Atribuído
ao Mestre da Adoração de Machico
Finais
do séc. XV
Óleo
sobre madeira de til 51x39cm
MASF
26
A
Igreja da Madalena do Mar; à qual pertence este pequeno quadro, terá tido
origem numa capela mandada erigir pelo lendário Henrique Alemão, cerca de 1454
ou 1457, correspondendo a primeira data à chegada daquela figura misteriosa ao
Funchal.
Segundo
a tradição local e alguns nobiliários, Henrique Alemão era o rei Ladislau III
da Polónia, refugiado na Madeira depois de uma peregrinação que o levou à Terra
Santa em penitência, após o desastre da batalha de Varna (1444), resultado da violação, por parte do soberano polaco, de um tratado
de paz assinado com os Turcos, que derrotaram clamorosamente os cristãos
naquela batalha. Acolhido por D. Afonso V, foi por este recomendado a João
Gonçalves Zarco, que sempre o trataria com especial deferência, respeitando o
anonimato em que o suposto rei da Polónia desejava viver.
Henrique
Alemão, o Cavaleiro de santa Catarina, fundou e mandou construir a primeira
igreja do lugar sob a invocação de Santa Catarina – de quem era devoto por ter
sido armado cavaleiro no Mosteiro de Santa Catarina do Monte Sinai -, ou de Santa Maria Madalena, não se sabe bem
ao certo. Ao que parece a fixação definitiva do topónimo Madalena deve-se a uma
reconstrução do templo já em tempos de João Rodrigues de Freitas, que foi o segundo marido da viúva de Henrique Alemão,
segundo se entende do testamento de Isabel Lopes, sua segunda mulher, datado de
cerca de 1524.
A Igreja actual já pouco ou nada tem a ver com a capela primitiva para a qual foi encomendado este quadro bem como o painel de Santa Maria Madalena, outra obra valiosíssima pertencente à Igreja da Madalena e hoje também exposto no Museu de Arte Sacra do Funchal.
A
interpretação da composição deste quadro tem contribuído para o mistério que
envolve Henrique Alemão:
“(...)
a iconografia da composição demonstra inequivocamente que estamos perante o Encontro
de São Joaquim e de Santa Ana junto da Porta Dourada, tendo ao fundo, à
esquerda, o Anúncio do Anjo a Joaquim. A Legenda Aurea de Jacopo da
Varazzo popularizou, a partir do século XIII, a história dos progenitores de
Maria: havia mais de vinte anos que o casal não conseguia ter descendência, o
que motivou a expulsão de Joaquim do Templo, devido à sua esterilidade.
Envergonhado, refugia-se junto dos pastores, mas, ao fim de algum tempo, o Anjo
do Senhor anuncia-lhe que, ouvidas as suas orações, iria ser pai de uma filha
sem igual. É este o motivo representado no segundo registo do quadro. O Anjo
apareceu, também, a Ana anunciando-lhe igualmente o nascimento de Maria, motivo
que não se encontra explicitado neste quadro. Finalmente, ordenou-lhes que se
dirigissem à Porta Dourada do Templo de Jerusalém; ali se encontraram e se
abraçaram, sendo, nesse momento, concebida prodigiosamente Maria. É este o
assunto do primeiro plano da composição.
O
tema do Encontro junto da Porta Dourada, que constituía uma
representação da concepção imaculada de Maria, era extraordinariamente popular
no final da Idade Média, não havendo praticamente retábulo mariano que o não
contemplasse. (...)
Voltando
ao pequeno quadro da Madalena do Mar, notamos que a figura de Joaquim
apresenta, pendurados à cintura, um punhal e uma bolsa de peregrino, elementos
desnecessários à caracterização daquela figura bíblica, mas de algum modo
identificadores de certos traços biográficos de Henrique Alemão: a sua origem
régia (o punhal) e a sua peregrinação de penitente (a bolsa). Este tem sido um
dos mais sólidos argumentos da tese que pretende ver no casal sagrado a
figuração do par Henrique Alemão (Ladislau III) - Senhorinha Anes. Era habitual
na pintura dos séculos XV e XVI a representação de personagens reais na pele de
figuras da História Sagrada, pelo que não nos repugna ver no casal bíblico uma
alusão ao infeliz par da Madalena do Mar, sem que tal implique um retrato
absolutamente, rigoroso das respectivas fisionomias ou que os mesmos tivessem
posado para o pintor.”
As
opções representativas apontam para a atribuição do quadro:
“Em
termos formais, o pintor soube enriquecer a composição ao deslocar o grupo
central para a direita, junto ao elemento edificado do primeiro plano, e
abrindo uma ampla perspectiva lateral que é pontuada por sucessivos elementos -
o carneiro, o grupo do Anúncio a Joaquim, até ao fundo azulado da paisagem -
enquanto, do lado oposto, os edifícios vão igualmente acompanhando a
profundidade espacial.
A
oposição azul/vermelho, assim como os contrastes cromáticos entre as cores de
terra do primeiro plano e os azuis esverdeados dos fundos, sem esquecer a
caracterização dos rostos ou o gosto pelo tratamento minucioso dos tecidos,
nomeadamente dos brocados, são evidentes pontos de contacto com a obra do
Mestre da Adoração de Machico. Pensamos, todavia, que se trata de uma obra anterior
à Adoração dos Magos, numa escala comum ao que era hábito na Flandres de então,
ainda longe dos grandes formatos que a encomenda madeirense viria a favorecer.
Tal facto, aliado a um certo arcaísmo de desenho, reforçado pelo goticismo dos
enquadramentos arquitectónicos, faz-nos pensar numa datação relativamente
recuada, que não deverá ultrapassar os finais de Quatrocentos.”
Museu de Arte Sacra do Funchal - Arte Flamenga
Edição Edicarte