A neve caía...
 
 
 
Muito frio! Ele olhava de longe,
luzes acesas, ela estava acordada,
aproximou-se... era ele um monge,
e pensar que já era madrugada...
 
Ela logo atendeu ao chamamento,
sorrindo com meiguice ele pediu:
uma dádiva, imploro, por favor,
preciso apenas de um pouco de amor.
 
Olhos aflitos os dele, anonimato...
nos cabelos, a nobreza do grisalho,
na face a barba crescida, óculos à vista,
tanto conhecia aquele atalho... tremia!
 
A outrora jovem e inesquecível donzela,
correspondia-lhe  em avançada idade,
olhava-o com tanta serenidade,
e ele pensava: como consegui viver sem ela?!
 
Diga, meu bondoso senhor,
neva tanto... na verdade, o que desejas?
Nesse frio... todos pedem agasalho,
e tu pedes somente amor?
 
Amor eu tenho de sobra,
para construir qualquer obra,
tanto bom sentimento doei
e outro tanto perdoei...
 
Meu bom frade, filho de Nosso Senhor,
tenho sim, grande amor,
esplendor ele tem,
eternidade também.
 
Diga confiante o teu nome,
somos nesta terra viajantes,
expresse o teu canto,
deve ser hino santo!
 
Cantado nas missas, nos casamentos,
com suaves lamentos,
contendo do amor de Jesus,
luminosos fragmentos.
 
O monge, como nunca, a olhou...
o frio queimava e o coração ardia,
atingiu da amada a alma e ela corou,
mas muito depressa se recompôs e pensou:
preciso de calma, não o esqueci nenhum dia!
 
Entre milhares de olhares,
anônimos ou não,
sinceros ou falsos,
aquele era o único,
que solidificava laços.
 
Esta era uma hora marcada, esperada,
seu frágil corpo tombou,
a esperança, talvez não fosse mais nada,
todo aquele amor, o clero levou,
sim... esta hora era na alma vivenciada!
 
Mesmo caída estendia-lhe suas amorosas mãos,
jamais lhe diria um não...
O monge, em desespero,
percebendo que a vida se esvaía,
disse baixinho: faz teu pedido, amor!
 
Ela, docemente, lhe disse:
meu pedido, ontem fiz,
ao Senhor implorei,
para mais uma vez te ver,
e uma vez ainda teu amor colher!
 
O monge, tremendo de frio,
tremendo de amor,
dá-lhe um forte beijo,
com redobrada paixão...
aperta-lhe o corpo em vibrante emoção.
 
Ela corresponde, retribui com ardor,
beija-o sabendo que seria o último gesto de amor,
não resiste, um suspiro exala,
sua fronte descansa no colo amado,
do inesquecível monge alado!
 
Ele chora, lava a face da amada, levantar não tenta,
a neve impiedosa goza, muito e muito aumenta,
aquele momento ele imortaliza,
deixa-se morrer e pela neve acicatar,
unido aos lábios de sua amada, o amor prodigaliza...
 
E se findam duas vidas na Terra,
que poderiam ter formado lindo lar,
ele com batina, mas sempre pronto a amar,
ela... com certeza, amorosa mãe seria
e tanta felicidade teria!
 
Papas, monges, sacerdotes,
deveriam poder amar,
pois como humanos que são,
Deus não lhes impede
de a mulher desejar!
 
Com respeito dedico estes versos,
a todos os padres da igreja,
para que o mundo todo veja,
que os desejos no coração estão imersos,
casar eles devem, abençoados pela Santa Igreja!
 
Voltando ao monge e à mulher,
ninguém soube explicar,
porque no dia seguinte,
tanto perfume se fez no ar
e as avezinhas não pararam de cantar.
 
 
Maria Nilceia
 
 
 
 
A todos os padres das igrejas da Terra, o meu canto de amor!
 


 

 

Imagens originais by Moon and Back Graphics

 

 

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