DIÁRIO DE KUMAMOTO

      Durante a minha estadia no Japão, fiz muitos passeios e viagens. Geralmente ou eram curtos ou planejados. Uma exceção foi a minha ida para a província de Kumamoto, ao sul do arquipélago, terra da maioria dos meus antepassados. A exemplo das minhas andanças pela região andina, não sabia como chegar ao meu destino, o que faria quando lá chegasse e como faria para voltar. O resultado foi igualmente satisfatório.

      Dia a dia fui coletando minhas observações e reflexões no meu velho caderno verde. Ainda não tive tempo para revisar os escritos. Muitos erros de grafia, pensamentos mal articulados e referências à minha vida íntima e estados de espírito que gostaria de omitir. Farei-o conforme o tempo me permitir. Enquanto isso, ignorem as barbaridades que porventura persistirem.

      Na foto ao lado, eu e meus tios: Yoshito e Shizuko Kanagaki (Mt. Aso, 05/04/2002 14:30).


    QUARTA, 3 DE ABRIL


      Parque Korakuen, Okayama

      Saí às 7:50, assim que minha irmã foi para o trabalho levando as crianças para a creche. Caminhei por 25 minutos até a estação de Takefu, tomando o trem das 8:24 para Nagahama. Baldeei as 10:15 em um trem especial expresso (shinkaisoku) chegando às 12:45 em Himeji. Fukui, Shiga, Kyoto, Osaka e Hyogo; cinco províncias, 1280 + 3570 ienes.

      Passeei por uma hora no castelo de Himeji. Fica a dez minutos a pé da estação, seguindo a avenida à frente. Nesta época do ano, quando florescem as flores de cerejeira, muitos japoneses fazem piquenique sob as árvores. Retornei à estação e peguei o trem das 14:04 para Okayama, chegando às 15:30. Trem comum, pára em todas as estações. Plantações de arroz e montanhas. O clima já era quente.

      Em Okayama, novamente segui adiante a avenida. Sempre consultando o balcão de informações turísticas da estação. Avenida larga, prédios novos. Bem movimentada. Foi por sugestão de um japonês com quem trabalhei de agosto a dezembro em Nishinomiya que parei na cidade. Sr. Okuyama Kazuo. Visitei o castelo da cidade, atravessei a ponte e fui conhecer o famoso parque da cidade, Korakuen. Não me impressionei, embora reconheça que as fotos ficaram muito bonitas. Talvez não estivesse muito inspirado naquele dia, mas na verdade não senti que fosse muito diferente de outros que já conheci. Peguei o trem das 17:40 para Kozaki, baldeação as 19:24, chegada em Hiroshima às 21:40. Havia duas linhas para Hiroshima. Perguntei para uma jovem qual seria o melhor caminho e ela me indicou o mais demorado. Teria sido agradável, se pudesse apreciar a paisagem, mas já era de noite e a viagem parecia interminável.

      Não havia balcão de informações neste horário. Peguei meu guia de bolso de 1992, que encontrei no meio do lixo quando desocupava acomodações da empreiteira destinadas a brasileiros em Takefu. Sai à procura da praça da paz. Caminho complicado, muitas pontes a atravessar e sem muita noção de direção. Avistei de longe o castelo de Hiroshima, iluminado. E sem me dar conta, encontro-me a poucos metros da construção que sobreviveu à bomba atômica. Sentei no banco do outro lado do rio, ao lado um mendigo, dormindo com sua bicicleta. Admirei a construção e saí para procurar um lugar para comer, e quem sabe para dormir. Comprei qualquer coisa em uma loja de conveniência (combini), caminhei um bom tempo em direção à estação até encontrar um “fast food” (yoshinoya). Comi uma tigela de arroz com tiras de carne bovina, tomei uma xícara de chá que acompanhava. Total de 270 ienes. Escovei os dentes e segui para a estação.

      Devo ter chegado à estação de Hiroshima por volta das 0:30. Já estava tarde para procurar um hotel. Não consegui dormir, ventava e um guarda me mandava para um lugar frio. Na frente da loja de departamentos não pode, etc. Saí por volta das 3:30, caminhei a Avenida da Paz até a Praça da Paz. Cheguei às 4 e esperei amanhecer.

