Versão eletrônica do livro “Novum Organum ou Verdadeiras Indicações Acerca da Interpretação da

Natureza”

Autor: Francis Bacon

Tradução e notas: José Aluysio Reis de Andrade

Créditos da digitalização: Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia)

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NOVUM ORGANUM

Francis Bacon

PREFÁCIO DO AUTOR

 

 

Todos aqueles que ousaram proclamar a natureza como assunto exaurido para o

conhecimento, por convicção, por vezo professoral ou por ostentação, infligiram

grande dano tanto à filosofia quanto às ciências. Pois, fazendo valer a sua

opinião, concorreram para interromper e extinguir as investigações. Tudo mais

que hajam feito não compensa o que nos outros corromperam e fizeram

malograr. Mas os que se voltaram para caminhos opostos e asseveraram que

nenhum saber é absolutamente seguro, venham suas opiniões dos antigos

sofistas, da indecisão dos seus espíritos ou, ainda, de mente saturada de

doutrinas, alegaram para isso razões dignas de respeito. Contudo, não

deduziram suas afirmações de princípios verdadeiros e, levados pelo partido e

pela afetação, foram longe demais. De outra parte, os antigos filósofos gregos,

aqueles cujos escritos se perderam, colocaram-se, muito prudentemente, entre a

arrogância de sobre tudo se poder pronunciar e o desespero da acatalepsia.1

Verberando com indignadas queixas as dificuldades da investigação e a

obscuridade das coisas, como corcéis generosos que mordem o freio,

perseveraram em seus propósitos e não se afastaram da procura dos segredos da

natureza. Decidiram, assim parece, não debater a questão de se algo pode ser

conhecido, mas experimentá-lo. Não obstante, mesmo aqueles, estribados

apenas no fluxo natural do intelecto, não empregaram qualquer espécie de regra,

tudo abandonando à aspereza da medita ção e ao errático e perpétuo revolver da

mente.

Nosso método,2 contudo, é tão fácil de ser apresentado quanto difícil de se

aplicar. Consiste no estabelecer os graus de certeza, determinar o alcance exato

dos sentidos e rejeitar, na maior parte dos casos, o labor da mente, calcado

muito de perto sobre aqueles, abrin do e promovendo, assim, a nova e certa via

da mente, que, de resto, provém das próprias percepções sensíveis. Foi, sem

dúvida, o que também divisaram os que tanto concederam à dialética.3

Tornaram também manifesta a necessidade de escoras para o intelecto, pois

colocaram sob suspeita o seu processo natural e o seu movimento espontâneo.

Mas tal remédio vinha tarde demais, estando já as coisas perdidas e a mente

ocupada pelos usos do convívio cotidiano pelas doutrinas viciosas e pela mais

vã idolatria.4 Pois a dialética, com precauções tardias, como assinalamos, e em

nada modificando o andamento das coisas, mais serviu para firmar os e rros que

descerrar a verdade. Resta, como única salvação, reempreender-se inteiramente

a cura da mente. E, nessa via, não seja ela, desde o início, entregue a si mesma,

mas permanentemente regulada, como que por mecanis mos. Se os homens

tivessem empreendido os trabalhos mecânicos unicamente com as mãos, sem o

arrimo e a força dos instrumentos, do mesmo modo que sem vacilação atacaram

as empresas do intelecto, com quase apenas as forças nativas da mente, por

certo muito pouco se teria alcançado, ainda que dispusessem para o seu labor de

seus extremos recursos.

Considere-se, por um momento, este exemplo que é como um espelho. Imaginese

um obelisco de respeitável tamanho a ser conduzido para a magnificência de

um triunfo, ou algo análogo, e que devesse ser removido tão-somente pelas

mãos dos homens. Não reconheceria nisso o espectador prudente um ato de

grande insensatez? E esta não pareceria ainda maior se pelo aumento dos

operários se confiasse alcançar o que se pretendia? E, resolvendo fazer uso de

algum critério, se se decidisse pôr de lado os fracos e colocar em ação unicamente

os robustos e vigorosos, esperando com tal medida lograr o propósito

colimado, não proclamaria o espectador estarem eles cada vez mais caminhando

para o delírio? E, se, ainda não satisfeitos, decidissem, por fim, os dirigentes

recorrer à arte atlética e ordenassem a todos se apresentarem logo, com as mãos,

os braços e os músculos untados e aprestados, conforme os ditames de tal arte:

não exclamaria o espectador estarem eles a enlouquecer, já agora com certo cálculo

e prudência? E se, por outro lado, os homens se aplicassem aos domínios

intelectuais, com o mesmo pendor malsão e com aliança tão vã, por mais que

esperassem, seja do grande número e da conjunção de forças, seja da excelência

e da acuidade de seus engenhos; e, ainda mais, se recorressem, para o

revigoramento da mente, à dialética (que pode ser tida como uma espécie de

adestramento atlético), pareceriam, aos que procurassem formar um juízo

correto, não terem desis tido ainda de usar, sem mais, o mero intelecto, apesar de

tanto esforço e zelo. E manifestamente impraticável, sem o concurso de

instrumentos ou máquinas, conseguir -se em qualquer grande obra a ser

empreendida pela mão do homem o aumento do seu poder, simple smente, pelo

fortalecimento de cada um dos indivíduos ou pela reunião de muitos deles.

Depois de estabelecermos essas premissas, destacamos dois pontos de que

queremos os homens claramente avisados, O primeiro consiste em que sejam

conservados intactos e sem restrições o respeito e a glória que se votam aos

antigos, isso para o bom transcurso de nossos fados e para afastar de nosso

espírito contratempos e perturbações. Desse modo, podemos cumprir os nossos

propósitos e, ao mesmo tempo, recolher os frutos de nossa discrição. Com

efeito, se pretendemos oferecer algo melhor que os antigos e, ainda, seguir alguns

caminhos por eles abertos, não podemos nunca pretender escapar à

imputação de nos termos envolvido em comparação ou em contenda a respeito

da capacidade de nossos engenhos. Na verdade, nada há aí de novo ou ilícito.

Por que, com efeito, não podemos, no uso de nosso direito que, de resto, é o

mesmo que o de todos —, reprovar e apontar tudo o que, da parte daqueles,

tenha sido estabelecido de modo incorreto? Mas, mesmo sendo justo e legítimo,

o cotejo não pareceria entre iguais, em razão da disparidade de nossas forças.

Todavia, visto intentarmos a descoberta de vias completamente novas e

desconhecidas para o intelecto, a proposição fica alterada. Cessam o cuidado e

os partidos, ficando a nós reservado o papel de guia apenas, mister de pouca

autoridade, cujo sucesso depende muito mais da boa fortuna que da

superioridade de talento. Esta primeira advertência só diz respeito às pessoas. A

segunda, à matéria de que nos vamos ocupar.

É preciso que se saiba não ser nosso propósito colocar por terra as filosofias ora

florescentes ou qualquer outra que se apresente, com mais favor, por ser mais

rica e correta que aquelas. Nem, tampouco, recusamos às filosofias hoje aceitas,

ou a outras do mesmo gênero, que nutram as disputas, ornem os discursos,

sirvam o mister dos professores e que provejam as demandas da vida civil. De

nossa parte, declaramos e proclamamos abertamente que a filosofia que oferecemos

não atenderá, do mesmo modo, a essas coisas úteis. Ela não é de pronto

acessível, não busca através de prenoções a anuência do intelecto, nem

pretende, pela utilidade ou por seus efeitos, pôr -se ao alcance do comum dos

homens.

Que haja, pois talvez seja propício para ambas as partes, duas fontes de geração

e de propagação de doutrinas. Que haja igualmente duas famílias de cultores da

reflexão e da filosofia, com laços de parentesco entre si, mas de modo algum

inimigas ou alheia uma da outra, antes pelo contrário coligadas. Que haja,

finalmente, dois métodos, um destinado ao cultivo das ciências e outro

destinado à descoberta científica. Aos que preferem o primeiro caminho, seja

por impaciência, por injunções da vida civil, seja pela insegurança de suas

mentes em compreender e abarcar a outra via (este será, de longe, o caso da

maior parte dos homens), a eles auguramos sejam bem sucedidos no que

escolheram e consigam alcançar aquilo que buscam. Mas aqueles dentre os

mortais, mais animados e interessados, não no uso presente das descobertas já

feitas, mas em ir mais além; que estejam preocupados, não com a vitória sobre

os adversários por meio de argumentos, mas na vitória sobre a natureza, pela

ação; não em emitir opiniões elegantes e prováveis, mas em conhecer a verdade

de forma clara e manifesta; esses, como verdadeiros filhos da ciência, que se

juntem a nós, para, deixando para trás os vestíbulos das ciên cias, por tantos

palmilhados sem resultado, penetrarmos em seus recônditos domínios. E, para

sermos melhor atendidos e para maior familiaridade, queremos adiantar o

sentido dos termos empregados. Chamaremos ao primeiro método ou caminho

de Antecipação da Mente e ao segundo de Interpretação da Natureza.

Para algo mais chamamos a vossa atenção. Procuramos cercar nossas reflexões

dos maiores cuidados, não apenas para que fossem verdadeiras, mas também

para que não se apresentassem de forma incômoda e árida ao espírito dos

homens, usualmente tão atulhado de múltiplas formas de fantasia. Em

contrapartida, solicitamos dos homens, sobretudo em se tratando de uma tão

grandiosa restauração do saber e da ciência, que todo aquele que se dispuser a

formar ou emitir opiniões a respeito do nosso trabalho, quer partindo de seus

próprios recursos, da turba de autoridades, quer por meio de demonstrações

(que adquiriram agora a força das leis civis), não se disponha a fazê-lo de

passagem e de maneira leviana. Mas que, antes, se inteire bem do nosso tema; a

seguir, procure acompanhar tudo o que descrevemos e tudo a que recorremos;

procure habituar-se à complexidade das coisas, tal como é revelada pela

experiência; procure, enfim, eliminar, com serenidade e paciência, os hábitos

pervertidos, já profundamente arraigados na mente. Aí então, tendo começado o

pleno domínio de si mesmo, querendo, procure fazer uso de seu próprio juízo.

AFORISMOS SOBRE A INTERPRETAÇÃO DA NATUREZA E O REINO

DO HOMEM

LIVRO I

AFORISMOS

I

O homem, ministro e intérprete da natureza, faz e entende tanto quanto constata,

pela observação dos fatos ou pelo trabalho da mente, sobre a ordem da natureza;

não sabe nem pode mais.

II

Nem a mão nua nem o intelecto, deixados a si mesmos, logram muito. Todos os

feitos se cumprem com instrumentos e recursos auxiliares, de que dependem,

em igual medida, tanto o intelecto quanto as mãos. Assim como os instrumentos

mecânicos regulam e ampliam o movimento das mãos, os da mente aguçam o

intelecto e o precavêm.

III

Ciência e poder do homem coincidem, uma vez que, sendo a causa ignorada,

frustra-se o efeito. Pois a natureza não se vence, se não quando se lhe obedece.

E o que à contemplação apresenta-se como causa é regra na prática.

IV

No trabalho da natureza o homem não pode mais que unir e apartar os corpos. O

restante realiza-o a própria natureza, em si mesma.

V

No desempenho de sua arte, costumam imiscuir -se na natureza o tísico, o

matemático, o médico, o alquimista e o mago. Todos eles, contudo — no

presente estado das coisas —, fazem-no com escasso empenho e parco sucesso.

VI

Seria algo insensato, em si mesmo contraditório, estimar poder ser realizado o

que até aqui não se conseguiu fazer, salvo se se fizer uso de procedimentos

ainda não tentados.

VII

As criações da mente e das mãos parecem sobremodo numerosas, quando vistas

nos livros e nos ofícios. Porém, toda essa variedade reside na exímia sutileza e

no uso de um pequeno número de fatos já conhecidos e não no número dos

axiomas.5

VIII

Mesmo os resultados até agora alcançados devem-se muito mais ao acaso e a

tentativas que à ciência. Com efeito, as ciências que ora p ossuímos nada mais

são que combinações de descobertas anteriores. Não constituem novos métodos

de descoberta nem esquemas para novas operações.

IX

A verdadeira causa e raiz de todos os males que afetam as ciên cias é uma única:

enquanto admiramos e exaltamos de modo falso os poderes da mente humana,

não lhe buscamos auxílios adequados.

X

A natureza supera em muito, em complexidade, os sentidos e o intelecto. Todas

aquelas belas meditações e especulações humanas, todas as controvérsias são

coisas malsãs. E ninguém disso se apercebe.

XI

Tal como as ciências, de que ora dispomos, são inúteis para a invenção de novas

obras, do mesmo modo, a nossa lógica atual é inútil para o incremento das

ciências.

XII

A lógica tal como é hoje usada mais vale para consolidar e perpetuar erros,

fundados em noções vulgares, que para a indagação da verdade, de sorte que é

mais danosa que útil.

XIII

O silogismo não é empregado para o descobrimento dos princípios das ciências;

é baldada a sua aplicação a axiomas intermediários, pois se encontra muito

distante das dificuldades da natureza. Assim é que envolve o nosso

assentimento, não as coisas.

XIV

O silogismo consta de proposições, as proposições de palavras, as palavras são

o signo das noções. Pelo que, se as próprias noções (que constituem a base dos

fatos) são confusas e temerariamente abstraídas das coisas, nada que delas

depende pode pretender solidez. Aqui está por que a única esperança radica na

verdadeira indução.

XV

Não há nenhuma solidez nas noções lógicas ou físicas. Substância, qualidade,

ação, paixão, nem mesmo ser, são noções seguras. Muito menos ainda as de

pesado, leve, denso, raro, úmido, seco, geração, corrupção, atração, repulsão,

elemento, matéria, forma e outras do gênero. Todas são fantásticas e mal

definidas.

XVI

As noções das espécies inferiores, como as de homem, cão, pomba, e as de

percepção imediata pelos sentidos, como quente, frio, branco, negro, não estão

sujeitas a grandes erros. Mas mesmo estas, devido ao fluxo da matéria e

combinação das coisas, também por vezes se confundem. Tudo o mais que o

homem até aqui tem usado são aberrações, não foram abstraídas e levantadas

das coisas por procedimentos devidos.

XVII

Não é menor que nas noções o capricho e a aberração na constituição dos

axiomas. Vigem aqui os mesmos princípios da indução vulgar. E isso ocorre em

muito maior grau nos axiomas e proposições que se alcançam pelo silogismo.

XVIII

Os descobrimentos até agora feitos de tal modo são que, quase só se apoiam nas

noções vulgares. Para que se penetre nos estratos mais profundos e distantes da

natureza, é necessário que tanto as noções quanto os axiomas sejam abstraídos

das coisas por um método mais adequado e seguro, e que o trabalho do intelecto

se torne melhor e mais correto.

XIX

Só há e só pode haver duas vias para a investigação e para a descoberta da

verdade. Uma, que consiste no saltar-se das sensações e das coisas particulares

aos axiomas mais gerais e, a seguir, descobrirem-se os axiomas intermediários a

partir desses princípios e de sua inamovível verdade. Esta é a que ora se segue.

A outra, que recolhe os axiomas dos dados dos sentidos e particulares,

ascendendo contínua e gradualmente até alcançar, em último lugar, os

princípios de máxima generalidade. Este é o verdadeiro caminho, porém ainda

não instaurado.

XX

Na primeira das vias o intelecto deixado a si mesmo acompanha e se fia nas

forças da dialética. Pois a mente anseia por ascender aos princípios mais gerais

para aí então se deter. A seguir, desdenha a experiência. E tais males são

incrementados pela dialética, na pompa de suas disputas.

XXI

O intelecto, deixado a si mesmo, na mente sóbria, paciente e grave, sobretudo se

não está impedida pelas doutrinas recebidas, tenta algo na outra via, na

verdadeira, mas com escasso proveito. Porque o intelecto não regulado e sem

apoio é irregular e de todo inábil para superar a obscuridade das coisas.

