ESPECTROS ?   

  

No bar, entre dezenas de pessoas, entre centenas de espectros, entre tantos pensamentos, tantos quantos eu n�o queria ouvir. Sentou junto a mim uma garota bastante sensual, extremamente bonita, quase vulgar, trajando um mini-vestido vermelho bem colado ao corpo.

Dirigiu-se a mim com id�ias um tanto quanto inesperadas:

-Voc� n�o imagina qual a raz�o pela qual estou aqui nesta mesa conversando com voc�?

N�o respondi.

-A �ltima hora de um ser humano...

Desta vez a interrompi:

-As m�scaras que usa s�o engra�adas, mas esta � realmente interessante e o seu real interesse por mim � realmente f�sico. J� que este estado no qual me encontro � uma face, � apenas uma face...

Ela me interrompe desta vez:

-Achei que ia gostar de terminar com um grande sorriso nos l�bios, quando entrei, olhou para toda a minha apar�ncia com um grande olhar de lasc�via...

Novamente a conversa � interrompida:

-A lasc�via � um "sentimento" que se tem com uma pessoa.

-Acaso me pare�o com alguma coisa diferente?

-Voc� � uma coisa.

-Mesmo que eu seja um espectro ou uma coisa, a lasc�via � um "sentimento" em rela��o a algo que se v� e se deseja, � o desejo em rela��o a uma imagem e n�o a uma pessoa especificamente, este outro sentimento � muito mais nobre.

-Na verdade, no sei porqu� estou te agredindo, sempre tive um grande fasc�nio por voc�. N�o posso dizer que tinha uma atra��o, mas era um sentimento um tanto quanto confuso, misto de amor e �dio, tamb�m n�o com tanta for�a assim... Acho que voc� me entende.

-Eu n�o posso te entender, isto eu gostaria muito. Meu est�gio � �nico, eu nunca poderei ter tais sentimentos, nunca terei quaisquer sentimentos. Apesar destas palavras estarem parecendo de m�goas, n�o s�o, apenas narro os acontecimentos e sei que n�o nota nenhum tom de cinismo em minha voz.

-Se n�o consegue me entender, te entendo perfeitamente, ali�s, porqu� nossos encontros nunca chegaram ao fim, � porqu� ele n�o existe realmente.

Os dois se entreolham.

O bar est� completamente vazio, apenas os dois continuam sentados no meio do sal�o, completamente absortos pela conversa, que agora discorre natural e amig�vel.

A jovem se levanta e faz men��o de se despedir; o que �, de pronto, impedido pelo seu interlocutor.

- Por favor n�o v� embora, voc� sabe que � inevit�vel.

- E eu sei que protelamos por demasiado tempo.

O sil�ncio encobre a cena e � quebrado por um pedido:

- Gostaria que voc� me desse o seu abra�o...

A garganta seca um pouco e um leve arrepio lhe sobe �s espinhas, mas ele termina a frase interrompida: 

- Me d� um grande, prolongado e �ltimo beijo.

Ela se aproxima dele e neste instante todo o cen�rio se redesenha para um novo e indescrit�vel. Os bra�os dela contornam o corpo dele, no que � prontamente acompanhado. Os l�bios se aproximam e se tocam.

Ao acordar ele se levanta de seu corpo, se dirige a ela, lhe agradece e antes de se despedir, comenta:

- Pensei que o seu abra�o fosse frio... Pensei que o seu beijo fosse gelado. Mas, no entanto, � quente como o sopro da vida, com o h�lito deste novo dia.

Olha para o seu corpo, que agora jaz inerte no centro do sal�o do bar e se despede da morte, que agora, trajando um longo vestido branco, lhe sorri e vai continuando o seu destino.

 

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