home / perfil / prêmios / imprensa / entrevistas / trilhas / discos / fotos / agenda

ENTREVISTAS

I -  A ETERNA FORÇA DA MÚSICA PROGRESSIVA   (janeiro de 2001)

II - ENTREVISTA PARA A REVISTA ALEMÃ "PROGRESSIVE NEWSLETTER"  (maio de 2000)

III -  MARCO AUREH CANTANDO SYLVIA ORTHOF (março de 2003)

I - A ETERNA FORÇA DA MÚSICA  PROGRESSIVA

     Aurêh sempre esteve ligado ao movimento progressivo. Foi o criador, apresentador e co-produtor do programa Tribuna Progressiva na rádio Tribuna FM durante 4 anos consecutivos. Fundou a banda Lummen com quem lançou o CD “Ao Vivo no Rio Jazz Club” em 1999, pelo selo Som Interior. Tem participado como flautista convidado em vários  discos de artistas do gênero como Anno Luz, Tempus Fugit, André Mello e Anima Dominus . Confira maiores detalhes nesta entrevista exclusiva para este site.

 
1
- Como você vê o atual cenário da música progressiva?
 
    Vai bem. Não tão bem quanto merecia e quanto a gente gostaria, mas felizmente houve um crescimento do movimento na década de 90 em todo o mundo, sobretudo no Brasil.

 
2 -
Mas as dificuldades continuam.
   
Embora o progressivo continue sobrevivendo - e isso se deve ao fato dele ser arte e não um modismo passageiro - não podemos deixar de reconhecer que o estilo sofre um imenso contratempo nos dias atuais. Numa sociedade capitalista-materialista  onde  “Time is money” é o lema, qualquer tipo de arte se sente como um estranho no ninho. Tudo virou instantâneo, fax, e-mail, celulares, bips, computadores, etc... a música que precisa de um tempo para ser elaborada, tempo para ser gravada e tempo para ser apreciada, enfrenta sérias dificuldades. É um absurdo a inspiração ficar limitada à 3 minutos, passando disso, as rádios já não tocam, sem contar o “jaba” cobrado pelas principais emissoras que atinge valores altíssimos. Ou seja, a qualidade da música é o que menos vale. O progressivo não interessa ao sistema ganancioso, ele prefere investir numa “música” barata, pobre e descartável; o pior é ver alguns jornalistas que criticam o gênero caindo nessa jogada que é uma armação que envolve outros interesses. Ainda bem que o movimento sempre buscou veículos alternativos e o público específico sabe onde encontrar a música que lhe agrada. Os caminhos estão ficando cada vez mais segmentados com as TVs à cabo e a Internet, isso será muito bom para o progressivo.

 
3 - Fale sobre as novas bandas progressivas.

    
Tem surgido muitos grupos mas são poucos os que apresentam originalidade - aquela identidade que faz com que a geente reconheça imediatamente a assinatura musical. Algumas bandas da nova geração se preocupam mais com os cichês dito progressivos do que com a música propriamente dita. Esse pré-conceito soa falso, é muito racional. As grandes bandas prog no auge do movimento não se preocupavam com essa coisa de ter uma receita fechada, a música era mais importante, ela é quem ditava as regras, fosse uma simples balada de 2 minutos ou uma imensa suíte conceitual. Foi essa liberdade que gerou as grandes obras, foi essa liberdade que proporcionou o surgimento de bandas completamente distintas entre si. No Brasil, tem surgido grupos bastante criativos. Nunca o progressivo foi tão forte neste país, no entanto, há uma escassez de eventos relacionados ao gênero. O ideal  seria que as bandas progressivas (principalmente as brasileiras) tivessem uma agenda cheia e não pequenos shows de ocasião.



4 -
Qual a sua opinião a respeito da polêmica em torno dos termos Rock Progressivo, Música Progressiva, Arte Rock, Rock Sinfônico, etc...?
   
São tantos títulos, mas acho normal que isso ocorra com um gênero tão versátil como o progressivo. Embora haja muita polêmica em torno desse assunto, e o termo Rock Progressivo seja o mais utilizado, eu creio que o título Música Progressiva seja mais abrangente. A palavra “Música” representa um universo infinitamente maior do que a palavra “Rock” , que por sua vez, já vem associada a uma série de conotações, algumas positivas, outras, nem tanto. É difícil conceber um rock sem a presença da guitarra, poderíamos citar vários grupos prog em que este instrumento foi secundário. É importante que  novos ouvintes que possam vir a se identificar com o movimento, não se fechem baseados em rótulos. Mais importante que as nomenclaturas, é que as características musicais que envolvem o gênero prossigam com inspiração e criatividade.
 

