Neste trabalho, procuramos apresentar as condições gerais que
interferem nas trajetórias individuais e sociais neste longo período de
persistente estagnação econômica (1981-2002). O cenário que resulta desta
abordagem é claramente desfavorável à ascensão social, com sensível
estreitamento dos espaços das duas camadas mais diferenciadas da população, ou
seja, das famílias que atingem um padrão de vida de alta e média classe média.
Por outro lado, além do encolhimento das oportunidades, deve-se
acrescentar a significativa elevação dos gastos que compõem este padrão mais
diferenciado. Basta mencionar as despesas com escolas privadas, planos de saúde,
locomoção, segurança, dentistas, psicólogos, oculistas, cuidados estéticos,
vestuário, restaurantes, férias e viagens, celular, internet etc. Combinando-se
restrições ocupacionais, perda de renda e elevação do custo de vida, percebe-se
que o padrão de vida de classe média diferenciada vai se tornando inacessível à
crescente parcela de famílias que se encontram neste nível social. Ocorre que é
justamente tal padrão de vida que, em grande medida, confere competitividade
social a seus membros. Desta forma, este quadro aponta nitidamente uma grave
crise de reprodução social na classe média, em que os mais jovens encontram
dificuldades crescentes, e mesmo, para muitos, intransponíveis, para manter o
padrão de vida de suas famílias de origem. Por sua vez, milhões de jovens
defrontam-se com as vergonhosas condições de vida que imperam entre os pobres e
miseráveis.
Não temos dúvida em identificar nesta crise juvenil o aspecto mais grave
desta situação. Ou seja, nos horizontes sombrios e na falta de perspectivas que
assolam a juventude brasileira. E que, em suas manifestações mais primitivas e
brutais, resulta nos níveis absurdos de violência e mortalidade juvenis.
Para completar, além do componente etário, devemos considerar ainda as
diferenciações por raça e gênero que conformam uma clara hierarquia social que
vai dos homens brancos (não negros) no topo e desce para mulheres brancas,
homens negros (e pardos) e mulheres negras.