, aperfeiçoamento e atualização profissional
permanente.
Com sua estrutura tradicional, o
sistema educacional apresenta condições de absorver essas demandas?
Acreditamos que, por meio da
Educação a Distância, isso não só é possível, como os custos com a formação e
atualização de pessoal cairão drasticamente. Um exemplo, citado pela Universidade
Federal de Santa Catarina, mostra que a Empresa Equitel, do Paraná, pelo preço que
pagaria para formar um funcionário, formou uma turma inteira de profissionais.
Outro aspecto que merece ser
destacado é o processo de globalização econômica, que tem conduzido nações,
organizações e indivíduos a uma inevitável interdependência política, econômica e
mercadológica, gerando maior competitividade.
Observa-se agora um ciclo de
expansão econômica, com uma forte redução na oferta de empregos que exige profissionais mais qualificados, novas habilidades e competências e aprendizado contínuo.
O processo educacional, por sua
vez, necessita estruturar-se não só para atender a uma demanda cada vez maior, mas
também, às novas necessidades do estudante e ao novo perfil do profissional com
mudanças no ambiente educacional, maior agilidade no trato da informação, ênfase na
metacognição e disponibilização de currículos mais flexíveis, o que exigirá
esforços e trabalho das milhares de pessoas e instituições ligadas à educação.
A Declaração Mundial sobre a
Educação Superior no Século XXI, promovida pela UNESCO, em Paris, com 4000 educadores
de todas as partes do mundo (menos dos EUA), estabeleceu elementos essenciais onde é
possível verificar:
- a preocupação com questões sociais;
-
a ênfase em valores fundamentais;
-
a valorização da diversificação na educação, com o uso de métodos educativos
inovadores, que permitem o pensamento crítico e a expansão da criatividade; e,
- a ampliação de oportunidades,
via Educação a Distância, que envolve projetos de escolas virtuais.
O terceiro fator condicionante
selecionado é o que convencionou-se denominar revolução tecnológica, referindo-se ao
conjunto de inovações ligadas à aplicação da técnica e da ciência no setor de
produção, de forma a multiplicar, incomensuravelmente, as oportunidades e possibilidades
de transformação, em todas as áreas.
É uma evolução dinamicamente
acentuada, originada pelo poder criativo do homem que culmina numa reação em cadeia,
determinando inovações introduzidas e vinculadas com diversos aspectos da estrutura
social, em todos os planos, do cultural e econômico, ao educacional e de relações
sociais. As inovações tecnológicas nos permitem armazenar informações e torná-las
instantaneamente disponíveis em diferentes formas e em quase todo lugar. O reconhecimento
do papel das telecomunicações e sua utilização poderão
transformar a estrutura educacional.
A quantidade e a diversidade da
informação exigem do aluno novas habilidades de seleção, assimilação e tratamento,
através do desenvolvimento do pensar crítico, criativo e não repetitivo, rotineiro.
Devemos banir a falácia que, dada
a pobreza da nossa população, devemos reduzir suas possibilidades, permanecendo com a
qualidade medíocre, ignorando todo o potencial dos meios tecnológicos e das novas
metodologias; educando-a com métodos arcaicos que não estão em sintonia com as
necessidades pessoais e profissionais e com as expectativas
da sociedade no tempo atual e futuro.
Ignorar a importância da EAD ou
colocar obstáculos ao desenvolvimento de programas educacionais - nas empresas ou
instituições educativas - que envolvam novas metodologias e meios tecnológicos, seria
reproduzir os procedimentos motivados pelo medo do novo, quando da descoberta da imprensa
por Gutenberg.
Tendo ou não pessoas contra, a
EAD é uma realidade: a EAD é uma situacão educativa de qualidade, que só tende a
crescer.
Se temos de romper um padrão,
devemos aprender a identificá-lo, ver os caminhos da descoberta e da inovação, vencer
nossa resistência em relação ao novo e reconhecer a recompensa de cooperar com a
mudança.
