Marcos Katsumi Kay
Comentário do Livro IV
Discurso do Método
Trabalho apresentado como exigência parcial para obtenção de aprovação na disciplina semestral Redação Filosófica do curso de Licenciatura em Filosofia, ministrado pelo prof. José Lourenço.
Universidade Estadual de Maringá
Maringá – 2002
Introdução
Após as grandes navegações e o Renascimento,
a necessidade de se reunirem os pensamentos contemporâneos num único e coerente
sistema filosófico (filosofia de base, cujo objetivo é encontrar
respostas a todas as questões filosóficas importantes) voltou a se
apresentar. Somente no século XVII é que a filosofia tentou reacomodar os novos
pensamentos num sistema filosófico. O primeiro a fazer esta tentativa foi
Descartes. Ele deu o pontapé inicial naquilo que se tornaria o mais importante
projeto filosófico para as gerações seguintes. A primeira coisa com a qual ele
se preocupou foi com aquilo se já sabemos, isto é, com a questão de saber se
nossos conhecimentos eram realmente seguros. A segunda questão que mais
lhe ocupou a atenção foi a relação entre o corpo e a alma. Essas duas
problemáticas viriam ocupar a discussão filosófica dos próximos cento e cinqüenta
anos.
Este trabalho consiste em um comentário do
Livro IV do “Discurso do Método”, de Descartes, na qual o filósofo se ocupa
dessas duas temáticas.
Comentário
O século XVI foi uma época de profundas transformações na visão de mundo do homem ocidental, época marcada por verdadeira paixão pelas descobertas. No tempo e no espaço abrem-se novos horizontes: eruditos redescobrem antigas doutrinas filosóficas e científicas, forjadas pelos gregos, e em nome das quais tornara-se possível constituir uma sabedoria nova, oposta às concepções que prevaleceram na Idade Média; simultaneamente, viajantes e aventureiros rasgam continentes e mares, descobrindo terras e povos. A antiguidade greco-romana renasce através de seus pensadores e artistas, enquanto se constitui uma nova imagem geográfica do mundo. Essa efervescência, que caracteriza a atmosfera intelectual do Renascimento, traz consigo a rejeição das idéias até então vigentes e que estiveram garantidas sobretudo pelo peso de autoridades agora contestadas. Tudo é sacudido ou destruído: a unidade política, religiosa e espiritual da Europa; as afirmações da ciência e da filosofia medievais, calcadas principalmente em Aristóteles; a autoridade da Bíblia, posta em confronto com os dados das novas descobertas científicas; e o prestígio da Igreja e do Estado, abalado pelo movimento da Reforma e pelas guerras motivadas por dissidências políticas ou religiosas. Além disso, se o homem europeu descobre que há idéias bem diversas das que vinham docilmente aceitando como únicas verdadeiras, e se passa a saber que há outros povos vivendo segundo padrões bem diferentes daqueles que lhe pareciam os únicos legítimos, é natural que se espalhe uma vaga de descrença e de dúvida.
No campo filosófico e científico, a
superação das incertezas não poderia resultar de correções parciais que
tentassem aproveitar a visão de mundo medieval. Era preciso começar tudo de
novo, encontrar novo ponto de partida e demarcar novo itinerário que conduzisse
com segurança a certezas científicas universais. As múltiplas opiniões eram
caminhos vários e inseguros que não levavam a qualquer meta definitiva e
estável. Era necessário que se encontrasse não um caminho, mas o caminho certo.
Que se impusesse a todos os demais como único legítimo porque o único capaz de
escapar ao labirinto das incertezas e das estéreis construções meramente
verbais, que levasse à meta ambicionada: precisava-se achar o método para a
ciência. Descartes busca na razão os recursos para a recuperação da certeza
científica, o que só a matemática havia alcançado até então.
