PRIMEIRO FAUSTO
(Poema Dramático - Fernando Pessoa, ele mesmo)
QUARTO TEMA: O TEMOR DA MORTE
I
Que a morte me desmembre em outro, e eu fique
Ou o nada do nada ou o de tudo
E acabo enfim esta consciência oca
Que de existir me resta.
Sinto um tropel esfuziante e quente
De propósitos-sombras, e de impulsos
Transboradando do cálix da consciência
Para cima da vida...
II
                                             ...só um sentimento
De desejar eterna quietação,
Ambição vaga de fechar os olhos
E vaga esp'rança de não mais abri-los.
Ânsia causada de não mais viver;
Meu cérebro esvaído não lamenta
Nem sabe lamentar. Tumultuárias
Ideias mistas do meu ser antigo
E deste, surgem e desaparecem
Sem deixar rastos à compreensão.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Já deslumbradas, vãs, incoerentes,
Amargas, [vagas] desorganizações
Que nem deixam sofrer. Vem pois, oh Morte!
Sinto-te os passos! Sinto-te! O teu seio
Deve ser suave e ouvir teu coração
Como uma melodia estranha e vaga
Que enleva até ao sono e passa o sono.
Nada. Já nada [passa] - nada, nada...
Vai-te, Vida!
III
Ah, o horror de morrer!
E encontrar o mistério frente a frente
Sem poder evitá-lo, sem poder...
IV
Gela-me a ideia de que a morte seja
O encontrar o mistério face a face
E conhecê-lo. Por mais mal que seja
A vida e o mistério de a viver
E a ignorância em que a alma vive a vida,
Pior me [relampeja] pela alma
A ideia de que enfim tudo será
Sabido e claro
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Pudesse eu ter por certo que na morte
Me acabaria, me faria nada,
E eu avançara para a morte, pávido
Mas firme do seu nada.
V
                                             ...gela-me apenas, muda,
A presença da morte que triplica
O sentimento do mistério em mim.
VI
Mistério, vai-te, esmagas-me! Ah, partir!
Esta cabeça contra aquele muro
E tombar morto. Mas a morte, a morte,
Ah, como a temo! Para onde fugir?
Na vida nem na morte tenho abrigo.
Maldito seja... Quem? Quem faz o mal,
Este que sinto! Ah, mas já [nem] posso
Amaldiçoar...
VII
Não é o horror à morte, porque raie
Nela o mistério em mim, nem venha nela
Ou o acabar-me ou o continuar-me...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Não. Não é na minha alma que os sineiros
Rebatem medos pelo que hei-de ser.
É a minha carne que em minha alma grita
Horror à morte, carnalmente o grita,
Grita-o sem consciência e sem propósito,
Grita-o sem outro medo do que o medo.
Um pavor corporado, um pavor frio
Como uma névoa, um pavor de todo eu
Subindo à tona intelectual de mim.
VIII
O animal teme a morte porque vive,
O homem também, e porque a desconhece;
Só a mim é dado com horror
Temê-la, por lhe conhecer a inteira
Extensão e mistério, por medir
O [infinito] seu de escuridão.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Dor que transcende o verbo e o sentimento
Criando um sentimento para si
Do qual o Horror é apenas a aparência
Pensável e sensível do exterior.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Uns têm - e é sofrer - o duvidar:
Há Deus ou não há Deus? Há alma ou não?
Eu não duvido, ignoro. E se o horror
De duvidar é grande, o de ignorar
Não tem nome nem entre os pensamentos.
IX
Medo da morte, horror da morte.
Horror por ela ser, pelo que é
E pelo inevitável.
X
                                             ...ao condenado.
Inda no seu horror lhe luz ao menos
Uma sombra desesperada d'esperança;
Inda o horror que espera não é aquele
Horror da morte - não tem o intenso
Arrastar da inevitabilidade
Que a morte tem. A mim nem esperança
Nem suspeita de sombra de esperança
Ocorre, mas o horror completo e negro,
Isso que lhe aparece qual resgate
É o que eu temo!
XI
Ah, não me ofendas com palavras vãs
O horror do pensamento. NInguém
Como eu teve este horror. Nem poderá
Nas veias e na alma do seu sangue
Tê-lo tão íntimo [...]
Tão feito um comigo.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
As figuras do sonho não conhecem
O sonho [...] de que são figuras,
Porque o mundo não é só é [já] sonhado
Mas é dentro dum sonho um [sonho] real,
Em que sonhado são os sonhadores
Também.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Não poder apagar esta tortura;
Não poder despegar-me deste Ser;
Não poder esquecer-me desta vida...
XII
           Só uma coisa me apavora
           A esta hora, a toda a hora:
É que verei a morte frente a frente
           Inevitavelmente.
Ah, este horror como poder dizer!
Não lhe poder fugir. Não podê-lo esquecer.
           E nessa hora em que eu e a Morte
           Nos encontrarmos
O que verei? O que saberei?
Horror! A vida é má e é má a morte
           Mas quisera viver eternamente
Sem saber nunca [...] isso que a morte traz [...]
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
           Que o tempo cesse!
Que pare e fique sempre este momento!
Que eu nunca me aproxime desse
Horror que mata o pensamento!
           Envolvei-me, fechai-me dentro em vós
           E que eu não morra nunca.
Fernando Pessoa
Os fragmentos do poema dramático Primeiro Fausto possuem datas que vão de 1908 a 1933. Consistem em uma nota introdutória, quatro temas e dois diálogos.
Obra consultada:
Poemas Dramáticos - volume I
Obras Completas de Fernando Pessoa - volume VI
Edições Ática, Lisboa, Outubro de 1966
Exemplares disponíveis nas bibliotecas municipais
- Reprodução não oficial -
«  Voltar a O Ano... - Parte 2
» » » O Labirinto de Ricardo Reis, 2002-11-20