O Tigre das Sombras e o Cavalo de Fogo

 

A legi�o do Tigre das Sombras chega antes de os vampiros saberem do acidente. A legi�o � formada por membros solid�rios �queles que lhes foram caros em jornadas anteriores, s�o extremamente fi�is aos seus princ�pios e n�o t�m piedade por outros que n�o lhes dizem respeito.

H� naquele ve�culo dois corpos de grande interesse para os tigres, s�o dois membros perdidos da legi�o do Cavalo de fogo, mas a inconsci�ncia do instante n�o os deixa saber de onde s�o nem para onde devem ir ou at� mesmo com quem seguir. Mas o perigo est� pr�ximo e a cada instante fica mais perto, mesmo assim o Marcelo discute com o Ernesto:

- N�o podemos deixar os outros � merc� dos vampiros, afinal s�o todos iguais perante Deus.

- Eu n�o tenho nenhum compromisso com Deus, tenho compromisso com os meus, se quiser se salvar e � Sandra, acompanhe-nos. Retruca Ernesto, ainda calmo.

- Mas com que se compromete ent�o? Com todos estes maltrapilhos que andam contigo, sem destino, ser� esse povo mais importante que Deus?

- N�o me interessa se � mais importante ou n�o, apenas me interessa que n�s somos maltrapilhos que se ajudam mutuamente, somos um povo sem l�der, sem deuses, sem destino, apenas a arrebanhar os nossos para continuar a vivermos em bando, em manada.

- Porqu� ent�o n�o leva estes outros com voc�s?

- N�o s�o dos nossos. Responde Ernesto com um ar de indiferen�a.

E indignado Marcelo retruca:

- Quem s�o os seus ent�o?

- Todos aqueles que foram importantes para n�s em outras eras

Nisso os vampiros j� se faziam vis�veis e, como abutres, esperavam para atacar a presa. Ernesto ent�o d� o seu ultimato:

- Se quiseres salvar a ti e a Sandra, venha agora, n�o quero perder nenhum dos meus para aquela corja, aquele bando de sanguessugas n�o merece ter nenhum de n�s como presa, nem mesmo um combate com eles vale a pena e veja como s�o muitos, proliferam como um bando de insetos.

- N�o entendo ainda este mundo, pois acabei de chegar, iremos te acompanhar, pois Sandra est� muito fraca e n�o poderei defend�-la e n�o nego que tamb�m estou debilitado, pois o acidente me deixou bastante fraco.

Enquanto a manada dos Tigres das sombras deixavam o local, os vampiros atacavam com voracidade, a cena era a mais cruenta poss�vel de ser observada, por isso Ernesto pediu a Marcelo e Sandra:

- N�o olhem para traz, pois o que iriam ver n�o � agrad�vel aos olhos e em nada ir� lhes acrescentar, visto que ainda t�m muitos pudores nesse novo mundo.

Marcelo e Sandra obedeceram.

A caminhada era longa, principalmente para os novatos, ainda n�o sabiam o destino, nem mesmo se havia um destino, meta, objetivo ou qualquer coisa na vida daqueles seres estranhos.

Marcelo estava pensativo:

"Estes cavaleiros s�o realmente esquisitos, seus cavalos s�o ricamente ornados e bel�ssimos, cavalgam com extrema maestria e s�o, na sua maioria, cavaleiros elegantes na postura e belos em suas fisionomias, apesar de carregarem consigo um ar de cansa�o ou de desalento e aquelas roupas horrorosas e repugnantes.

O sol est� de matar, se isso fosse poss�vel de nos afetar outra vez. E porqu� de estarmos neste deserto sobre essas dunas?"�

Os pensamentos de Marcelo s�o despertados por uma vis�o ainda mais dantesca: um bando de refugiados ainda mais maltrapilhos e carcomidos, que deixavam um rastro, "seria sangue?", � frente vinha um altivo sofredor, parou � nossa frente e pediu:

- Fa�a uma prece por n�s, senhores.

- Podemos lhe dar �gua, � o que temos. Responde o Ernesto, o qual disse n�o ter l�der, mas n�o se fazia de rogado para ser o porta-voz de sua manada.

- Senhor, necessitamos muito mais de ora��es nesse deserto do que de �gua.

- Se quiserdes a �gua lhe ser� entregue, caso contr�rio estamos de partida e estamos com pressa. Atalhou um outro da legi�o dos Tigres, que descobri se chamar Ant�nio.

- Senhor, sou muito grato por esta oferta e iremos aceitar, pois desta forma teremos como continuar com melhor �nimo para procurar outros a orarem por n�s. Respondeu o andarilho.

- Porqu� n�o podemos orar por estes, uma simples reza cat�lica ou um mantra, n�o nos custar� tempo algum, � menos que o tempo de darmos a �gua para eles. Protestou convincente Marcelo.

- Ainda � novato aqui e temos algumas regras, na verdade n�o s�o regras, mas meio de conviver em coletividade e respeitamos todos os que integram o todo e resolvemos n�o fazer este tipo de concess�o a ningu�m, n�o estamos dando �gua por piedade ou outro sentimento reles, mas por que nos sobeja em abund�ncia e n�o temos pressa alguma. O tempo nada tem a ver com isto. Apenas n�o queremos fazer prece alguma por outros que n�o sejam os do bando. Enquanto Ernesto explicava estas coisas ao Marcelo, outros da manada iam servindo �gua aos andarilhos.

- N�o consigo entend�-los, descem de seus cavalos, perdem seu tempo para doar algo que n�o tem a import�ncia requerida pelos pedintes, quando � muito mais simples e caridoso doar aquilo que necessitam, ou at� mesmo ambas as coisas. Argumenta Marcelo.

