ALCOOLISMO
Fonte: Revista Saúde
ABC do alcoolismo - Como eu
trato nas Urgências: Alcoolismo é um dos maiores
problemas de saúde publica no mundo, causa centenas de milhares
de óbitos prematuros, contribui em consideráveis gastos
nacionais em saúde e é responsável por gastos pela perda em
produtividade. O tratamento envolve principalmente a orientação
profissional, que pode incluir tratamento comportamental e
psicológico e/ou participação em programas de auto-ajuda (ex:
Alcoólicos anônimos). A intervenção farmacológica visa
aliviar os sintomas de abstinência e evitar recaídas.
O
estudo epidemiológico de maior abrangência e confiabilidade,
(entrevista estruturada com 20.291 pessoas da comunidade e
institucionalizadas) estima prevalência da dependência em
álcool na população norte-americana em 13,5% e entre esses,
37% apresentam comorbidade com outros transtornos mentais:
adição em outras drogas, transtorno de personalidade
anti-social, transtorno de humor e esquizofrenia. Aumentam as
evidências de que interação de fatores biológicos,
psicológicos e sociais estão envolvidos nas causas do etilismo.
Diagnóstico:
Será utilizada nomenclatura, códigos e critérios da
Classificação Internacional de Doenças - CID-10 coordenada
pela OMS, oficialmente em vigor no Brasil desde 1993.
O
questionário CAGE é composto pelas quatro seguintes perguntas e
pode ser facilmente incorporado à entrevista do paciente: Você
já (1) pensou em largar a bebida? (2) ficou aborrecido quando
outras pessoas criticaram o seu hábito de beber? (3) se sentiu
mal ou culpado pelo fato de beber? (4) bebeu pela manhã para
ficar mais calmo ou se livrar de uma ressaca (abrir os olhos?). A
presença de duas respostas afirmativas sugerem uma indicação
positiva de dependência de álcool. Apesar dos problemas
relacionados ao álcool apresentarem um continuum de gravidade, o
teste CAGE é bastante preciso para identificar pacientes
ambulatoriais dependentes de álcool conforme a definição dos
critérios DSM-III-R, a classificação americana de transtornos
mentais.
Os
pacientes mais gravemente acometidos podem ter maior dificuldade
no confronto com o problema. Muitos tentaram parar várias vezes,
porém sem sucesso. Como esses indivíduos são geralmente muito
sensíveis à rejeição, é importante que os médicos os tratem
com a mesma preocupação que dariam a pacientes com qualquer
doença crônica, que aceitem as recaídas e encorajem a
continuação do tratamento.
Propriedades
do álcool: O álcool é completamente miscível
em água, cada célula humana está sujeita à sua interação.
No fígado o álcool é oxidado em acetaldeído, um composto
ainda mais tóxico. O álcool possui valor calórico, mas não
nutritivo.
Interações
medicamentosas: A interação mais importante é o
aumento da depressão do SNC induzida pelo uso concomitante de
álcool e outros compostos de ação semelhante, incluindo
anestésicos gerais e opióides, drogas hipnóticas e
ansiolíticas, anti-histamínicos, agentes antipsicóticos,
relaxantes musculares de ação central, agentes
anticolinérgicos de ação central, antiepilépticos e certos
anti-hipertensivos (reserpina, metildopa, clonidina).
Tolerância
e dependência física: São resultantes do uso crônico
de álcool - a tolerância parece estar relacionada ao aumento do
metabolismo (disposição da droga) e das alterações
adaptativas dos constituintes neuronais (farmacodinâmica), que
servem para neutralizar os efeitos a curto prazo do álcool.
A
adaptação celular do SNC estabelece conseqüentemente um estado
de dependência física. Essa dependência se torna aparente
quando a redução da ingestão ou a abstenção do álcool causa
desconforto subjetivo e sinais objetivos de abstinência. Os
sintomas mais precoces e mais comuns de síndrome de abstinência
incluem hiperatividade autonômica e somática (ex: ansiedade,
taquicardia,, hipertensão, arritmias, aumento do tônus muscular
e tremores, náuseas e vômitos), insônia e um leve estado
confusional com irritabilidade ou agitação. Entre os sintomas
pronunciados de excitação neuronal estão os distúrbios de
percepção (ex: ilusões auditivas ou visuais, alucinações) e
hiperreflexia; uma pequena porcentagem de pacientes apresenta uma
ou mais convulsões tônico-clônicas. A manifestação mais
grave da abstinência do álcool é o delirium tremens, um estado
confusional severo caracterizado por profunda agitação,
delírio, hiperatividade autonômica grave, hiperpirexia,
tremores e convulsões.
