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TEXTO ESPECIAL 156 |
outubro 2002 | ||||
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Casa e lar. A essência da
arquitetura
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Jorge Marão Carnielo Miguel é doutor pela FAUUSP, coordenador e professor do Curso de Especialização “Arquitetura e pós-modernidade: composição e linguagem", da Universidade Estadual de Londrina. | ||||
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Cabanas, domus,
castelos, villas, palazzos, são denominações históricas do
espaço unifamiliar. São representativas da arquitetura mais elementar,
mais próxima e utilizável pelo ser humano, considerada a sua real terceira
pele, logo após a epiderme e a roupa que o protege do meio ambiente onde
vive. Entretanto, haverá uma palavra que, independente das classes
sociais, sintetizará toda noção de habitação privada: a
casa. Primitivamente, o
conceito casa surge durante o Império Romano como sinônimo de cabana,
tugúrio, choupana, de característica rural, como antagonismo ao termo
domus que indicava a habitação urbana. Domus nos deu
domicílio. De domus originou-se dominius, “senhor”, porque o
amo da casa era o senhor. A progressiva
degradação das condições de vida, o refreamento das atividades econômicas,
os periódicos flagelos das guerras e das pestes durante a Idade Média,
reduziram as domus de pedra e mármore, até quase extingui-las por
completo, multiplicando-se as casae de madeira e barro. Até o
século X, e mesmo depois, as únicas construções em alvenaria foram os
castelos e as igrejas. Na cidade, a igreja distinguia-se por suas
dimensões soberbas e pela estrutura firme, merecendo o nome de
domus, a casa do Senhor, tendo ao seu redor uma extensão miserável
de casae. Desde então, chamou-se duomo (domo), domus,
a morada de Deus e casa a morada humana. Até o presente momento
não apresentamos a palavra lar como definidora do espaço privado, pois se
confunde, freqüentemente, o uso das palavras casa e lar, chegando às vezes
a uma total sinonímia. No entanto, existem pontos relevantes que
distinguem ambos os termos. Temos, hoje, o
conceito casa como um edifício ou parte dele destinado à habitação humana.
Estar destinado representa aqui um objeto construído à espera de um uso
familiar em que as relações do plano físico e a troca emotiva de seus
moradores, possam fazer da casa um lar. “Uma interrogante que aguarda uma
resposta” (1) como diria Eduardo Sacriste. Assim a casa apresenta-se como
um espaço/forma que busca estar adequada e ser resposta correta ao modo de
vida de seus moradores e às características climáticas da paisagem onde se
instala. A casa possui sempre um valor econômico a partir de fatores
variáveis como a sua localização, a qualidade dos materiais empregados, a
sua própria estética e os espaços propostos. A unidade casa é
resultante de um complexo processo no qual confluem fatores sociais,
econômicos e técnicos determinantes de sua conformação e também de suas
mudanças. Não somente os costumes e modos de vida dos povos orientam a
configuração e transformação da casa humana. Desde outros níveis e
vertentes, menos diretos porém de incidência igualmente sensível, a casa
registra as alterações históricas e sociais, as inovações técnicas, e
logicamente a situação econômica e o grau de desenvolvimento alcançado
nesse aspecto por um estado ou região. A configuração casa
representa um invólucro delimitador entre o público e o privado, pois nos
leva a um interior, representando a necessidade de estarmos situados.
Adverte-se assim que a casa relaciona-se intimamente com o homem, pois sua
configuração é dependente da situação e do modo de vida de seu habitante e
quando este lhe infunde seu hálito vital e a transforma em algo próprio e
pessoal, ela pode assumir uma dimensão simbólica. “A casa segue sendo o lugar
central da existência humana, o sítio onde a criança aprende a compreender
sua existência no mundo e o lugar de onde o homem parte e regressa” (2),
revelando, de diversas maneiras, as formas de viver da pessoa ou grupo
familiar que embaixo de um teto instalou sua morada permanente. Eis aqui o princípio e
a própria essência da casa. Sempre vista como refúgio familiar, abrigo de
homens e mulheres, pais e filhos, patrões e empregados, família e
indivíduo, a casa pode ser vista como um microcosmo privado sempre em
confronto com um setor público, seja ele uma aldeia ou metrópole. A casa
necessita de paredes e cercas para imaginar-se uma existência não
ameaçada. É ela quem dá ao homem seu sítio sobre a terra. A casa é,
simbolicamente, um castelo, uma fortaleza, um lugar de defesa contra as
agressões externas como um local de descanso e prazer. Assim, a casa é um
objeto construído que pode ser vendido ou alugado. Um objeto inerte, não
estabelecendo valores de uso, convivência e entrosamento familiar.
