PENTECOSTALISMO NO BRASIL

Extraído do estudo de:

Profa. Yara Nogueira Monteiro
Professora do curso de Pós-graduação em Ciências da Religião do Instituto Metodista de Ensino Superior.

O pentecostalismo foi introduzido no Brasil no início de nosso século e, desde entao, apresentou um crescimento contínuo tanto numérica como geograficamente.  A partir da década de 60, época que ocorre e desenvolvimento da industrializacao e intenso exodo rural que acaretam importantes modificacoes na vida brasileira, percebe-se uma aceleracao no crescimento do pentecostalismo e o aparecimento de numerosas denominações.  Nessa década ocorre, também, a eclosão do chamado «movimento de renovacao espritual» ou carismático, dentro das igrejas do Protestantismo de Missão que mesclava doutrinas e práticas do pentecostalismo aos conteúdos doutrinários tradicionais. Esse movimento nao foi aceito pacificamente e numerosos expurgos ocorreram dentro das diferentes igrejas.  Com isto novas denominacoies nasceram e foram adqurindo características própias (Bittencourt Filho, 1993).  Esse fenomeno também ocorreu dentro da igreja católica. Além do pentecostalismo e dos movimentos carismáticos, tem-se ainda um terceiro, que vem apresentando intenso crescimento e está sendo denominado de neopentecostalismo, pentecostalismo autonomo ou agencias de cura divina. Esse movimento se caracteriza, em especial, pela «comercializacao» de bens simbólicos.

O crescimento desses movimentos foi dimensionado pelo Censo Institucional Evangélico, este realizou importe pesquisa na regiao metropolitana do Rio de Janeiro e apesar de ser circunscrito a aquela regiao, é indicativo da situacao no país.  O senso constatou que, a partir de 1989, a cada día, surgía uma nova Igreja na regiao pesquisada. Esse fenômeno vem chamando atenção de pesquisadores de várias áreas da ciência, tais como: história, sociologia, antropologia e ciencias da religiao.  O crescimento do pentecostalismo, do movimento carismático e, em especial, do pentecostalismo autônomo, tem recebido explicações diversas, tem sido objeto de atenção de grupos de políticos e é olhado com «reserva» pelas igrejas tidas como tradicionais.

A partir dos anos 80, quando a temática «pentecostalismo» passou a ser assunto frequente na imprensa, tem-se uma aumento da «cuiosidade» científica para com o campo religioso brasileiro, em especial para com o chamado pentecostalismo autonomo.  entretanto quando vamos analisar muitas das publicacoes que estao surgindo, nos deparamos com um problema extremamente sério, que são os critérios de diferenciação utilizados.  Para alguns, o «pentecostalismo» seria uma espécie de «membros desviantes» das igrejas da Reforma; para outros (em geral protestantes) eles nem deveriam ser considerados protestantes (ainda que as molduras eclesiásticas e teológicas dos pentecostais sejam protestantes).  O aparecimento de diferentes denominações em curto espaco de tempo, e o crescimento de muitas delas ainda vem complicar mais o quadro.  Devido a isso, para a compreensao do fenômeno, é necessário que se tenha critérios seguros que permitam que se estabeleça diferenciação entre protestantismo «tradicional», pentecostais clássicos, carismáticas, e grupos pertenecentes ao pentecostalismo autonomo.

De forma geral, quanto ao pentecostalismo autônomo, o grande público nao consegue diferenciá-los do restante do protestantismo (afinal nao sao católicos, nem espíritas nem afros); as Igrejas protestantes tradicionais nao querem ser confundidas como esses movimentos, mas também nao os distingue do pentecostalismo clássico e este, por sua vez, parece nao estar preocupado em dar satisfações à ninguém.

MOVIMIENTO PENTECOSTAL NO BRASIL: RETROSPECTO HISTÓRICO

A introducao do protestantismo no Brasil, e posteriormente o aparecimento do pentecostalismo encontram-se inseridos numa conjuntura histórica mais ampla.  Num rápido retrospecto histórico vemos que o Brasil foi marcado pela colonizacao portuguesa, que trouxe, para seu território, uma cultura ibérica marcada pelo catolicismo tridentino.  A religiao católica foi a única permitida no país até inícios do século XIX, quando a liberdade religiosa foi permitida devido a interesses políticos.