5 - Nos últimos  tempos houve renovação de público progressivo ou os fãs continuam sendo somente  velhos dinossauros ?
   
O público progressivo é muito bom. O suficiente para lotar o Metropolitan em shows de Jethro, Yes, ELP, Marillion, Annie Haslan. O Pendragon no João Caetano juntamente com o Tempus Fugit e o Apocalypse, tiveram uma boa audiência, assim como o Power Flower  no Teatro da Galeria. Isso, sem levarmos em consideração que a faixa etária “principal” do amante de progressivo esteja em torno dos 30 aos 50 anos, uma idade em que não se tem mais aquele “pique”, aquela vontade de ir aos shows com o mesmo entusiasmo de antes. Mas é um público fiel que está sempre antenado aos novos lançamentos, sempre comprando discos. Acredito que  na medida em que houver uma credibilidade maior nas produções, esse público também sairá de casa. Havendo investimento, haverá retorno. 

6 - Então não houve renovação ?
   
É natural que haja uma identificação maior naquelas pessoas que vivenciaram o surgimento do gênero progressivo, mas o caminho é conseguir renovar. Fazer com que os mais jovens despertem para essa música. É só uma questão de divulgação, que muitas vezes é feita no corpo à corpo (aquele amigo que apresenta um disco que a gente nunca ouviu). Felizmente esse estilo musical sempre descobre caminhos alternativos e pela insistência, até a mídia estabelecida acaba se rendendo (em algumas ocasiões). As bandas de New Prog (Marillion, Pendragon, IQ, etc.) e os velhos medalhões (Floyd, Yes, Jethro, ELP, etc.) conseguem atingir um público jovem. O
Lummen chegou a ter dois músicos que não haviam completado 20 anos, o tecladista Daniel Marcolino (17 anos) e  o baixista Fred Mendonça (19 anos); o tecladista do Power Flower também é um exemplo de renovação.


7-  Qual estilo progressivo mais lhe aggrada, sinfônico, folk, clássico ...?
   
A princípio me agrada a música inspirada. A música que transmita alguma mensagem ou me desperte alguma reação – a música arte. Pode ser simples ou complexa, desde que passe verdade e emoção, e este sentimento talvez seja o principal  aliado da música. Mas normalmente me agrada o progressivo que parte de uma estrutura simples, sem complicações, onde o melódico exerça papel importante. O progressivo que se monta em cima da formalidade, as vezes soa complicado, mental demais, é como uma poesia parnasiana que tenha forma mas careça de conteúdo. A complexidade deve estar a serviço da inspiração. O Floyd foi um grupo que sempre colocou o sentimento na frente da técnica e deu no que deu: a maior banda de todos os tempos. Me agrada muito a presença da flauta que é o instrumento de sopra mais utilizado no gênero. Gosto muito da fusão de instrumentos acústicos com os elétricos e da combinação de timbres variados. Mas no fundo, fica difícil definir o indefinível e é aí que reside a invisível magia da música.

 
8 -
Mas há quem diga que música é matemática.
   
Ela pode ser representada matemáticamente, mas em suas infinitas fórmulas, existem mais mistérios do que sonha a vã filosofia dos calculistas. Até hoje não conseguiram - e muitos tentaram - analisar a estrutura de algumas obras. A música criada a partir de uma forte inspiração, não tem números que consigam explicar. Ainda bem, pois do contrário, teríamos 100 “Nonas Sinfonias” , 200 “Boleros de Ravel” , 300 “A Flauta Mágica” e  para não fugir do assunto, teríamos diversos “Thick as Breack” , “Close to the Edge” , “Hamburguer Concerto”, “1974”, e outras pérolas. Os mercadores , os produtores e a mídia, tentam , em vão, sistematizar o sucesso, mas a verdadeira obra prima está além dos valores racionais mercadológicos, ela é coisa rara. E só o tempo é capaz de comprovar o valor de uma obra de arte.