Projeta-se a casa, constrói-se a casa. Os seus moradores podem fazer dela
um lar. A palavra lar é uma
corruptela de lareira. A lareira primitiva que faz do seu fogo o elemento
inseparável da cabana rústica. O fogo que reúne ao seu redor todos os
integrantes de um laço familiar, sendo, de um modo figurativo, um manto
que aquece e une a todos num mesmo instante. A identificação do fogo está
presente nas cabanas rústicas como o elemento mais semelhante à vida. O
fogo cresce, move-se, aquece, destrói e é quente, uma das qualidades
fundamentais associada à vida humana. Quando o fogo se extingue, suas
cinzas tornam-se frias, do mesmo modo que esfria o corpo de um ser quando
morre. Há um paralelismo entre o conceito da alma que anima o corpo físico
e o fogo, o espírito que anima o corpo da casa, como podemos perceber
nesta definição de Ricardo Severo: “Para agasalhar o primeiro lar,
o rústico altar do fogo sagrado – que foi a mais poderosa divindade dos
primitivos cultos – edificou o homem a primeira casa, a um tempo habitação
e templo” (4). O fogo – representado
por Héstia, a deusa grega do lar – associa-se à casa para representar a
criação de um lar, que através de sua chama traspassa a imagem da
fertilidade e metáfora da vida. O fogo representa a alma da casa, sendo um
símbolo da fertilidade feminina e da vida, chama sagrada e benéfica. É no
fogo que está o âmago da visão orgânica de Wright como nos lembra Luis
Fernandez Galiano (5), onde a utilização do fogo passa a ser mais
simbólica que funcional. Nas Prairie Houses podemos notar o papel
protagonista que nelas desempenham as lareiras, foco em torno do qual se
desenvolve o espaço arquitetônico e a vida de seus moradores e as chaminés
que apelam a uma tradição primitiva que faz do fogo a alma e o símbolo do
lar. O lar é uma condição
complexa que integra memórias, imagens, passado e presente, sendo um
complexo de ritos pessoais e rotinas quotidianas que constitui o reflexo
de seus habitantes, aí incluídos seus sonhos, esperanças e
dramas Ao entendermos a casa
como a terceira pele individual, o lar é a pele coletiva, a que integra,
protege e une todos os integrantes do ramo familiar ao redor de um foco
centralizado, o focus, o fogo ardente, símbolo espiritual da união e da
integração. Para Vitruvio a
essência da arquitetura está associada à cabana que protege o fogo, que
mantém o fogo que aquece a família. A primeira habitação, a primeira casa
seria resultado do fogo protegido. O fogo físico aquece e integra, a
família é a resultante deste aquecimento. As palavras “lar” e “mãe” estão
para Lewis Munford associadas em todas as fases da agricultura neolítica,
sendo elas a base familiar, “foi a mulher que fabricou os primeiros
recipientes, teceu cestas e deu forma aos primeiros vasos de barro. Na
forma, o lar é criação sua...era o lar o ninho coletivo para o cuidado e
nutrição dos filhos” (6). A casa seria então uma
edificação recém-construída, vazia, com seus muros imaculados, faltando a
ela a vitalidade oriunda de seus futuros habitantes. “Quando projeto uma
casa, penso no lar”. Projetar uma casa é antecipar uma distribuição
espacial que possibilite um uso adequado, um lar na verdadeira concepção
onde está presente o elemento fundamental da formação do caráter e da
personalidade, aceitando-se que as recordações recônditas da vida em
família prenda-se ao ambiente em que se vive. Pormenores como o jardim, o
quarto de dormir, a bicicleta, os vizinhos e muitas outras imagens ficam
gravados na mente de todo ser humano. A casa é o objeto
construído, possui valor econômico, é o abrigo, o invólucro protetor, é a
parte integrante do sítio onde se integra. O lar, por sua vez, é a
vivência familiar dentro da casa, o aquecimento ou a frialdade; o ruído ou
o silêncio, a calma ou a tempestade emotiva, o equilíbrio ou a desarmonia,
o clima espiritual que ecoa nos ambientes concretos da
casa. “Tudo o que a casa almeja é a
mirada agradecida do dono, que lhe reconheça a serventia. Quem, senão ela,
garante-lhe a intimidade amorosa, a exaltação dos sentidos, o calor que
emana das entranhas dos seus tijolos.” Assim, a escritora Nélida Piñon, na
crônica “O mistério da casa”, publicada no jornal O Estado de São
Paulo, em 11/04/98, reconhece a força e o poder que as paredes exercem