Acredito que a denominação -
Educação a Distância - pode estar perdendo o sentido, pois sua atuação no momento
atual refere-se à pesquisa, à criação e à proposição
de novas formas de promover o aprendizado e a democratização do conhecimento, através
da utilização de meios tecnológicos. No futuro poderá vir a chamar-se
inovações tecnológicas em educação, ou comunidade do
conhecimento ou criatividade em educação ou qualquer outra
denominação que a defina com mais propriedade. Pode ser até que esta distinção não
se faça mais necessária e todas as instituições, ligadas à educação, estejam mais
preocupadas com a qualidade do aprendizado e a transformação do ambiente pedagógico
para atender às necessidades do aluno, do que com a categorização das formas que
"mediatizam a ação educativa.
Quero ressaltar que será cada vez
mais imprescindível, intransferível e relevante, a responsabilidade do educador na busca
da excelência do processo educacional. O educador necessita, mais do que nunca, exercer
seu papel de coordenador das ações da equipe multidisciplinar que concebe, planeja e
produz materiais educativos. Esta equipe reúne psicólogos, especialistas em
Informática, em Comunicação,
O que delimita os parâmetros da
qualidade da educação é a concepção educacional e não o sistema operacional, que envolve os meios tecnológicos. É a interação
das visões dos componentes da equipe sobre o mundo, o homem e sua filosofia educacional
que resulta no sistema de valores implícitos no planejamento e que estabelece a
diferença na utilização desses meios: como máquinas de ensinar
sofisticadas, que somente informam, robotizam e massificam ou, ao contrário, como
incentivadoras do desenvolvimento do potencial crítico e criativo do aluno.
São entendimentos diferentes
sobre o que é ensinar e aprender.
O modelo que prioriza a
transmissão de conhecimentos é totalmente centrado no professor. Este, por exemplo, pode
selecionar um meio que permita a comunicação sincrônica - presencial ou via rede. Ele
exerce o controle sobre o grupo de alunos, passa-lhes a informação com a sua percepção
sobre o tema
Na EAD, não estamos buscando a
interatividade mecânica de apertar botões, operar com o menu
de seleção, escolher respostas fechadas, escolher a navegação, mas, sim, a
interatividade que exige ações matemagênicas, envolve atividades complexas como
comprometimento, reflexão, questionamento crítico, argumentação, resolução de
problemas, busca de caminhos e respostas próprias, construção de proposições,
elaboração e posicionamentos pessoais, estabelecimento de associações, comparações,
análise, discussões e o incentivo ao desenvolvimento da criatividade.
Em uma concepção integrada,
construtivista ou interacionista, em que o modelo é centrado no aluno, procura-se
tirá-lo da dependência do professor, aumentando a sua responsabilidade, encorajando-o ao
autodirecionamento e ao controle do seu aprendizado. Esse modelo contribui para a
autoconfiança e para o aprender a aprender, além de propiciar ao aluno flexibilidade
para selecionar temas, de acordo com suas necessidades e interesses, como a aprendizagem
just in-time, por exemplo.
O controle direcionado pelo aluno
é centrado em problemas, é experimental, realístico, envolve a realização de
atividades práticas, de pesquisas e solicita, continuamente, o desenvolvimento de
operações de pensamento superior, como a tomada de posição, comprovada por forte
argumentação. Estimula a criatividade do aluno, na geração de alternativas de
situações e de respostas não programadas.
Os professores com essa visão
educacional selecionarão os métodos, os meios e as técnicas pedagógicas de
comunicação que estão de acordo com esse paradigma. Usarão seus conhecimentos, suas
estratégias cognitivas e, principalmente, sua criatividade e imaginação, para gerar
outras formas de aproveitamento de todo arsenal tecnológico que tiver à sua
disposição, de maneira a facilitar a aprendizagem e a envolver o aluno de forma
integral, considerando seus interesses, sentimentos, atitudes e emoções.