XXII

Tanto uma como a outra via partem dos sentidos e das coisas particulares e

terminam nas formulações da mais elevada generali dade. Mas é imenso aquilo

em que discrepam. Enquanto que uma perpassa na carreira pela experiência e

pelo particular, a outra aí se detém de forma ordenada, como cumpre. Aquela,

desde o início, estabelece certas generalizações abstratas e inúteis; esta se eleva

gradualmente àquelas coisas que são realmente as mais comuns na natureza.

XXIII

Não é pequena a diferença existente entre os ídolos da mente humana e as idéias

6 da mente divina, ou seja, entre opiniões inúteis e as verdadeiras marcas e

impressões gravadas por Deus nas criaturas. tais como de fato se encontram.

XXIV

De modo algum se pode admitir que os axiomas constituídos pela argumentação

valham para a descoberta de novas verdades, pois a profundidade da natureza

supera de muito o alcance do argumento. Mas os axio mas reta e ordenadamente

abstraídos dos fatos particulares, estes sim, facilmente indicam e designam

novos fatos particulares e, por essa via, tornam ativas as ciências.

XXV

Os axiomas ora em uso decorrem de experiência rasa e estreita e a partir de

poucos fatos particulares, que ocorrem com freqüência; e estão adstritos à sua

extensão. Daí não espantar que não levem a novos fatos particulares. Assim, se

caso alguma instância7 não antes advertida ou cogitada se apresenta, graças a

alguma distinção frívola procura-se salvar o axioma, quando o mais verdadeiro

seria corrigi-lo.

XXVI

Para efeito de explanação, chamamos à forma ordinária da razão humana voltarse

para o estudo da natureza de antecipações da natureza (por se tratar de

intento temerário e prematuro). E à que procede da forma devida, a partir dos

fatos, designamos por interpretação da natureza.

XXVII

As antecipações são fundamento satisfatório para o consenso,8 pois, se todos os

homens se tornassem da mesma forma insanos, poderiam razoavelmente

entender-se entre si.

XXVIII

Ainda mais, as antecipações são de muito mais valia para lograr o nosso

assentimento, que as interpretações; pois, sendo coligidas a partir de poucas

instâncias e destas as que mais familiarmente ocorrem, desde logo empolgam o

intelecto e enfunam a fantasia; enquanto que as interpretações, pelo contrário,

sendo coligidas a partir de múltiplos fatos, dispersos e distanciados, não podem,

de súbito, tocar o intelecto, de tal modo que, à opinião comum, podem parecer

quase tão duras e dissonantes quanto os mistérios da fé.

XXIX

Nas ciências que se fundam nas opiniões e nas convenções é bom o uso das

antecipações e da dialética, já que se trata de submeter o assentimento e não as

coisas.

XXX

Mesmo que se reunissem, se combinassem e se c onjugassem os engenhos de

todos os tempos, não se lograria grande progresso nas ciências, através das

antecipações, porque os erros radicais perpetrados na mente, na primeira

disposição, não se curariam nem pela excelência das operações nem pelos

remédios subseqüentes.

XXXI

Vão seria esperar-se grande aumento nas ciências pela superposição ou pelo

enxerto do novo sobre o velho. É preciso que se faça uma restauração da

empresa a partir do âmago de suas fundações, se não se quiser girar

perpetuamente em cír culos, com magro e quase desprezível progresso.

XXXII

A glória dos antigos, como a dos demais, permanece intata, pois não se

estabelecem comparações entre engenhos e capacidades, mas de métodos. Não

nos colocamos no papel de juiz, mas de guia.

XXXIII

Seja dito claramente que não pode ser formulado um juízo correto nem sobre o

nosso método nem sobre as suas descobertas pelo critério corrente — as

antecipações; pois não nos podem pedir o acolhimento do juízo cuja própria

base está em julgamento.

XXXIV

Não é, com efeito, empresa fácil transmitir e explicar o que pretendemos,

porque as coisas novas são sempre compreendidas por analogia com as antigas.

XXXV

Disse Bórgia, da expedição dos franceses à Itália, que vieram com o giz nas

mãos para marcar os seus alojamentos, e não com armas para forçar passagem.

Nosso propósito é semelhante: que a nossa doutrina se insinue nos espíritos

idôneos e capazes. Não fazemos uso da refutação quando dissentimos a respeito

dos princípios, dos próprios conceitos e formas da demonstração.

XXXVI

Resta-nos um único e simples método, para alcançar os nossos intentos: levar os

homens aos próprios fatos particulares e às suas séries e ordens, a fim de que

eles, por si mesmos, se sintam obrigados a renunciar às suas noções e comecem

a habituar-se ao trato direto das coisas.

XXXVII

Coincidem, até certo ponto, em seu inicio, o nosso e o método daqueles que

usaram da acatalepsia. Mas nos pontos de chegada, imensa distância nos separa

e opõe. Aqueles, com efeito, afirmaram cabalmente que nada pode ser

conhecido. De nossa parte, dizemos que não se pode conhecer muito acerca da

natureza, com auxílio dos procedimentos ora em uso. E, indo mais longe, eles

destroem a autoridade dos sentidos e do intelecto, enquanto que nós, ao

contrário, lhes inventamos e subministramos auxílios.

XXXVIII

Os ídolos e noções falsas que ora ocupam o intelecto humano e nele se acham

implantados não somente o obstruem a ponto de ser difícil o acesso da verdade,

como, mesmo depois de seu pórtico logrado e descerrado, poderão ressurgir

como obstáculo à própria instauração das ciências, a não ser que os homens, já

precavidos contra eles, se cuidem o mais que possam.

XXXIX

São de quatro gêneros os ídolos que bloqueiam a mente humana. Para melhor

apresentá-los, lhes assinamos nomes, a saber: Ido/os da Tribo; Ido/os da

Caverna; Ídolos do Foro e Ido/os do Teatro.9

XL

A formação de noções e axiomas pela verdadeira indução é, sem dúvida, o

remédio apropriado para afastar e repelir os ídolos. Será, contudo, de grande

préstimo indicar no que consistem, posto que a doutrina dos ídolos tem a ver

com a interpretação da natureza o mesmo que a doutrina dos elencos sofísticos

com a dialética vulgar.

XLI

Os ídolos da tribo estão fundados na própria natureza humana, na própria tribo

ou espécie humana. E falsa a asserção de que os sentidos do homem são a

medida das coisas. Muito ao contrário, todas as percepções, tanto dos sentidos

como da mente, guardam analogia com a natureza humana e não com o

universo. O intelecto humano é semelhante a um espelho que reflete

desigualmente os raios das coisas e, dessa forma, as distorce e corrompe.

XLII

Os ídolos da caverna 10 são os dos homens enquanto indivíduos. Pois, cada um

— além das aberrações próprias da natureza humana em geral — tem uma

caverna ou uma cova que intercepta e corrompe a luz da natureza: seja devido à

natureza própria e singular de cada um; seja devido à educação ou conversação

com os outros; seja pela leitura dos livros ou pela autoridade daqueles que se

respeitam e admiram; seja pela diferença de impressões, segundo ocorram em

ânimo preocupado e predisposto ou em ânimo equânime e tranqüilo; de tal

forma que o espírito humano — tal como se acha disposto em cada um — é

coisa vária, sujeita a múltiplas perturbações, e até certo ponto sujeita ao acaso.

Por isso, bem proclamou Heráclito 11 que os homens buscam em seus pequenos

mundos e não no grande ou universal.

XLIII

Há também os ídolos provenientes, de certa forma, do intercurso e da

associação recíproca dos indivíduos do gênero humano entre si, a que

chamamos de ídolos do foro devido ao comércio e consórcio entre os homens.

Com efeito, os homens se associam graças ao discurso,12 e as palavras são

cunhadas pelo vulgo. E as palavras, impostas de maneira imprópria e inepta,

bloqueiam espantosamente o intelecto. Nem as definições, nem as explicações

com que os homens doutos se munem e se defendem, em certos domínios,

restituem as coisas ao seu lugar. Ao contrário, as palavras forçam o intelecto e o

perturbam por completo. E os homens são, assim, arrastados a inúmeras e

inúteis controvérsias e fantasias.

XLIV

Há, por fim, ídolos que imigraram para o espírito dos homens por meio das

diversas doutrinas filosóficas e também pelas regras viciosas da demonstração.

São os ídolos do teatro: por parecer que as filosofias adotadas ou inventadas são

outras tantas fábulas, produzidas e representadas, que figuram mundos fictícios

e teatrais. Não nos referimos apenas às que ora existem ou às filosofias e seitas

dos antigos. Inúmeras fábulas do mesmo teor se podem reunir e compor, por

que as causas dos erros mais diversos são quase sempre as mesmas. Ademais,

não pensamos apenas nos sistemas filosóficos, na universalidade, mas também

nos numerosos princípios e axiomas das ciências que entraram em vig or, mercê

da tradição, da credulidade e da negligência. Contudo, falaremos de forma mais

ampla e precisa de cada gênero de ídolo, para que o intelecto humano esteja

acautelado.

XLV

O intelecto humano, mercê de suas peculiares propriedades, facilmente supõe

maior ordem e regularidade nas coisas que de fato nelas se encontram. Desse

modo, como na natureza existem muitas coisas singulares e cheias de

disparidades, aquele imagina paralelismos, correspondências e relações que não

existem. Daí a suposição de que no céu todos os corpos devem mover-se em

círculos perfeitos, rejeitando por completo linhas espirais e sinuosas, a não ser

em nome. Daí, do mesmo modo, a introdução do elemento fogo com sua órbita,

para constituir a quaderna com os outros três elementos que os sentidos

apreendem. Também de forma arbitrária se estabelece, para os chamados

elementos, que o aumento respectivo de sua rarefação se processa em proporção

de um para dez, e outras fantasias da mesma ordem. E esse engano prevalece

não apenas para elaboração de teorias como também para as noções mais

simples.

XLVI

O intelecto humano, quando assente em uma convicção (ou por já bem aceita e

acreditada ou porque o agrada), tudo arrasta para seu apoio e acordo. E ainda

que em maior número, não observa a força das instâncias contrárias, desprezaas,

ou, recorrendo a distinções, põe-nas de parte e rejeita, não sem grande e

pernicioso prejuízo. Graças a isso, a autoridade daquelas primeiras afirmações

permanece inviolada. E bem se houve aquele que, ante um quadro pendurado no

templo, como ex-voto dos que se salvaram dos perigos de um naufrágio, instado

a dizer se ainda se recusava a aí reconhecer a providência dos deuses, indagou

por sua vez: “E onde estão pintados aqueles que, a despeito do seu voto,

pereceram?”13 Essa é a base de praticamente toda superstição, trate-se de

astrologia, interpretação de sonhos, augúrios e que tais: encantados, os homens,

com tal sorte de quimeras, marcam os eventos em que a predição se cumpre;

quando falha o que é bem mais f reqüente —, negligenciam-nos e passam adiante.

Esse mal se insinua de maneira muito mais sutil na filosofia e nas ciências.

Nestas, o de início aceito tudo impregna e reduz o que segue. até quando parece

mais firme e aceitável. Mais ainda: mesmo não estando presentes essa

complacência e falta de fundamento a que nos referimos, o intelecto humano

tem o erro peculiar e perpétuo de mais se mover e excitar pelos eventos

afirmativos que pelos negativos, quando deveria rigorosa e sistematicamente

atentar para ambos. Vamos mais longe: na constituição de todo axioma

verdadeiro, têm mais força as instâncias negativas.

XLVII

O intelecto humano se deixa abalar no mais alto grau pelas coisas que súbita e

simultaneamente se apresentam e ferem a mente e ao mesmo tempo c ostumam

tomar e inflar a imaginação. E a partir disso passa a conceber e supor,

conquanto que imperceptivelmente, tudo o mais, do mesmo modo que o

pequeno número de coisas que ocupam a mente. Contudo, para cumprir o

percurso até os fatos remotos e heterogêneos, pelos quais os axiomas se provam

como pelo fogo — a não ser que duras leis e violenta autoridade o imponham ,

mostra-se tardo e inepto.

XLVIII

O intelecto humano se agita sempre, não se pode deter ou repousar, sempre

procura ir adiante. Mas sem resultado. Daí ser impensável, inconcebível que

haja um limite extremo e último do mundo. Antes, sempre ocorre como

necessária a existência de mais algo além. Nem tampouco se pode cogitar de

como a eternidade possa ter transcorrido até os dias presentes, posto que a

distinção geralmente aceita do infinito, como comportando uma parte já

transcorrida e uma parte ainda por vir, não pode de modo algum subsistir, em

vista de que se seguiria o absurdo de haver um infinito maior que outro, como

se o infinito pudesse consumir-se no finito. Semelhante é o problema da

divisibilidade da reta ao infinito, coisa impossível de ser pensada. Mas de

maneira mais perniciosa se manifesta essa incapacidade da mente na descoberta

das causas: pois, como os princípios universais da natureza, tais como são

encontrados, devem ser positivos, não podem ter uma causa. Mas, mesmo

assim, o intelecto humano, que se não pode deter, busca algo. Então, acontece

que buscando o que está mais além acaba por retroceder ao que está mais

próximo, seja, as causas finais, que claramente derivam da natureza do homem

e não do universo. Aí está mais uma fonte que por mil maneiras concorre para a

corrupção da filosofia. Há tanta imperícia e leviandade dessa espécie de

filósofos, na busca das causas do que é universal, quanto desinteresse pelas

causas dos fatos secundários e subalternos.14

XLIX

O intelecto humano não é luz pura,15 pois recebe influência da vontade e dos

afetos, donde se poder gerar a ciência que se quer. Pois o homem se inclina a ter

por verdade o que prefere. Em vista disso, rejeita as dificuldades, levado pela

impaciência da investigação; a sobriedade, porque sofreia a esperança; os

princípios supremos da natureza, em favor da superstição; a luz da experiência,

em favor da arrogância e do orgulho, evitando parecer se ocupar de coisas vis e

efêmeras; paradoxos, por respeito à opinião do vulgo. Enfim, inúmeras são as

fórmulas pelas quais o sentimento, quase sempre imperceptivelmente, se insinua

e afeta o intelecto.

L

Mas os maiores embaraços e extravagâncias do intelecto provêm da obtusidade,

da incompetência e das falácias dos sentidos. E isso ocorre de tal forma que as

coisas que afetam os sentidos preponderam sobre as que, mesmo não o afetando

de imediato, são mais importantes. Por isso, a observação não ultrapassa os

aspectos visíveis das coisas, sendo exígua ou nula a observação das invisíveis.

Também escapam aos homens todas as operações dos espíritos latentes nos

corpos sensíveis. Permanecem igualmente desconhecidas as mudanças mais

sutis de forma das partes das coisas mais grossas (o vulgo sói chamar a isso de

alteração, quando na verdade se trata de translação) em espaços mínimos.16 Até

que fatos, como os dois que indicamos, não sejam investigados e esclarecidos,

nenhuma grande obra poderá ser empreendida na natureza. E ainda a própria

natureza do ar comum, bem como de todos os corpos de menor densidade (que

são muitos), é quase por completo desconhecida. Na verdade, os sentidos, por si

mesmos, são algo débil e enganador, nem mesmo os instrumentos destinados a

ampliá-los e aguçá-los são de grande valia. E toda verdadeira interpretação da

natureza se cumpre com instâncias e experimentos oportunos e adequados, onde

os sentidos julgam somente o experimento e o experimento julga a natureza e a

própria coisa.