na casa, pois ela “impede que o vento despótico disperse os haveres da
família. Esconde a miséria, a humilhação diária, a mesa pobre. Abençoa o
homem com a fechadura da qual pende, trêmula, a modesta chave. Tranca a
porta, não deixa que a cobiça alheia, a intriga malsã dos vizinhos, os
arbítrios dos bárbaros, invadam o refúgio que se designa de lar. E tudo
que a casa almeja em troca é que a respeitem. Caso seja um dia vendida,
jamais a derrubem. Tratem-na, por favor, como a amiga sob cujo teto, à
noite, o homem busca o generoso abrigo”. Casa: a essência da arquitetura Como seria projetar a primeira
casa do homem? A idéia da primeira
casa, arquétipo e origem, está presente no pensamento dos arquitetos
modernos tanto como no dos tratadistas e teóricos da arquitetura de todos
os tempos Vitruvio foi o
primeiro a procurar a essência da casa, situando no descobrimento do fogo
a origem da sociedade humana e com ela a origem da atividade construtora
do homem. No seu tratado De architectura libre decem relata que
“com o fogo surgiram entre os homens as reuniões, as assembléias e a vida
em comum, que cada vez ficaram mais concorridas num mesmo lugar e assim,
de um modo diferente dos outros animais, os homens receberam da Natureza o
privilégio de andar erguidos e não inclinados e a atitude de fazer com
grande facilidade, com suas mãos e órgãos de seu corpo, tudo aquilo que se
propunham”. Para Vitruvio a cabana
primitiva e o fogo revelam-se inseparáveis. É o fogo o elemento
protoarquitetônico, sendo a partir dele que a arquitetura nasce como mito,
rito e consciência. “O sol e o fogo, criados para o fomento natural, fazem
mais segura a vida”. Vitruvio inaugura a
linha mestra que une o impacto do fogo à invenção da linguagem e das artes
como atividades sociais, o desenvolvimento da técnica a partir de
fragmentos de impressões sensoriais e a sucessão de passos lógicos que
estas impressões provocam nos homens primitivos até que dominem o entorno,
observando a natureza exterior associada a seus próprios
corpos. “Começaram a levantar
coberturas utilizando ramos de árvores, a cavar grutas nos montes e a
fazer, imitando os ninhos dos pássaros, com barro e ramos, recintos aonde
pudessem guarnecer-se”. Tão essencial quanto o
planejamento do primeiro princípio é o momento seguinte em que a cabana
primitiva, segundo Vitruvio, desliga-se da mera implantação no terreno e
do simples uso funcional, convertendo-se em arte: “Com o trabalho diário, os
homens foram fazendo suas mãos mais ágeis na prática de edificar e,
aperfeiçoando e exercitando seu engenho, unido à habilidade, chegaram ao
conhecimento das artes e alguns mais aplicados e diligentes passaram a ser
artífices da edificação”. A partir do
Renascimento, a recuperação da obra vitruviana será somente um ponto de
apoio para o desejo humanista de definir os verdadeiros princípios da
arquitetura. Assim, a idéia da arquitetura como arte da imitação
desembocaria, de modo automático, no mito da cabana primitiva. Os
arquitetos renascentistas encontram um outro modelo para o qual Vitruvio
já não apresentava base: o modelo antropomórfico. Partindo desta
premissa vamos encontrar Leon Batista Alberti (1404-1472) apregoando que o
princípio básico da arquitetura está no teto e na parede: fecha-se o
invólucro protetor, diferenciando-se espaço amplo e espaço fechado. Deste
modo o homem elege-se como escala de seu espaço. Para ele a união de teto
e parede é o princípio da “congregação dos homens” e não como “alguns
disseram a água e o fogo”. Em seu livro De re aedificatoria, coloca
que o homem primitivo “buscou um espaço de sossego em alguma região segura
e encontrando esta área cômoda e agradável para sua necessidade
assentou-se ali. Não quis, porém, que todos os afazeres domésticos e
individuais realizados ocupassem o mesmo ambiente, mas sim que o local de
dormir fosse diferente daquele usado para fazer o fogo. Começou a imaginar
como se colocaria o teto, para que estivesse coberto do sol e da chuva e
posteriormente construiu as paredes”. Filarete, em seu
Trattato di Architettura(1464) associa as origens da casa à
tradição cristã: depois da expulsão do paraíso, Adão será o primeiro
arquiteto e construtor da cabana rústica. Mostra como Adão constrói com
