Lua

        Redonda, redonda, com o lado de lá que ninguém pode ver e o de cá meio manchado, como se fosse impuro. No entanto, “diz que” ela é casta embora a única inspiradora da luxúria pálida ¾ a que dói. Nomes, tem muitos. O mais bonito é “Selene”. “lua” também não é feio. “Diana” é horrível: esta, caça e fora disso não faz mais nada de gracioso. Selene. Em que outras eras e  outras latitudes inventaram este nome que só lhe cai perfeito, só é mesmo seu quando ela se levanta, cheia, em junho, aqui no Rio?  Levanta-se de dia, na hora do chá das cinco de antigamente. A gente mal a descobre em seu douradinho estampado ¾ mas o sol se cansa cedo nestes dias, graças a Apolo. A medida que do seu lado ele se esgarça em violeta e cor de abóbora madura, ela vai dourando quente,  e espalhando aquele tapete louco sobre o mar. E o mar, macho, atraído por ela, zangado, ferve em espuma. E nós distraídos, os que não se importam, os que perderam o dia ¾nós somos os únicos a ver e namorar Selene.

20/06/1959 C.M.

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