    QUINTA, 4 DE ABRIL


      Jardim da Paz e Domo, Hiroshima

      Bati as fotos do Jardim da Paz e do Domo. Caminhei mais um pouco até o Castelo de Hiroshima. Mais fotos. Castelo simpático, mas já estava cansado deles. Cheguei às 7:30 na estação, comprei uma lembrancinha da cidade na eventualidade de visitar parentes em Kumamoto (Manju, bolinhos recheados de feijão em formato de momiji, as folhas avermelhadas tripartidas que simbolizam o outono). E saí no trem das 7:44, com destino incerto (na verdade, Kyushu). Poderia ter ficado mais um pouco. Às 10:00 o museu da guerra estaria aberto, mas queria chegar ao meu destino ainda no mesmo dia.

      O trem só foi um pouco mais adiante. Peguei o próximo para não me lembro aonde, chegando lá esperaria outro para Tokunaga. Sentei e esperei. Reflexões. Local como outro qualquer, estação aberta e muitos trilhos, galpões velhos e enferrujados. Mas havia algo de especial. Talvez porque eu nunca estive lá ou não voltaria a estar. Encontrei um finlandês chamado Mate (Mateus) aparentando 45 anos. Devia ter mais. Não havia trem para Tokunaga, conforme esperava. Havia outro melhor, para Shimonoseki, na ponta da ilha de Honshu. Melhor impossível, a sorte sorriu para mim. Agora são 9:12.

      Montanhas baixas com mata, campos de arroz e casas ao estilo japonês (moderno e antigo). O vale se alarga às vezes. Paisagem peculiar e enjoativa (depois de quase um ano). Mas Mateus adorava. Adorava China e Coréia também. Ele é o maior aventureiro que já conheci até agora. Dono de hotel na Finlândia, trabalhava apenas 3 meses por ano, no verão. Sabe inglês, alemão (e relacionados), aprendeu espanhol no México, em apenas 3 meses, com uma namorada que arranjou por lá. Atualmente está com uma chinesa de 26 anos, de Kyoto (ou estivera até anteontem). Chegou ao Japão há duas semanas, andou por Tóquio, Kyoto e agora para cá, a caminho de casa. Às 4 horas da tarde tem um navio que sai para a Coréia, 85 mil ienes, e precisa que eu troque onze dólares para completar o valor da passagem e comer. Vai para a Coréia, e em seguida para a China, onde pega um trem para Moscou por (ele acha) US$ 2500.

      Perguntei-lhe sobre o visto de entrada e ele disse que não precisa, sobre língua ele respondeu que sabe inglês. Estivera uns 4 meses na Índia antes de vir para cá. Só não conhece a África, não tem interesse em conhecer, mas tem um irmão que é fascinado por ela, pelo que me parece. Pois conta histórias e já cruzou-a de ponta a ponta de carro. Fotografias? Guarda tudo na memória. Já foi do Texas ao Panamá de ônibus. Disse-me que há um outro que faz o trajeto de Colômbia a Buenos Aires sem troca de ônibus. Sabe discursar sobre a qualidade das estradas de Puno a Arequipa e o preço das passagens de trem na região. Sinto-me insignificante com minhas viagens e minha solidão longe de qualquer coisa que possa chamar de família. Falou-me de um ticket de 11600 que pode ser utilizado por 5 dias (marquei touca, como diria um carioca).

      Paisagens lindas de mar, ilhas com montanhas e praias estreitas à uma hora de Shimonoseki. Mateus seguiu o seu destino, às 12:15. Peguei um trem para outro destino desconhecido. Nada especial, um breve túnel e navios ancorados do outro lado. Desci logo depois em Kokura. Balcão de informações, mapa. Estação grande. Meu deus, toda cidade parece ter o seu castelo! Não vale nada. Olhei para fora, monotrilho, prédios modernos e montanhas. Voltei para dentro da estação.

      As estações nem sempre identificam a cidade. Kokura é Kitakyushu, uma grande metrópole que nunca ouvi falar. Hakata é Fukuoka, cidade já mais conhecida. Segui para Hakata, 1450 de passagem. Vaguei por uma hora em Fukuoka, a pé e de ônibus, e retornei à estação.

      Por volta das 4:30 peguei um trem que corre a linha Kagoshima. Não chegava a Kumamoto, mas ia na direção. Às seis horas peguei outro trem, este passava. Cheguei às sete, estava anoitecendo. Paguei a diferença do valor da passagem. Total de 2000 ienes. Não tinha me localizado ainda. Não tinha nem mapa nem hotel. Liguei para o meu tio dizendo que estava na área e queria conhecê-lo. Nem deixou eu procurar um hotel. Disse para não sair de onde estava. Um pequeno contratempo, ele me procurara no lado errado da rua.