suas mãos uma proteção contra a chuva, segue a representação de uma cabana
em forma de tenda de campanha e finalmente a de cabanas cujo teto descansa
sobre troncos em forma de forquilha. “Devemos supor que quando Adão
foi alojado no paraíso estava chovendo. E como não tinha proteção, levou
as mãos à cabeça para defender-se da água. E do mesmo modo que a
necessidade o obrigou a encontrar comida para seguir vivendo, assim também
a habitação foi uma habilidade para defender-se do mal tempo e da água.
Alguns dizem que não chovia antes do dilúvio. Eu creio o contrário, pois
se a terra produzia frutos era necessário que chovesse. E como a
alimentação e o alojamento são habilidades necessárias para viver, devemos
crer que Adão, ao fazer um teto com suas duas mãos, considerando a
necessidade de fazer uma habitação, buscou fabricar uma vivenda que o
defendesse das chuvas, assim como do calor do sol”. Para Filarete, o
primeiro a representar a cabana primitiva, a essência da arquitetura está
representada por uma cabana cujo teto se apóia em troncos em forma de
forquilha. Define os troncos como a origem das colunas e ilustra esta
idéia com a estrutura da cabana primitiva que consta de quatro troncos
verticais sobre as quais assentam-se os troncos horizontais. Para Filarete
o comprimento da “coluna primitiva” tem sua origem nas medidas dos homens,
significando que estas proporções estariam de acordo com as proporções
humanas. Enquanto Vitruvio e
Filarete definiam a coluna (e não o muro) como formadora da base
estrutural arquitetônica, em sua fase primitiva, Alberti acreditava que
este sistema estava amparado no teto e na parede, sendo as pilastras e
colunas meros artifícios de embelezamento, quando, segundo Vitruvio, o
processo é exatamente o inverso, ou seja, das colunas e que derivam todos
os sistemas de proporções. Andrea Palladio
(1513-1570), por sua vez, mostra uma casa “primitiva” de duas plantas,
construída toscamente e com um frontispício. Naturalmente conhecia muito
bem os textos de Vitruvio que citou no prefácio do primeiro de seus
Quatro Livros, explicando porque iria se ocupar, em primeiro lugar,
das casas particulares: “Posto que elas sugeriam o método para desenhar
edifícios públicos, posto que é muito provável que os homens viveram, no
início, isolados e ao ver que, mais tarde, tinha vantagens ao contar com a
ajuda de outros homens para obter aquelas coisas que poderiam fazê-lo
feliz (se é que se pode falar de alguma felicidade aqui em baixo), ele (o
homem) chegou de modo natural a desejar e amar a companhia de outros
homens. E assim, os grupos de casas se converteram em aldeias e os grupos
de aldeias em cidades”. A reflexão em torno à
natureza, seus mecanismos de funcionamento e a firme crença de que o
progresso humano depende do que o homem seja capaz de regular seu
comportamento individual e social de acordo com tais leis naturais
constitui um dos eixos em torno do qual se articula o pensamento da
Ilustração. Os escritos e desenhos
que se estabeleceram no período iluminista, suscitaram discussões
polêmicas que no fundo eram a interrogante da essência da arquitetura e do
futuro caminho que ela deveria trilhar, repensando conceitos
teóricos. A questão colocada é
se existia ou não, para a arquitetura, regras que pudessem ser deduzidas
da própria natureza e que, em conseqüência, seria obrigação complementar
para os novos arquitetos da Razão. O aceite de semelhante hipótese
implica, ao mesmo tempo, por parte dos teóricos ilustrados da arquitetura,
uma revisão da história da mesma em função de maior ou menor aproximação a
tais supostas regras naturais. Neste sentido haverá uma força renovada no
século das Luzes, um mito bem mais antigo que a própria Ilustração: o da
cabana primitiva, o primeiro edifício aonde seriam encontradas e
sintetizadas as regras naturais da arquitetura. O descobrimento do
continente americano e a conseqüente abertura de um autentico horizonte de
“primitivismo” terá, por outro lado, uma evidente repercussão sobre
algumas versões posteriores do tema da cabana. Assim, já em pleno século
XVII, uma clara mostra deste impacto é a obra de J. Caramuel, no seu
tratado Architectura Civil Reta y Oblicua, publicada em 1678.