LI

O intelecto humano, por sua própria natureza, tende ao abstrato, e aquilo que

flui, permanente lhe parece. Mas é melhor dividir em partes a natureza que

traduzi-la em abstrações. Assim procedeu a escola de Demócrito, que mais que

as outras penetrou os segredos da natureza. O que deve ser sobretudo

considerado é a matéria, os seus esquematismos, os metaesquematismos, o ato

puro, e a lei do ato, que é o movimento. As formas são simples ficções do

espírito humano, a não ser que designemos por formas as próprias leis do ato.17

LII

Tais são os ídolos a que chamamos de ídolos da tribo, que têm origem na

uniformidade da substância espiritual do homem, ou nos seus preconceitos, ou

bem nas suas limitações, ou na sua contínua instabilidade; ou ainda na

interferência dos sentimentos ou na incompetência dos sentidos ou no modo de

receber impressões.

LIII

Os ídolos da caverna têm origem na peculiar constituição da alma e do corpo de

cada um; e também na educação, no hábito ou em eventos fortuitos. Como as

suas espécies são múltiplas e várias, indicaremos aquelas com que se deve ter

mais cuidado, por se tratar das que têm maior alcance na turbação da limpidez

do intelecto.

LIV

Os homens se apegam às ciências e a determinados assuntos, ou por se

acreditarem seus autores ou descobridores, ou por neles muito se terem

empenhado e com eles se terem familiarizado. Mas essa espécie de homens,

quando se dedica à filosofia e a especulações de caráter geral, distorce e

corrompe-as em favor de suas anteriores fantasias. Isso pode ser especialmente

observado em Aristóteles que de tal modo submete a sua filosofia natural à

lógica que a tornou quase inútil e mais afeita a contendas. A própria estirpe dos

alquimistas elabora uma filosofia fantástica e de pouco proveito, porque

fundada em alguns poucos experimentos levados a cabo em suas oficinas.

Assim também Gilbert,18 que, depois de laboriosamente haver observado o

magneto, logo concebeu uma filosofia toda conforme ao seu principal interesse.

LV

A maior e talvez a mais radical diferença que distingue os enge nhos, em relação

à filosofia e às ciências, está em que alguns são mais capazes e aptos para notar

as diferenças das coisas, outros para as suas semelhanças. Com efeito, os

engenhos constantes e agudos podem fixar, deter e dedicar a sua atenção às

diferenças mais sutis. De outra parte, os engenhos altaneiros e discursivos

reconhecem e combinam as mais gerais e sutis semelhanças das coisas. Mas

tanto uns como outros podem facilmente incorrer no exagero, captando em um

caso a graduação das coisas, em outro as aparências.

LVI

É desse modo que se estabelecem as preferências pela Antiguidade ou pelas

coisas novas. Poucos são os temperamentos que conseguem a justa medida, ou

seja, não desprezar o que é correto nos antigos, sem deixar de lado as

contribuições acertadas dos modernos. E é o que tem causado grandes danos

tanto às ciências quanto à filosofia, pois faz-se o elogio da Antiguidade ou das

coisas novas e não o seu julgamento. A verdade não deve, porém, ser buscada

na boa fortuna de uma época, que é inconstante, mas à luz da natureza e da

experiência, que é eterna. Em vista disso, todo entusiasmo deve ser afastado e

deve-se cuidar para que o intelecto não se desvie e seja por ele arrebatado em

seus juízos.

LVII

O estudo da natureza e dos corpos em seus elementos simples fraciona e abate o

intelecto, enquanto que o estudo da natureza e da composição e da configuração

dos corpos o entorpece e desarticula. Isto se pode muito bem observar na escola

de Leucipo e Demócrito, se se compara com as demais filosofias. Aquela, com

efeito, de tal modo se preocupa com as partículas das coisas que negligencia a

sua estrutura; as outras, por seu turno, ficam de tal modo empolgadas na

consideração da estrutura que não penetram nos elementos simples da natureza.

Assim, pois, se devem alternar ambas as formas de observação e adotar cada

uma por sua vez, para que se torne a um tempo penetrante e capaz e se possam

afastar os inconvenientes apontados, bem como os ídolos dele s provenientes.

LVIII

Essa seja a prudência a ser adotada nas especulações para que se contenham e

desalojem os ídolos da caverna, os quais provêm de alguma disposição

predominante no estudo, ou do excesso de síntese ou de análise, ou do zelo por

certas épocas, ou ainda da magnitude ou pequenez dos objetos considerados.

Todo estudioso da natureza deve ter por suspeito o que o intelecto capta e retém

com predileção. Em vista disso, muito grande deve ser a precaução para que o

intelecto se mantenha íntegro e puro.

LIX

Os ídolos do foro são de todos os mais perturbadores: insinuam-se no intelecto

graças ao pacto de palavras e de nomes. Os homens, com efeito, crêem que a

sua razão governa as palavras. Mas sucede também que as palavras volvem e

refletem suas forças sobre o intelecto, o que torna a filosofia e as ciências

sofisticas e inativas. As palavras, tomando quase sempre o sentido que lhes

inculca o vulgo seguem a linha de divisão das coisas que são mais potentes ao

intelecto vulgar. Contudo, quando o intelecto mais agudo e a observação mais

diligente querem transferir essas linhas para que coincidam mais

adequadamente com a natureza, as palavras se opõem. Daí suceder que as

magnas e solenes disputas entre os homens doutos, com freqüência, acabem em

controvérsias em torno de palavras e nomes, caso em que melhor seria

(conforme o uso e a sabedoria dos matemáticos) restaurar a ordem, começando

pelas definições. E mesmo as definições não podem remediar totalmente esse

mal, tratando-se de coisas naturais e materiais, posto que as próprias definições

constam de palavras e as palavras engendram palavras. Donde ser necessário o

recurso aos fatos particulares e às suas próprias ordens e séries, como depois

vamos enunciar, quando se expuser o método e o modo de constituição das

noções e dos axiomas.

LX

Os ídolos que se impõem ao intelecto através das palavras são de duas espécies.

Ou são nomes de coisas que não existem (pois do mesmo modo que há coisas

sem nome, por serem despercebidas, assim também há nomes por mera

suposição fantástica, a que não correspondem coisas), ou são nomes de coisas

que existem, mas confusos e mal determinados e abstraídos das coisas, de forma

temerária e inadequada. À primeira espécie pertencem: a fortuna, o primeiro

móvel, as órbitas planetárias, o elemento do fogo e ficções semelhantes, que

têm origem em teorias vazias e falsas. Essa espécie de ídolos é a mais fácil de se

expulsar, pois se pode exterminá-los pela constante refutação e ab-rogação das

teorias que os amparam. Mas a outra espécie é mais complexa e mais

profundamente arraigada por se ter formado na abstração errônea e inábil.

Tome-se como exemplo a palavra úmido e enumerem-se os significados que

pode assumir. Descobriremos que esta palavra úmido compila notas confusas de

operações diversas que nada têm em comum ou que não são irredutíveis.

Significa, com efeito, tudo o que se expande facilmente em torno de outro

corpo; tudo o que é em si mesmo indeterminável e não pode ter consistência;

tudo o que facilmente cede em todos os sentidos; tudo o que facilmente se

divide e dispersa; tudo o que se une e junta facilmente; tudo o que facilmente

adere a outro corpo e molha; tudo o que facilmente se reduz a liquido, se antes

era sólido. De sorte que se pode predicar e impor a palavra úmido em um

determinado sentido, “a chama é úmida”; em outro, “o ar não é úmido”; em

outro, “o pó fino é úmido”; e em outro, ainda, “o vidro é úmido”. Daí facilmente

transparece que esta noção foi abstraída de forma leviana apenas da água

e dos líquidos correntes e vulgares, sem qualquer adequada verificação posterior

Há, contudo, nas palavras certos graus de distorção e erro. O gênero menos

nefasto é o dos nomes de substâncias particulares, em especial as de espécies

inferiores, bem deduzidas. Assim as noções de greda e lodo são boas; a de terra,

má. Mais deficientes são as palavras que designam ação, tais como: gerar,

corromper, alterar. As mais prejudiciais são as que indicam qualidades (com

exceção dos objetos imediatos da sensação), como: pesado, leve, tênue, denso,

etc. Todavia, em todos esses casos pode suceder que certas noções sejam um

pouco melhores que as demais, como ocorre com as que designam coisas que os

sentidos humanos alcançam com mais freqüência.

LXI

Por sua vez, os ídolos do teatro não são inatos, nem se insinuaram às ocultas no

intelecto, mas foram abertamente incutidos e recebidos por meio das fábulas dos

sistemas e das pervertidas leis de demonstração. Porém, tentar e sustentar a sua

refutação não seria consentâneo com o que vimos afirmando. Pois, se não

estamos de acordo nem com os princípios nem com as demonstrações, não se

admite qualquer argumentação. O que, ademais, é um favor dos fados, pois

dessa forma é respeitada a glória dos antigos. Nada se lhes subtrai, já que se

trata de uma questão de método. Um coxo (segundo se diz) no caminho certo,

chega antes que um corredor extraviado, e o mais hábil e veloz, correndo fora

do caminho, mais se afasta de sua meta, O nosso método de descobrir a

verdadeira ciência é de tal sorte que muito pouco deixa à agudeza e robustez dos

engenhos; mas, ao contrário, pode-se dizer que estabelece equivalência entre

engenhos e intelectos. Assim como para traçar uma linha reta ou um círculo perfeito,

perfazendo-os a mão, muito importam a firmeza e o desempenho, mas

pouco ou nada importam usando a régua e o compasso. O mesmo ocorre com o

nosso método. Ainda que seja de utilidade nula a refutação particular de

sistemas, diremos algo das seitas e teorias e, a seguir, dos signos exteriores que

denotam a sua falsidade; e, por último, das causas de tão grande infortúnio e tão

constante e generalizado consenso no erro. E isso para que se torne menos

difícil o acesso à verdade e o intelecto humano com mais disposição se

purifique e os ídolos possa derrogar.

LXII

Os ídolos do teatro, ou das teorias, são numerosos, e podem ser, e certamente o

serão, ainda em muito maior número. Com efeito, se já por tantos séculos não

tivesse a mente humana se ocupado de religião e teologia; e se os governos civis

(principalmente as monarquias) não tivessem sido tão adversos para com as

novidades, mesmo nas especulações filosóficas a tal ponto que os homens que

as tentam sujeitam-se a riscos, ao desvalimento de sua fortuna, e, sem nenhum

prêmio, expõem-se ao desprezo e ao ódio; se assim não fosse, sem dúvida,

muitas outras seitas filosóficas e outras teorias teriam sido introduzidas, tais

como floresceram tão grandemente diversificadas entre os gregos. Pois, do

mesmo modo que se podem formular muitas teorias do céu19 a partir dos

fenômenos celestes; igualmente, com mais razão, sobre os fenômenos de que se

ocupa a filosofia se podem fundar e constituir muitos dogmas. E acontece com

as fábulas deste teatro o mesmo que no teatro dos poetas. As narrações feitas

para a cena são mais ordenadas e elegantes e aprazem mais que as verdadeiras

narrações tomadas da história.

Mas em geral supõe -se para matéria da filosofia ou muito a partir de pouco ou

pouco a partir de muito. Assim, a filosofia se acha fundada, em ambos os casos,

numa base de experiência e história natural excessivamente estreita e se decide

a partir de um número de dados muito menor que o desejável. Assim, a escola

racional 20 se apodera de um grande número de experimentos vulgares, não bem

comprovados e nem diligentemente examinados e pensados, e o mais entrega à

meditação e ao revolver do engenho.

Há também outra espécie de filósofos que se exercitaram, de forma diligente e

acurada, em um reduzido número de experimentos e disso pretenderam deduzir

e formular sistemas filosóficos acabados, ficando, estranhamente, os fatos

restantes à imagem daqueles poucos distorcidos.

E há uma terceira espécie de filósofos, os quais mesclam sua filo sofia com a

teologia e a tradição amparada pela fé e pela veneração das gentes. Entre esses,

há os que, levados pela vaidade, pretenderam estabelecer e deduzir as ciências

da invocação de espíritos e gênios.21 Dessa forma, são de três tipos as fontes dos

erros e das falsas filosofias: a sofística, a empírica e a supersticiosa.

LXIII

O mais conspícuo exemplo da primeira é o de Aristóteles, que corrompeu com

sua dialética a filosofia natural: ao formar o mundo com base nas categorias; ao

atribuir à alma humana, a mais nobre das substâncias, um gênero extraído de

conceitos segundos;22 ao tratar da questão da densidade e da rarefação, com que

se indica se os corpos ocupam maiores ou menores extensões, conforme suas

dimensões, por meio da fria distinção de potência e ato; ao conferir a cada corpo

apenas um movimento próprio, afirmando que, se o corpo participa de outro

movimento, este provém de uma causa externa; ao impor à natureza das coisas

inumeráveis distinções arbitrárias, mostrando-se sempre mais solícito em

formular respostas e em apresentar algo positivo nas palavras do que a verdade

íntima das coisas. Isso se torna mais manifesto quando se compara a sua

filosofia com as filosofias que eram mais celebradas entre os gregos. Sem

dúvida, as homeomerias, de Anaxágoras; os átomos, de Leucipo e Demócrito; o

céu e a terra, de Parmênides; a discórdia e a amizade, de Empédocles; a

resolução dos corpos na adiáfora natureza do fogo e o seu retorno ao estado

sólido, de Heráclito, sabem a filosofia natural, a natureza das coisas, experiência

e corpos.23 Mas na Física, de Aristóteles, na maior parte dos casos, não ressoam

mais que as vozes de sua dialética. Retoma-a na sua Metafísica, sob nome mais

solene, e mais como realista que nominalista. A ninguém cause espanto que no

Livro dos Animais e nos Problemas, e em outros tratados, ocupe-se

freqüentemente de experimentos. Pois Aristóteles estabelecia antes as conclusões,

não consultava devidamente a experiência para estabelecimento de suas

resoluções e axiomas. E tendo, ao seu arbítrio, assim decidido, submetia a

experiência como a uma escrava para conformá-la às suas opiniões. Eis por que

está a merecer mais censuras que os seus seguidores modernos, os filósofos

escolásticos, que abandonaram totalmente a experiência.

LXIV

A escola empírica de filosofia engendra opiniões mais disformes e monstruosas

que a sofistica ou racional. As suas teorias não estão baseadas nas noções

vulgares (pois estas, ainda que superficiais, são de qualquer maneira universais

e, de alguma forma, se referem a um grande número de fatos), mas na estreiteza

de uns poucos e obscuros exp erimentos. Por isso, uma tal filosofia parece, aos

que se exercitaram diariamente nessa sorte de experimentos, contaminando a

sua imaginação, mais provável, e mesmo quase certa; mas aos demais

apresenta-se como indigna de crédito e vazia. Há na alquimia, nas suas

explicações, um notável exemplo do que se acaba de dizer. Em nossos dias não

se encontram muitos desses casos, exceção feita talvez à filosofia de Gilbert.

Contudo, em relação a tais sistemas filosóficos, não se pode renunciar à cautela.

Desde já, prevenimos e auguramos que quando os homens, conduzidos por

nossos conselhos, se voltem de verdade para a experiência, afastando-se das

doutrinas sofisticas, pode ocorrer que, devido à impaciência e à precipitação do

intelecto, saltem ou mesmo voem às leis gerais e aos princípios das coisas. Um

grande perigo, pois, pode advir dessas filosofia e contra ele nos devemos

acautelar desde já.

LXV

Mas a corrupção da filosofia, advinda da superstição e da mescla com a

teologia, vai muito além e causa danos tanto aos sistemas inteiros da filosofia

quanto às suas partes, pois o intelecto humano não está menos exposto às

impressões da fantasia que às das noções vulgares. A filosofia sofistica, afeita

que é às disputas, aprisiona o intelecto, mas esta outra, fantasiosa e inflada, e

quase poética, perde-o muito mais com suas lisonjas. Pois há no homem uma

ambição intelectual que não é menor que a ambição da vontade. Isso acontece,

sobretudo, nos espíritos preclaros e elevados.

