Pequei...
Por que, mulher bonita, você continua passando pela
minha rua? Você passa pela minha rua, pela minha calçada, pela porta do meu
edifício. Passa soberba, indiferente. Mesmo em frente à minha janela, à
altura dos seus olhos, e não me vê. Por que? E você quando passa, pisando as
pedrinhas brancas e pretas da minha calçada, que felizes sorriem para você, o
seu andar elegante, cadenciado, vai contando da certeza que você tem de que é
bonita. Da certeza que você tem de ninguém poderá ficar indiferente. Você
sabe que, então, todos vos olhares da minha rua convergem para um só ponto: você mulher bonita. Olhares ternos, platônicos,
apaixonados. Olhares maliciosos, lúbricos, concupiscentes. Tudo isso você sabe
mulher bonita, mas passa indiferente, pisando elegantemente as pedrinhas brancas
e pretas da minha calçada, que continuam felizes, sorrindo carinhosamente para
você.
Mas hoje eu tive raiva de você, mulher bonita. Você
me fez pecar em plena sexta feira de Paixão. Você passou com o mesmo andar
elegante, porém, mais provocador. A calça justa demais que você vestiu, muito
realçou as formas maravilhosas, poema sublime com que Deus a aquinhoou, para
tormento de nós outros, míseros mortais.
E você, como sempre, naquele realce tentador, passou
indiferente, pisando ainda mais suavemente e em cadência inenarrável as
pedrinhas brancas e pretas da minha calçada, que não sorriam, porque
gargalhavam, ante o espetáculo monumental que era você, mulher bonita.
E eu pequei...
Rescalla BITTAR
22/04/1956