CONFETE
AMARELO (II)![]()
RESCALLA BITTAR
¾ Ora viva, bem antes do que supunha saiu você em meu
encalço, ó pobre fracassado folião!
¾ ? !
¾ Acaso não me reconhece?
¾ Ah! Você misero confete amarelo? Você mesmo era o
meu objetivo nesta volta ao carnaval...
¾ O seu objetivo, ou mera desculpa velho folião, para deixar o comodismo
em que se havia instalado?
¾ Seja o que você quiser, pois é você o único
responsável por esta minha grotesca aparição neste reinado de Momo.
¾ Como assim?
¾ Desejava apenas esclarecer a
dúvida que você me deixou naquele rápido bate-papo do último carnaval.
Gostaria de saber se é mesmo o tempo, a idade, que pesa em nosso
julgamento a respeito do carnaval. Se é de fato o carnaval que está morrendo,
ou se é apenas e peso dos anos que nos torna pessimistas, que nos tira todo o
senso de humor a ponto de nos levar a achar ridículas as cenas destes quatro
dias. Cenas que tanto gostávamos em tempos idos.
¾ Mas você é realmente, um “cabeça dura”, velho
folião. Você ainda tem duvida. Veja esses jovens pares. Veja a felicidade que
transborda de seus semblantes. Acredita você que esse verdadeiro êxtase em que
se encontram poderá ser simulado? Não vê você como eles vivem, como suas
almas vibram, afinadas pelo mesmo diapasão? Não vê você, ó pobre folião de
outras eras, como eles se entendem, como se identificam, como se transformam em
um único ser?
¾ ? !
¾ Mas qual a dúvida, ó “cabeça dura”. Veja, desapegue-se dessa
obstinação. Reaja. Esfrie a cabeça e, estou certo, logo verá como esse,
exatamente esse, era o carnaval do seu tempo, ó teimosia personificada.
¾ Não, meu caro confete
amarelo. Absolutamente! Este jamais poderá ser o mesmo carnaval, aquele
carnaval imenso, gostoso, inesquecível de há 20 anos ¾ o meu carnaval!
¾ Velho egoísta e teimoso.
Apenas e seu carrancismo Impede que reconheça verdade palpável.
¾ Não é verdade. Veja. Estamos quase na hora das
cinzas e as ruas estão limpas. Onde as toneladas de serpentinas e confetes que
no meu carnaval se constituíam no mais lindo e maravilhoso tapete multicor do
universo? Onde? Vamos responda!
¾ Ora, meu saudosista renitente. Os tempos mudam. Os hábitos se
transformam. Os foliões de hoje usam-nos - serpentinas e confetes - em menor
escala, já que nem mesmo o corso pode ser realizado (culpa da civilização que
levou a serem fechados, em sua maioria, os automóveis modernos).
¾ Vá lá que assim seja nas
ruas. Mas nos bailes, como explicar tal ausência?
¾ Ainda pelo mesmo motivo:
mudança de hábito. Mas observe que não somos de todo desprezados. Embora em
menor quantidade estamos sempre presentes. E não se esqueça de que no último
carnaval invadi a sua "fortaleza" e hoje' aqui está você com a
desculpa de que me procurava.
¾ Outra coisa não fazia.
¾ Ora, ora, deixemos de
fingimento. Como poderia você ter a certeza de encontrar-me?
¾ Acredito em Lavoisier...
¾ ? !
¾ Sim, "na natureza nada
se perde, nada se cria, tudo se transforma"...
¾ Mas isso é formidável. Vem
exatamente de encontro ao meu ponto de vista.
¾ ? !
¾ Sim. Tudo se transforma. Aí
está a está a explicação para o carnaval de hoje. Ele apenas tem os seus hábitos
transformados, nada mais. Se você acreditava que dentro dessa Lei eu
continuaria a existir, você não pode deixar de admitir que o nosso carnaval
apenas se transforma, continuando a ser o mesmo em todas as épocas.
¾ Absolutamente, isso não. Ele
vem se transformando para pior, porque vem perdendo a espontaneidade e, conseqüentemente,
o entusiasmo sadio que antes o
caracterizava.
¾ Você é mesmo um sujeito
ranheta, seu folião fracassado. Mas, espere. Olha, lá está ela...
¾ Quem?
¾ A bailarina branca do
carnaval dos seus 20 anos.
¾ Que tolice. Nem parecida é.
Além do mais ali está uma menina-moça que, embora bonita, jamais chegaria aos
pés daquela bailarina branca, hoje... ora, melhor será silenciar...
¾ Você não pode ignorar que a
nenhum mortal é facultado o dom de ver duas vezes a mesma miragem!...
¾ Sim, misero confete amarelo,
e Por isso afirmo: jamais haverá carnaval que se compare àqueles da minha
mocidade...