Na Grécia, encontram-se exemplos típicos de tais filosofias, sendo o caso, antes

dos demais, de Pitágoras, onde aparecem aliadas a uma superstição tosca e

grosseira. Mais perigoso e sutil é o exemplo de Platão e sua escola.24 Encontrase

também este mal, parcialmente, nas restantes filosofias, onde são

introduzidas formas abstratas, causas finais e causas primeiras, omitindo-se

quase sempre as causas intermediárias. Diante disso, toda precaução deve ser

tomada, pois nada há de pior que a apoteose dos erros, e como uma praga para o

intelecto a veneração votada às doutrinas vãs. Alguns modernos incorreram em

tal inanidade que, com grande leviandade, tentaram construir uma filosofia

natural sobre o primeiro capítulo do Gêneses. sobre o Livro de Jó e sobre outros

livros das Sagradas Escrituras, buscando assim os mortos entre os vivos.25 É da

maior importância coibir-se e frear esta inanidade, tanto mais que dessa mescla

danosa de coisas divinas e humanas não só surge uma filosofia absurda, como

também uma religião herética. Em vista do que é sobremodo salutar outorgarse,

com sóbrio espírito, à fé o que à fé pertence.

LXVI

Já falamos da falsa autoridade das filosofias fundadas nas noções vulgares,

sobre poucos experimentos e na superstição. Deve-se falar, igualmente, da falsa

direção que toma a especulação particularmente na filosofia natural. O intelecto

humano se deixa contagiar pela visão dos fenômenos que acontecem nas artes

mecânicas, onde os corpos sofrem alterações por um processo de composição e

separação, daí surgindo o pensamento de que algo semelhante se passa na

própria natureza. Aqui tem a sua origem aquela ficção dos elementos e de seu

concurso para a constituição dos corpos naturais. De outro lado, quando o

homem contempla o livre jogo da natureza, logo chega ao descobrimento das

espécies naturais, dos animais, das plantas e dos minerais; donde ocorre pensar

que também na natureza exis tem formas primárias das coisas, que a própria

natureza tende a tornar manifestas, e que a variedade dos indivíduos tem sua

origem nos obstáculos e desvios que a natureza sofre em seu trabalho ou no

conflito de diversas espécies ou na superposição de uma sobre a outra. A

primeira dessas cogitações nos valeu as qualidades elementares primárias, a

segunda, as propriedades ocultas e as virtudes específicas. Ambas constituem

um resumo das explicações sem sentido, com as quais se entretém o espírito,

distanciando-se das coisas mais importantes.

É maior o êxito do trabalho que os médicos dedicam ao estudo das qualidades

secundárias das coisas e de suas operações como a atração, a repulsão, a

rarefação e a condensação, a dilatação, a contração, a dissipação e a

maturação e outras análogas. E tirariam muito maior proveito, se não

comprometessem, com os conceitos mencionados de qualidades elementares e

de virtudes específicas, os fenômenos bem observados, reduzindo-os a

qualidades primárias e às suas combinações sutis e incomensuráveis,

esquecendo-se de levá-los, com maior e mais diligente observação, até às

qualidades terceiras ou quartas, sem romper intempestivamente a linha da

observação. Virtudes, se não idênticas, pelo menos semelhantes, devem ser

buscadas não apenas nas medicinas para o corpo humano, mas também nas

mudanças de todos os demais corpos naturais.

Maior prejuízo acarreta o fato de se limitar a reflexão e a indagação aos

princípios quiescentes dos quais derivam as coisas, e não considerar os

princípios motores pelos quais se produzem as coisas, já que os primeiros

servem aos discursos, os segundos à prática. Tampouco, têm qualquer valor as

distinções vulgares do movimento que sob o nome de geração, corrupção,

aumento, diminuição, alteração e translação se admitem na filosofia natural.

Pois, em última instância, não dizem mais que o seguinte: há translação quando

um corpo, sem sofrer outra mudança, muda de lugar; alteração quando, sem

mudar de lugar, nem espécie, muda de qualidade; se, em virtude da mudança, a

massa e quantidade de corpo não permanecem as mesmas, então, há aumento ou

diminuição; e se a mudança é de tal ordem que transforma a própria espécie e

substância da coisa em outra diferente, então há geração e corrupção. Mas tudo

isso é meramente popular e não penetra a natureza, pois indica as medidas e os

períodos e não as espécies de movimento. Indica até onde e não como e de que

fonte surgem. E tais conceitos nada dizem acerca da tendência natural dos

corpos e nem do processo de suas partes. Eles apenas são aplicáveis quando o

movimento introduz modificações evidentes na coisa, a ponto de serem

imediatamente sensíveis, e é dessa forma que também estabelecem as suas

distinções. Mesmo quando procuram dizer algo a respeito das causas do

movimento e estabelecer uma divisão em. virtude das mesmas, apresentam,

revelando uma absoluta negligência, a distinção entre movimento natural e

violento, que também tem sua origem em conceitos vulgares, posto que

realmente, todo movimento violento é também natural, pelo fato de um agente

externo reduzir uma coisa da natureza a um estado diferente do que antes tinha.

Mas, deixando de lado tais distinções, pode-se constatar que representam

verdadeiras espécies de movimento físico os seguintes casos: quando se observa

que há nos corpos um esforço para o mútuo contato de forma a não permitir que

se rompa a continuidade da natureza, ou se desloquem, ou se produza o vácuo;

quando se manifesta nos corpos tendência a recobrar o seu volume natural ou

extensão de modo que, se se comprimem, diminuindo-os, ou se se distendem,

aumentando-os, agem de forma a recuperar e voltar ao seu primitivo volume e

extensão; ou quando se diz que há nos corpos uma tendência à agregação das

massas de natureza semelhante e que os corpos densos tendem à esfera terrestre

e os leves ao espaço celeste, etc. Os primeiros movimentos enumerados, por sua

vez, são meramente lógicos e escolásticos, como fica manifesto, ao serem

comparados com estes últimos.

Não é menos ruinoso que em suas filosofias e especulações os seus esforços se

consumam na preocupação e na investigação dos princípios e das causas últimas

da natureza, pois toda a possibilidade e utilidade operativa se concentram nos

princípios intermediários. A conseqüência disso é que os homens não cessam de

fazer abstrações sobre a natureza, ate atingir a matéria potencial e informe; nem

cessam de dissecá-la até chegar ao átomo. Tudo isso, ainda que correspondesse

à verdade, pouco serviria ao bem-estar do homem.

LXVII

Também se deve acautelar o intelecto contra a intemperança dos sistemas

filosóficos no livrar ou coibir o assentimento, porque tal intemperança concorre

para firmar os ídolos, e, de certo modo, os faz perpétuos, sem possibilidades de

remoção.

Há no caso um duplo excesso: o primeiro é o dos que se pronunciam

apressadamente, convertendo a ciência em uma doutrina positiva e doutoral; e

outro é o dos que introduziram a acatalepsia e tornaram a investigação vaga e

sem um termo. O primeiro deprime, o segundo enerva o intelecto. Assim, a

filosofia de Aristóteles, depois de destruir outras filosofias (à maneira dos

otomanos, com seus irmãos) com suas pugnazes refutações, pronunciou-se

acerca de cada uma das questões. Depois, inventou ele mesmo, ao seu arbítrio,

questões para as quais a seguir apresentou soluções, e dessa forma tudo ficou

definido e estabelecido e é o que passou a ser atendido ainda hoje por seus

sucessores.

A escola de P latão, de sua parte, introduziu a acatalepsia, a princípio como ardil

e ironia, por desprezo para com os velhos sofistas, Protágoras, Hípias e os

demais, os quais nada temiam mais que aparentar terem dúvidas a respeito de

algo. Mas a Nova Academia transformou a acatalepsia em dogma e dela fez

profissão. E, ainda que esta seja uma atitude mais moderada que a dos que se

achavam no direito de se repronunciarem sobre tudo já que os acadêmicos

dizem que não pretendem confundir a investigação (como o fizeram P irro e os

céticos) e que se limitam ao provável, quando de fato nada aceitavam como

verdadeiro —, contudo, quando o espírito humano se desespera da busca da

verdade, o seu interesse por todas as coisas se torna débil; daí resultando que os

homens passam a preferir as disputas e os discursos amenos, distantes da

realidade, em vez de se comprometerem com rigor na investigação. Contudo,

como dissemos a principio e sustentamos sempre, os sentidos e o intelecto

humano, pela sua fraqueza, não hão de ser desmerecidos em sua autoridade,

mas, ao contrário, devem ser providos de auxílios.

LXVIII

Já falamos de todas as espécies de ídolos e de seus aparatos. Por decisão solene

e inquebrantável todos devem ser abandonados e abjurados. O intelecto deve ser

liberado e expurgado de todos eles, de tal modo que o acesso ao reino do

homem, que repousa sobre as ciências. possa parecer-se ao acesso ao reino dos

céus, ao qual não se permite entrar senão sob a figura de criança.26

LXIX

As demonstrações falhas são as fortificações e as defesas dos ídolos. E as que

nos ensina a dialética não fazem muito mais que subordinar a natureza ao

pensamento humano e o pensamento humano às palavras. As demonstrações, na

verdade, são como que filosofias e ciências em potência, porque, conforme

sejam estabelecidas mal ou corretamente instituídas, assim também serão as

filosofias e as especulações. Errados e incompetentes são os que seguem o

processo que vai dos sentidos e das coisas diretamente aos axiomas e as

conclusões. Esse processo consiste de quatro partes e quatro igualmente são

seus defeitos. Em primeiro lugar. as próprias impressões dos sentidos são

viciosas; os sentidos não só desencaminham como levam ao erro É pois

necessário que se retifiquem os descaminhos e se corrijam os erros. E m segundo

lugar, as noções são mal abstraídas das impressões dos sentidos, ficando

indeterminadas e confusas. quando deveriam ser bem delimitadas e definidas.

Em terceiro lugar. é imprópria a indução que estabelece os princípios das

ciências por simples enumeração, sem o cuidado de proceder àquelas exclusões,

resoluções ou separações que são exigidas pela natureza. Por último, esse

método de invenção e de prova, que consiste em primeiro se determinarem os

princípios gerais e, a partir destes, aplicar e provar os princípios intermediários,

é a matriz de todos os erros e de todas as calamidades que recaem sobre as

ciências. Mas desse assunto, que tocamos de passagem, trataremos mais

amplamente quando propusermos o verdadeiro método de interpretação da

natureza, depois de cumprida esta espécie de expiação e purgação da mente.

LXX

A melhor demonstração é de longe, a experiência, desde que se atenha

rigorosamente ao experimento. Se procuramos aplicá-la a outros fatos tidos por

semelhantes, a não ser que se proceda de forma correta e metódica, é falaciosa.

Mas o modo de realizar experimentos hoje em uso é cego e estúpido. Começam

os homens a vagar 27 sem rumo fixo, deixando-se guiar pelas circunstâncias;

vêem-se rodeados de uma multidão de fatos, mas sem qualquer proveito; ora se

entusiasmam, ora se distraem; presumem sempre haver algo mais a ser

descoberto. Dessa forma, ocorre que os homens realizam os experimentos

levianamente, como em um jogo, variando pouco os experimentos já

conhecidos e, se não alcançam resultados, aborrecem-se e põem de lado os seus

desígnios. E mesmo os que se dedicam aos experimentos com mais seriedade,

tenacidade e esforço acabam restringindo o seu trabalho a apenas um

experimento particular. Assim fez Gilbert com o magneto, e os alquimistas com

o ouro. Um tal modo de proceder é tão inexperto quanto superficial, pois

ninguém investiga com resultado a natureza de uma coisa apenas naquela

própria coisa: é necessário ampliar a investigação até as coisas mais gerais.28

E mesmo quando conseguem estabelecer formulações científicas ou teóricas, a

partir dos seus experimentos, demonstram uma disposição intempestiva e

prematura de se voltarem para a prática.29 Procedem dessa forma não apenas

pela utilidade e pelos frutos que essa prática propic ia, como também para obter

uma certa garantia de que não serão infrutíferas as investigações subseqüentes e,

ainda, para que as suas ocupações sejam mais reputadas pelos demais. Por isso

acaba acontecendo com eles o que aconteceu a Atalanta:30 desviam-se de seu

caminho, para recolherem os frutos de ouro, interrompendo a corrida e deixando

escapar a vitória. Para se topar com o verdadeiro caminho da experiência e a

partir daí se conseguir a produção de novas obras, é necessário tomar como

exemplos a sabedoria e a ordem divinas. Deus, com efeito, no primeiro dia da

criação criou somente a luz, dedicando-lhe todo um dia e não se aplicando nesse

dia a nenhuma obra material. Da mesma forma, em qualquer espécie de

experiência, deve-se primeiro descobrir as causas e os axiomas verdadeiros,

buscando os axiomas lucíferos e não os axiomas frutíferos.31 Pois os

experimentos, quando corretamente descobertos e constituídos, informam não a

uma determinada e estrita prática, mas a uma série contínua, e desencadeiam na

sua esteira bandos e turbas de obras. Mais adiante falaremos dos verdadeiros

caminhos da experiência, que, por sua vez, não se encontram menos obstruídos

e interceptados que os do juízo; por ora falaremos da experiência vulgar.

considerando-a como uma má espécie de demonstração. Mas, para o momento,

a ordem das coisas exige que falemos algo mais acerca dos signos a que antes

nos referimos graças aos quais se pode concluir que as filosofias e as

especulações ora em uso andam muito mal —, como também das causas desse

fato, à primeira vista espantoso e inacreditável. O conhecimento dos signos

prepara o assentimento, e a explicação de suas causas dissipa qualquer sombra

de milagre. Ambas as coisas concorrem para a extirpação, de maneira fácil e

suave, dos ídolos do intelecto.

LXXI

As ciências que possuímos provieram em sua maior parte dos gregos. O que os

escritores romanos, árabes ou os mais recentes acrescentaram não é de monta

nem de muita importância; de qualquer modo, está fundado sobre a base do que

foi inventado pelos gregos. Contudo, a sabedoria 32 dos gregos era professoral 33

e pródiga em disputas — que é um gênero dos mais adversos à investigação da

verdade. Desse modo, o nome de sofistas, que foi aplicado depreciativamente

aos que se pretendiam filósofos e que acabou por designar os antigos retores,

Górgias, Protágoras, Hípias e Polo, compete igualmente a Platão, Aristóteles,

Zenão, Epicuro, Teofrasto; e aos seus sucessores Crisipo, Carnéades, e aos

demais. Entre eles havia apenas esta diferença: os primeiros eram do tipo

errante e mercenário, percorriam as cidades, ostentando a sua sabedoria e

exigindo estipêndio; os outros, do tipo mais solene e comedido, tinham moradas

fixas, abriram escolas e ensinaram a filosofia gratuitamente. Mas ambos os

gêneros, apesar das demais disparidades, eram professorais e favoreciam as

disputas, e dessa forma facilitavam e defendiam seitas e heresias filosóficas, e

as suas doutrinas eram (como bem disse, não sem argúcia, Dionísio, de Platão)

palavras de velhos ociosos a jovens ignorantes.34 Mas os mais antigos dos

filósofos gregos, Empédocles, Anaxágoras, Leucipo, Demócrito, Parmênides,

Heráclito, Xenófanes, Filolau e outros (omitimos Pitágoras, por se ter entregue à

superstição), não abriram escolas, ao que saib amos: ao contrário, e, no maior

silêncio, com rigor e simplicidade, vale dizer, com menor afetação e aparato, se

consagraram à investigação da verdade. E a nosso juízo, melhor se saíram, só

que suas obras, com o decorrer do tempo, foram sendo ofuscadas por outras

mais superficiais, mas mais afeitas à capacidade e ao gosto do vulgo; pois o

tempo, como o rio, trouxe-nos as coisas mais leves e infladas, submergindo o

mais pesado e consis tente. Contudo, nem mesmo eles foram imunes aos vícios

de seu povo, pois propendiam mais que o desejável à ambição e à vaidade de

fundarem uma seita e captarem a aura popular. Nada se há de esperar, com

efeito, da busca da verdade, quando distorcida por tais inanidades. E, a

propósito, não se deve omitir aquela sentença, ou melhor, vaticínio, do

sacerdote egípcio a respeito dos gregos: “Sempre serão crianças, não possuirão

nem a antiguidade da ciência, nem a ciência da Antiguidade”.35 Os gregos, com

efeito, possuem o que é próprio das crianças: estão sempre prontos para

tagarelar, mas são incapazes de gerar, pois, a sua sabedoria é farta em palavras,

mas estéril de obras. Aí está por que não se mostram favoráveis os signos 36 que

se observam na gente e na fonte de que provém a filosofia ora em uso.