No século XIX ocorreu a chamada «Expansao Protestante» (1814- 1914) que é vista como fruto do expansionismo do campitalismo europeu, que acompanhou a segunda expansao colonialista (partilha da Africa, independencia da América Latina que sai da órbita ibérica e entra na da Inglaterra).  A partir da segunda metade do século XIX, chegaram os primeiros missionários protestantes ao Brasil.  Esses faziam parte da chamada «Missao civilizatória» que visava implantar de um novo modelo socio-político-economico-religioso (destino manifesto).

Importantes modificacoes ocorreram no início do século XX.  Ao se analisar o campo religioso brasileiro, e mesmo latinoamericano, veremos que as modificacoes ocorridas oincidem como as alteracoes do quadro histórico decorrente da 1ra. Guerra Mundial (dificultades de comunicaco afrouxam os lacos com a Europa, aprecem outras prioridades, etc).  No Brasil temos o surgimento dos primeiros movimentos pentecostais, em 1910 com a Congregacao Crista no Brasil e em 1911 com a Assembléia de Deus.

PENTECOSTALISMO CLÁSSICO

Num primerioro momento, o pentecostalismo aparece como uma variante do protestantismo, porém mais próxima das manifestacoes populares, algo como um Protestantismo nacional.  As duas principais igrejas que compoem o pentecostalismo clássico sao a Congregacao Crista no Brasil e a Assembléia de Deus.  E interessante destacar que esses dois movimentos tiveram origem de um núcleo comum: Chicago.

Assembléia de Deus.  Foi fundada, em 1911, pelos suecos, Daniel Berg e Gunnar Vingren.  Berg frequentava a igreja Batista de Chicago W.H. de Durham, veio para o Brasil como missionário em uma igreja Batista em Belém do Pará que, após a cisao deu origem à Assembléia de Deus.  Começou no norte, nordeste e depois é que foi para o sul.  A pesar de seu grande crescimento nos centros urbanos, também tem se alastrado pelas zonas rurais.  A maioria de seus adeptos provém das camadas populares.

A teologia é conversionista e possui atividades prosilitistas.  Possui sua própria casa publicadora, edita livros, revista e o jornal «Mensageiro da Paz».  Possui institutos bíblicos destinado ao preparo da lideranca.

Nos últimos tempos tem se preocupado com sua representacao política; num primerio momento apoiava candidatos, depois passou a indicar pessoas dentro dos mebros.  O grande número de fiéis tem permitido a eleição de grande número de vereadores e deputados, possui ainda uma senadora.

A Congregacao Cristã No Brasil pode ser considerada uma igreja brasileira.  Foi fundada, em 1910 por um estrangeiro, Luigi Francescon, que nao era missionário e nem era sustentado por uma instituicao do exterior.  Fransciscon, italiano emigrado para os Estados Unidos, pertencia á Igreja Presbiteriana italiana de Chicago e teve contatos como a igreja batista de Durham.  Por revelação, viajou para o Brasil, indo primeiro para o Paraná, cidade de Santo Antonio da Platina, e depois para a cidade de Sao Paulo que funcionou como foco irradiador do movimento.  Sua expansao é a partir do Brasil para o exterior; no inicio o chamava-se Congregacao Crista do Brasil, o nome sofreu alteracao quando de sua expansao internacional.

Crê na predestinação.  Não tem cultos ao ar livre, não imprime folhetos, não tem programas de rádio ou televisão e não faz campanhas evangelísticas, que, aliás são proibidas. Nao faz apelos à conversão.  Seus membros crêm que só os verdaderamente chamados permanecem (nesse ponto são presbiterianos ortodoxos).

Existe uniformidade doutrinária que é mantida através de assembléis anuais, onde é reunido o corpo sacerdotal (anciãos, cooperadores e diáconos) por tres dias.  A princípio, estas eram realizadas apenas na cidade de Sao Paulo, porém o número de pessoas fez como que tivessem que ser regionalizadas.  Atualmente, acontecem em cinco locais diferente do país (norte, nordeste, centro-oeste, sudeste e sul).  Mantém uma cultural oral, nao tem publicacòes (só o relatório anual), nao recomenda a leitura de literatura específica, somente a Biblia.