Caramuel mantém a idéia da cabana primitiva como origem da arquitetura,
porém a ilustra com exemplos dos índios americanos. A filosofia iluminista
atribuiu à natureza uma importância quase sagrada fazendo com que a arte e
a arquitetura buscassem a pureza sublimada que irão encontrar no
primitivismo. Constatou-se, com que este sentido obsessivo, que se sabia
muito pouco, ou quase nada, da arquitetura primitiva. Dos escritos de
Vitruvio deduzia-se, inequivocamente, que a coluna, e não o muro, fosse a
base da estrutura arquitetônica na antigüidade. Esse foi o erro
fundamental de Alberti: basear todo o seu sistema da arquitetura
renascentista no muro, sendo as pilastras e as colunas meros artifícios de
embelezamento, quando, segundo Vitruvio, o processo seria o inverso, ou
seja, das colunas e das ordens arquitetônicas é que derivam todo o sistema
de proporção. Os tratadistas do século XVIII ao olharem ao seu redor
encontravam uma arquitetura baseada numa série complexa de reentrâncias e
saliências dos muros, estuques imitando pedra e uma ornamentação tão
espessa que ocultava por completo a estrutura. Haveria a necessidade de
eliminar o ornamento: a arquitetura deveria voltar à sua
essência. Durante o século XVII
e princípios do XVIII o tema da cabana encontrará um desenvolvimento
privilegiado no âmbito da riquíssima teorização
arquitetônica. Claude Perrault, no
seu Ordonnance des Cinq Espèces des Collones, apresentou uma
separação entre a construção como reposta a uma necessidade humana
imediata e arquitetura como procedimento artístico, entendendo que seria
errôneo derivar a segunda da primeira. Criticava a idéia da arquitetura
ser uma arte imitativa, o que o levava, conseqüentemente, a negar a teoria
da origem da cabana primitiva. “Não é da imitação que dependem
a beleza e a graça da arquitetura, porque se assim fosse ela deveria ter
mais beleza quanto mais exatas fossem estas imitações. As colunas não
recebem a aprovação do gosto quanto mais se parecem ao tronco de uma
árvore que servia de coluna às primeiras cabanas”. Neste contexto, Michel
de Frémin apresenta, no início do século XVIII uma preocupação pelos
aspectos construtivos e funcionais. Para Frémin, no tratado Mémoires
Critiques d’Architecture de 1702, posiciona que a origem da
arquitetura está associada pelo uso que será destinada à
ela. “Como na instituição da
arquitetura os primeiros homens começaram suas construções segundo os usos
a que se destinavam...Quiseram fazer seus edifícios cômodos e sãos, e com
esta idéia dispuseram-no em consonância com seu uso”. A conclusão vem no
sentido de um protofuncionalismo, justificado pelo mito da cabana
primitiva: “Assim, segundo os homens que foram os inventores da
arquitetura, a primeira coisa a resolver num edifício reduz-se a fazer a
obra segundo o uso próprio ao que deve servir”. No entanto, o grande
codificador da teoria da cabana primitiva como base da arquitetura será o
abade Marc-Antoine Laugier (1713-1769) ao publicar em 1753, de forma
anônima, seu influente Essai sur l’Architecture, que dois anos mais
tarde, em 1755, seria objeto de uma Segunda edição revisada, quando o
autor já identificava seu nome. Laugier formula a hipótese de que toda a
arquitetura tem sua origem na cabana primitiva, sendo o princípio e medida
de toda a arquitetura. O desenvolvimento da coluna, do entablamento e do