 
9 - Quais os grupos que mais lhe agradam do Brasil e do exterior ?
     Na minha opinião, Marco Antônio Araujo fez a melhor música progressiva que já surgiu no Brasil. A consciência progressiva que ele tinha era interna e não externa. Ele sabia trabalhar as dinâmicas (movimentos fortes e movimentos suaves) e as texturas rítmicas e tímbricas de forma bastante criativa. O som dele resultava original, o pensamento estava voltado para a música e não para os clichês. O Terço no auge da carreira fez um excelente trabalho. Destaco também a fase progressiva dos Mutantes. Os outros grupos prog nacionais não deixaram uma obra consistente, acredito que as novas bandas irão construir isso com o tempo. Algumas já estão caminhando para isso. 
   
Quanto as grandes bandas da história, cito Focus, Jethro, Camel, The Moody Blues, Floyd, Yes, Genesis, Renaissance, PFM, Gentle Giant, Gryphon e Triunvirat, e, obviamente, Marco Antônio Araújo.

   
10 -
Fale-nos sobre seus atuais trabalhos.

   
Eu continuo bastante envolvido com trilhas sonoras e direção musical para espetáculos teatrais. Também acabei de concluir a trilha de um longa metragem, foi a minha primeira experiência no cinema. Compor para teatro exercita muito o meu lado de pesquisador e ao mesmo tempo a criatividade também é exigida. O ato de escrever música por encomenda, desafia e desperta a inspiração, eu gosto desse tipo de situação. As trilhas normalmente estão atreladas à uma temática básica, e nesse ponto elas se parecem com os álbuns conceituais e com a música programática. Para fazer este tipo de trabalho tem que estar com a mente bem aberta, não pode haver preconceitos musicais. No teatro, a música está mais em função da cena do que ao contrário. O que a cena pedir, tem que compor, independente de estilo ou gosto pessoal. 
    Tenho feito muitos trabalhos infantis. Já lancei três CDs nesse gênero: “Sem Borracha”, “A Voz da Criativa Idade vol.1 e 2”, todos contam com a presença de várias crianças.
 

11- Como foi manter um programa de progressivo durante tanto tempo ?
   
Foi muito bom. O Tribuna Progressiva ficou 4 anos no ar. A repercussão era excelente. Recebíamos vários telefonemas e cartas de participação dos ouvintes. É lamentável que a rádio - que era a única do gênero rock no estado - tenha se popularizado, ela se rendeu ao sistema e virou mais uma no meio de tantas outras. A Globo FM está indo pelo mesmo caminho. Mas certamente eu voltarei ao rádio, reativando as minhas raízes, pois foi criado neste meio. Meu pai foi profissional de rádio durante mais de 40 anos e minha irmã também é radialista profissional.

 
12 -
E o Lummen ?
   
O
Lummen lançou o seu primeiro CD pelo selo Som Interior. O disco foi gravado Ao vivo no Rio Jazz Club em Fevereiro de 1997. A formação mudou e com essa atual que tem Léo Rugero no violino, bandolim e violão, o baixista italiano Andrea Spada, e o baterista Paulinho Baketa, nós entraremos em estúdio em breve para gravarmos o segundo disco. Teremos algumas participações especiais. Aproveito para fazer uma propaganda de outros discos, o terceiro disco do Tempus Fugit no qual participo como convidado e o primeiro disco solo do tecladista André Mello no qual gravei flauta numa faixa. Esse intercâmbio é super saudável. Fortifica o movimento.

 
13 - O segundo disco do Lummen será conceitual?

   
Possivelmente não. Eu tenho muito material abordando assuntos distintos, incluindo alguns temas feitos para trilhas sonoras. A proposta é fazer uma compilação desses trabalhos e reunir com material dos outros integrantes para produzirmos um disco que seja abrangente. Mas ressalto que a idéia de criar álbuns temáticos me agrada bastante. O Lummen certamente produzirá nesta linha.



14 - Tem mais algo a dizer sobre o Progressivo?
   
Só tenho a dizer o que muitos já sabem e alguns ignoram : que a música progressiva será eterna. A estrutura progressiva não irá morrer nunca. Ela é como a música erudita que está aí há séculos, ou melhor, o RP é música erudita (erudito: Que tem saber vasto e variado) e sendo assim, será eterno. Enquanto houver músicos criativos e ouvintes de bom gosto, enquanto houver necessidade de trilhas sonoras, vinhetas de impacto e fundos musicais para imagens viajantes -  em geral haverá a boa e velha estrutura progressiva. Se observarmos com atenção, a TV e o rádio mantém esse clima “prog” em suas vinhetas, eles não são loucos de abandonar esse padrão sonoro que cai como uma luva para a maioria dos programas. No próximo milênio haverá um grande renascimento e o rock progressivo estará presente em meio ao resgate da música- arte.