LXXII

Os signos que se podem retirar das características do tempo e da idade não são

muito melhores que os das características do lugar e da nação. Naquela época

era limitado e superficial o conhecimento his tórico e geográfico, o que é muito

grave sobretudo para os que tudo depositam na experiência. Não possuíam,

digna desse nome, uma his tória que remontasse aos mil anos, e que se não

reduzisse a fábulas e rumores da Antiguidade. Na verdade, conheciam apenas

uma exígua parte dos países e das regiões do mundo. Chamavam

indistintamente de citas a todos os povos setentrionais e de celtas a todos os

ocidentais. Nada conheciam das regiões africanas, situadas além da Etiópia

setentrional, nem da Ásia de além Ganges, e muito menos ainda das províncias

do Novo Mundo, de que nada sabiam, nem de ouvido, nem de qualquer tradição

certa e constante. E mais, julgavam inabitáveis muitas zonas e climas em que

vivem e respiram inumeráveis povos. As viagens de Demócrito, Platão,

Pitágoras, que não eram mais que excursões suburbanas, eram celebradas como

grandiosas. Em nossos tempos, ao contrário, tornaram-se conhecidas não apenas

muitas partes do Novo Mundo, como também todos os extremos limites do

Mundo Antigo, e assim é que o número de possibilidades de experimentos foi

incrementado ao infinito. Enfim, se se devem interpretar os signos à maneira

dos astrólogos, os que se podem retirar do tempo de nascimento e de concepção

daquelas filosofias indicam que nada de grande delas se pode esperar.

LXXIII

De todos os signos nenhum é mais certo ou nobre que o tomado dos frutos. Com

efeito, os frutos e os inventos são como garantias e fianças da verdade das

filosofias. Ora, de toda essa filosofia dos gregos e todas as ciências particulares

dela derivadas, durante o espaço de tantos anos, não há um único experim ento

de que se possa dizer que tenha contribuído para aliviar e melhorar a condição

humana, que seja verdadeiramente aceitável e que se possa atribuir às especulações

e às doutrinas da filosofia. É o que ingênua e prudentemente reconhece

Celso 37 ao falar que primeiro se fizeram experimentos em medicina, e depois

sobre eles os homens construíram os sistemas filo sóficos, buscando e

assinalando as causas, e não inversamente, ou seja, que da descoberta das

causas se tenham estabelecido e deduzido os experimentos da medicina. Por

isso não deve parecer estranho que entre os egípcios, que divinizavam e

consagravam os inventores, houvesse mais imagens de animais que de homens,

pois os animais com seu instinto natural produziram muito no caminho de

descobertas úteis, enquanto os homens, com os seus discursos e ilações

racionais, pouco ou nada concluíram.

Os alquimistas com sua atividade fizeram algumas descobertas, mas como que

por acaso e pela variação dos experimentos (como fazem com freqüência os

mecânicos), não por arte e com método, e isso porque a sua atividade tende

mais a confundir os experimentos que a estimulá -los. Mesmo aqueles que se

dedicaram à chamada magia natural fizeram algumas descobertas, mas poucas

em número e sobretudo superficiais e frutos da impostura. Devemos, em suma,

aplicar à filosofia o princípio da religião, que quer que a fé se manifeste pelas

obras, estabelecendo assim que um sistema filosófico seja julgado pelos frutos

que seja capaz de dar; se é estéril deve ser refutado como coisa inútil, sobretudo

se em lugar de frutos bons como os da vinha e da oliva produz os cardos e

espinhos das disputas e das contendas.

LXXIV

Outros signos se podem retirar do desenvolvimento e do progresso da filosofia e

das ciências, porque aquilo que tem o seu fundamento na natureza cresce e se

desenvolve, mas o que não tem outro fundamento que a opinião varia, mas não

progride. Por isso, se aquelas doutrinas em vez de serem, como são,

comparáveis a plantas despojadas de suas raízes tivessem aprofundado suas

raízes no próprio seio da natureza e dela tivessem retirado a própria substância,

as ciências não teriam permanecido por dois mil anos estagnadas no seu estádio

originário; e quase no mesmo estado permanecem, sem qualquer progresso

notável. Dessa forma. foram pouco a pouco declinando à medida que se

afastaram dos primeiros autores que as fizeram florescer. Nas artes mecânicas,

que são fundadas na natureza e se enriquecem das luzes da experiência, vemos

acontecer o contrário, e essas (desde que cultivadas), como que animadas por

um espírito, continuamente se acrescentam e se desenvolvem, de inicio

grosseiras, depois cômodas e aperfeiçoadas, e em contínuo progresso.

LXXV

Deve-se considerar ainda um outro signo (se se deve colocar entre os signos um

fato que é mais uma prova e entre as provas, ainda, a mais certa), seja, a

confissão daqueles autores que ora estão em grande voga. De fato, mesmo

aqueles que com tanta confiança pronunciam o seu juízo sobre a realidade,

mesmo eles, quando mais conscienciosos, põem-se a lamentar a respeito da

obscuridade das coisas, da sutileza da natureza, da fraqueza do intelecto

humano. Ora, se se limitassem a isso, certamente os mais tímidos seriam

dissuadidos de ulteriores investigações, mas os que têm o engenho mais ála cre e

confiante receberiam mais incitamento e sugestão para progredirem

ulteriormente. Mas, não contentes de falarem deles próprios, põem fora dos

limites do possível tudo o que tenha permanecido ignorado e inatingível para si

e para os seus mestres, e declaram-no incognoscível e irrealizável, quase sob a

autoridade da própria arte. Com suma presunção e malignidade fazem de sua

fraqueza razão de calú nia para com a natureza e desespero para com todos os

demais. Assim, a Nova Academia professou a acatalepsia e condenou os homens

à perpétua ignorância. Daí surge a opinião de que as formas, que são as

verdadeiras diferenças das coisas, isto é, as leis efetivas do ato puro, são

impossíveis de serem descobertas, porque colocadas além de qualquer alcance

humano. Daí surgem as opiniões, acolhidas na parte ativa e operativa da ciência,

de que o calor do sol e o do fogo são diferentes por natureza; que tendem a

tolher na humanidade a esperança de poder extrair ou construir, por meio do

fogo, qualquer coisa de semelhante ao que acontece na natureza.38 E ainda mais,

que a composição é obra do homem, enquanto que a mistura é obra apenas da

natureza: o que equivale a tolher toda esperança de poder realizar, com meios

artificiais, os processos de geração e de transformação dos corpos naturais. Por

este signo não deverá ser difícil persuadir os homens a não misturarem as suas

sortes e fados com dogmas não apenas desesperados, mas destinados à

desesperação.

LXXVI

Merece ainda ser considerada como signo a grande e perpétua disparidade de

idéias que tem reinado entre os filósofos, e a própria variedade das escolas de

filosofia. Essa disparidade mostra que a via que conduz dos sentidos ao

intelecto não foi bem traçada, já que a própria matéria da filosofia, ou seja, a

natureza, foi rompida e dividida em tantos e tão diversos erros. Em tempo mais

recente, as dissenções e as disparidades de pontos de vista em torno dos

próprios prin cípios da filosofia e das filosofias parece terem cessado; mas

restam ainda inumeráveis problemas e controvérsias nas várias partes da

filosofia, donde resulta claro que não há nada de certo e de rigoroso nem nas

doutrinas filosóficas nem nos métodos de demonstração.

LXXVII

Crê-se comumente que a filosofia de Aristóteles obteve o consenso universal

pelo fato de que, quando de sua divulgação, todas as outras filosofias dos

antigos morriam ou desapareciam, e pelo fato de que nos tempos subseqüentes

não se encontrou nada melhor; dessa forma, a filosofia aristotélica parece tão

bem fundada e estabelecida, pois canalizou para si o tempo antigo e o tempo

moderno. A isso se responde: primeiro, o que se pensa em relação à cessação

das antigas filosofias depois da divulgação das obras de Aristóteles é falso, porque

muito tempo depois, até a época de Cícero e mesmo nos séculos seguintes,

as obras dos antigos filósofos ainda subsistiram. Mas, depois, no tempo das

invasões bárbaras do Império Romano, após toda doutrina humana ter, por

assim dizer, naufragado, então, se conservaram apenas as doutrinas de

Aristóteles e de Platão, como tábuas feitas de matéria mais leve e menos sólida,

flutuando no curso dos tempos. Segundo: por pouco que se aprofunde tal ponto,

também o argumento do consenso universal vai-se mostrar falho, O verdadeiro

consenso é, antes de tudo, uma coincidência de juízos livres sobre uma questão

precedentemente examinada. Mas, pelo contrário, a grande massa dos que

convêm na aprovação de Aristóteles é escrava do prejuízo da autoridade de

outros, a tal ponto que se deveria falar, mais que de consenso, de zelo de

sequazes e de espírito de associação. E mesmo no caso em que tenha havido

verdadeiro e aberto consenso, o consenso está sempre longe de se constituir em

autoridade verdadeira e sólida, mas faz, ao contrário, nascer uma vigorosa

opinião em relação à opinião oposta. Com efeito, o pior auspício é o que deriva

do consenso nas coisas intelectuais, excetuadas a política e a teologia, para as

quais, ao contrário, há o direito de sufrágio.39 A muitos apraz só o que tolhe a

imaginação e aprisiona o intelecto pelos laços dos conceitos vulgares, como já

foi dito antes.40 Vem a propósito aquele dito de Fócion que, dos costumes, pode

ser transposto às questões intelectuais: “Os homens devem perguntar que coisa

disseram ou fizeram de mal quando o povo os enche de apoio e aplauso”.41 Este

é, pois, um signo dos mais desfavoráveis. Concluamos dizendo que os signos da

verdade e da sensatez das filosofias e das ciências, ora em uso, são péssimos,

quer se procurem nas suas origens, nos seus frutos, nos seus progressos, nas

confissões dos autores ou no consenso.

LXXVIII

Tratemos agora das causas dos erros e de sua persistência que se prolongou por

séculos. Elas são muitas e muito poderosas. Em vista disso, não há motivo para

se admirar de que tenham escapado e tenham permanecido ocultas dos homens

as coisas que vão agora ser expostas. O que seria de causar espanto é como,

finalmente, tenham podido cair na mente de um determinado mortal para serem

objeto de suas reflexões; o que, de resto (segundo cremos), f oi mais uma questão

de sorte que de excelência de alguma faculdade. Deve ser tido mais como

parto do tempo que parto do engenho.42

Bem consideradas as coisas, um número tão grande de séculos reduz-se a um

lapso efetivamente exíguo. Das vinte e cinco centúrias em que mais ou menos

estão compreendidos a história e o saber humano, apenas seis podem ser

escolhidas e apontadas como tendo sido fecundas para as ciências ou favoráveis

ao seu desenvolvimento. No tempo como no espaço há regiões ermas e solidões.

De fato só podem ser levados em conta três períodos ou retornos na evolução do

saber:43 um, o dos gregos; outro, o dos romanos e, por último, o nosso, dos

povos ocidentais da Europa; a cada um dos quais se pode atribuir no máximo

duas centúrias de anos. A Idade Média, em rela ção à riqueza e fecundidade das

ciências, foi uma época infeliz. Não há, com efeito, motivos para se fazer

menção nem dos árabes, nem dos escolásticos. Estes, nos tempos intermédios,

com seus numerosos tratados mais atravancaram as ciências que concorreram

para aumentar-lhes o peso. Por isso, a primeira causa de um tão parco progresso

das ciências deve ser buscada e adequadamente localizada no limitado tempo a

elas favorável.

LXXIX

Em segundo lugar, surge uma causa de grande importância, sob todos os

aspectos, a saber, mesmo nas épocas em que, bem ou mal, floresceram o

engenho humano e as letras, a filosofia natural ocupou parte insignificante da

atividade humana. E leve-se em conta que a filosofia natural deve ser

considerada a grande mãe das ciências. Todas as artes e ciências, uma vez dela

desvinculadas, podem ser brunidas e amoldadas para o uso, mas não podem

crescer.44 É manifesto que desde o momento em que a fé cristã foi aceita e

deitou raízes no espírito humano, a grande maioria dos melhores engenhos se

consagrou à teologia, e para isso concorreram poderosamente os prêmios e toda

sorte de estímulos a eles reservados. E o cultivo da teologia ocupou

principalmente o terceiro lapso de tempo, o nosso, isto é, o dos povos ocidentais

da Europa; tanto mais que no mesmo período começaram a florescer as letras, e

as controvérsias a respeito de religião começaram a se propagar. Na idade

anterior, no segundo período, o correspondente aos romanos, as mais

significativas reflexões e os melhores esforços se ocuparam e se consumiram na

filosofia moral (que entre os pagãos substituía a teologia) e, ainda, os talentos

daquele tempo se dedicaram aos assuntos civis, necessidade oriunda da própria

magnitude do Império Romano, que exigia a dedicação de um grande número

de homens. Mesmo naquela idade em que se viu florescer ao máximo, entre os

gregos, a filosofia natural corresponde a uma pequena parte, não contínua, de

tempo. Nos tempos mais antigos, aqueles que foram chamados de Sete Sábios,

todos eles afora Tales, se aplicaram à filosofia moral e à política. Nos tempos

seguintes, depois que Sócrates fez descer a filosofia do céu à terra,45 prevaleceu

mais ainda a filosofia moral e mais se afastaram os engenhos humanos da

filosofia natural.

Contudo, aquele mesmo período em que as investigações da natureza ganharam

vigor foi corrompido pelas contradições e pela ambição de se emitirem novas

opiniões, ficando, assim, inutilizado. Dessa forma, durante esses três períodos, a

filosofia natural, abandonada e dificultada, não é para se admirar que os

homens, ocupados por outros assuntos, nela pouco tenham progredido.

LXXX

Deve-se acrescentar, ademais, que a filosofia natural, mesmo entre os seus

fautores, não encontrou um único homem inteira e exclusivamente a ela

dedicado, particularmente nos últimos tempos, a não ser o exemplo isolado de

elucubrações de algum monge, em sua cela, ou de algum nobre, em sua mansão.

A filosofia natural servia a alguns de passagem e de ponte para outras

disciplinas.

Dessa forma, a grande mãe das ciências foi relegada ao indigno oficio de serva,

prestando serviços à obra de médicos ou de matemáticos, ou devendo oferecer à

mente imatura dos jovens o primeiro polimento e a primeira tintura, para

facilitação e bom êxito de suas posteriores ocupações. Que ninguém espere um

grande progresso nas ciências, especialmente no seu lado prático,46 até que a

filosofia natural seja levada às ciências particulares e as ciências particulares

sejam incorporadas à filosofia natural. Por serem disso dependentes é que a

astronomia, a óptica, a música, inúmeras artes mecânicas, a própria medicina, e,

o que é espantoso, a filosofia moral e política e as ciências lógicas 47 não

alcançaram qualquer profundidade, mas apenas deslizam pela superfície e

variedade das coisas. De fato, desde que as ciências particulares se constituíram

e se dispersaram, não mais se alimentaram da filosofia natural, que lhes poderia

ter transmitido as fontes e o verdadeiro conhecimento dos movimentos, dos

raios, dos sons, da estrutura e do esquematismo dos corpos, das afecções e das

percepções intelectuais, o que lhes teria infundido novas forças para novos

progressos. Assim, pois, não é de admirar que as ciências não cresçam depois de

separadas de suas raízes.