frontispício suprimindo os muros de fechamento, faz surgir a cabana
primitiva, contendo toda a lógica construtiva. A única ilustração
deste livro apresenta a musa da arquitetura mostrando a uma criança
(supostamente a primeira da espécie humana) a “cabana rústica”, base de
toda forma arquitetônica, ou seja, uma estrutura límpida formada por
pilares e vigas, oriundas dos troncos de árvores. Para Laugier, essa
cabana primitiva era a origem da arquitetura, sendo a arte da estrutura
pura, cujos elementos essenciais são a coluna, a arquitrave e o frontão,
os quais hão de cumprir suas funções estruturais de origem, não havendo
razão alguma para aplicação de ornamentos. “O primeiro homem quis fazer um
alojamento que lhe cobrisse, sem sepultá-lo. Alguns ramos cortados no
bosque foram os materiais adequados para o seu desenho. Escolheu os mais
fortes e os levantou perpendicularmente formando um quadrado. Colocou
encima outros quatro transversais e sobre estes, outros inclinados, em
duas vertentes, formando um vértice no centro. Esta espécie de teto foi
coberta com folhas para que nem o sol e nem a chuva pudessem entrar e
estava assim o homem alojado. É certo que o frio e o calor fizessem sentir
incomodidade na casa aberta por todas as partes e assim colocou-se palha
entre os pilares e assim ficou seguro...A pequena cabana rústica que
descrevi é o modelo sobre o qual se tem imaginado toda a magnificência da
arquitetura. E aproximando-se, na execução da simplicidade deste primeiro
modelo, como se evita os grandes defeitos, como se alcança a verdadeira
perfeição. Jacques-Francois
Blonde, no seu livro Cours d’Architecture de 1771 escreve que
“os homens fizeram ao princípio alguns refúgios contra a severidade
das estações e ao ataque de animais ferozes. Com este fim construíram
choças e cabanas: juncos, canas, ramos de árvores, folhas, cortezas
e barro foram quase os únicos materiais que empregaram para construir seus
alojamentos”. Blondel elabora uma
teoria a partir do surgimento da cabana primitiva que redundaria no
surgimento dos espaços urbanos: “Ao crescer as famílias, cresceram
suas amorfas habitações. Logo, os homens sentiram a necessidade a que deu
lugar à sociedade, aprendendo a implantar alojamentos mais cômodos e
duradouros. Assim, suas casas que até então estavam separadas por vastos
desertos, agruparam-se em aldeias e logo converteram-se em burgos e desta
vez em cidades”. Jean-Nicolas-Louis
Durand, no livro Précis des Leçons d’Architecture, escrito em 1819,
define que há uma coisa que se deve evitar a todo custo em arquitetura: a
imitação. Negando os aspectos tradicionais, diz que a utilidade pública e
privada, a felicidade, a economia e a preservação dos indivíduos e da
sociedade seriam os princípios maiores da arquitetura. E continua dizendo
que o econômico sistema arquitetônico descansa sobre uma base mais sólida
que a “imitação da cabana primitiva ou do corpo
humano”. O mais influente dos
teóricos da arquitetura italiana de fins do século XVIII foi Francesco
Milizia (1725-98). Em 1768, na introdução do seu tratado Memorie degli
architetti antichi e moderni, declara-se partidário da teoria da
imitação, no sentido de Laugier, respeitando o valor da cabana primitiva
como modelo para toda a arquitetura. Milizia conduz a teoria da imitação a
um desenvolvimento maior que Laugier, reconhecendo dois princípios da
