Veridiana
 
 
Veridiana se achava feia,
vazia como uma meia
e na solidão que permeia
o coração combalido,
via em seu corpo,
um tremendo dum enrosco.
 
Todos a estranhavam,
não por não ser um padrão de beleza,
mas por não ver da amizade a singeleza...
Quando alguém sua palavra tentava procurar,
recebia um não de azarar...
 
Não entendia que não importava,
se o seu nariz era grande,
se seus olhos não eram azuis,
se seu corpo não era de manequim,
afinal, não somos serafins...
 
E ela, por ter tantos complexos,
na solidão via seu fim,
não aceitava amplexos,
nem brindava tim - tim.
 
Veridiana chorava...
em seu quarto se trancava;
até que um dia,
ouviu barulho no apartamento ao lado,
que estava há muito tempo fechado.
Família nova ali mudou.
Cessando o choro,
o ouvido apurou
e em seguida sondou...
 
Com o passar dos dias,
a jovem percebeu,
que entre os filhos do casal,
um dos jovens era cego.
Irresistivelmente com ele se encantou
e perdidamente apaixonada ficou...
 
Seu coração preencheu-se de esperança,
via em seu dedo uma linda aliança.
Em seus íntimos momentos, pensava:
como ele é cego, minha feiúra não verá.
Falarei macio, cantarei baixinho,
e por mim ele também se apaixonará.
 
Veridiana deu um jeitinho
e conhecida do jovem ficou.
Agiu certinho,
tão bonito falou,
em seu ouvido lindas canções cantou,
canções de promessas de amor.
Ele, por ela se apaixonou...
 
E na troca de carícias,
sério namoro nasceu de incrível jeito.
Veridiana, em si descobriu a beleza,
percebeu que nariz grande não é defeito,
viu que olhos castanhos têm brilho incomum,
verdadeira flor ela se achou.
 
Na verdade, quem canta da vida a canção,
quem sorri, é gentil, amizade dá,
deixando o apego à matéria pra lá,
passa a ter a beleza da certeza,
que todos somos exuberantes,
iguais ao califa de Bagdá!
 
Maria Nilceia


 

 

imagem original by Alberto Pancorbo

 

 

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