O
confete amarelo... ![]()
rescAlLa BITTAR
¾ Afinal, solitário confete, que é que você faz aqui em meu living? Como ousou? Como, enfim, invadiu minha fortaleza, esta muralha imensa que levantei contra o carnaval?
¾ Que importa a estratégia Que empreguei para aqui chegar velho folião, desde que possa atingir meu objetivo?
¾ Que objetivo?
¾ Levá-lo de volta ao carnaval.
¾ Ora, deixe de tolices. Como pretende levar-me de volta a uma coisa que já vai extinguindo? ¾ E pôr que se extingue?
¾ Sei lá.
¾ Ai está. Você sabe por que? Porque foliões como você o abandonaram injustificavelmente. Daí a minha reação. Vim faze-lo reagir.
¾ Então você se inculca o papel de "general da Folia"?
¾ Dê-me o titulo que quiser pouco importa, desde que sacuda o torpor que o domina e volte para o carnaval.
¾ Mas voltar para que carnaval. Não vê que você é um só. Um mísero confete amarelo.
¾ Sim. Sou um mísero confete amarelo para você fracassado folião. Aliás, nisso, a maior culpa é sua.
¾ ? !
¾ É isso mesmo. De que se admira? Então não se lembra ¾ não faz muito ainda ¾ desde o sábado à tarde já não mais se podia andar com facilidade pela Avenida Rio Branco e tantas outras ruas do centro da cidade, porque eu e bilhões e bilhões de irmãos meus, mais nossas primas serpentinas formávamos encantador tapete multicor, não raro, de cinqüenta centímetros de altura?
¾ Lembro-me. Mas isso serve apenas para ratificar minha afirmativa de que o carnaval carioca está agonizante.
¾ Por sua culpa, repito. Porque você foge das ruas nestes três deliciosos dias. Porque muitos como você, falsos puritanos, comodistas irreverentes fogem da cidade sob os pretextos mais ridículos, abandonando o maior carnaval do mundo.
¾ Você é mesmo atrevido, ó mísero e desesperado confete.
¾ Alto lá. Pode chamar-me mísero, porém, desesperado nunca, não obstante a minha côr amarela.
¾ Mas então por que nos ofende. Por que nos chamas de falsos puritanos, comodistas irreverentes e pretextadores ridículos?
¾ Veja. Falsos puritanos porque nenhum de vocês, que afirmam não ter coragem para enfrentar de “cara limpa” essa incontestavelmente espontânea alegria popular, entrando nos blocos que passam, nenhum de vocês perde vasa para audaciosas conquistas nas ruas da cidade, nos bondes, nos ônibus, nos lotações, nas praias. Nenhum de vocês ¾ Veja bem ¾ nenhum resiste a tentação de virar a cabeça a passagem de uma dessa a que chamam de “Dona Boa”, dirigindo-lhe, não raro, piadas deveras impublicáveis. E assim procedem sempre na esperança de não terem sido observados Poe terceiros. Temem o juízo da coletividade, nada mais. Aí o falso puritanismo. Tivessem a certeza de não serem observados pela coletividade, e, estou certo, lá estariam entre a legião dos mais lídimos foliões dando expansão aos instintos, possivelmente, bestiais. Contesta o que digo?
¾ Evidentemente, pois você nada mais fez do que despejar um amontoado de sandices.
¾ Sandices? Ora, não me faça rir.
¾ Mas, afinal, onde o comodismo e os pretextos ridículos?
¾ Uma derivante do falso puritanismo. É sempre mais cômodo, quando nos foge a personalidade, dizer com a maioria dos fracassados foliões que o carnaval está morrendo. Que ele hoje é apenas uma demonstração de licenciosidade, e que sei eu mais?
¾ E isso não é verdade?
¾ Ora, seu ...
Adelaide, ignorando o que se passava lá no canto do living, abriu a porta. O noroeste que vinha forte lá do mar, entrando pela janela, formou a correnteza, e o meu interlocutor, o solitário confetinho amarelo, foi levado de roldão porta à fora, sem poder completar a sua reprimenda evidentemente descortês. Não pude impedir sua ida porque naquele turbilhão não mais vi apenas aquele mísero e solitário confete amarelo. Mas os milhões e bilhões deles, num fabuloso emaranhado de serpentinas multicores, na mais estranha dança ao ronco das cuícas, ao compasso gostoso dos tamborins, ao rufar dos tambores, ao som estridente dos clarins mesclados de risos cristalinos, intensa alegria, névoa, confusão e a bailarina branca rodopiando sem parar, envolvendo-me, arrastando-me sem que pudesse reagir. O lança-perfume atingia-me gelando a pele. Seu odor inconfundível impregnava-me as narinas.
Quanto tempo durou este sonho? Sinceramente, não sei. Sei apenas que foi delicioso. E não' pude deixar de agradecer comovido àquele solitário confetinho amarelo. Ele não conseguiu levar-me a este carnaval, porém fez muito mais. Transportou-me a outro já longínquo, muito distante carnaval.
E como é deliciosa a evocação...