LXXXI

Ainda há outra causa grande e poderosa do pequeno progresso das ciências. E

ei-la aqui: não é possível cumprir-se bem uma corrida quando não foi

estabelecida e prefixada a meta a ser atingida. A verdadeira e legítima meta das

ciências é a de dotar a vida humana de novos inventos e recursos.48 Mas a turba,

que forma a grande maio ria, nada percebe, busca o próprio lucro e a glória

acadêmica. Pode, eventualmente, ocorrer que algum artesão de engenho agudo e

ávido de glória se aplique a algum novo invento, o que realiza, na maior parte

dos casos, com os seus próprios recursos. A maior parte dos homens está tão

longe de dedicar-se ao aumento do acervo das ciências e das artes, que, do

acervo já à sua disposição, apanham e são atraídos tão-somente o suficiente para

os usos professorais, para lograr lucro, consideração ou outra vantagem análoga.

Contudo, se de toda essa multidão alguém se dedica com sinceridade à ciência

por si mesma, ver-se-á que se volta mais para a variedade das especulações e

das doutrinas que para uma inquirição severa e rígida da verdade. Ainda mais,

se se encontra um investigador mais severo da verdade, também ele proporá,

como sua condição, que satisfaça sua mente e intelecto na representação das

causas das coisas que já eram conhecidas antes, e não a de conseguir provas

para novos resultados e luz para novos axiomas. Em suma, se ninguém até

agora fixou de forma justa o fim da ciência, não é para causar espanto que tudo

o que se subordine a esse fim desemboque em uma aberração.

LXXXII

Ademais, o fim e a meta da ciência foram mal postos pelos homens. Mas, ainda

que bem postos, a via escolhida é errônea e impérvia. E é de causar estupefação,

a quem quer que de ânimo avisado considere a matéria, constatar que nenhum

mortal se tenha cuidado ou tentado a peito traçar e estender ao intelecto humano

uma via, a partir dos sentidos e da experiência bem fundada, mas que, ao invés,

se tenha tudo abandonado ou às trevas da tradição, ou ao vórtice e torvelinho

dos argumentos ou, ainda, às flutuações e desvios do acaso e de uma

experiência vaga e desregrada.

Indague agora o espírito sóbrio e diligente qual o caminho escolhido e usado

pelos homens para a investigação e descoberta da verdade. Logo notará um

método de descoberta muito simples e sem artifícios, que é o mais familiar aos

homens. E esse não consiste senão, da parte de quem se disponha e apreste para

a descoberta, em reunir e consultar o que os outros disseram antes. A seguir,

acrescentar as próprias reflexões. E, depois de muito esforço da mente, invocar,

por assim dizer, o seu gênio para que expanda os seus oráculos. Trata-se de

conduta sem qualquer fundamento e que se move tão -somente ao sabor de

>

opiniões.

Algum outro pode, talvez, invocar o socorro da dialética, que só de nome tem

relação com o que se propõe. Com efeito, a invenção própria da dialética não se

refere aos princípios e axiomas fundamentais que sustentam as artes, mas

apenas a outros princípios que com aqueles parecem estar em acordo. E quando,

cercada pelos mais curiosos e importunos, é interpelada a respeito das provas e

da descoberta dos princípios e axiomas primeiros, a dialética os repele com a já

bem conhecida resposta, remetendo-os à fé e ao juramento que se devem prestar

aos princípios de cada uma das artes.

Resta a experiência pura e simples que, quando ocorre por si, é chamada de

acaso e, se buscada, de experiência. Mas essa espécie de experiência é como

uma vassoura desfiada, como se costuma dizer, mero tateio, à maneira dos que

se perdem na escuridão, tudo tateando em busca do verdadeiro caminho, quando

muito melhor fariam se aguardassem o dia ou acendessem um archote para

então prosseguirem. Mas a verdadeira ordem da experiência, ao contrário,

começa por, primeiro, acender o archote e, depois, com o archote mostrar o

caminho, começando por uma experiência ordenada e medida —nunca vaga e

errática -, dela deduzindo os axiomas e, dos axiomas, enfim, estabelecendo

novos experimentos. Pois nem mesmo o Verbo Divino agiu sem ordem sobre a

massa das coisas.

Não se admirem pois os homens de que o curso das ciências não tenha tido

andamento, visto que, ou a experiência foi abandonada, ou nela (os seus

fautores) se perderam e vagaram como em um labirinto; ao passo que um

método bem estabelecido é o guia para a senda certa que, pela selv a da

experiência, conduz à planura aberta dos axiomas.

LXXXIII

Esse mal foi espantosamente aumentado pela opinião — tornada presunção

inveterada, conquanto vã e danosa — de que a majestade da mente humana fica

diminuída se muito e a fundo se ocupa de experimentos e de coisas particulares

e determinadas na matéria, mormente tratando-se de coisas, segundo se diz,

laboriosas de inquirir, ignóbeis para a meditação, ásperas para a transmissão,

avaras para a prática, infinitas em número, tênues em sutileza. Chegou-se ao

ponto em que a verdadeira via não só foi abandonada, mas foi ainda fechada e

obstruída. A experiência não foi apenas abandonada ou mal administrada, como

também desprezada.

LXXXIV

A reverência à Antiguidade, o respeito à autoridade de homens tidos como

grandes mestres de filosofia e o geral conformismo para com o atual estádio do

saber e das coisas descobertas também muito retardaram os homens na senda do

progresso das ciências, mantendo-os como que encantados. Desse tipo de

consenso já falamos a ntes.49

No tocante à antiguidade, a opinião dos homens é totalmente imprópria e, a

custo, congruente com o significado da palavra. Deve-se entender mais

corretamente por antiguidade a velhice e a maturidade do mundo e deve ser

atribuída aos nossos tempos e não à época em que viveram os antigos, que era a

do mundo mais jovem. Com efeito, aquela idade que para nós é antiga e madura

é nova e jovem para o mundo.50 E do mesmo modo que esperamos do homem

idoso um conhecimento mais vasto das coisas humanas e um juízo mais maduro

que o do jovem, em razão de sua maior experiência, varie dade e maior número

de coisas que pôde ver, ouvir e pensar, assim também é de se esperar de nossa

época (se conhecesse as suas forças e se dispusesse a exercitá-las e estendê-las)

muito mais que de priscas eras, por se tratar de idade mais avançada do mundo,

mais alentada e cumulada de infinitos experimentos e observações.

Por outra parte, não é de se desprezar o fato de que, pelas navegações

longínquas e explorações tão numerosas, em nosso tempo, muitas coisas que se

descortinaram e descobriram podem levar nova luz à filosofia. Assim, será

vergonhoso para os homens que, tendo sido tão imensamente abertas e

perlustradas em nossos tempos as regiões do globo material, ou seja, da terra,

dos astros e dos mares, permaneça o globo intelectual 51 adstrito aos angustos

confins traça dos pelos antigos.

No que respeita à autoridade, é de suma pusilanimidade atribuir-se tanto aos

autores e negar-se ao tempo o que lhe é de direito, pois com razão já se disse

que “a verdade é filha do tempo, não da autoridade”.52 Não é, portanto, de se

admirar que esse fascínio da Antiguidade, dos autores e do consenso tenha de

tal modo assoberbado as forças dos homens que não puderam eles se

familiarizar com as próprias coisas, como que por artes de algum malefício.

LXXXV

Mas não foi somente a admiração pela Antiguidade, pela autoridade e o respeito

pelo consenso que compeliram a indústria humana a contentar-se com o já

descoberto, mas, também, a admiração pelas aparentemente copiosas obras já

conseguidas pelo gênero humano. Quem puser ante os olhos a variedade e o

magnífico aparato de coisas introduzidas e acumuladas pelas artes mecânicas,

para o cultivo do homem, estará, certamente, muito mais inclinado a admirar-se

da sua opulência que da penúria. Isso sem se dar conta de que os primeiros

resultados da observação e as primeiras operações da natureza, que são como

que a alma e o principio motor dessa variedade, não são nem muitos, nem bem

fundados. O restante pode ser atribuído unicamente à paciência humana e ao

movimento sutil e bem ordenado da mão ou dos instrumentos. A confecção de

relógios, por exemplo, é certamente mister delicado e trabalhoso, de tal modo

que as suas rodas parecem imitar as órbitas celestes ou o movimento contínuo e

ordenado do pulso dos animais. No entanto, depende de apenas um ou dois

axiomas da natureza.

Ainda mais, quem atente para o refinamento próprio das artes liberais ou, ainda,

o das artes mecânicas, na preparação de substâncias naturais e leve em conta

coisas como a descoberta dos movimentos celestes em astronomia, da harmonia

em música, das letras do alfabeto (ainda não em uso no reino dos chineses) em

gramática; e igualmente, na mecânica, o descobrimento das obras de Baco e

Ceres, ou seja, a arte da preparação do vinho, da cerveja, da panificação, das

destilações e similares, e de outras delícias da mesa; e também reflita e observe

quanto tempo transcorreu para que essas coisas (todas, exceto a destilação, já

conhecidas dos antigos) alcançassem o avanço que em nosso tempo desfrutam;

e, ainda, o quão pouco são baseadas (o mesmo que já se disse dos relógios) em

observações e em axiomas da natureza; e, indo um pouco mais longe, como

essas coisas facilmente poderiam ter sido descobertas em circunstâncias óbvias

ou por observações casuais.53

Quem assim proceder, facilmente se libertará de qualquer admiração, antes se

compadecerá da condição humana, por tantos séculos em tão grande penúria e

esterilidade de artes e invenções. E aqueles mesmos inventos de que fizemos

menção são mais antigos que a filosofia e as artes intelectuais 54 e, pode-se dizer

que, quando tiveram inicio as ciências racionais e dogmáticas, cessou a

invenção de obras úteis.

E o mesmo interessado, uma vez que passe das oficinas às bibliotecas, ficará

admirado da imensa variedade de livros. Mas, detendo-se e examinando com

mais cuidado a sua matéria e conteúdo, certamente a sua admiração volver-se-á

em sentido contrário, ao aí constatar as infinitas repetições e que os homens

dizem e fazem sempre o mesmo. De sorte que, da admiração pela variedade,

passará ao espanto pela indigência e pobreza das coisas que têm prendido e ocupado

a mente dos homens.

Quem, ainda, se disponha a considerar aquelas coisas tidas mais por curiosas

que sérias e passe a examinar mais a fundo as obras dos alquimistas, acabará

não sabendo se estes são mais dignos de riso ou de lágrimas.

O alquimista, com efeito, alimenta eterna esperança e quando algo falha atribui

a si mesmo os erros, acusando-se de não haver entendido bem os vocábulos de

sua arte ou dos autores (por isso, com tanto ânimo se aplica às tradições e aos

sussurros que chegam aos seus ouvidos), ou que suas manipulações careceram

de escrúpulos quanto ao peso ou ao exato tempo, em vista do que repete ao

infinito os experimentos. Se, nesse ínterim, em meio aos azares da experimentação,

topa com algo de aspecto novo ou de utilidade não desprezível, contenta -

se com esses resultados, muito os celebra e ostenta. E a esperança se encarrega

do resto. Não se pode negar, contudo, que os alquimistas descobriram não

poucas coisas e deram aos homens úteis inventos. Bem por isso não se lhes

aplica mal a fábula do ancião que legou aos seus filhos um tesouro enterrado em

uma vinha e cujo sítio exa to simulava desconhecer. Os filhos, com afinco,

revolveram toda a vinha, não encontrando nenhum tesouro, mas a vindima,

graças a tal cultivo, foi muito mais abundante.

Os cultores da magia natural, 55 que tudo explicam por simpatia e antipatia,

deduziram, de conjunturas ociosas e apressadas, virtudes e operações

maravilhosas para as coisas. E mesmo quando alcança ram resultados, estes são

da espécie dos que mais se prestam à admiração e novidade que a proporcionar

frutos e utilidade.

Quanto à magia superstic iosa (se dela é preciso falar), antes de tudo deve ser

dito que em todas as nações, em todos os tempos e, mesmo religiões, suas

estranhas e supersticiosas artes só puderam afetar em algo apenas um porção

reduzida e bem definida de objetos. Em vista disso, deixemo-la de lado,

lembrando que nada há de surpreendente que a ilusão da riqueza tenha sido

causa da pobreza.

LXXXVI

A admiração dos homens pelas doutrinas e artes, por si mesma bastante singela

e mesmo pueril, foi incrementada pela astúcia e pelos artifícios dos que se

ocuparam das ciências e as difundiram. Pois, levados pela ambição e pela

afetação, apresentam-nas de tal modo ordenadas e como que mascaradas que, ao

olhar dos homens, pareciam perfeitas em suas partes e já completamente

acabadas. Com e feito, se se consideram as divisões e o método, elas parecem

compreender e esgotar tudo o que possa pertencer a um assunto. E, ainda que as

partes estejam mal concluídas, como cápsulas ocas, ao intelecto vulgar

oferecem a forma e o ordenamento da ciência perfeita.

Mas os primeiros e mais antigos investigadores da verdade, com mais fidelidade

e sucesso, costumavam consignar em forma de aforismos,56 isto e, de breves

sentenças avulsas e não vinculadas por qualquer artificio metodológico, o saber

que recolhiam da observação das coisas e que pretendiam preservar para uso

posterior, e nunca simularam, nem professaram haver-se apoderado de toda a

arte. Por isso, visto ser esse o estado de coisas, não é de se admirar que os homens

não inquiram de questões tidas há tempo como resolvidas e elucidadas em

todas as suas peculiaridades.

LXXXVII

Além disso, a sabedoria antiga foi tornada mais respeitável e digna de fé, graças

à vaidade e à leviandade dos que propuseram coisas novas, principalmente na

parte ativa e operativa da filosofia natural. Com efeito, não têm faltado espíritos

presumidos e fantasiosos a cumularem, em parte por credulidade, em parte por

impostura, o gênero humano de processos tais como: prolongamento da vida,

retardamento da velhice, eliminação da dor, reparação de defeitos físicos,

encantamento dos sentidos, suspensão e excitação dos sentimentos, iluminação

e exaltação das faculdades intelectuais, transmutação das substâncias, aumento

e multiplicação dos movimentos, compressão e rarefação do ar, desvio e

promoção das influências dos astros, adivinhação do futuro, reprodução do

passado, revelação do oculto, e alarde e promessa de muitas outras maravilhas

semelhantes. Portanto, não estaria longe da verdade, acerca de espíritos tão

pródigos, um juíz o como o seguinte: há tanta distância, em matéria filosófica,

entre essas fantasias e as artes verdadeiras, quanto em história, entre as gestas

de Júlio César ou de Alexandre Magno e as de Amadis de Gaula ou de Artur da

Bretanha.57 É notório, pois, que aqueles ilustres generais realizaram muito mais

que as façanhas atribuídas a esses heróis espectrais, em forma de ações reais,

nem um pouco fabulosas ou prodigiosas. Não obstante, não seria justo negar-se

fé à memória do verdadeiro porque tenha sido lesado e difamado pela fábula.

Mas, tampouco, se deve estranhar que tais impostores, quando tentaram

empresas semelhantes, tenham infligido grande prejuízo às novas proposições,

principalmente às relacionadas com operações práticas. O excesso de vaidade e

de fastígio acabou por destruir as disposições magnânimas para tais

cometimentos.