      Meia hora de carro para o interior. Consegui aprofundar um pouco a minha história. Minha avó veio para o Brasil, anos após seus pais. Seu avô era o segundo filho de um monge budista. O primeiro filho seguiu a linha do pai, ele adotou o sobrenome Oda da esposa, que não tinha irmãos homens. O sobrenome original era Matsumoto. Meu tio também mudou de sobrenome quando se casou, Yoshito Kanagaki. Sua esposa se chama Shizuko. Eles moram na mesma casa há uns 50 anos. Tem dois filhos, o mais velho (45) mora na província vizinha de Oita e o segundo (43) em Yokohama. Também adotou o sobrenome da esposa, a contragosto.

    SEXTA, 5 DE ABRIL


      Monte Aso, Kumamoto

      Uma pausa para descrições. Nas proximidades da casa dos Kanagaki há um rio chamado Midori (rio verde). Nada especial. Uma ponte comprida e estreita, vão largo, mas apenas uma parte é ocupada pelo rio. Margens altas de concreto. Cruzei a ponte e desci. Leito pedregoso, águas claras e rasas, peixes pequenos semelhantes aos dos parques de minha cidade. Um jovem trouxe a filha para brincar no rio. São 11 horas, tenho que voltar para casa.

      Vejo um mapa em uma placa a beira do rio. A região onde estou situa-se entre dois rios, e a origem de ambos é o topo direito. Uma rodovia cruza o rio inferior feito uma flecha apontando para o canto inferior esquerdo. Uma seta aponta para o canto direito do arco do rio, como se estivesse dizendo “você está aqui!”. Uma estrada que vem de Kumamoto e vai para Kosa cruza o mapa em diagonal descendente, como se fosse a linha do arco. O rio superior chama-se Mifune, o inferior é o Midori. Paredão de montanhas a leste, uma montanha ao sul e a sudeste, distante. E outras a nordeste. Uma bem próxima, não é alta. Estufas e plantações de trigo. Pequenas estradas. Nove casas e um galpão no formato de uma vila rural. A casa de meu tio é uma delas, entre a estrada e a ruazinha da vila.

      Entrada, cerca viva, garagem à esquerda, com jardim simples e a casa à direita. Jardim à frente, com pedras, grama e cascalho. Estufa, horta e jardim ao fundo. Plantação e estufa depois da rua. Muro de blocos de concreto à esquerda e sem muro à direita. Casa velha de madeira, dois andares. Vigas de madeira grossas e fortes. Simpática. As casas da esquerda são coladas ao muro e à garagem. Garagem e quintal à esquerda e casa mais à esquerda. Casa nova.

      Fim das descrições. Hoje acordei, tomei café com meus tios (arroz, sopa com peixe, alga seca, grãos de soja fermentada, etc), saí para conhecer a área por volta das 10:30. Depois das 12, saímos de carro para um passeio no monte Aso, onde fica a maior cratera do mundo, segundo me falaram. Infelizmente, devido ao vento não foi possível ver a cratera. Voltamos por volta das 4 horas a Kumamoto, mas também não foi possível visitar o castelo. Horário.

      Mais material para reflexão. Meu tio perguntou se minha prima Tomoko havia se casado. Disse que ela pensava em não se casar. Ele respondeu que também deveria não ter se casado; enfatizando que é o melhor que ela faz. A esposa dele disse do banco de trás, com uma voz calma e carinhosa das senhoras japonesas: sim, sim, fique sozinho então. “Watashimo hitorino hooga yokatta” - “Hai, hai, hitorini narinasai” Fico devendo minhas considerações a respeito da senhorita Hinako de Nishinomiya.

      Meia hora de carro, casa às 6:30 após supermercado. Tomei banho, jantamos sashimi. Conversa com dona Shizuko antes de dormir, às 9:30. Falamos sobre filhos, minha família, etc. Fotos. O segundo filho do casal mora em Yokohama e trabalha em Tokyo. Nunca volta antes das 23h. Deve sair para o trabalho às 6. Duas horas de trem. Bom salário e supermercado perto. Duas filhas. Já morou em Saitama. Trabalha com seguros em uma multinacional americana. Nasceu em Showa 29 (1955). O pai da Sra. Shizuko morreu aos 49 anos, queda de uma ponte próxima após bebedeira. Em Showa 54 morre a mãe, de coração, aos 78 anos. Shizuko nasceu em Showa 4. Mudou-se para esta casa quando estudava a 4a série. Ela é um mês mais velha que meu tio (fevereiro). Reflexões sobre como ele parece com meu pai e o quanto já me familiarizei.