     Petrópolis, janeiro de 2001

 

II - Entrevista com o multi-instrumentista Marco Aureh, fundador do grupo LUMMEN, concedida à Sergio Motta para a revista alemã PROGRESSIVE NEWSLETTER.

  
PN - Vamos iniciar por falar do Anno Luz. Tenho visto os nomes dos músicos Guilherme Orcutt e Paulo  Loureiro como os principais membros do grupo; no entanto eu sei que você também fez parte dele. Em que fase do grupo você atuou?

   MA - O Anno Luz se formou para gravar aquele álbum (lançado somente em vinil) eu fui convidado para participar como flautista. O projeto não teve continuidade. Posteriormente, formei com o Paulo, um duo de música New Age progressiva. Na ocasião lançamos uma fita K7 que recebeu o título do nome do duo:  “Palma” (Paulo Loureiro e Marco Aureh). Fizemos diversas apresentações pelo Brasil e nos tornamos grandes amigos. O trabalho atual do Paulo, que é um excelente músico, está mais pop, ele recém lançou com o grupo “Personagens”, o primeiro CD duplo independente do Brasil, o disco trás participações de consagrados nomes da MPB como Djavan, Moraes Moreira, Ed Motta e outros.

 
PN - Até o presente momento, o trabalho de Anno Luz não teve sua edição em CD. Mas comenta-se a possibilidade de que ele seja editado com algum bônus. Este bônus seria algum material da época ou atual?

   MA - O Claudio Fonzi do selo “Som Interior”, pretende realmente lançar o CD com faixa bônus. Ele possui músicas da época além, de outras gravadas numa apresentação do PALMA que contou com a presença do Guilherme Orcutt nos teclados. A hipótese de nos reunirmos para criar algo de novo também não é impossível. Eu e Paulo já estamos com essa idéia há muito tempo.

 
PN - Tenho visto o lançamento do CD ao vivo do LUMMEN. Visto que o Rio Jazz Club já tenha sido extinto há algum tempo, por quantos anos este trabalho tem permanecido inédito?

   MA - O conteúdo deste disco foi retirado de 3 shows que fizemos em fevereiro de 1997. No ano seguinte a casa fechou. O CD só foi lançado no ano passado (1999) e ainda ficaram muitas músicas de fora. Uma versão instrumental de “Eleonor Rigby” dos Beatles - que na minha opinião foi a nossa melhor performance - fizemos também uma variação da música “EL Rey” dos Secos e Molhados, além de releituras das suítes “Destino Imaginário e “Relembrando”. É bem provável que elas entrem como faixas bônus em edições futuras.

 
PN - Soube que você é o único membro remanescente desta formação que gravou este trabalho ao vivo. Como se encontra o LUMMEN nos tempos atuais? 

MA - O Lummen está tirando umas férias prolongadas, infelizmente, diga-se de passagem. Mas é bem provável que a gente se  reúna para gravar um disco de estúdio este ano, temos material de sobra. A atual formação conta com a presença de Léo Rugero (violino e violão), Paulinho Baqueta (bateria e percussão) e o baixista italiano Andrea Spada (ex-integrante do grupo progressivo italiano EXARULE), o Andrea também toca cítara indiana.

 
PN - Devido ser tão requisitado por músicos de outros grupos, como você faz para encontrar tempo para executar seus próprios trabalhos?

MA - É impossível sobreviver somente de música progressiva no Brasil. Conseguir sobreviver de música já é uma grande conquista em meio a tantos modismos descartáveis e tantas outras dificuldades. É importante tentar  conciliar os projetos. A minha maior atividade é compor trilhas sonoras para teatro - no ano passado inclusive, teve um espetáculo que realizou várias apresentações aqui na Alemanha com trilha sonora que eu escrevi. Depois de 17 anos compondo para teatro - tive a oportunidade de registrar em 99, uma trilha em disco, foi o CD “Coração Mamulengo”. Faço também, um trabalho de musicalização infantil e recém editamos um CD interpretado por crianças de 3 à 8 anos de idade. O disco que se chama “Sem Borracha” contém 30 canções do folclore brasileiro e algumas composições minhas. Esses discos, incluindo o do Lummen, poderão ser adquiridos pela internet e o endereço da minha home page é www.marcoaureh.cjb.net

 
PN - Musicalmente, quais são os seus planos para este ano?

