Maldição

Que silencio, sentei-me na poltrona macia e tudo o que queria era poder pensar com lucidez. Olhei ao redor e só vi sombras agarradas às paredes sujas, tremulavam pela vontade do fogo da lareira, minhas únicas companheiras naquele quarto úmido e gelado, pena serem tão caladas.
Num instante de angustia senti uma presença , olhei atento , vi pendendo do teto , suspensa por um fio , uma magra aranha negra .
Quieta, como se me fitasse com seus múltiplos olhos brilhantes que eu mal conseguia perceber, uma criatura muda, como tudo ali ao redor.
Ondas de pensamentos incontroláveis percorreram minha mente, lembranças indomáveis me assaltaram. Me lembrei dela, justamente ela, naturalmente, dos tempos felizes já idos, perdidos no passado.
Me recordei de como era sublime quando estávamos juntos, de como fazíamos amor, era a felicidade, tão maravilhosa que parecia infinita. Pena ter-se acabado...
Ainda posso sentir os cabelos macios e compridos roçarem meu rosto, meu corpo, e como era lindo o sol refletindo neles, arrancando inesquecíveis raios dourados. Nós nos amávamos muito, mesmo sobre a relva e sob o céu, sentia um prazer imenso em vê-la caminhando, linda e nua, contra o vento que trazia até mim seu cheiro delicioso.
Eu a amava inteira, o corpo, a alma, tudo enfim. Pena ter-se acabado...
Hoje estou aqui, sentado nessa poltrona, nesse quarto úmido e gelado, feito um sepulcro, diria que até pior, pois em sepulcros não há mais agonia. Nem o fogo inquieto, feitor de sombras, consegue esquentar minha alma, estou triste a observar uma figura negra, magra e peluda, suspensa por um fio, numa teia de fina seda. Foi tudo o que me restou...
Uma lágrima escorrega de minha face e vai morrer no assoalho sujo, ao redor as sombras caminham caladas pelas paredes, o fogo crepita como se sofresse comigo. Maldição...
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