Outra evidência deste processo de rebaixamento social reside na
significativa expansão de ocupações típicas de classe média assalariada ou
autônoma que se encontram nos níveis de massa trabalhadora ou de marginalizados.
Ou seja, que não atingem sequer o padrão de baixa classe média. Trata-se
majoritariamente de famílias de comerciários, funcionários administrativos e
auxiliares das áreas sociais.
No segmento de assalariados, 4 milhões de pessoas desta classe média
"potencial" encontravam-se no nível de massa trabalhadora em 1981 (3,33% da
população total). Em 2002, este contingente cresce para 9,9 milhões,
equivalentes a 5,77% da população. Entre os autônomos, a evolução vai de 1,2
milhão em 1981 (1,04%) para 2,1 milhões em 2002 (1,20%).
Mais grave ainda é o que se verifica entre os marginalizados. De fato, em
1981 encontravam-se neste nível mais precário da estrutura social 1,5 milhão de
pessoas de famílias com ocupações típicas de classe média assalariada (1,25% da
população total). Em 2002, eles avançam para 5,5 milhões (3,22%). Entre os
autônomos, por sua vez, a expansão é de 650 mil em 1981 (0,55%) para 1,6 milhão
em 2002 (0,91%).
Se somarmos todos estes segmentos apontados, temos um contingente de
desclassificados de classe média assalariada ou autônoma da ordem de 5,2 milhões
de pessoas em 1981, equivalentes a 25,5% do total destes grupos
sócio-ocupacionais (28,7 milhões). Em 2002, eles já atingem a massa de 19,1
milhões de pessoas, envolvendo a espantosa proporção de 39,2% das 48,6 milhões
de pessoas que se encontravam em famílias destes mesmos grupos.
Em relação ao terceiro componente da classe média – os micro e pequenos
proprietários –, uma avaliação mais conclusiva ainda depende de informações não
contempladas pela base de dados que fornece suporte a este ensaio.
A PNAD permite identificar os empregadores com até 10 assalariados apenas
a partir de 1992. Comparando-se a participação dos membros destas famílias no
total da população, verifica-se, neste período, um quadro de estabilidade com
ligeira retração. De fato, em 1992 eles atingiam 4,73% da população e, em 2002,
4,65%.
Entretanto, observa-se uma melhora na sua composição: em 1992, 11,6% dos
membros das famílias da classe média de proprietários atingiam um padrão de vida
de alta classe média. Em 2002, eles avançam para 17,9%. No padrão de média
classe média, o aumento é menos expressivo, de 21,5% para 24,3%. E, no de baixa
classe média, a participação praticamente não se altera, indo de 36,4% para
36,3%.
Em conjunto, os três segmentos com padrão de vida de classe média crescem
de 69,5% do total de membros destas famílias em 1992 para 78,5%, em 2002. Caso a
proporção de 1992 tivesse se mantido em 2002, a parcela que atinge um padrão de
pelo menos baixa classe média somaria 5.550 mil pessoas, contra as 6.270 mil que
se observam efetivamente. Ou seja, a melhor composição beneficiou um contingente
de 720 mil pessoas.
Entretanto, como já foi dito anteriormente, uma avaliação mais conclusiva
a respeito da evolução deste influente segmento social requer análises
adicionais. Com os elementos que dispomos neste momento, apenas podemos
identificar que a classe média proprietária manteve seu peso na população no
período examinado, e apresentou melhoras em sua composição interna.
Contudo, ainda não incorporamos os diagnósticos relativos à movimentação
interna a esta camada social, ou seja, o fluxo de natalidade e mortalidade que a
caracteriza. Em outras palavras, quem e quantos caíram, entraram ou
permaneceram, suas condições de trabalho, etc. Apenas sabemos pelos dados da
PNAD que no segmento com padrão de alta classe média, a renda familiar declarada
caiu de R$ 9.658 em 1992 para R$ 9.587 em 2002. No padrão de média classe média
subiu de R$ 3.507 para R$ 3.604 e, no de baixa classe média, de R$ 1.671 para R$
1.708. E isto após 10 anos e tomando-se como base de comparação um ano de
péssimas condições no mercado de trabalho e oportunidades, com forte recessão e
queda nos rendimentos.