Memorial

Marcos Katsumi Kay

Abril / 2003

 

A grosso modo, meus avós vieram ao Brasil separadamente, com suas famílias, entre os anos de 1911 e 1934, e com idades variando de 20 a 25 anos. Trabalhavam em atividades relacionadas à agricultura e moravam em comunidades rurais, ao sul do Japão. Vieram ao Brasil com o intuito de ganhar dinheiro rapidamente e voltar para a sua terra natal. Exceções. Meu avô materno veio da região metropolitana de Kyoto, uma das ex-capitais do país, onde sua família dedicava-se ao comércio há uma geração. Minha avó materna nasceu em uma fazenda no interior de São Paulo. Meu avô paterno veio sozinho, fugindo provavelmente de um casamento arranjado. Minha avó paterna foi criada no Japão pelos avós e juntou-se ao restante da família ao atingir a maioridade.

Devido a uma doença pulmonar, o pai de minha mãe nunca pode dedicar-se plenamente a atividades rurais, como ocorria com os seus irmãos. Mudou-se de uma pequena cidade, esquecida no interior de São Paulo, para Maringá em 1952. Seus irmãos haviam comprado terras de boa qualidade e era consenso que não havia futuro para eles em São Paulo. Estabeleceu-se como relojoeiro na cidade por 25 anos, até a sua morte. Minha mãe casou-se e foi morar no sítio. Meu tio foi estudar em São Paulo (capital) e fez a vida por lá, como empresário. Durante muito tempo dizia que iria voltar para cá. Faz mais de dez anos que não fala mais nisso. Minhas duas tias e suas famílias também se dedicam a atividades urbanas: educação, comércio, prestação de serviços e associações comunitárias.

Meu avô paterno, também influenciado por parentes e amigos, fixou-se em uma pequena cidade a 80 km de Maringá. Cansado de trabalhar como arrendatário, comprou um pedaço de terra e com os oito filhos, pouco a pouco foi aumentando suas modestas posses. Três de meus tios não permaneceram no interior. Minha tia casou-se, trabalhou e deu continuidade na sua tinturaria da família do marido. Educou suas filhas. Duas trabalham em multinacionais farmacêuticas, uma como técnica, outra na chefia administrativa; outra em um pequeno banco, que atua em um nicho específico do mercado. A mais velha é enfermeira um grande hospital público. O mais velho dos meus tios mudou-se para Curitiba em busca de educação especializada para um de seus filhos, deficiente auditivo. Um outro, por divergências com meu avô, acabou parando em Curitiba. Seus respectivos filhos cresceram e se educaram lá, e exercem atividades de funcionários públicos até feirantes.

Meu pai e outros quatro irmãos permaneceram em Terra Boa. A um último tio foi oferecida a oportunidade de completar os seus estudos em Londrina, a custas da família. Preferiu casar-se e continuar levando a vida calma do interior, mas por ser o mais capacitado, assumiu a direção dos negócios. Por conseqüência, não tivemos “doutores” deste lado da família.

Depois de casada, minha mãe passou cerca de dez na zona rural, sem eletricidade e água encanada. A sanidade mental dela e de sua prima, que se casou com meu tio primogênito, foram questionadas por familiares delas. Podia-se dizer que vivíamos em uma colônia. Nossos vizinhos no sítio eram quase todos japoneses. Tínhamos uma associação, um salão social, uma escola com aulas de japonês toda tarde e aos sábados. Uma vez por ano nos reuníamos para comemorar o ano novo, uma vez por ano tínhamos uma festa de formatura dos alunos da escola, uma vez por ano uma gincana que durava o dia todo e demandava uma certa organização prévia da comunidade. Uma vez por ano, fazíamos uma faxina geral de tudo. E, é claro, aprendíamos a cantar o hino nacional japonês.

A comunidade começou a se desfazer em 1985. Muitas famílias foram buscar melhores oportunidades de educação e trabalho para os jovens, principalmente em Maringá. Meus tios quitaram as dívidas e compraram outra propriedade na região de Curitiba. Nós viemos para cá. Aqui estavam as irmãs de minha mãe e uma de minhas irmãs, que já trabalhava e estudava na cidade. Minhas outras irmãs logo se arranjaram, com auxílio de familiares, em empresas cujos proprietários também eram descendentes de japoneses. Uma relação de confiança. Meu pai faleceu logo depois.

As escolas estaduais em que havia estudado até então eram boas. Consegui uma bolsa de estudo em uma escola católica, onde trabalhava minha tia, e não tive dificuldades para concluir o equivalente ao ginásio. A diretora, filha de japoneses, conversava constantemente com cada um dos alunos, mas exceto pelas constante referência aos nomes do bispo Dom Jaime e do padre Tanaka, nada poderia  fazer-me suspeitar que ela havia sido nomeada pela arquidiocese. Fora as aulas de religião, ministradas pela irmã Praxedes, que não valiam nota, não reprovavam e que versavam sobre fatos que, ou não conseguia compreender plenamente ou que estavam sujeitos a muitas interpretações ou ainda não conseguia atribuir um valor de verdade; posso dizer que minha educação foi laica. Após isso, eu e outros colegas dormimos duas noites em uma fila para conseguir vaga naquele que era considerado na época o melhor colégio estadual da cidade. Conseguimos.