    SÁBADO, 6 DE ABRIL


      Região montanhosa, Kumamoto

      Mesmo anotando assim, já me esqueci de muitos detalhes. Hoje meu tio foi a uma reunião do grupo de terceira idade para tomar posse como presidente. Tomei o café da manhã: pão, leite e ovo frito. Saí para uma volta nas redondezas das 9 às 10 horas, após conversar um pouco com minha tia. Não me lembro do assunto. Possivelmente falamos sobre o seu segundo filho, que sai às 6 e volta às 23 para casa. Ou sobre a foto que minha avó carregava no bolso. Talvez fosse foto da nora que mais amara e que jamais conhecera. Saímos para passear e fazer compras. Kosa, Onsen, represa do rio Midori, onde almoçamos e apreciamos a paisagem. Três finalidades: evitar enchentes, gerar energia e reservar água para plantação de arroz. Fomos também para Mifune, fazer mais compras. Choveu no fim da manhã e à tarde.

      Chegamos às três horas, meu tio já havia retornado. Minhas condições psicológicas não estavam boas. Não estava com vontade de conversar. Triste, querendo me encolher no meu canto. Um pouco cansado. Lembrei-me da piada do Jonas sobre o pior motorista de São Paulo: as três categorias. Estava melhor depois.

      Pedi a meu tio que me explicasse o mapa genealógico novamente. Sabia agora de onde ele era, Jonan. E que meu avô também era de lá. Deve ficar a uns 7 quilômetros daqui. Ele se lembra de um primo de meu pai. Meu avô era o segundo filho. O primogênito de meu tio-avô costumava aparar as folhas de árvores do jardim, era bem chegado a uma bebida e não enxergava direito. Entendi que ele bebia metanol quando não havia álcool. Morreu há 10 anos atrás, aos 70 anos. Ambos os números são um chute. Teve três filhos homens e uma mulher. Não se sabe quantos irmãos teve. Segundo meu tio, sua filha era muito inteligente, foi para a América e casou-se com um americano. Deve ter por volta de 50 agora. As datas são compatíveis. Talvez o velho tenha morrido em decorrência da cegueira ou acidente, como o pai da sra. Shizuko.

      Falou-me também da história de um jovem infeliz que veio do Brasil antes da guerra para estudar. O sobrenome era Kay, como o meu, e também era de Jonan. Morreu por causa de uma conjuntivite. Deixe-me explicar melhor. De retorno ao Brasil, já no porto, o médico não o deixou embarcar. De volta à casa dos avós, embora seja brasileiro, foi recrutado. Morreu na China.

      A visão da Segunda Guerra por quem por dois anos não entrou nela. Depois da guerra com a Rússia, os militares ganharam mais força e o Japão achou que poderia com todos. Entrou em guerra com os EUA não tendo terminado com a China. Apenas crianças, velhos e mulheres sobraram no campo. O governo pegava parte do arroz, pessoas da cidade vinham fazer escambo: roupas por batatas. Comida racionada na cidade. Algumas casas no campo foram atingidas por balas. Elas explodiam e causavam incêndios. As pessoas se escondiam em buracos com algodão umedecido no ouvido e toalha amarrada. Mas o foco principal era o aeroporto e as cidades grandes. No caso, Kumamoto.

      Alguns amigos não voltaram da China, outras morreram em incêndios. Mas há 30 anos houve um incêndio em um shopping aqui perto e morreram mais de 100 pessoas. Problemas na saída de emergência. Dezenas de turistas também devem ter morrido intoxicados pelos gases da cratera do monte Aso (que eu não consegui visitar) em tempos recentes. Na percepção dele, parece que desgraças desse tipo não são incomuns. Até parece que se divertia nos relatos.

      Sexta, café à japonesa, macarrão no monte Aso (shichu), sashimi. Sábado, café americano, sushi na represa, sopa que não me lembro o nome. Vejamos hoje.

