Boga do rio Maior (Chondrostoma lusitanicum população do rio Maior)

 

Capturei alguns exemplares destes peixes pela primeira vez, no princípio do mês de Fevereiro de 2005. A princípio pareceram-me bordalos (Rutilus alburnoides), pois tinham características morfológicas algo semelhantes, mas também tinham características de boga (Chondrostoma sp.) pelo que não consegui identificar a espécie e decidi pedir opinião a alguém especializado na matéria. Por sorte descobri o mail da Exma. Doutora Maria João Collares-Pereira, que me respondeu prontamente e se interessou pelos exemplares dos quais enviei fotos e posteriormente levei vivos até à Faculdade de Ciências de Lisboa (FCUL), onde foram estudados e analisados.

(Segundo comentário da Doutora. estes peixes poderiam ser uma nova espécie, um híbrido que se consegue reproduzir, ou uma população algo diferente da de outros rios).

 

Estes peixes afinal pertencem população isolada de uma espécie muito rara, a Chondrostoma lusitanicum, que só se encontra em alguns rios do nosso País.

Algumas espécies de peixes possuem uma variabilidade genética bastante grande ao longo da sua área de distribuição podendo apresentar pequenas diferenças morfológicas e de coloração, e foi este o caso. É importante que se possa manter a sua variabilidade genética para que as populações continuem a ser viáveis e resistentes às condições ambientais.

 

Em 2006, enviei algumas amostras de exemplares (de peixes que tinham morrido e que conservei em álcool) do rio Maior para o Doutor Vitor Almada do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), que se encontrava em conjunto com a Doutora Joana Robalo a fazer um artigo acerca das diversas populações de Chondrostoma lusitanicum ao longo da sua área de ocorrência, e que ao analisarem geneticamente os exemplares verificaram que as populações do rio Maior são semelhantes às existentes no rio Jamor e rio Trancão.

 

Uma coisa é certa, esta espécie, e estas populações estão em sério risco, porque estas sub-bacias hidrográficas estão sujeitas a uma forte pressão humana, em termos da regularização destes rios, da construção nas suas margens, e principalmente da poluição. A acrescentar a isto, a população existente no  rio Maior terá desaparecido quase por completo, em 2005, devido à seca que secou a zona de habitat favorável a este peixe. No entanto antes de o rio secar por completo capturei alguns exemplares das várias espécies presentes no local (Chondrostoma lusitanicum, Squalius pyrenaicus e Cobitis paludica) e mantive-os em aquários (infelizmente pequenos) até que as condições permitissem a sua reintrodução. Infelizmente devido ao espaço limitado o número de exemplares não foi muito numeroso o que poderá significar que os pouco exemplares devolvidos poderão não ser suficientes para que a espécie se reproduza e recolonize o rio.

 

 

Este peixe "aparecia" na parte superior do rio Maior (em Junho 2007 encontrei uma outra pequena população num afluente do rio Maior, a ribeira de Almoster), onde as águas ainda são razoavelmente limpas e correntes, tendo infelizmente a preferência por um pequeno afluente que seca em quase todo o seu curso no Verão, ficando apenas alguns pegos/charcos, mas quase de certeza que muitos juvenis acabam por morrer em muitos dos locais que ficam a seco. Normalmente esta espécie junta-se nos "remansos".

São encontrados nos locais de profundidade média 0,5 – 1,5 metros.

Parecem viver em cardumes, pois observei o seu comportamento no habitat natural e em aquário, e normalmente vêm-se estes peixes em grupos mais ou menos numerosos.

A alimentação no meio natural parece basear-se em vermes e insectos pequenos que encontram na água ou que caem nesta. Alimentam-se a meia água ou no fundo.

 

Em aquário consegui habituá-los a alimentar-se de flocos comerciais, que eles consomem principalmente quando estes se começam a afundar.

 

A reprodução não parece ocorrer antes de Abril, pois em Março observei fêmeas com o ventre muito dilatado (ainda não tinham “desovado”).

 

Dimensões: não parecem crescer muito mais do que 10 – 12cm.

 

Dimorfismo sexual: Macho normalmente mais claro que as fêmeas, e as fêmeas possuem uma linha lateral mais demarcada e dorso mais escuro. Na época da reprodução as fêmeas apresentam o ventre muito dilatado.  