- N�o estamos sendo caridosos, estamos apenas diminuindo a nossa carga, pois n�o necessitamos de todo este peso. Responde Ant�nio que chegava naquele instante.

A manada estava prestes a sair do local onde estavam, j� todos em seus corc�is negros, quando Marcelo desce do �nico cavalo branco que havia dentre todos e p�ra � frente do andarilho e cerra os olhos em atitude de prece, quando � interrompido em sua atitude pelo pr�prio andarilho:

- N�o fa�as isso, n�o quebres o c�digo dos teus.

- N�o te compreendo. Responde desanimado, Marcelo.

- Se este � o teu povo, ou se est�s sob a tutela dos mesmos, n�o os desapontes, n�o traia a confian�a dos mesmos. Explica o andarilho, virando as costas para Marcelo, rumando ao seu grupo em tempo de dizer ainda:

- Arriscastes muito, posto que n�o conheces o nosso grupo, poder�amos ser um grupo disfar�ado. Que Deus te aben�oe e te d� compreens�o.

Neste instante uma claridade espantosa repentinamente toma o lugar daqueles andarilhos, que se transformam em seres iluminados, todos montados em cavalos brancos. Aquele que sempre se dirigia ao grupo das sombras se curva a outro colega muito mais belo que qualquer outro dentre todos que estavam presentes, foi recebido pelo primeiro pelo nome de Jer�nimo. Jer�nimo se dirige a Marcelo e pergunta-lhe:

- �s um dos nossos, assim como de qualquer parte, pois �s um dos nossos. Segue-nos?

Neste mesmo instante virou-se e iniciou lentamente a ir embora junto com o restante dos seus.

- Sandra tamb�m � um de voc�s? Perguntou Marcelo.

- Todos s�o dos nossos, mas nem todos conseguem nos acompanhar. Penso que voc� ainda n�o est� preparado. Jer�nimo disse isto meigamente, voltando o seu rosto para Marcelo e desapareceu juntamente com todo o grupo que o acompanhava.

Marcelo estava confuso, quando foi despertado de seus pensamentos por Ant�nio:

- Seu corcel negro o espera.

Marcelo se vira e observa que o cavalo que ele montava havia desaparecido, enquanto um belo cavalo negro, o qual estava sem cavaleiro desde o in�cio da jornada, agora foi posto a sua disposi��o. Calado e pensativo, montou o belo animal e seguiu para junto de Sandra e Ernesto sem pronunciar palavra. Os pensamentos mais inusitados povoavam sua mente:

"N�o sei exatamente onde estou, mas toda essa gente eu conhe�o. Os nomes s�o conhecidos, as fei��es s�o familiares, apenas o local � muito estranho e a roupagem e cen�rio em que tudo tem me acontecido � estranho. E afinal de contas: Quem � Sandra? Quem � Ernesto? Quem � Jer�nimo? Eu conhe�o esse Ant�nio de onde?."

Ao longe avistava-se uma paisagem diferente, eram nuvens pesadas sobre uma floresta densa, tal qual uma floresta equatorial. Parecia haver uma redoma encobrindo aquela estufa e a manada de Ernesto se dirigia para l� a passos tranq�ilos, quando subitamente, um vampiro, que havia atacado os acidentados de Marcelo e Sandra, apareceu subitamente. Ele se dirigiu a Ant�nio e exigiu que Sandra fosse entregue a ele como pagamento de salvo conduto daquele dia. Ant�nio, sem pestanejar, se dirigiu em dire��o a Sandra e Marcelo e pegou o cavalo de Sandra, quando foi interrompido por Marcelo:

- Que pensa fazer, Ant�nio? Acaso � isso que somos aqui? Somos moeda de escambo para a vossa covardia?

- Se nos acha acovardados, tome a minha espada e enfrente o rei dos vampiros. Se vencer ser� l�der deles e ter� nossa gratid�o, al�m de salvar Sandra, que voc� ainda nem conseguiu lembrar ser sua esposa em sua �ltima jornada. Redarg�iu Ant�nio sem aparentar qualquer perturba��o ou express�o de sentimento.

Marcelo pegou a espada e apontou em dire��o ao vampiro, quando uma luz bastante suave desceu de algum lugar das alturas e atingiu o a�o, canalizando uma energia desconhecida para Marcelo e atingiu o rei dos vampiros, que caiu inerte na frente de todos da manada das sombras. Neste instante uma revoada de vampiros se apresenta e se prostra � frente de Marcelo reverenciando-o como novo rei. No ch�o, abatido, o antigo rei dos vampiros havia mudado sua fei��o de homem-morcego para uma fei��o humana e sofredora, se contorcendo de dor, o que encheu de compaix�o o pobre Marcelo, agora muito mais confuso.

Ele se dirige na dire��o do ex-vampiro e o carrega at� o corcel e o coloca sobre a sela do animal e o dirige at� a selva das sombras. Todos o seguem. Ele se volta aos vampiros e lhes ordena:

- Procurem outro l�der, pois n�o sou dos teus e nunca conseguiria s�-lo. Afastem-se destas paisagens e nunca mais ataquem nestas regi�es.

Ouvindo isto, dois vampiros que estavam � frente do grupo se entreolharam e dividiram o imenso bando em dois e cada um foi para um lado, sumindo no horizonte.

Dentro da floresta, Marcelo perguntou o que foi que aconteceu com ele, para Ernesto, e este recomendou que um bom sono fosse dormido para que as energias fossem restabelecidas e a mem�ria pudesse trabalhar em seu habitat verdadeiro.

Sandra e Marcelo foram levados a uma tenda para o repouso e ficaram l� por tr�s dias seguidos, de onde sa�ram para assumir seus postos junto ao bando. Estava tudo claro para eles.

 

Edgard e Marcilon

Gyn, 21/03/1999

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