arquitetura que se refere à natureza: o grego como imitação da cabana
primitiva e o gótico como imitação do bosque. “Onde se encontram casas
fabricadas pela natureza e que os arquitetos possam ter como exemplo a
imitar? O palácio de um monarca não está modelado sobre o palácio do
universo, do mesmo modo que a harmonia não está modelada sobre a música
dos corpos celestes, cujo som não chegou, pelo menos até agora, a ouvido
algum. À arquitetura falta, na verdade, o modelo formado pela natureza;
porém existe outro modelo formado pelos homens, seguindo a industria
natural de construir suas primeiras habitações. A tosca cabana é a
arquitetura natural, a tosca cabana é a origem da beleza da arquitetura
civil”. Definindo a arte como
um sistema de conhecimento reduzido a regras positivas e invariáveis e a
ciência como um conhecimento das relações que podem manter entre si certo
número de fatos. Estes fatos são descobertos pelo sentido exclusivamente,
porém, afirma que o caráter primitivo de seu primeiro descobrimento não
deve depreciar os esforços dos primeiros homens. “Transcorreram muitos séculos
em choças, umas cônicas, outras cúbicas, em diversas
variantes...Edifica-se de um modo, ora de outro...olhando primeiro a
comodidade, a seguir a estabilidade e finalmente a beleza”. Em seu Dictionary
of architecture, Quatremère de Quincy, de 1832, posiciona que segundo
o clima e os costumes, o homem adotou certos estilos de edificação
superiores aos refúgios que lhe oferecia a natureza, como as covas e as
árvores. A madeira teria sido, para todas as sociedades primitivas, o
material de construção natural. Segundo Quatrèmere, a cabana teria sido,
inicialmente, construída com ramos das árvores e, posteriormente, com os
troncos das árvores. “E essa cabana simbólica, que chegaria a ser o tipo
da arquitetura grega, não expressa mais do que os primeiros ensaios da
arte de carpintaria, quer dizer, de uma habilidade mecânica”. Assim,
haveria três arquétipos de edifícios: a tenda, a cova e a cabana ou obra
de carpintaria. “A tenda é adotada por
chineses, uma arquitetura de construção rápida e muito afetada para ser
imitada. A cova é o arquetipo egípcio, conduz a uma arquitetura pesada e
indiferenciada para merecer aprovação. A armação de madeira, adotada e
melhorada pelos gregos, é o único digno de
imitação.” Para Quatremère, a
madeira era o material ideal para uma arquitetura que era, ao mesmo tempo,
diferenciada e sólida. A cabana, antes de ser imitada em pedra, tinha que
passar por um processo de racionalização e
desenvolvimento. “A transposição da madeira à
pedra é a razão principal que nos proporciona a arquitetura grega, e este
prazer é o mesmo que encontramos, tão desejável, em outras artes de
imitação”. Para Viollet-Le-Duc
(1814-1879), houve um tempo muito distante em que o homem errante andava
desvalido sobre a face da terra, com medo dos fenômenos naturais, que sua
pouca inteligência não chegava a penetrar, e temeroso das feras perigosas
que dividiam o mesmo território. Numa forma lenta e dolorosa foi superando
as etapas difíceis. “A chuva descarregada das
nuvens densas bate implacavelmente nas rochas, inunda a terra e aviva os
verdes das árvores. Um grupo de homens pálidos, desvalidos e temerosos
apertam-se ao redor de uma árvore qualquer, procurando abrigo, retira em
seguida os ramos inferiores, esforçando-se por fixá-los ao solo com terra.