      Acordei calmo, em paz e até com saudades da mina ex, como há muito não ocorria. Pensei em esquece tudo e voltar para ela. Pode ser outro pensamento transtornado. Logo, logo terei me esquecido ou estarei com outro pensamento. Isso tem sido comum nestes últimos anos. Ah! Ia me esquecendo. Soldados japoneses lutavam até a morte e levavam uma faca para se matarem caso fossem capturados. Achavam estranho o ato de levantar os braços como faziam os americanos. Por isso, a bomba atômica.

    DOMINGO, 7 DE ABRIL


      Travessia pelas 5 pontes, península de Uto

      Laranja, tomate, leite e pão. Também abóbora em conserva e sopa de conchinhas. Os estilos não combinam nem um pouco. Meu tio me levou para caminhar do outro lado do rio, enquanto tomava o café, das 9 às 10:30.

      Ainda pela manhã, saímos os três para passear. Pedi primeiro para que me levassem a Jonan e ao templo do meu tataravô. Rua muito estreita, templo e arrozal, montanha Gankai-san a sudoeste, Kihara Fudoson (templo budista). A cidade chamava-se Kumanojo na época de meus avós. Processo de fusões ainda em andamento. Jonan, Tomiai, Uto e linha férrea. Península de Uto por mais de meia hora, cultivo de algas, parada em um parque com ancoradouro de iates.

      O tempo melhorou para o lado do mar. Continuamos no istmo, curva em Mitsui, ponte para a ilha do outro lado, beirando o mar, curvas, por dentro da ilha até Oyano. Baía com grande ilha ao fundo, ligado à terra por ponte. Novamente dentro da ilha, montanhas, restaurantes, ponte (2), ilha, ponte (3), ilha, ponte (4), ilha, ponte (5) e Matsushima IC. Fim. Volta até a primeira ponte. Almoço: yakiniku com arroz e sopa de ostras. Porto de Mitsumi. Outro lado do istmo. Kofun em Jonan. Casa. Cemitério. Prima de minha tia e filha. Marido e cachorro. Caminhada. Anoitece às 6:30. Jantar às 7:30. Somen, arroz com nato.

      Conversa sobre viagem, dialeto, ladrões, etc. Estou sendo breve, mas o dia não o foi. Espero reproduzir os diálogos posteriormente. Meu tio narrou as dificuldades em se locomover dentro do Japão de trem. Também como conseguiram perceber que ele é de Kyushu mesmo usando o japonês padrão. E do encontro com os pais da noiva, no casamento do filho, em Tóquio: “Estou rindo quando você ri, mas não entendo nem 50% do que diz”. Diferenças dentro da própria ilha. Kagoshima, Miyazaki, Oita.

    SEGUNDA, 8 DE ABRIL


      Castelo de Kumamoto

      São 7h. O dia amanheceu nublado, vi o sol quinze minutos atrás. Deve ter nascido às 6:15. Pelo vidro da porta, já se via a luminosidade desde 4:30. Saí para caminhar às 5:30, ainda não estava totalmente claro, o que ocorreu por volta das seis. Do início da pista até a rodovia expressa são 1800 metros mais 400 de terra. Ligeira neblina, canal à direita, trigo, estufas e flores. Canto de muitos pássaros. Duas ou três pessoas caminhando, com cachorro, de bicicleta ou só. “Ohayoo gozaimasu”, cumprimentavam-me à distância, sorrindo. Coisa de interior. Quando era pequeno, cumprimentava todos os japoneses, mesmo desconhecidos. Pensando na vida. Saudades da ex. Paisagem linda, trigais verdejantes, velhas casas japonesas, estufas, hortas. Gado confinado. Cemitérios mais adiante da curva à esquerda. Beirando a rodovia até o rio Midori. Beirando o rio até a outra ponte, quase. Completa-se o trajeto. Já sinto saudades do lugar. Reflexões e pensamentos que se perdem.

      Voltei, tomei café e saímos às 9 horas. Eu e minha tia para o castelo e meu tio para o hospital. Por volta das 12:30 para o parque da cidade. Almoçamos lá carne e arroz até umas 3. Voltamos para casa, meu tio saiu e eu fui andar. Aquela paisagem. Voltei antes de anoitecer e ajudei o tio a montar a estufa. Única utilidade. Jantamos sashimi, sushi e frango. Nome e idade de filhos e netos. Dormir. Devo ter recebido e-mail e telefonei para Tomoko, perguntando sobre a cidade do meu outro avô. Conversa sobre universidades de Kumamoto e Oita, onde se formaram os dois filhos do casal, na ida para o castelo. Meu tio falou-me sobre a história do castelo e da província no café da manhã.