MA - Atualmente estou em cartaz no Rio dde Janeiro com o espetáculo “Lendas do Mundo”, trata-se de várias histórias de origem Sufi, histórias de ensinamentos que existem há milênios. Eu, ao lado do ator Mario Mendes, contamos e cantamos essas fábulas vivendo 40 personagens - a música pontua todos os temas - o  resultado tem sido muito bom. Projetos não faltam: editar o segundo disco do Lummen; dar continuidade  ao projeto de música infantil; preparar outro espetáculo de histórias Sufis e finalizar a gravação de um disco solo de música instrumental. E, quem sabe vir se apresentar aqui na Alemanha? Seria um imenso prazer!

 
 Revista “Progressive Nerwsletter” – Alemanhã, maio de 2000


II - MARCO AUREH CANTANDO SYLVIA ORTHOF

por Sylvio Adalberto*para o jornal Poiesis

        Apresentamos abaixo a entrevista com o poeta, músico e compositor Marco Aureh, que está desde o ano passado empenhado na divulgação de seu CD “Cantando Sylvia Orthof”, fundamentado na obra da escritora que dedicou grande parte de sua vida à criação de peças teatrais voltadas para o público infantil. Petropolitano, filho da cantora Maria Alice e sobrinho do compositor Jair Maia, Aureh tem significativa atuação na cultura de Petrópolis, tendo participado do conselho editorial do extinto jornal Culturarte, na década de 90. Agora, além de sua carreira musical, também passa a integrar o conselho do Poiésis.

Poiésis - A escritora Sylvia Orthof criou um munndo maravilhoso de fantasia e viveu impregnada dele. Você como parceiro principal, que vestiu as letras criadas por ela, com uma música deliciosa, ela que se definia, em suas próprias palavras, como uma “inventadeira de fantasiosas doidices”, como é que você vê e situa a Sylvia no contexto da literatura infantil nacional?

Marco Aureh - Você definiu bem a Sylvia. Ela começou a escrever depois de certa idade, aos quarenta e cinco anos, e realmente criou um mundo de fantasias impressionante. A importância dela na literatura infantil é ímpar. Trouxe uma enorme contribuição no que diz respeito à liberdade, à espontaneidade. Até então se escrevia para criança de uma forma meio ingênua. Sylvia chegou quebrando esse padrão e, de uma forma inovadora, começou utilizando uma linguagem despojada com muita liberdade e senso de humor. Creio que essa tenha sido a principal colaboração dela.


Poiésis - Você acredita que o trabalho da Sylvia tenha divulgação a altura de sua importância?

Marco Aureh - Acredito que não. Seu talento é reconhecido pelas instituições literárias através de mais de cem livros editados, mas a obra ainda não chegou a atingir a dimensão que merece, realmente por falta de uma maior divulgação.


Poiésis - Como foi fazer o CD Cantando Sylvia Orthof?

Marco Aureh - Esse CD é um trabalho antigo, que está vindo a público agora. As músicas foram surgindo na medida em que os espetáculos iam sendo produzidos e levados à cena; assim, esse disco é o resultado desses espetáculos. Por isso tem música que foi feita em 1988. Com exceção da música Saudade, que foi o último poema que a Sylvia fez, quando já estava no hospital. Foi a última música que fiz, em 1997, logo que ela morreu. Fora isso, fui compondo as músicas à medida que musicava as peças teatrais que eram dirigidas pela própria Sylvia. Quando se está trabalhando na produção de um determinado espetáculo a gente fica impregnado da essência do tema, a gente vive, almoça, janta e dorme com o tema, assim o resto é só deixar fluir.


Poiésis - Quais os projetos e planos para divulgar esse trabalho?

