Há um salgueiro à beira de um regato
No cristal da corrente espelhando encanecidas folhas;

Aí foi ela dar com estranhas grinaldas
De rainúnculos, urtigas, margaridas
E das grandes flores purpúreas a que os pastores
De língua solta dão um nome feio
E as nossas raparigas chamam dedos de mortos;
Aí, subindo para suspender nos ramos novos
Sua estranha fantástica coroa,
Quebrou-se um tronco invejoso
E ela e seus troféus floridos
Caíram no regato em pranto!
Enfunaram-se-lhe os vestidos sustendo-a, e
Qual nova sereia, cantava velhos cantares,
Pedaços de canções antigas, sempre alheada
De por onde ia ou como criatura
Nativa dessas águas. Mas não foi longe:
Suas vestes empapadas de água
Levaram donzela e seus melodiosos ais
À morte no lodo.



Morte de Ofélia, filha do camareiro-mor Polónio, descrita pela Rainha Gertrudes da Dinamarca, no final do quarto e penúltimo acto de HAMLET (1598/1602), de William Shakespeare (1564-1616)



Obra consultada:
A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca, William Shakespeare
Tradução de José Blanc de Portugal
Editorial Presença, Lisboa,1963

Exemplares disponíveis nas bibliotecas municipais
- Reprodução não oficial -


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