    TERÇA, 9 DE ABRIL


      A caminho da província de Oita

      Acordei às 5:30 para caminhar de novo, pela última vez. Mais algumas fotos, mas provavelmente apenas na memória. Passei por um altar shintoísta e acendi todas as velas. Como é a experiência de conhecer as origens? De que me importa o pai de meu tataravô, ou os bisnetos do avô de meu pai? Mas minhas origens estão aqui, pelo menos 75% delas. Voltei às 7:15. Tomei o café: batata doce assada, pão, leite, raiz de lótus, arroz, salada de macarrão, tomate, maionese e um pouco de grãos de soja fermentada. Joguei todas as minhas coisas dentro da mochila, saímos às 7:50, com uma parada no cemitério da família, e estação de trem às 8:35. Peguei um mapa às 9, saída em um trem comum às 9:09 na direção da província vizinha de Oita. Meus tios vieram até a plataforma se despedir.

      Não me lembro o nome das estações. A primeira baldeação demorou uma hora, a segunda demoraria quase isso. Depois de 3 horas, desisti da volta por Chikoku (a menor das quatro grandes ilhas do arquipélago) e resolvi voltar de ônibus mesmo. Menos emocionante e mais tranqüilo. Durmo no ônibus e no dia seguinte estarei em um lugar conhecido. No caso, Koshien. Chegarei às 7:45, saindo daqui às 22:00.

      Resumindo, 12h resolvi voltar, cheguei às duas, achei a rodoviária, comprei a passagem (10 mil ienes) e fui conhecer a cidade com as próprias pernas. Comércio, muro do castelo, estação, rodoviária, ao vilarejo de Kosa de circular, rodoviária novamente, comércio, rodoviária.

      O ônibus saiu, logo depois adormeci.

    QUARTA, 10 DE ABRIL


      Kobe, província de Hyogo

      Acordei por volta das 5:30. Próximo de Tatsuno. Logo Himeji, Kobe por volta das 7, e Nishinomiya às 7:45. Deixei minhas coisas na casa de um amigo da época em que trabalhava aqui. Almocei às 12 numa churrascaria mais ou menos próxima, depois fui para Kobe tirar meu reentry (visto para reentrar no país). Muito cansado para continuar e voltar ainda hoje para Takefu. Dormi na casa de meu amigo.

    QUINTA, 11 DE ABRIL


      Omi-Hachiman, Shiga: região de origem de meu avô materno.

      Saí logo cedo, antes das 8. Peguei o trem para Osaka (direto), tomei café da manhã na estação e outro trem (shinkaisoku) às 9:30 para Nagahama. Kyoto, Kusatsu, Omi-Hachiman às 11h. Melhor do que esperava: informações turísticas. Visitei um shopping que tinha maquete da região, comi no McDonald e caminhei 30 minutos até o centro antigo, em linha reta. Museu e rua comercial conservada. Canal perpendicular com 3 ou 4 pontes. Passeio a barco às 3h (muito caro, desisti). Voltei ao centro velho e subi de bonde na montanha, vaguei pelo alto por uma hora e voltei.

      Começava a chuviscar. Soube por minha prima recentemente que nossos avós eram desta região e perguntei sobre os Uratani ao pessoal da bilheteria. Sabia que não restava nenhum parente próximo, pois a família de meu avô viera inteira para o Brasil. "Mais ao sul, em Sabae ou Oda. Ir com o nome à prefeitura", disse-me o funcionário do bonde. Voltei de ônibus à estação, 3:50. Trem comum até Maibara às 4:12. Para Nagahama às 4:50, 5h em Nagahama. Parei para ver o lago Biwa e o castelo de Nagahama. Trem às 5:30 para Fukui. Desci às 7:00 em Takefu. Comi outro Mac e sushi, voltei para casa. Fim da viagem.

    SEXTA, 12 DE ABRIL


      Trajeto da viagem

      Passei a madrugada e a manhã colando nome no material de matemática do meu sobrinho (não pensem que é pouco: varetinhas minúsculas, cartões de tabuada, moedas, etc). Ele chegou às 12h. Fui buscar o outro às 4h. Às seis minha irmã voltou. Saí para caminhar. Voltei às 7 e pouco, tomei banho, jantei e dormi. Rotina. E-mails da ex e telefonema da minha amiga japonesa. Arrumei a mala. Retorno ao Brasil na terça.