Os dois processos de condução da
aprendizagem, demonstram concepções diversas do professor e podem ser observados no
ensino presencial - em sala de aula -, ou em EAD, através dos materiais de estudo
autônomo que produz.
Consideramos importantes tanto os
momentos presenciais como os de estudo e de reflexão individuais. Para que a aprendizagem
ocorra é necessário que o estudante internalize e processe o conteúdo e, para isso,
deve haver uma reflexão intrapessoal que lhe permita integrar as novas experiências com
as já existentes e a organizá-las de acordo com um significado pessoal. Pois, segundo
Brunner, 1971,
quando os estudantes têm a
oportunidade de interação entre eles e com seus instrutores, em relação ao conteúdo,
podem construir dentro deles mesmos o próprio sentido e encontrar um significado comum
para o que estão aprendendo. Muito do aprendizado, inevitavelmente, acontece dentro de um
contexto social, e o processo inclui a construção mútua de um entendimento.
Quando o aluno compartilha
conhecimentos, posicionamentos e até sentimentos, quando participa com o grupo da
solução de um problema e verifica a diversidade de alternativas apresentadas, há um
enriquecimento pessoal.
Portanto, o futuro da EAD não se
fundamentará no estudo solitário, em que o indivíduo conte somente com o material
educativo para desenvolver a sua aprendizagem. E, sim, em ambientes em que a autonomia na
condução do seu processo educativo, conviva com a interatividade. Esta pode ser
conseguida e prevista no planejamento, das
mais diferentes formas: entre aluno/professor; aluno/com suas próprias experiências e
conhecimentos anteriores; aluno/aluno; aluno/conteúdo; e aluno/meio, utilizando os mais
diversos recursos tecnológicos e de comunicação.
O que queremos ressaltar é que
não é necessária a presença constante do professor, junto ao aluno, para que a
aprendizagem se processe.
Não há um
modelo universal de ação pedagógica válido para todas as sociedades e instituições.
São diversas as situações em que se processa o ensino-aprendizagem. Em algumas
diferenciam-se totalmente as duas modalidades de educação: presencial e a distância. Em
outras esses limites não estão tão óbvios, sendo, em alguns casos, impossível traçar
uma linha divisória entre ambas. Pode haver complementação no uso das modalidades e
não exclusão.
Ratifico, assim, a afirmação inicial: ao refletirmos sobre o futuro da EAD,
estamos refletindo sobre o futuro da educação.
A Universidade Católica de
Brasília, ciente de seu dever e sua responsabilidade com as expectativas da sociedade,
incluiu a Educação a Distância como meta prioritária de seu planejamento estratégico.
Suas ações prevêem, a partir das novas tecnologias de transmissão de informações, a
ampliação de seu Centro de EAD, criado há três anos e que oferece cursos de
pós-graduação com materiais impressos, com base em intensa interatividade, através de
encontros presenciais, comunicação pela Internet, por telefonemas, fax, por
correspondência postal e eletrônica e partilha, entre os alunos, dos materiais que
produzem.
A
programação inclui o oferecimento de cursos de extensão pela Internet, a utilização
da rede numa integração com as demais Universidades Católicas e, nos seus cursos de
pós-graduação. Já são utilizados outros meios e instrumentos, como teleconferências,
chats eletrônicos, cd-rom e software que, cada vez mais, contribuem para ampliar a
promoção de sua educação de qualidade.
Para concluir, utilizarei as palavras de Lipnack, 1992:
" O futuro não é alguma coisa que irá acontecer conosco. Construímos o futuro a cada momento que vivemos, uma idéia imemorial que é a própria essencência do karma- mais facilmente compreendida no Ocidente através da passagem bíblica: colherás aquilo que plantares.Nosso futuro nasce das nossas idéias transformadoras, do nosso atributo humano básico e original, que é a capacidade de criar imagens de um mundo que ainda não existe, mas pode vir a existir."