Ser Ateu É ...
Tem gente que não sabe o que é ser ateu... mas basicamente ser ateísta é não
precisar de um Deus nem de deuses para justificar os próprios atos. Não é
simplesmente "negar" a existência de deus/deuses. É assumir a responsabilidade
de estar vivo e viver conforme a própria consciência, fruto do funcionamento
cerebral.
Ser ateísta portanto é não ter vínculos com outras realidades supra-humanas, é
estar livre para decidir por si mesmo, sem medo de estar indo contra ou
esperando estar a favor de algum tipo de supra-consciência à qual se deva
obediência. É reduzir as crenças a um número limitado delas, focadas no
aqui/agora. É não se saber ligado aos demais por algum tipo de poder
sobrenatural mas simplesmente pelo fato de "apenas" ser um ser humano convivendo
entre os demais seres humanos e de acordo com as leis humanas. É não esperar
recompensa por seus atos senão aquelas que outros seres humanos possam oferecer
como recompensa.
Ser ateísta é ser "simples", é ter cortado todo excesso, é enxergar a vida pela
perspectiva humana, sem a necessidade de deificá-la nem a necessidade de
deificar a que quer que seja. E lógico que ateístas têm Fé, Fé em si mesmos mas
ela não os "cega", pelo contrário, ela faz abrir os olhos para o que está
acontecendo a fim de que se tomem as medidas necessárias, sem acreditar numa
outra justiça maior do que aquela que possa ser levada a cabo por si mesmo ou
pelos desígnios humanos.
Da mesma forma como não há provas da existência de Deus e, caso alguém afirme
categoricamente que Ele existe o ônus da prova recai sobre quem afirmar, também
não há provas de que ele "não existe" e nenhum ateísta se engajará de buscar as
provas de uma "não existência", uma vez que não há meios de provar que algo não
existe...
Contudo, há meios sim de aceitar a existência de algo que comprovadamente
existe. Portanto, para um ateu deixar de ser ateu bastaria que alguém provasse a
existência de Deus, coisa essa que os teístas em sua Fé em Deus ainda não foram
capazes de provar... e aí? Qual o problema em ser Ateu? Se para que Deus exista
basta que se creia nele, alguém que negue a necessidade de crer em Deus não pode
ser tomado como portador de uma Fé cega... apenas alguém não preocupado com o
que não faz falta.
Faça uma experiência sem medo: tire Deus/deuses do palco da existência e veja,
perceba o que sobra. O que sobra? A mesma vida de sempre... contudo muito mais
"ameaçadora" pelo fato de exigir a própria tomada de decisões ao invés de
depositar-se tais decisões em alguém ou algo além de "si mesmo". Perceba que não
tem mais ninguém observando seus atos além de você mesmo e assim qualquer coisa
que você faça estará de acordo apenas com a sua vontade, não a vontade de um ser
superior a você.
A crença em Deus antes de ser uma "necessidade" é o maior dos vícios. Ela
expressa imaturidade e a necessidade de um Pai guiando os próprios passos de
quem estiver "viciado" em acreditar num "pastor", num condutor. É alienante e
altamente prejudicial ao desenvolvimento pleno da potencialidade humana... Visto
dessa perspectiva, um Ateísta só perdeu o vício, como alguém que deixa de fumar,
como alguém que deixa de beber, como alguém que deixa de se drogar e
entorpecer... Um ateísta "sabe" que ele é o responsável por qualquer atitude que
venha a tomar. Daí a opção pela Ética acima de tudo.
Há várias questões para as quais Deus e a espiritualidade é a resposta, e que de
certa forma quem tentar respondê-las pode vir a fundamentar-se na crença em nele
ou em espíritos a fim de validar as possíveis respostas... vamos a algumas
delas, numa espécie de FAQ:
Como a Matéria sem vida cria vida? A resposta seria: através da vontade de Deus?
Ou...
Um segredo? Qualquer porção de matéria que contenha os ingredientes necessários
ao desenvolvimento de organismos simples, ganha "vida" no correr do tempo sob as
condições propícias ao desenvolvimento de tal "vida". O Universo parece ser apto
ao desenvolvimento de vida, a matéria parece ser apta a desenvolver seres
conscientes em algum ponto da jornada evolutiva... mas e aí? Acrescentar um
ingrediente a mais em algo não faz desse ingrediente uma necessidade... a menos
que se prove que "SEM" tal ingrediente a vida não se forma... coisa que parece
que está prestes a ser comprovada, ou seja, estamos prestes a comprovar que
bastam os ingredientes e as condições necessárias ao surgimento da vida para que
ela simplesmente "ecluda", apareça. Mas isso é prova da existência de Deus ou
apenas uma das várias qualidades da matéria que ainda não conhecemos totalmente?