Descartes percebe que, para dar legitimidade
às ciências e livrá-las da dúvida e da incerteza, havia apenas um caminho:
radicalizar a dúvida e esgotá-la em todas as dimensões. Parece impossível
vencer a dúvida evitando-a ou instalando desde logo uma certeza frágil. Frágil
justamente porque não foi suficientemente submetida aos testes da dúvida. Sabe
intuitivamente que a verdade é clara e distinta, e que se impõe pela força de
evidências. Mas o que garante que o que é claro e distinto corresponda à
verdade? Nesse esforço de fundamentação da certeza, passa a duvidar até mesmo
das idéias claras e distintas, que o espírito espontaneamente admite como
evidentes.
No livro IV do Discurso do Método, Descartes
coloca a sua metafísica à validação dos leitores. E parte do princípio que não
podemos ter certeza de nada. Mas enquanto pensava que tudo era falso, pensava.
E daí encontra a sua primeira certeza, que existia: “Penso, logo existo”.
Mas mesmo sabendo que existia, não havia
nada que desse a certeza de que possuía um corpo e que havia alguma realidade
exterior a si. Existia, e isso independia de corpo ou mundo exterior. O pensar
era a essência do ser.
Mas que era necessário a uma proposição para
considerá-la verdadeira? Refletindo sobre a sua primeira verdade, viu que não
havia nada no “penso, logo existo” que garantisse que ele dizia a verdade,
exceto a clareza e distinção de que, para pensar, é preciso existir. E assume
essa regra, a clareza e a distinção, para tomar algo por verdadeiro.
Tinha a noção do que era perfeito. E que só
poderia ter vindo de algo mais perfeito que ele. Poderia entender as coisas
imperfeitas como dependências de sua imperfeição. Mas algo mais perfeito não
poderia ser tirado dele, mas ter sido colocado por uma natureza mais perfeita.
E que possuísse toda a perfeição que tivesse idéia. Que fosse Deus. Já não era
o único que existia. A perfeição provém de um ser superior, e tais noções têm
que ser colocadas. As imperfeições, não. Não poderia ser o contrário? Descartes
estava convicto de que não. “Pois, se eu fosse sozinho e independente de
qualquer outro, de maneira que tivesse recebido, de mim próprio, todo esse
pouco mediante o qual participava do Ser perfeito, poderia receber de mim, pelo
mesmo motivo, todo o restante que sabia faltar-me, e ser assim eu próprio
infinito, eterno, imutável, onisciente, todo-poderoso, e enfim ter todas as
perfeições que podia perceber existirem em Deus.”
E seguiu procurando outras verdades. Um
objeto dos geômetras, um triângulo, por exemplo, pode ser clara e distintamente
definido (como figura cuja soma dos ângulos internos é 180º). Mas nada garante
que tal figura existe. Porém, da mesma forma que a soma dos ângulos de 180º
está inclusa em um triângulo, a existência está inclusa na idéia do ser
perfeito, tal qual qualquer demonstração de geometria. Diz Descartes: "ao
voltar a examinar a idéia que eu tinha de um Ser perfeito, verificava que a
existência estava aí inclusa, da mesma maneira que na de um triângulo está
incluso serem seus três ângulos iguais a dois retos (...) esse Ser perfeito, é
ou existe quanto seria qualquer demonstração de geometria."
Muitas pessoas acham difícil conhecer a Deus
ou a alma. Isso ocorre porque estão muito ligadas ao mundo sensível. E não ser
para eles inteligível o que não é imaginável. A razão é faculdade que garante o
conhecimento. Não os sentidos e a imaginação. Descartes despreza uma máxima dos
filósofos nas escolas: “que nada existe no entendimento que não haja estado
primeiramente nos sentidos, onde, contudo, é certo que as idéias de Deus e da
alma nunca estiveram.” Compreendo, analisando este e os dois parágrafos
anteriores, que o pensador entendia a prova da existência de Deus como a
demonstração de um teorema matemático. E que a comprovação clara e distinta
desse teorema seria o suficiente para garantir a existência desta entidade, não
sendo necessário procurá-lo no mundo sensível e sendo até inútil fazê-lo.
Para a metafísica (não para a moral), tem-se
menos certeza do corpo e do mundo físico do que da alma e de Deus. Como disse
Descartes, tudo que é claro, distinto e perfeito provém de um ser superior,
Deus. E isso garante que o que parece claro e distinto é verdadeiro.