Algo foi alcançado, porém a chuva castiga o mísero reparo, irrompe através
da folhagem e inspira ao mais robusto desses homens a idéia de construir
um refúgio mais seguro contra a violência do temporal. Banister Fletcher, no
livro A history of architecture (1896), posiciona que a primeira
habitação do homem foi um conjunto de apoios provisórios colocados sobre
uma superfície rochosa que os primeiros homens realizaram para definir uma
proteção contra as intempéries e seus diversos inimigos. “A
arquitetura...deve Ter tido uma origem simples no esforço primitivo da
humanidade por alcançar uma proteção contra a inclemência do tempo,
animais selvagens e os inimigos humanos”. A maioria dos
tratadistas dos séculos XVII, XVIII e XIX, como Claude Perrault, Jacques
François Blondel, William Chambers, Gottfried Semper e J.N.L.Durand, além
dos já citados, desenvolveram o tema da cabana primitiva ao estabelecer as
origens da arquitetura. Durante o século XX
vamos encontrar alguns arquitetos que buscam discutir esta temática,
sempre tendo como referência o discurso já apresentado. Como exemplo
podemos citar um desenho de Oscar Niemeyer, intitulado “o abrigo”, que se
aproxima, categoricamente, do pensamento de Viollet-Le-Duc. Oscar dá à
essência da arquitetura a mesma noção de cabana primitiva oriunda da
junção de dois ramos de árvores. Desta união delimita-se um espaço
interior, gera-se o espaço interno, nasce a arquitetura de um modo direto
e simples. Frank Lloyd Wright tem
a casa como origem do refúgio, um abrigo no qual o ser humano busca amparo
ou se retira, como se fosse uma cova, para proteger-se da chuva, do vento
e da luminosidade intensiva. Nesse pequeno espaço pode recolher-se e
sentir-se em segurança completa, tal como um animal em sua
toca. Le Corbusier apresenta
seu selvagem ideal como um homem que ao se deter numa determinada planície
decide que aquele é um bom lugar para sua morada. Escolhe uma clareira no
bosque, corta as árvores que necessita, aplaina o terreno e abre um
caminho até o assentamento de seus companheiros da tribo que acabara de
deixar. A estrutura de sua tenda descreve um retângulo cujos quatro
ângulos são iguais. Le Corbusier dá à essência da casa o mesmo princípio
dos templos: “Olhem um desenho de tal cabana num livro de arqueologia, ali
tem o plano de uma casa e o plano de um templo. É exatamente a mesma
atitude que encontraram numa casa pompeyana ou num templo de Luxor. Não
existe homem primitivo, há unicamente meios
primitivos”. Para Francoise Choay o
mito de origem da construção está diretamente associado ao fogo. A cabana
primitiva e o fogo primitivo revelam-se como inseparáveis. O rito, o mito
e a consciência nascem, para a humanidade, da associação da casa e do
fogo. Carl Gustav Jung
(1875-1961) traduz todo o pensamento da essência casa quando está ocupado
com a construção de sua verdadeira morada, situada na face norte do lago
de Zurich: “Tive que reproduzir em pedra minhas idéias mais íntimas e meu
próprio saber ou fazer uma confissão em pedra”. A primeira idéia consistiu
em levantar uma espécie de cabana primitiva onde o fogo ardesse entre duas
pedras e dessa idéia surgiu a primeira casa circular de 1923. “Somente
depois vi o que havia surgido e que ela possuía uma forma razoável: um
símbolo da integridade psíquica. Senti o íntimo desejo de chegar a ser o
que eu mesmo sou”. É interessante percebermos que a materialização de sua
realidade interior possuiu a forma circular de uma mandala, o símbolo de
si próprio, o quadrado-circulo que encerra um centro e que Jung
experimentou tanto em sua própria pessoa como em seus
pacientes. Para encerrarmos esta
pequena resenha histórica apresentamos uma parábola de Reyner Banham,
apresentada por Luis Fernandez Galiano, cujo relato refere-se a uma tribo
primitiva relegada a um clarão no bosque, onde os integrantes projetam
passar a noite. Neste clarão existem ramos caídos e alguma madeira. A
tribo encontra-se frente a um dilema: empregariam a madeira para levantar
um pequeno abrigo ou a utilizariam como lenha para acender um
fogo? Podemos dizer que,
para estes pensadores, construir a primeira casa do homem surgiu
inicialmente da união cabana e fogo, sendo este o símbolo e o elemento de
união entre os seres, estando sempre posicionado no foco central do espaço
construído. A casa surge, também, como a incorporação de elementos
naturais, derivando deles um sistema estrutural (pilares, vigas e
cobertura) que transforma o espaço fechado num invólucro protetor frente a
uma natureza ampla e agressiva. Bibliografia complementar BLASER, Werner. Patios
– 5.000 años de evolución. Barcelona:Gustavo Gilli, 1997. GALLO, Paola. Lofts in
Italy. Milão:Lárchivolto, 1998. RYBCZYNSKI, Witold.
Casa: pequena história de uma idéia. Rio de Janeiro:Record, 1996. SCHOENAUER, Norbert.
6.000 años de hábitat. De los poblados primitivos a la vivienda urbana en
las culturas de oriente y occidente. Barcelona:Gustavo Gilli, 1984. ZABALBEASCOA, Anatxu.
La casa del arquitecto. Barcelona:Gustavo Gilli, 1984. Notas 1 2 3 4 5 6 |
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