LXXXVIII

A pusilanimidade, a estreiteza e a superficialidade com que a indústria humana

se impõe tarefas causaram à ciência ainda maiores danos e com a agravante

dessa pusilanimidade não se apresentar sem pompa e arrogância. Destaca-se, em

primeiro lugar, aquela cautela já familiar a todas as artes, que consiste em

atribuírem os autores à natureza a ineficiência de sua própria arte, e o que essa

arte não alcança, em seu nome, declararem ser “por natureza” impossível. Em

conseqüência, jamais poderá ser condenada uma arte que a si mesma julga.

Também a filosofia que hoje se professa abriga certas asserções e conclusões

que, consideradas diligentemente, parecem compelir os homens à convicção de

que não se deve esperar da arte e da indústria humana nada de árduo, nada que

seja imperioso ou válido acerca da natureza, como já se disse antes 58 a respeito

da heterogeneidade do calor do sol e do fogo e sobre a combinação dos corpos.

Tudo isso, bem observado, procura maliciosamente limitar o poder humano e

produzir um calculado e artificioso desânimo que não só vem perturbar os

augúrios da esperança, como amortecer todos os estímulos e nervos da indústria

humana e também interceptar todas as oportunidades de experiência. E, ao

mesmo tempo, tudo fazem por parecer perfeita a própria arte, entregando-se a

uma glória vã e desvairada que consiste em pensar que o que até o momento

não foi descoberto ou compreendido não poderá tampouco ser descoberto ou

compreendido no futuro.

Alguém que se acerque das coisas com intento de descobrir algo novo proporse-

á e limitasse-a a um único invento, e não mais. Por exemplo: a natureza do

ímã, o fluxo e o refluxo do mar, o sistema celeste e coisas desse gênero, que

parecem esconder algum segredo, e coisas que, até agora, tenham sido tratadas

com pouco êxito. Mas é indício de grande imperícia o fato de se perscrutar a

natureza de uma coisa na própria coisa, pois a mesma natureza 59 que em alguns

objetos está latente e oculta, em outros é manifesta e quase palpável, num caso

provocando admiração, em outro, nem sequer chamando a atenção. É o que

ocorre com a natureza da consistência, que não é notada na madeira ou na pedra

e que é designada genericamente com o nome de solidez, sem se indagar acerca

da sua tendência de se furtar a qualquer separação ou solução de continuidade.

De outra parte, esse mesmo fato nas bolhas de água parece mais sutil e

engenhoso. As bolhas se constituem de películas curiosamente dispostas em

forma hemisférica de tal modo que, por um momento, evita-se a solução de

continuidade.

De fato, há casos em que as naturezas das coisas estão latentes, enquanto em

outros são manifestas e comuns, o que jamais será evidente se os experimentos

e as observações dos homens se restringirem apenas às primeiras.

Em geral, o vulgo tem por novos inventos, ou quando se aperfeiçoa algo já antes

inventado ou este se orna com mais elegância, ou quando se juntam ou

combinam partes dele antes separadas, ou quando se torna de uso mais cômodo,

ou, ainda, se alcança um resultado de maior ou menor massa ou volume que o

costume, e coisas do gênero.

Por isso não é de se admirar que não saiam à luz inventos mais nobres e dignos

do gênero humano, uma vez que os homens se contentam e se satisfazem com

empresas tão limitadas e pueris. E supõem terem buscado e alcançado algo de

grandioso.

LXXXIX

Não se deve esquecer de que, em todas as épocas, a filosofia se tem defrontado

com um adversário molesto e difícil na superstição e no zelo cego e

descomedido da religião.60 A propósito veja -se como, entre os gregos, foram

condenados por impiedade os que, pela primeira vez, ousaram proclamar aos

ouvidos não afeitos dos homens as causas naturais do raio e das tempestades. 61

Não foram melhor acolhidos, por alguns dos antigos padres da religião cristã, os

que sustentaram, com demonstrações certíssimas — que não seriam hoje

contraditas por nenhuma mente sensata —, que a Terra era redonda e que, em

conseqüência, existiam antípodas.62

Além disso, nas atuais circunstancias, as condições para a ciência natural se

tornaram mais árduas e perigosas devido às sumas e aos métodos da teologia

dos escolásticos. Estes, como lhes cumpria, ordenaram sistematicamente a

teologia, e lhe conferiram a forma de uma arte, e combinaram, com o corpo da

religião, a contenciosa e espinhosa filosofia de Aristóteles, mais que o

conveniente.

Ao mesmo resultado, mas por diverso caminho, conduzem as especulações dos

que procuraram deduzir a verdade da religião cristã dos princípios dos filósofos

e confirmá-la com sua autoridade, celebrando com grande pompa e solenidade,

como legítimo, o consórcio da fé com a razão e lisonjeiam, assim, o ânimo dos

homens com a grata variedade das coisas, enquanto, com disparidade de

condições, mesclam o humano e o divino. Mas essas combinações de teologia e

filosofia apenas compreendem o que é admitido pela filosofia corrente. As

coisas novas, mesmo levando a uma mudança para melhor, são não só repelidas,

como exterminadas.

Finalmente, constatar-se-á que, mercê da infâmia de alguns teólogos, foi quase

que totalmente barrado o acesso à filosofia, mesmo depurada. Alguns, em sua

simplicidade, temem que a investigação mais profunda da natureza avance além

dos limites permitidos pela sua sobriedade, transpondo, e dessa forma

distorcendo, o sentido do que dizem as Sagradas Escrituras a respeito dos que

querem penetrar os mistérios divinos, para os que se volvem para os segredos da

natureza, cuja exploração não está de maneira alguma interdita. Outros, mais

engenhosos, pretendem que, se se ignoram as causas segundas 63 será mais fácil

atribuir -se os eventos singulares à mão e à férula divinas — o que pensam ser

do máximo interesse para a religião. Na verdade, procuram “agradar a Deus

pela mentira”.64

Outros temem que, pelo exemplo, os movimentos e as mudanças da filosofia

acabem por recair e abater-se sobre a religião. Outros. finalmente, parecem

temer que a investigação da natureza acabe por subverter ou abalar a autoridade

da religião, sobretudo para os ignorantes. Mas estes dois últimos temores

parecem-nos saber inteiramente a um instinto próprio de animais, como se os

homens, no recesso de suas mentes e no segredo de suas reflexões,

desconfiassem e duvidassem da firmeza da religião e do império da fé sobre a

razão e, por isso, temessem o risco da investigação da verdade na natureza.

Contudo, bem consideradas as coisas, a filosofia natural, depois da palavra de

Deus, é a melhor medicina contra a superstição, e o alimento mais substancioso

da fé. Por isso, a filosofia natural é justamente reputada como a mais fiel serva

da religião, uma vez que uma (as Escrituras) torna manifesta a vontade de Deus,

outra (a filosofia natural) o seu poder. Certamente, não errou o que disse:

“Errais por ignorância das Escrituras e do poder de Deus”65 onde se unem e

combinam em um único nexo a informação da vontade de Deus e a meditação

sobre o seu poder. Ademais, não é de se admirar que tenha sido coibido o

desenvolvimento da filosofia natural, desde que a religião, que tanto poder

exerce sobre o ânimo dos homens, graças à imperícia e o ciúme de alguns, viuse

contra ela arrastada e predis posta.

XC

Por outro lado, nos costumes das instituições escolares, das academias, colégios

e estabelecimentos semelhantes, destinados à sede dos homens doutos e ao

cultivo do saber, tudo se dispõe de forma adversa ao progresso das ciências. De

fato, as lições e os exercícios estão de tal maneira dispostos que não é fácil

venha a mente de alguém pensar ou se concentrar em algo diferente do

rotineiro. Se um ou outro, de fato, se dispusesse a fazer uso de sua liberdade de

juízo, teria que, por si só, levar a cabo tal empresa, sem esperar receber qualquer

ajuda resultante do convívio com os demais. E, sendo ainda capaz de suportar

tal circunstância, acabará por descobrir que a sua indústria e descortino

acabarão por se constituir em não pequeno entrave à sua boa fortuna. Pois os

estudos dos homens, nesses locais, estão encerrados, como em um cárcere, em

escritos de alguns autores. Se alguém deles ousa dissentir, é logo censurado

como espírito turbulento e ávido de novidades. Mas, a tal respeito é preciso

assinalar que. com efeito, há uma grande diferença entre os assuntos políticos e

as artes66: não implicam o mesmo perigo um novo movimento e uma nova luz.

Na verdade, uma mudança da ordem civil, mesmo quando para melhor, é

suspeita de perturbação, visto que ela descansa sobre a autoridade, sobre a

conformidade geral, a fama e sobre a reputação e não sobre a demonstração.

Nas artes e nas ciências, ao contrário, o ruído das novas descobertas e dos

progressos ulteriores deve ressoar como nas minas de metal. Assim pelo menos

devia ser conforme os ditames da boa razão, mas tal não ocorre na prática, pois,

como antes assinalamos, a forma de administração das doutrinas e a forma de

ordenação das ciências costumam oprimir duramente o seu progresso.

XCI

Mesmo que viesse a cessar essa ojeriza, bastaria para coibir o progresso das

ciências o fato de a qualquer esforço ou labor faltar estímulo. Com efeito, não

estão nas mesmas mãos o cultivo das ciências e as suas recompensas. As

ciências progridem graças aos grandes engenhos, mas os estipêndios e os

prêmios estão nas mãos do vulgo e dos príncipes, que, raramente, são mais que

medianamente cultos. Dessa maneira, esse progresso não é apenas destituído de

recompensa e de reconhecimento dos homens, mas até mesmo do favor popular.

Acham-se as ciências acima do alcance da maior parte dos homens e são

facilmente destruídas e extintas pelos ventos da opinião vulgar. Daí não se

admirar que não tenha tido curso feliz o que não costuma ser favorecido com

honrarias.

XCII

Contudo, o que se tem constituído, de longe, no maior obstáculo ao progresso

das ciências e à propensão para novas tarefas e para a abertura de novas

províncias do saber é o desinteresse dos homens e a suposição de sua

impossibilidade. Os homens prudentes e severos, nesse terreno, mostram-se

desconfiados, levando em conta: a obscuridade da natureza, a brevidade da vida,

as falácias dos sentidos, a fragilidade do juízo, as dificuldades dos experimentos

e dificuldades semelhantes. Supõem existir, através das revoluções do tempo e

das idades do mundo, um certo fluxo e refluxo das ciências; em certas épocas

crescem e florescem; em outras declinam e definham, como se depois de um

certo grau e estado não pudessem ir além.

Se alguém espera ou promete algo maior, é acusado como espírito

descontrolado e imaturo e diz-se que em tais iniciativas o início é risonho, árduo

o andamento e confusa a conclusão. E, c omo essa sorte de ponderações acodem

facilmente aos homens graves e de juízo superior, devemos nos prevenir para

que, por amor de uma empresa soberba e belíssima, não venhamos relaxar ou

diminuir a severidade de nossos juízos. Devemos observar diligentemente se a

esperança refulge e donde ela provém e, afastando as mais leves brisas da esperança,

passar a discutir e a avaliar as coisas que pareçam apresentar firmeza.

Seja, aqui, invocada e aplicada a prudência política,67 que desconfia por

princípio e nos assuntos humanos conjetura o pior. Falemos, pois, agora de

nossas aspirações. Não somos pródigos em promessas, nem procuraremos

coagir ou armar ciladas ao juízo humano, mas tomar os homens pela mão e

guiá-los, com a sua anuência. E, ainda que o meio, de longe mais poderoso de

se encorajar a esperança,68 seja colocar os homens diante dos fatos particulares,

especialmente dos fatos tais como se acham recolhidos e ordenados em nossas

tabelas de investigação 69 tema que pertence parcialmente à segunda, mas

principalmente à quarta parte de nossa Instauração —, já que não se trata mais,

no caso, de esperança, mas de algo real, todavia, como tudo deve ser feito

gradualmente, prosseguiremos no propósito já traçado de preparar a mente dos

homens. E nessa preparação não é parte pequena a indicação de esperanças.

Porque, afora isso, tudo o mais levaria tristeza ao homem ou a formar uma

opinião ainda mais pobre e vil que a que possui ou a fazê-lo sentir a condição

infeliz em que se encontra, em vez de alguma alegria ou a disposição para a

experimentação. Em vista disso, é necessário propor e explicar os argumentos

que tornam prováveis as nossas esperanças, tal como fez Colombo que, antes da

sua maravilhosa navegação pelo oceano Atlântico, expôs as razões que o

levaram a confiar na descoberta de novas terras e continentes, além do que já

era conhecido. Tais razões, de início rejeitadas, foram mais tarde comprovadas

pela experiência e se constituíram na causa e no princípio de grandes empresas.

XCIII

Porém, o supremo m otivo de esperança emana de Deus. Com efeito, a empresa

a que nos propomos, pela sua excelência e intrínseca bondade, provém

manifestamente de Deus, que é Autor do bem e Pai das luzes. Pois bem, nas

obras divinas, mesmo os inícios mais tênues conduzem a um êxito certo. E o

que se disse da ordem espiritual, que “O reino de Deus não vem com aparência

exterior”,70 é igualmente verdadeiro para todas as grandes obras da Divina

Providência. Tudo se realiza placidamente, sem estrépito e a obra se cumpre

antes que os homens a suponham ou vejam. Não se deve esquecer a profecia de

Daniel a respeito do fim do mundo: “Muitos passarão e a ciência se

multiplicará”,71 o que evidentemente significa que está inscrito nos destinos, isto

é, nos desígnios da Providência, que o fim do mundo o que, depois de tantas e

tão distantes navegações parece haver-se cumprido ou está prestes a fazê-lo — e

o progresso das ciências coincidam no tempo.72

XCIV

Segue a mais importante das razões que alicerçam a esperança. É a que procede

dos erros dos tempos pretéritos e dos caminhos até agora tentados. Excelente é o

julgamento, feito por alguém, ao responsável por desastrosa administração do

Estado, com as seguin tes palavras: “O que no passado foi causa de grandes

males deve parecer-nos princípio de prosperidade para o futuro. Pois, se

houvésseis cumprido perfeitamente tudo o que se relaciona com o vosso dever,

e, mesmo assim, não houvesse melhorado a situação dos vossos interesses, não

restaria qualquer esperança de que tal viesse a acontecer. Mas, como as más

circunstâncias em que se encontram não dependem das forças das coisas, mas

dos vossos próprios erros, é de se esperar que, estes corrigidos, haja uma grande

mudança e a situação se torne favorável”.73 Do mesmo modo, se os homens, no

espaço de tantos anos, houvessem mantido a correta via da descoberta e do

cultivo das ciências, e mesmo assim não tivessem conseguido progredir, seria,

sem dúvida, tida como audaciosa e temerária a opinião no sentido de um

progresso possível. Mas uma vez que o caminho escolhido tenha sido o errado,

e a atividade humana se tenha consumido de forma inoperante, segue disso que

a dificuldade não radica nas próprias coisas, que fogem ao nosso alcance, mas

no intelecto humano, no seu uso e aplicação, o que é passível de remédio e

medicina. Por isso, estimamos ser oportuno expor esses erros. Pois, quantos

foram os erros do passado, tantas serão as razões de esperança 74 para o futuro.

Embora se tenha antes falado algo a seu respeito, é de toda conveniência expôlas

brevemente, em palavras simples e claras.

XCV

Os que se dedicaram às ciências foram ou empíricos ou dogmáticos. Os

empíricos, à maneira das formigas, acumulam e usam as provisões; os

racionalistas, à maneira das aranhas, de si mesmos extraem o que lhes serve

para a teia.75 A abelha representa a posição intermediária: recolhe a matériaprima

das flores do jardim e do campo e com seus próprios recursos a

transforma e digere. Não é diferente o labor da verdadeira filosofia, que se não

serve unicamente das forças da mente, nem tampouco se limita ao material

fornecido pela história natural ou pelas artes mecânicas, conservado intato na

memória. Mas ele deve ser modificado e elaborado pelo intelecto. Por isso

muito se deve esperar da aliança estreita e sólida (ainda não levada a cabo) entre

essas duas faculdades, a experimental e a racional.