Tratamento:
Não serão exploradas abordagens psicoterápicas ou terapias
farmacológicas aversivas. Será restrita a abordagem médica nas
urgências. O alcoolismo é uma doença crônica. É fundamental
que se mantenha a continuidade do tratamento com o objetivo de
prevenir as recidivas.
Em
95% dos alcoolistas a abstinência é expressa como síndrome
leve a moderada. O início e o pico dos sintomas, em geral,
ocorrem em seis a oito e em 24 a 36 horas, respectivamente após
a suspensão da bebida. Nos outros 5% dos alcoolistas, os
sintomas são mais graves e podem ser ameaçadores; geralmente
atingem um pico em 96 a 120 horas, regredindo gradualmente nas 72
horas seguintes. O delirium tremens ocorre em menos de 5% dos
pacientes hospitalizados. A taxa de mortalidade é menor que 2%
em indivíduos com síndrome de abstinência que recebem
tratamento, mas chega a 15-20% em pacientes não tratados.
Quando
é necessário o tratamento medicamentoso, os benzodiazepínicos
por apresentarem uma tolerância cruzada com o álcool, são
considerados como terapia de primeira linha no controle de
sintomas de abstinência, delirium e convulsões. São os agentes
de escolha devido a eficácia, rápido inicio de ação e baixo
custo além de viabilizar a recomendada monoterapia nestes
pacientes fisicamente comprometidos. Considerando a
farmacodinâmica da tolerância cruzada existente entre álcool e
benzodiazepínicos, pode-se preferir os benzodiazepínicos que
possuem meias-vidas relativamente mais curtas e são convertidos
em metabólitos inativos (ex: oxazepam, lorazepam e temazepam) em
pacientes idosos ou naqueles com hepatopatias graves.
No
Brasil há disponibilidade de midazolam que tem meia vida curta e
sendo hidrossolúvel apresenta rápida absorção IM. Torna-se
portanto empiricamente a droga de escolha quando se objetiva
sedação rápida em pacientes agitados. O lorazepam só é
disponível na forma de comprimidos, não tem metabólitos
ativos, portanto não há alteração farmacocinética em idosos
ou hepatopatas, podendo se alterar em pacientes com
insuficiência renal. É a droga de escolha em nosso meio para
uso de manutenção VO, prevenindo sintomas de abstinência.
Outra escolha na manutenção é o clonazepam, com eficaz ação
sedativa, ansiolítica e anticonvulsivante, contudo em
hepatopatas graves pode ter aumentada sua meia vida, devendo ser
usado com moderação.
Durante
a abstinência, o paciente pode apresentar convulsões
tônico-clônicas. O uso prolongado de álcool pode aumentar o
risco de convulsões independente da abstinência.
Freqüentemente, as convulsões causadas pela abstinência são
auto-limitadas e o paciente necessita apenas de tratamento de
suporte e de manutenção com benzodiazepínicos que apresentam
ações anticonvulsivantes, relaxantes musculares e
ansiolíticas. Quando as convulsões são recidivantes ou
contínuas pode-se administrar diazepam EV, ou midazolam EV
obtendo-se boa resposta terapêutica. A utilização de um outro
agente diferente do benzodiazepínico só está indicada, quando
o paciente apresenta epilepsia. Em pacientes não epilépticos
não há diferença significativa da fenitoína EV em
comparação ao placebo na prevenção de convulsões induzidas
pela abstinência, sendo portanto não indicada dados os
potenciais riscos da terapia EV com fenitoína.
Estudos
tomográficos revelam em pacientes alcoolistas com convulsões
por abstinência 50% estavam normais, 34% atrofia cerebral
generalizada e apenas 15% mostraram lesões focais. Quando há
déficits neurológicos focais, 30% das tomografias revelaram
lesões focais. Portanto a tomografia deve ser realizada apos
acurado exame neurológico, notadamente se houverem sinais de
déficits neurológicos focais. Estudos em alcoolistas crônicos
com Ressonância magnética cerebral tem revelado redução do
volume do lobo temporal às custas de lesão em substância
branca, cinzenta e hipocampo anterior, sugerindo-se que a
redução em substância branca em lobos temporais possam ser um
fator de risco ou seqüela de convulsões relacionadas à
abstinência.
Pacientes
alcoolistas atendidos em departamentos de emergência que
apresentam quadros febris, tem como causas infecciosas mais
freqüentes a pneumonia e infecções do trato urinário. As
causas não infecciosas são delirium tremens, após convulsão
prolongada e hemorragia subaracnóidea. Causas infecciosas e não
infecciosas podem coexistir. Recomenda-se internação a
pacientes alcoolistas crônicos, desnutridos que apresentem
febre, até se identificar a causa.