Por fim, o sono não pode fazer desconfiar
das idéias. Quando em sonho vê-se a demonstração de um teorema, mesmo sendo um
sonho, a demonstração sendo clara e distinta, não deixa de ser verdadeira. E as
idéias podem enganar repetidamente quando despertos. Quer desperto ou dormindo,
deve-se fiar da evidência da razão.
A primeira coisa com a qual Descartes se
preocupou foi com a questão de saber se nossos conhecimentos eram realmente seguros.
A segunda questão foi a relação entre o corpo e a alma.
Precisamente na época em que Descartes
viveu, a nova ciência natural tinha desenvolvido um método que, a seu ver,
levava a uma descrição exata e muito confiável dos processos da natureza. A
nova física também tinha colocado a questão da natureza da matéria, isto é, a
questão de saber o que determina os processos físicos na natureza. Mais e mais
pessoas defendiam uma compreensão materialista da natureza. E quanto mais
mecanicista era a compreensão do mundo físico, mais urgente se tornava a
questão da relação entre corpo e alma. Os objetos físicos, inclusive o corpo do
homem e do animal, eram explicados como um processo mecânico. Mas a alma dos
seres vivos e objetos e o saber herdado pela tradição de Aristóteles/Tomás de
Aquino eram um empecilho a essa explicação. A característica mais notável da
natureza é o movimento ou a mudança; para Aristóteles toda mudança é a geração
de um efeito por uma causa; diz-se que sua filosofia tem um caráter biológico,
porque nela, toda mudança deve ser vista como fazer nascer. Como conhecer, para
ele, era achar as causas, a física seria a explicação do movimento por suas
causas, que seriam encontradas nos vários seres que existem. O saber herdado
pela tradição de Aristóteles/Tomás de Aquino considerava que cada substância
tinha uma forma ou essência que a identifica, e nada mais estranho a esse saber
do que conceber a física como um conjunto de leis da natureza válidas para
todos os fenômenos, independentemente da essência de cada um.
Galileu já condenara esse modo de pensar,
porque desprezava o estudo das essências para a compreensão dos fenômenos
naturais, substituindo-o pela visão das relações matemáticas entre os
fenômenos. A crítica de Descartes foi mais longe: criticando a forma
substancial, afirmou que a ciência deve pretender uma separação total entre a
substância física (material) e a psíquica (espiritual-alma), afastando qualquer
princípio interno ou essência que não possa ser tratado matematicamente.
A destruição da forma substancial e a
afirmação da separação entre substância pensante (espírito) e substância
extensa (matéria) são os princípios fundadores da ciência moderna. E os devemos
a Descartes.
Mas, o que realmente importa observar, é que
ele criticou a ciência aristotélico-escolástica por misturar quantidade e
qualidade no estudo da realidade; e foi por isso que recorreu à matemática - a
física se tornou físico-matemática, desprezando os aspectos qualitativos das
coisas, estudando apenas o quantitativo, aquilo que pudesse ser submetido ao
rigor matemático (a extensão - os corpos materiais); assim, lançou os
fundamentos da física moderna, continuando o caminho aberto por Galileu.
Conclusão
René Descartes é considerado o fundador do
pensamento moderno. Presença histórica forte e de influência decisiva na
evolução do nosso tempo, legou-nos não apenas uma filosofia, mas uma proposta
de civilização, com a qual o Ocidente vem dialogando no decorrer dos últimos
três séculos. Conhecê-lo é compreender as raízes das concepções de homem e de
mundo que ainda hoje governam as nossas relações com a filosofia, a ciência e a
técnica.
Bibliografia
DESCARTES, René. Discurso do Método, in: Os Pensadores. vol. XV. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
LEOPOLDO E SILVA, Franklin. Descartes. São Paulo: Editora Moderna, 1998.
GUENANCIA, Pierre. Descartes, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1986.
ROVIGHI Sofia
Vanni. História da filosofia Moderna São paulo ed, loyola-1999.