  

 

 

 

Outras espécies de peixes presentes na zona de habitat favorável a este peixe no rio Maior:

 

- Enguia (Anguilla anguilla)    

 

 

 

- Escalo (Squalius pyrenaicus)

 

- Verdemã ou pardelha (Cobitis paludica)

 

 

 

 

 

 

Medidas de Protecção:

 

Ø      Manutenção da vegetação ribeirinha e aumento da largura da faixa de terreno ocupado por esta, de modo a reduzir a erosão dos terrenos agrícolas confinantes, de modo a reduzir a turbidez da água e eutrofização causada pelo arrastamento de sedimentos, matéria orgânica, etc., assim como manter as condições de ensombramento e refúgio;

Ø      Proibir a pesca desde a nascente até à fábrica da Nobre;

Ø      Proibir a captação de água durante os anos de menores pluviosidades, de modo a não por em risco a manutenção dos locais que mantém água permanentemente;

Ø      Tentar aumentar a área de habitat disponível, despoluindo o rio no máximo da extensão que fosse possível, quer por construção de ETAR quer por outra solução técnica que fosse possível.

 

 

 

Boga Portuguesa

(Chondrostoma lusitanicum) – segundo a bibliografia consultada:

 

 

A boga Portuguesa, Chondrostoma lusitanicum ou Rutilus lusitanicum, como aparece em alguma bibliografia, é uma espécie pouco conhecida, está definida com um estatuto ecológico: RARO.

 

Requisitos ecológicos:

 

Habitat: Sabe-se muito pouco sobre a biologia e ecologia destas espécies. Preferem ribeiras ou outros cursos de

água de pequena e média dimensão, de corrente fraca ou moderada. O acasalamento ocorre em águas paradas ou de corrente fraca. Nunca foram detectadas em albufeiras (Ferreira & Godinho, 2002) (embora exista uma referência para a presença de C. lusitanicum na Lagoa de Albufeira, nos anos sessenta, a sua presença não voltou a ser referida).

As bogas de boca arqueada, entre os quais se incluem C. lusitanicum e C. nova espécie, ocorrem em populações reduzidas e localizadas, sendo especialmente sedentários (Collares-Pereira 1983 in Alves 1990).

Reprodução: A espécie apresenta capacidade de se reproduzir em cativeiro (Carvalho et al., 2002).

A situação actual destas espécies caracteriza-se por uma elevada fragmentação das suas populações, o que aumenta o risco de extinção local na maioria das suas áreas de distribuição. Por outro lado, o facto de esta espécie ocorrer principalmente em linhas de água de regime intermitente, o que significa que no período estival as populações se encontram em pegos, tornando-as muito mais vulneráveis a ameaças, tanto por causas naturais como antropogénicas.

O isolamento geográfico é especialmente grave no caso de C. lusitanicum nas bacias do Tejo e Sado. Os únicos locais em que esta espécie aparentemente se encontra numa situação mais favorável, as pequenas ribeiras da costa ocidental (Ribeiras do Oeste e entre Sado e Mira) são, devido às suas pequenas dimensões, também bastante vulneráveis à ocorrência de fenómenos estocásticos.

 

É um endemismo português, o que quer dizer que só existe em Portugal, pelo que se não for protegida poderá desaparecer para sempre.

A sua distribuição ocorre em troços das bacias hidrográficas das bacias do Oeste (nas quais deve estar fortemente ameaçada), do Tejo, entre o Tejo e o Sado, entre o Sado e Mira, e considera-se uma nova espécie C. nova espécie entre Mira e Arade, algumas populações importantes parecem existir na bacia do Rio Sado.

A sua população é pouco abundante e encontra-se em regressão.

 

Factores de ameaça da espécie em geral: alterações do habitat particularmente por extracção de inertes; pressão de outras espécies exóticas e invasoras; aparente isolamento populacional na sequência da fragmentação do habitat, por barragens, açudes, zonas onde as condições ambientais se tornaram impróprias, por poluição ou outros factores.


Medidas de conservação: protecção do habitat e criação de zonas de abrigo.


Comentários: acentuado declínio em simultâneo com a expansão de espécies invasoras.

 

Estatuto de conservação: categoria proposta para Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, in prep. – CR (Criticamente em Perigo).

 

Abundância:

 

C. lusitanicum: Pouco abundante, sendo relativamente abundante apenas na Ribeira da Samarra (bacia entre Liz e Tejo) (Alves & Coelho 1994).

 

C. nova espécie: Pouco abundante e de distribuição fragmentada na bacia de Arade (COBA 1997). Abundante localmente na bacia do Mira (Magalhães & Collares-Pereira 1999).

 

 

 

 

 

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