Nao existe cobrança de dízimo e nenhum cargo é remunerado.  O resultado das coletas realizadas mensalmente é dirigido para construção de tempos, obras de caridades e viagens missionárias.  Entretanto não é a direcao da igreja que decide o percentual de valores a ser empregado em cada um dos íntens, mas o próprio fiél que, quando dá sua oferta, indica onde quer que seja empregado.

A Congegacao nao paticipa de atividades políticas e nao indica cadidatos.

A administracao material é centralizada em grandes polos regionais e praticamente inexiste autonomia das congregações locais.  Nao se sabe o número de membros pois nao há estatística a respeito.  Seu crescimento pode ser dimensionado através do número de construcões de templos, que na cidade de Sao Paulo tem correspondido a uma média de 1.3 por mês.  Desde a data de sua fundação, nao apresentou discidência.

PENTECOSTALISMO AUTÔNOMO

A proliferacao desse movimento no Brasil é tao grande que se torna difícil a elaboracao de um levantamento dada a diversidade e efemeridade de muitas das denominações surgidas.  Aquí tem-se uma questao teórica: seriam realmente pentecostais todas as denominações alternativas geralmente chamadas «pentecostais»?  Verifica-se que, na realidade, sao designadas pentecostais por exclusão às Igrejas históricas e pela prática da cura divina.  De acordo com Mendonça (1990, p. 46), esses grupos deveriam ser chamados de «agencias de cura divina» uma vez que não apresentam características de igreja. Nao possuem corpo de fiéis fixo, mas uma populacao flutuante à qual prestam serviço religioso mediante contribuiçao do beneficiado (Mendonça, 1990).

Esse movimento é extremamente heterogêneo, tem-se desde pequenos grupos basicamente familiares como tem-se, por exemplo na região Liberdade em Sao Paulo, até conglomerados gigantestos como o da Igreja Pentecostal «Deus é Amor» de David Miranda ou como a Igreja Universal do Reino de Deus, fez com que se centrassem nela os olhos da sociedade em geral e do mundo evangélico em particular, a ponto de ofuscar o restante.  O sucesso «religioso» e financeiro, o fato dela se utilizar de numerosas rádios e possuir seu próprio canal de televisao magnetiza os olhares e provoca arrepios em campos diversos, desde o das igrejas até o formado pelo mundo das comunicaoes.

Não importando o tamanho, todas têm em comum uma estrutura empresarial onde bens simbólicos sao comercializados.  Nestas, a cura, o milagre é o fim.

O fenomeno da proliferação de diferentes seitas desafiam todos aqueles que se preocupam como a compreensão do campo religioso brasileiro.  Questões que sao colocadas pelas ciencias sociais permanecem ainda sem resposta.  Quem são e por que as pessoas procuram esses movimentos.  A evasão de fiéis tem sido preocupação constante das igrejas tradicionais, que buscam responstas a esse fenômeno, a ponto da igreja católica ter encomendado uma pesquisa que lhe fornecessse informações e dados sólidos para que pudesse tracar seus novos rumos.

Atribui-se o sucesso desses movimento à uma série de fatores, tais como: à sua flexibilidade, sua capacidade de ajustamento às diferentes situações do cotidiano, às estruturas organizacionais simples que permitem a participação do fiél, à capacidade de oferecer sentido de reorganizacao de vida, etc.  A situação de crise vivida pelo Brasil, em especial nas última décadas, o empobrecimento dos estratos médios da população, o aumento da massa de miseráveis, a crise no sistema de saúde, também sao apontados como causas prováveis que estariam contribuindo para o crescimento desses movimentos que serviria como uma espécie de íma para a massa desesperada em busca de um mínimo de condicoes que lhe permitisse a sobrevivencia, tal como saúde e emprego.

Se faz urgente e necessário a elaboração de critérios metodológicos que nos permitam levantar, identificar e classificar os diferentes movimentos, agrupa-los para depois analisál-os.

Hosted by www.Geocities.ws

1