Novas oportunidades de trabalho se abriram no Japão. Duas de minhas irmãs foram para lá. A outra se casou. Disseram-me que eu não precisaria me preocupar com trabalho e que poderia escolher qualquer curso para fazer na universidade, que elas bancariam os gastos da família. Em 1993 comecei o curso de ciência da computação. Consegui notas razoáveis no primeiro semestre, um estágio no Banco do Brasil das dezenove às uma, me livrar do serviço militar e comprar um computador usado de meu primo, que estava indo para o Japão, abandonando os estudos. Minhas notas decaíram no segundo semestre. Existiam duas disciplinas, Algoritmos e Cálculo, em que minhas notas não eram as melhores da turma; mas eu era um dos poucos que não foram em exame em nenhuma das duas. Isso me valeu uma bolsa de pesquisa até o término do curso.

Dois motivos me deixaram desestimulado com a carreira acadêmica na época: intrigas entre professores do departamento e professores que, além de não darem uma formação suficiente para que o aluno atue na área, não sabiam eles próprios fazer outra coisa além de serem professores. Em geral, saiam da graduação, faziam mestrado e depois vinham para a sala de aula. Não queria ser mais um. Não poderia juntar-me ao que eu criticava. Outros três críticos seguiram a carreira acadêmica. Um quarto colega, a quem eu estimulava seguir, desistiu.

Estava com dificuldades de me empregar na cidade. Depois de um ano persistindo, segui o exemplo de outros colegas e fui procurar emprego em São Paulo. Consegui. Fui contratado por uma pequena empresa de consultoria para desenvolver sistemas em Goiânia. Fiquei feliz por dois anos. Era o que eu queria. Fazer parte de uma equipe que sabe como trabalhar de forma organizada e documentada. Trabalhar em algo que era prioridade da empresa, que fosse realmente importante e ser uma peça importante no processo. Salário e regalias inimagináveis. Poderia construir em alguns anos o que meu pai levou a vida toda para fazer. O ritmo de trabalho era pesado, mas sentia que estava usando plenamente a minha capacidade, consegui resolver todos os problemas que me foram passados, e sabia que, caso não conseguisse, havia alguém a quem eu poderia recorrer. No terceiro ano, já considerava a técnica totalmente dominada e o trabalho, repetitivo. O fim de um relacionamento de cinco anos reduziu consideravelmente minha motivação. Adicionado a isso, sempre me senti um estranho em Goiânia. Não tinha vínculos familiares com a cidade e as pessoas freqüentemente me perguntavam se eu havia nascido no Japão, e se sentia falta de lá. Não era a minha terra. Apavorava-me a possibilidade de me acostumar com o lugar e acabar ficando por lá.

Tirei um ano para conhecer o mundo. O momento parecia adequado. Três semanas na Bolívia, Peru, Chile e Argentina. Dez meses no Japão. Trabalhei um mês carregando mudanças viajando a região central do Japão, cinco meses em uma fábrica de alimentos na região de Osaka e Kobe, uma semana como agricultor na província onde estava minha irmã. Quatro meses levando sobrinhos à escola e passeando. Durante todo esse período, conheci as principais cidades do Japão e a terra natal de meus avós, ao sul. Vi folhas amarelando e caindo, a neve, as flores de cerejeira. Conheci pessoas, como elas vivem, como agem e o que pensam.

Não me identifiquei com as grandes cidades japonesas. Nem mesmo com as pequenas. Achei-as muito impessoais, ou que o estilo de vida das pessoas que nelas moram não me fazia sentido. Mas no sul do Japão, no vilarejo onde morava um parente, senti-me quase como em casa. Ambiente familiar e pessoas que lembravam as velhas senhoras e os senhores da minha infância. Pessoas que me cumprimentavam a um metro de distância, sem me conhecerem, nas minhas caminhadas matinais ou vespertinas. Identidade com a terra e com os ancestrais. Valores e história. O templo do bisavô da minha avó. Raízes que se perdem. Esse meu tio tem dois filhos, ambos se formaram em universidades públicas próximas e foram atrás de melhores oportunidades de trabalho. Um trabalha em uma companhia de seguros americana em Tóquio, outro trabalha como bancário na província vizinha. Segundo meu tio, a possibilidade deles voltarem para a terra de origem é nula. Não conseguiriam viver sem um supermercado.

Retornei em abril de 2002. Havia decidido fixar-me em Maringá. Novamente problemas em arranjar emprego. Não existe mercado, não há anúncios no jornal. Não necessitam de gente qualificada. Sinto que minha vida está parada. Resolvo fazer um curso para me manter ocupado, e trabalhar algo que havia deixado de lado até então. Qualquer coisa fora de exatas e tecnológicas. Várias opções. Grego antigo. Filosofia.