Intoxicação
aguda devido ao uso do álcool - CID-10 F 10.0
A
intoxicação aguda é uma condição transitória, resultando em
perturbação no nível de consciência, cognição, percepção,
afeto ou comportamento. Esta usual e intimamente relacionada aos
níveis de doses ingeridas. Contudo exceções podem ocorrer em
pacientes com doenças renais ou hepáticas. Ainda o contexto
social onde se utiliza o álcool pode produzir efeitos
diferentes, extrafarmacológicos, variando da sedação à
agressividade.
Nos
PS são comuns casos de pacientes apresentando intoxicação
alcoólica aguda que passam de um estágio excitatório para o
estágio depressivo de consciência. Havendo excitação
psicomotora com liberação de agressividade, sedação só deve
ser realizada após minucioso exame neurológico para afastar
intercorrências como hematoma subdural entre outros, já que
são freqüentes as quedas e acidentes com este grupo de
pacientes em estado de embriaguez.
Afastado
concomitante neurológico, o tratamento é sintomático:
Tratamento
da Intoxicação aguda devida ao uso do álcool - Paciente
violento:
· Paciente alcoolista
crônico agitado:
1. Sedação com 1 ampola de
Midazolam (Dormonid®) 3 ml= 15 mg IM, repetir a cada meia hora
uma ampola até quatro ampolas
2. Manter uso de Lorazepam (Lorax
®) ou Clonazepam (Rivotril ®) comprimidos de 2 mg - 1 cp 8/8 hs
até 2 cps 6/6 hs dependendo do estado de excitação, para sedar
e prevenir ocorrência de sintomas de abstinëncia, ate Delirium
tremens. Reduzir 25% da dose a cada dia, nos dias subseqüentes
à estabilização do quadro
3. 1 amp Tiamina - vitamina B1- 100
mg IM
4. Infusão de soro se houver
sinais de desidratação, devendo ser soro glicosado se houver
evidências clínico-laboratoriais de hipoglicemia (o que é
pouco freqüente)
5. Dramim B6 1 amp IM se apresentar
vômitos
· Paciente alcolista crônico não
agitado 1. Esquema acima, exceto sedação
· Paciente em bom estado nutricional em estado agudo de intoxicação alcoólica ocasional 1. se agitado, sedação 2. se apresentar vômitos, antieméticos
Uma
critica ao uso comum de glicose hipertônica EV: São
pouco freqüentes os casos de alcoolistas agudamente intoxicados
que apresentam hipoglicemia. O uso de glicose hipertônica em
alcoolistas crônicos desnutridos (prática comum), pode ser
precipitador de grave quadro de Wernicke iatrogênico, portanto
seu uso deve ser feito somente quando houver sinais evidentes
clinico-laboratoriais de hipoglicemia, sempre preceder infusão
de tiamina, após isto infundir glicose.
Alcoolismo
Feminino: Desde que a mulher, após seu movimento
de emancipação ampliou seu espaço social e aumentou sua
participação na disputa pelo mercado de trabalho, incrementando
sobremaneira suas responsabilidades (mãe, amante, dona de casa e
agora provedora), houve uma modificação na gravidade e nos
tipos de doenças que incidem no sexo feminino. Doenças como o
infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e outras,
mais frequentes no sexo masculino porque ligadas a um aumento de
responsabilidade, competitividade e nível de stress, estão
agora também incidindo mais sobre as mulheres. Também as
mulheres estão cada vez mais usando drogas, tanto as permitidas
como o cigarro, álcool, antidepressivos, hipnóticos,
ansiolíticos, etc quanto as proibidas como maconha e cocaína
entre outras.
A
distinção entre o uso aceitável e a dependência do álcool
não é nítida, é variável entre as diversas culturas e grupos
sociais. O CID-10 (décima versão da Classificação
Internacional de Doenças) define farmacodependência como
"um conjunto de fenômenos fisiológicos, comportamentais e
cognitivos nos quais o uso de uma substância ou classe de
substâncias torna-se prioritário em relação a outros
comportamentos que antes tinham maior importância para um dado
indivíduo. Uma característica descritiva central desta
síndrome é o desejo (frequentemente forte, às vezes
irresistível) de usar drogas psicoativas (que podem ou não
terem sido prescritas), álcool ou tabaco." Desde os tempos
mais remotos da história do homem ele abusou do consumo do
álcool com propósitos eufóricos, para celebrar várias
festividades, para dar cunho solene a rituais religiosos, no
exercício de atividades sociais e para proporcionar alívio do
seu stress emocional imediato ou contínuo.