Como se dá a Percepção extra sensorial? A Espiritualidade parece ter a resposta
mas...
Somos animais como todos os demais. Temos sentidos que ainda não conhecemos.
Alguns animais têm sentidos mais apurados que outros... percebem variações sutis
na atmosfera, vibrações sutis na forma de sons inaudíveis mas que podem ser
sentidos pelas partes moles ou ocas do organismo. Nós percebemos estes sons
inaudíveis... percebemos o campo magnético da Terra, percebemos de que forma
está tudo interligado na teia da vida... mas isso é prova de que Deus existe, ou
apenas uma das condições de se estar vivo e imerso num sistema fechado onde tudo
co-participa e é co-dependente? A suposta "ligação" entre as pessoas a
quilômetros de distância pode ser simplesmente fruto de algum sentimento que as
une e isto sim deveria ser estudado, a forma como o Amor faz romper barreiras
entre o Eu e o Outro... mas o Amor é prova da existência de Deus? Ou é algo
"imanente" na própria "vida"? O que é o Amor para que possa ser confundido com
um "algo mais" além de nós mesmos?
Como a Matéria sem propósito criou o propósito e a ordem?
Mas, quem "vê" tal ordem? Quem "vê" tal propósito senão nós mesmos? O universo é
um caos que nós percebemos ser ordenado... a inteligência é capaz de ver tal
ordem... mas isso é prova de que Deus existe? Ou a necessidade de "ver" tal
ordem nasce da necessidade de compreender o caos? "Ver" padrões indica que algo
está sendo compreendido, nosso
cérebro funciona assim, ele seleciona partes desconexas e as agrupa conforme as
semelhanças encontradas entre elas... onde está Deus na ordem que nós mesmos
emprestamos ao Universo?
E a Reencarnação... como se explica sem a existência de espíritos e Deus?
Hum... Você sabe como o cérebro funciona? Nem os cientistas sabem
completamente... mas estão pesquisando ao invés de atribuir as qualidades desse
órgão à existência de um Deus ou de uma consciência migratória. Sabe-se hoje em
dia que tudo o que experimentamos nasce do equilíbrio físico-químico das reações
que desencadeiam os pulsos elétricos a serem transmitidos em cadeia pelos
neurônios dentro do cérebro. Ampute-se uma parte disso, lesione-se alguma região
lá dentro da cabeça de um indivíduo e a "personalidade" diferenciada por algum
ou outro atributo já não existe mais! Leia o Erro de Descartes do Damásio, leia
O Mistério da Consciência, O Sentimento de Si também dele. Não estou "mandando"
que se leia... é apenas uma sugestão.
Assim, só para concluir, ser Ateu não é negar a maravilha, o grandioso, o
magnífico. É simplesmente não precisar de explicações com base na "fé cega" para
algo que carregamos conosco mesmos...
Tire Deus agora e o que sobra? O Universo, toda a maravilha e beleza que nós
experimentamos a partir de nossa inteligência e nossa capacidade de vermos
padrões e ordenação. Não há palavras para se descrever o fato de sermos partes
disso tudo e termos inteligência para perceber a grandiosidade e a infinidade
contida em cada porção mínima de matéria. Quem já tenha lido sobre a física de
partículas, sobre Mecânica Quântica já faz uma idéia: A maravilha não pára no
átomo, ela adentra ainda mais esse mundo diminuto estendendo-se para além dos
limites de nossa compreensão. Para quê Deus e tudo o que nos condicionamos a
acreditar que Ele represente para nós? Já não basta estarmos vivos e
experimentando o mundo? Para que um regente supremo de nossos atos além de nós
mesmos? E se tudo é imensamente maior do que percebemos, para que cedermos a uma
certeza que é a Fé na existência de Deus?
Percebe? Ser ateu é ater-se ao presente e simplesmente vivê-lo... é estar
ancorado no meio do nada que se faz tudo quando é observado e vivenciado a
partir da inteligência seja ela humana ou animal, seja ela inerente à matéria ou
não, não importa.
Lígia Amorese Gallo
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Dez/2003