Marco Aureh - Este ano vamos cair na estrada para divulgar esse trabalho com o espetáculo intitulado Viagem Musical Brasileira, que batizamos com a sigla V.M.B. É uma viagem de trem, aonde vamos parando por várias estações e cada estação é uma referência a um ritmo brasileiro. Estação Caruaru (Recife) toca um frevo, estação Xapuri (região norte) tocamos um boi-bumbá, e por aí vai. E tem também o Projeto Escola, que é um trabalho voltado às crianças. Esse projeto já está em pleno andamento. Ano passado fizemos algumas escolas, entre setembro/outubro. A idéia é fazer uma turnê pelo país, participando de eventos ligados à literatura e à educação.


Poiésis - Qual tipo de apoio você está tendo para divulgação desse trabalho?

Marco Aureh - A produção do disco teve o apoio da Fundação Cultural Petrópolis e mais as Editoras FTD, Nova Fronteira, Scipione e Saraiva, com as quais já estamos negociando para uma segunda edição. Agora, a divulgação e distribuição são de caráter independente e o nosso produtor executivo é o Paulo Roberto Lisbôa.


Poiésis - Marco, dá para perceber o efeito que sua música junto com as letras da Sylvia têm exercido sobre as platéias para as quais você tem se apresentado?

Marco Aureh - É uma coisa maravilhosa. Primeiro porque é um show de verdade, sem a preocupação com a idade da platéia. É claro que tem brincadeiras, a parte lúdica. A platéia sempre participa. Eles fazem a locomotiva, quando o trem está saindo da estação. Cantam junto e de uma forma geral há uma grande interação. É um show com muita luz, cenários, figurinos... esses detalhes ajudam na integração. Eles embarcam nessa viagem lúdica e nos contagiam com seu entusiasmo. Em princípio achei que fosse um espetáculo para a faixa etária de seis anos para cima. Mas me enganei. Com a experiência fomos colocando crianças menores e elas participaram com muita intensidade. Está sendo muito gratificante. Nunca tinha feito um show para crianças pequenas com todo esse aparato de um espetáculo musical normal, com a estrutura de um musical. O resultado é excelente.

Poiésis - Quem mais participa do projeto de divuulgação da obra de Sylvia Orthof?

Marco Aureh
- O Teatro do Livro Aberto, do Fernando Vianna, que agora esta remontando O Cavalo Transparente, que ano passado esteve em cartaz no Rio. Na ocasião a trilha sonora deste espetáculo foi indicada para o prêmio Maria Clara Machado. Fui um dos fundadores do Teatro do Livro Aberto. Eu, Sylvia, Marise Manhães e o Fernando Vianna viajamos pelo Brasil apresentando espetáculos de Sylvia Orthof. Numa dessas viagens acabei me casando. No Rio Grande do Sul, num congresso de literatura conheci uma passofundense e estamos casados há onze anos.

Poiésis - Em que circunstâncias você conheceu a Sylvia Orthof?

Marco Aureh
- Estávamos encenando História de Lenços e Ventos na Sala Afonso Arinos, em Petrópolis, aí a Sylvia e o Tato, marido dela, no meio de uma cena aberta, bateram palmas de pé, assim, bastante empolgados com o espetáculo. Aí ela veio falar com a gente no final, convidou o grupo para a montagem de uma peça dela. O grupo era o Pessoal Aí, e que existe até hoje. E me orgulho muito de ter sido um de seus fundadores. O espetáculo era O Cavalo Transparente, a partir daí começamos a montar os espetáculos da Sylvia. Depois do Cavalo, foi Ponto de Tecer Poesia, Se As Coisas Fossem Mães, Zé Vagão da Roda Fina, sem contar uns três ou quatro que foram musicados e não chegaram a ser encenados. Ainda tem muita coisa inédita, por isso temos idéia de fazer outro disco dentro da mesma temática. A família da Sylvia tem sido muito bacana em relação a esse projeto. Sobretudo a Claudia Orthof. O retorno afetivo tem sido extraordinário. Com a primeira tiragem estamos divulgando o trabalho nas escolas em inúmeras cidades do país, em congressos de literatura, para a imprensa e uma boa parcela para a Fundação e as Editoras. Fico muito feliz de estar lançando este trabalho e agradeço muito ao Paulo Roberto Lisboa, que foi amigo pessoal da Sylvia e que acreditou no projeto. 

Para maiores informações sobre a VMB, Viagem Musical Brasileira, visitar o site www.cantandosylvia.hpg.com.br

*Sylvio Adalberto é escritor, membro do conselho editorial de Poiésis.

  Petrópolis, 02 de março de 2003

1