Assassino, vitima, ação. Revisto em 07/10/05
O coração batia um pouco mais rápido agora, protegido pela escuridão noturna apressou os passos silenciosos, sistemáticos e cadenciados, vislumbrou o vulto, uma sombra de mulher que andava um pouco mais à sua frente, os olhos negros, cheios de uma fria emoção, pareciam meio hipnotizados, olhando sem piscar para a figura que balançava levemente o quadril, ele percebeu mais o movimento como se através dele pudesse imaginar o rosto que ela teria, antes de a ver.
Aquela hora as ruas estavam vazias, diria quase mortas, só havia gatos vadios em alguns cantos escuros. A mulher dobrou uma esquina, ele aproximou-se mais e mais, seus passos foram então ouvidos, um pouco antes a presença dele já havia sido sentida, então virou-se encarando-o .
Estacou ele então à alguns metros dela, que sorriu pensando que talvez fosse algum ‘’freguês’’ , ele olhou para os lados e com mais alguns passos calmos ficou diante da mulher, olhos se encontraram e ela desviou o olhar, sentiu um arrepio estranho por um segundo, e ele pode ver agora mais claramente, seus cabelos castanhos e compridos, ligeiramente ondulados, viu os lábios coloridos com batom vermelho e brilhante, pareciam úmidos.
A prostituta insinuou-se, sorrindo, querendo mostrar-lhe a ‘’mercadoria’’, por um momento o rosto do homem deixou escapar um expressão de satisfação indefinida, sorriu também para ela, um movimento estudado e leve dos lábios.
Encostou-se nela, sentindo o calor misturado à um cheiro de perfume barato que emanava do corpo também barato, as mãos circundaram seu tronco, acariciando as costas, apertou-a nos braços sem dizer uma palavra sequer, só havia o som das suas respirações, ela não protestou e até ofereceu-lhe a boca para um beijo, ele aceitou e com uma delicadeza surpreendente encostou os lábios nela, no canto da boca, ao mesmo tempo em que comprimia uma coxa por entre suas pernas, apertou o peito em seus seios que pareciam inchados de prazer sob a blusa de malha fina.
Enquanto a mão direita afagava os cabelos da mulher, a esquerda descia lentamente afastando do corpo, o braço ficou dobrado, a mão entrou por uma fresta do seu casaco e apertou algo frio e metálico que estava preso à sua cintura.
Então o braço forte ergueu-se por detrás da mulher, que não percebeu o movimento, como um relâmpago foi ao encontro de suas costas, algo como um reflexo rápido de luz fez com que realmente parecesse um raio, atingiu-a logo abaixo das omoplatas fazendo um movimento lateral para a esquerda.
A mulher ouviu um som estranho e sentiu algo gélido penetrar-lhe a carne, ficou confusa, depois veio uma dor intensa, tentou gritar mas nenhuma voz saiu, algo quente e úmido começou a escorrer nas suas costas, as pernas fraquejaram e então mergulhou numa escuridão infinita e tudo cessou.
Um rosto mudou de forma, agora sem expressão alguma virou-se para todos os lados confirmando a sensação de estarem quase sós, só felinos vadios por testemunhas, olhou então o corpo inerte sobre uma poça de liquido vermelho que escorria por entre frestas do calçamento, num gesto calmo limpou o punhal na malha branca, sobre um dos seios da moça.
Guardou a arma, outro reflexo de luz se fez, e com passos rápidos e mudos, desapareceu na escuridão da rua .
Só os gatos viram aquele faiscamento brilhante, mas não se importaram, nem com um cheiro de sangue que se espalhava pelo ar noturno.