Os
problemas relacionados ao alcoolismo ocorrem, em média, por
volta dos quarenta anos. São a conseqüência do hábito de
beber iniciado muitos anos antes, na maioria das vezes durante a
adolescência. Em geral se verifica que o alcoólatra começa a
se habituar através do etilismo social, no qual ele tanto
encontra alívio das tensões usuais da sua vida quanto descobre
que suas tensões internas podem ser neutralizadas pela ingestão
de bebidas alcoólicas. Com o decorrer do tempo ele se torna cada
vez mais dependente da bebida como um meio de reduzir a
ansiedade.
O
alcoolismo ainda é mais comum entre os homens do que entre as
mulheres. Igualmente, o reconhecimento da sua existência como um
hábito ou vício gradual tem lugar, em média, quase uma década
antes nos homens do que nas mulheres, apesar de que nota-se uma
tendência à diminuição deste tempo. Muitas mulheres casadas
começam a beber na meia idade, quando seu papel de mãe e esposa
é desafiado pela partida de seus filhos - o desafio do
"ninho vazio". Quando se examinam as famílias e os
parentes de alcoólatras em relação ao risco de doença
psiquiátrica, parece que os distúrbios afetivos primários são
descobertos em uma considerável proporção de mulheres
alcoólatras - nas quais este termo é usado para significar um
distúrbio presente antes que tenha ocorrido o etilismo
excessivo.
A
genética, a constituição e as experiências emocionais da
mulher, em suas transações familiares e sociais, contribuem
para predispor ao alcoolismo. As influências culturais reforçam
os padrões familiares, estabelecendo a predileção pelo abuso
do álcool como o meio de obter alívio da ansiedade e da
depressão (que realmente ocorrem muito mais em mulheres que em
homens). Experiências posteriores de privação do apoio
emocional podem agir, às vezes repetitivamente, como
precipitantes de períodos de etilismo ou do retorno ao álcool,
por parte daquelas que abandonaram o hábito.
O
álcool é descoberto como um alívio para as penosas emoções
interiorizadas porque os pais são permissivos em relação à
bebida. O alcoolismo de alguma forma é muito mais comum nos
pais, irmãos e no cônjuge do que na população em geral. É
esta indulgência franca para com o álcool, na família ou no
grupo adolescente da futura viciada, que favorece o defeito do
superego que permite seu uso repetido. Secundariamente, surge a
dependência psicológica e farmacológica que, a princípio,
proporciona euforia, mas que, mais tarde, à medida que as
frustrações do ego aumentam, oferece pouco mais do que um
lenitivo para as tensões insuportáveis.
As
bebidas alcoólicas mais consumidas entre nós costumam
apresentar, com variações, a composição por 100 ml abaixo
| BEBIDA |
ÁLCOOL |
GLICÍDIOS |
| Cerveja |
3,8 |
3,5 |
| Vinho tinto |
10,5 |
2,0 |
| Vinho branco |
10,5 |
4,0 |
| Champanha doce |
11,0 |
10,0 |
| Champanha seco |
11,5 |
1,0 |
| Vinho do Porto |
15,0 |
6,0 |
| Vinho Madeira |
14,0 |
3,0 |
| Vermute italiano |
18,0 |
12,0 |
| Xerez |
15,0 |
3,0 |
| Aguardente |
35,0 |
|
| Rum |
35,0 |
|
| Vodca |
45,0 |
|
| Uisque |
35,0 |
|
| Bourbon |
40,0 |
|
| Gim |
28,0 |
|
| Conhaque |
35,0 |
|
Os
fatos principais referentes ao metabolismo do álcool podem ser
resumidos dentro dos itens que se seguem:
O
álcool provoca doenças no sistema nervoso, estômago, fígado,
pâncreas, além de distúrbios nutricionais, alterações da
imunidade e sociopatias.
Num
estudo retrospectivo (década de 80), onde foram analisados 400
prontuários, 200 de homens e 200 de mulheres, a fim de
verificar-se a freqüência do consumo de bebidas alcoólicas, os
indivíduos em pauta eram, em grande maioria, de nível social
médio alto, com bom padrão educacional, econômico e social.
Tais
pacientes foram catalogados com relação ao uso de álcool da
seguinte maneira:
A
tabela abaixo mostra as freqüências com que foram assinalados
os vários grupos.
| USO
DE ALCOOL |
HOMENS
|
MULHERES
|
| 0 |
64% |
76% |
| 1 |
20% |
12% |
| 2 |
12% |
10% |
| 3 |
4% |
2% |
Além
de várias outras conclusões este estudo, comparado com outro
feito anteriormente, mostrou um aumento de mulheres que usavam
álcool e que era mais difícil conseguir dados do grupo feminino
(as mulheres conseguem beber por mais tempo sem serem
detectadas).
Dr. Luís Carlos
Calil*
Prof. da
Disciplina de Psiquiatria
da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro Uberaba MG