XCVI

Ainda não foi criada uma filosofia natural pura. As existentes acham-se

infectadas e corrompidas: na escola de Aristóteles, pela ló gica; na escola de

Platão, pela teologia natural; na segunda escola de Platão, a de Proclo e outros,

pela matemática,76 a quem cabe rematar a filosofia e não engendrar ou produzir

a filosofia natural. Mas é de se esperar algo de melhor da filosofia natural pura e

sem mesclas.

XCVII

Até agora ninguém surgiu dotado de mente tão tenaz e rigorosa que haja

decidido, e a si mesmo imposto, livrar-se das teorias e noções comuns e aplicar,

integralmente, o intelecto, assim purificado e reequilibrado, aos fatos

particulares. Pois a nossa razão humana 77 é constituída de uma farragem e

massa de coisas, procedentes algumas de muita credulidade, e outras do acaso e

também de noções pueris, que recebemos desde o início.

É de se esperar algo melhor de alguém que, na idade madura, de plena posse de

seus sentidos e mente purificada, se dedique integralmente à experiência e ao

exame dos fatos particulares. Nesse sentido prometemo-nos a fortuna de

Alexandre Magno: que ninguém nos acuse de vaidade antes de constatar que o

nosso propósito final é o de banir toda vaidade.

Com efeito, de Alexandre e de suas façanhas assim falou Ésquines:

“Certamente, não vivemos uma vida mortal; mas nascemos para que a

posteridade narre e apregoe os nossos prodígios”, como que entendendo por

milagrosos os feitos de Alexandre.78

Mas, em época posterior, Tito Lívio, apreciando e compreendendo melhor o

fato, disse de Alexandre algo como: “Em última instância, nada mais fez que ter

a ousadia de desprezar as coisas vãs”.79 Cremos que nos tempos futuros far-se-á

a nosso respeito um juízo semelhante: De fato nada fizemos de grandioso;

apenas reduzi mos as proporções do que era superestimado. Todavia, como já

dissemos, não há esperança senão na regeneração das ciências, vale dizer, na

sua reconstrução, segundo uma ordem certa, que a s faça brotar da experiência.

Ninguém pode afirmar, segundo presumimos, que tal tarefa tenha sido feita ou

sequer cogitada.

XCVIII

Os fundamentos da experiência — já que a ela sempre retomamos — até agora

ou foram nulos ou foram muito inseguros. Até agora não se buscaram nem se

recolheram coleções 80 de fatos particulares, em número, gênero ou em exatidão,

capazes de informar de algum modo o intelecto. Mas, ao contrário, os doutos,

homens indolentes e crédulos, acolheram para estabelecer ou confirmar a sua

filosofia certos rumores, quase mesmo sussurros ou brisas 81 de experiência, a

que, apesar de tudo, atribuíram valor de legítimo testemunho. Dessa forma,

introduziu -se na filosofia, no que respeita à experiência, a mesma prática de um

reino ou Estado que cuidasse de seus negócios, não à base de informações de

representantes ou núncios fidedignos, mas dos rumores ou mexericos de seus

cidadãos. Nada se encontra na história natural devidamente investigado,

verificado, classificado, pesado e medido. E o que no terreno da observação é

indefinido e vago é falacioso e infiel na informação. Se alguém se admira de

que assim se fale e pensa não serem justos os nossos reclamos, ao se lembrar de

Aristóteles, homem tão grande ele próprio e apoiado nos recursos de um tão

grande rei, 82 que escreveu uma tão acurada História dos Animais; e de alguns

outros que a enriqueceram com mais diligência, mas com menos estrépito; e de

outros ainda, que fizeram o mesmo em relação às plantas, os metais, os fósseis,

com história e descrições abundantes, ele não se dá conta, não parece ver ou

compreender suficientemente o assunto de que tratamos. Pois uma é a marcha

da história natural, organizada por amor de si mesma,83 outra, a que é destinada

a informar o intelecto com ordem ( método), para fundar a filosofia. Essas duas

histórias naturais se diferenciam em muitos aspectos, principalmente nos

seguintes: a primeira compreende a variedade das espécies naturais e não os

experimentos das artes mecânicas. Com efeito, da mesma maneir a que na vida

política o caráter de cada um, sua secreta disposição de ânimo e sentimentos

melhor se patenteiam em ocasiões de perturbação que em outras, assim também

os segredos da natureza melhor se revelam quando esta é submetida aos assaltos

84 das artes que quando deixada no seu curso natural. Em vista disso, é de se

esperar muito da filosofia natural quando a história natural que é a sua base e

fundamento — esteja melhor construída. Até que isso aconteça nada se pode

esperar.

XCIX

Por sua vez, mesmo em meio à abundância dos experimentos mecânicos, há

grande escassez dos que mais contribuem e concorrem para informação do

intelecto. De fato, o artesão, despreocupado totalmente da busca da verdade, só

está atento e apenas estende as mãos para o que diretamente serve a sua obra

particular. Por isso, a esperança de um ulterior progresso das ciências estará

bem fundamentada quando se recolherem e reunirem na história natural muitos

experimentos que em si não encerram qualquer utilidade, mas que são

necessários na descoberta das causas e dos axiomas. A esses experimentos

costumamos designar por lucíferos, para diferenciá-los dos que chamamos de

frutíferos.85 Aqueles experimentos têm, com efeito, admirável virtude ou

condição: a de nunca falhar ou frustrar, pois não se dirigem à realização de

qualquer obra, mas à revelação de alguma causa natural. Assim, qualquer que

seja o caso, satisfazem esse intento e assim resolvem a questão.

C

Deve-se buscar não apenas uma quantidade muito maior de experimentos, como

também de gênero diferente dos que até agora nos têm ocupado. Mas é

necessário, ainda, introduzir -se um método completamente novo, uma ordem

diferente e um novo processo, para continuar e promover a experiência. Pois a

experiência vaga, deixada a si mesma, como antes já se disse,86 é um mero

tateio, e presta-se mais a confundir os homens que a informá-los. Mas quando a

experiência proceder de acordo com leis seguras e de forma gradual e constante,

poder-se-á esperar algo de melhor da ciência.

CI

Todavia, mesmo quando esteja pronto e preparado o material de história natural

e de experiência, na quantidade requerida para a obra do intelecto, ou seja, para

a obra da filosofia, nem assim o intelecto estará em condições de trabalhar o

referido material espontaneamente e apenas com o auxílio da memória. Seria o

mesmo que se tentasse aprender de memória e reter exatamente todos os

cálculos de uma tábua astronômica. E até agora, em matéria de invenção, tem

sido mais importante o papel da meditação que o da escrita, e a experiência não

é ainda literata.87 Apesar disso, nenhuma forma de invenção é conclusiva senão

por escrito. E é de se esperar melhores frutos quando a experiência literata for

de uso corrente.

CII

Além disso, sendo tão grande o número dos fatos particulares, quase um

exército, e achando-se de tal modo esparsos e difusos que chegam a desagregar

e confundir o intelecto, não é de se esperar boa coisa das escaramuças, dos

ligeiros movimentos e incursões do intelecto, a não ser que, organizando e

coordenando todos os fatos relacionados a um objeto, se utilize de tabelas de

invenção idôneas e bem dispostas e como que vivas. Tais tabelas servirão à

mente como auxiliares preparados e ordenados.

CIII

Contudo, mesmo depois de se haver disposto, como que sob os olhos, de forma

correta e ordenada a massa de fatos particulares, não se pode ainda passar à

investigação e à descoberta de novos fatos particulares ou de novos resultados.

Se, não obstante, tal ocorrer, não é de se ficar satisfeito com apenas isso.

Todavia, não negamos que depois que os experimentos de todas as artes forem

recolhidos e organizados e, depois, levados à consideração e ao juízo de um só

homem, seja possível, pela simples transferência dos conhecimentos de uma

arte para outra, com auxílio da experiência a que chamamos de literata, chegar

a muitas novas descobertas úteis à vida humana e às suas condições. Todavia,

tais resultados, a bem dizer, são de menor importância. Na verdade muito

maiores serão os provenientes da nova luz dos axiomas, deduzidos dos fatos

particulares, com ordem e por via adequada, e que servem, por sua vez, para

indicar e designar novos fatos particulares. Atente -se para isto: o nosso caminho<

não é plano, há nele subidas e descidas. É primeiro ascendente, em direção aos

axiomas, é descendente quando se volta para as obras.

CIV

Contudo, não se deve permitir que o intelecto salte e voe dos fatos particulares

aos axiomas remotos e aos, por assim dizer, mais gerais — que são os chamados

princípios das artes e das coisas — e depois procure, a partir da sua verdade

imutável, estabelecer e provar os axiomas médios. E é o que se tem feito até

agora graças à propensão natural do intelecto, afeito e adestrado desde há muito,

pelo emprego das demonstrações silogísticas. Muito se poderá esperar das

ciências quando, seguindo a verdadeira escala, por graus contínuos, sem

interrupção, ou falhas, se souber caminhar dos fatos particulares aos axiomas

menores, destes aos médios, os quais se elevam acima dos outros, e finalmente

aos mais gerais. Em verdade, os axiomas inferiores não se diferenciam muito da

simples experiência. Mas os axiomas tidos como supremos e mais gerais

(falamos dos de que dis pomos hoje) são meramente conceituais ou abstratos 88 e

nada têm de sólido. Os médios são os axiomas verdadeiros, os sólidos e como

que vivos, e sobre os quais repousam os assuntos e a fortuna do gênero humano.

Também sobre eles se apoiam os axiomas generalíssimos, que são os mais

gerais. Estes entendemos não simplesmente como abstratos, mas realmente

limitados pelos axiomas intermediários. Assim, não é de se dar asas ao

intelecto, mas chumbo e peso para que lhe sejam coibidos o salto e o vôo. É o

que não foi feito até agora; quando vier a sê-lo, algo de melhor será lícito

esperar-se das ciências.

CV

Para a constituição de axiomas deve-se cogitar de uma forma de indução diversa

da usual até hoje e que deve servir para descobrir e demonstrar não apenas os

princípios como são correntemente chamados como também os axiomas

menores, médios e todos, em suma. Com efeito, a indução que procede por

simples enumeração é uma coisa pueril, leva a conclusões precárias, expõe -se

ao perigo de uma instância que a contradiga. Em geral, conclui a partir de um

número de fatos particulares muito menor que o necessário e que são também os

de acesso mais fácil. Mas a indução que será útil para a descoberta e

demonstração das ciências e das artes deve analisar a natureza, procedendo às

devidas rejeições e exclusões, e depois, então, de posse dos casos negativos

necessário s, concluir a respeito dos casos positivos. Ora, é o que não foi até hoje

feito, nem mesmo tentado, exceção feita, certas vezes, de Platão, que usa essa

forma de indução para tirar definições e idéias. Mas, para que essa indução ou

demonstração possa ser oferecida como uma ciência boa e legítima, deve-se

cuidar de um sem-número de coisas que nunca ocorreram a qualquer mortal.

Vai mesmo ser exigido mais esforço que o até agora despendido com o

silogismo. E o auxílio dessa indução deve ser invocado, não apenas para o

descobrimento de axiomas, mas também para definir as noções. E é nessa

indução que estão depositadas as maiores esperanças.

CVI

Na constituição de axiomas por meio dessa indução, é necessário que se

proceda a um exame ou prova: deve-se verific ar se o axioma que se constitui é

adequado e está na exata medida dos fatos particulares de que foi extraído, se

não os excede em amplitude e latitude, se é confirmado com a designação de

novos fatos particulares que, por seu turno, irão servir como uma espécie de

garantia. Dessa forma, de um lado, será evitado que se fique adstrito aos fatos

particulares já conhecidos; de outro, que se cinja a sombras ou formas abstratas

em lugar de coisas sólidas e determinadas na sua matéria. Quando esse

procedimento for colocado em uso, teremos um motivo a mais para fundar as

nossas esperanças.

CVII

E aqui deve ser recordado o que antes se disse 89 sobre a extensão da filosofia

natural e sobre o retorno ao seu âmbito dos fatos particulares, para que não se

instaurem cisões ou rupturas no corpo das ciências. Pois sem tais precauções

muito menos há de se esperar em matéria de progresso.

CVIII

Tratou-se, pois, da forma de se eliminar a desesperação, bem como a de se

infundir a esperança, eliminando e retificando os erros dos tempos passados.

Vejamos se há ainda mais alguma coisa capaz de gerar esperanças. Tal de fato

ocorre, a saber: se foi possível a homens que não as buscavam descobrirem

muitas coisas, por acaso ou sorte, e até quando tinham outros propósitos, não

pode haver dúvida de que quando as buscarem e se empenharem com ordem e

método,90 e não por impulsos e saltos, necessariamente muitas mais haverão de

ser descerradas. Por outro lado, pode ocorrer também, uma ou outra vez, que

alguém, por acaso, tope com algo que antes lhe escapou quando o buscava com

esforço e determinação. Mas na maior parte dos casos, sem dúvida, ocorrerá o

contrário. Por conseguinte, pode-se esperar muito mais e melhor e a menores

intervalos de tempo, da razão, da indústria, da direção e intenção dos homens

que do acaso e do instinto dos animais e coisas semelhantes, que até agora

serviram de base para as invenções.

CIX

Pode-se também acrescentar como argumento de esperança o fato de que muitos

dos inventos já logrados são de tal ordem que antes a ninguém foi dado sequer

suspeitar da sua possibilidade. Eram, ao contrário, olhados como coisas

impossíveis. E tal se deve a que os homens procuram adivinhar as coisas novas

a exemplo das antigas e com a imaginação preconcebida e viciada. Mas essa é

uma maneira de opinar sumamente falaciosa, pois a maioria das descobertas que

derivam das fontes das coisas não flui pelos regatos costumeiros.

Assim, por exemplo, se antes da invenção dos canhões alguém, baseado nos

seus efeitos, os descrevesse: foi inventada uma máquina que pode, de grande

distância, abalar e arrasar as mais poderosas fortificações, os homens então se

poriam a cogitar das diferentes e múltiplas formas de se aumentar a força de

suas máquinas bélicas pela combinação de pesos e rodas e dispositivos que tais,

causadores de embates e impulsos. Mas a ninguém ocorreria, mesmo em

imaginação ou fantasia, essa espécie de sopro violento e flamejante que se

propaga e explode. A sua volta não divisavam nenhum exemplo de algo

semelhante, a não ser o terremoto e o raio, que, como fenômenos naturais de

grandes proporções, não imitáveis pelo homem, seriam desde logo rejeitados.

Do mesmo modo, se antes da descoberta do fio da seda 91 alguém houvesse

falado: há uma espécie de fio para a confecção de vestes e alfaias que supera de

longe em delicadeza e resistência e, ainda, em esplendor e suavidade, o linho e a

lã, os homens logo se poriam a pensar em alguma planta chinesa, ou no pêlo

muito delicado de algum animal, ou na pluma ou penugem das aves; mas

ninguém haveria de imaginar o tecido de um pequeno verme tão abundante e

que se renova todos os anos. Se alguém se referisse ao verme teria sido objeto

de zombaria, como alguém que sonhasse com um novo tipo de teia de aranha.

Do mesmo modo, se antes da invenção da bússola 92 alguém houvesse falado ter

sido inventado um instrumento com o qual se poderia captar e distinguir com

exatidão os pontos cardeais do céu; os homens se teriam lançado, levados pela

imaginação, a conjeturar a construção dos mais rebuscados instrumentos

astronômicos, e pareceria de todo incrível que se pudesse inventar um

instrumento com movimentos coincidentes com os dos céus, sem ser de

substância celeste, mas apenas de pedra ou metal. Contudo, tais inventos e outros

semelhantes permaneceram ignorados pelos homens por tantos séculos, e

não foram descobertos pelas artes, mas graças ao acaso e oportunidade. Por

outro lado, são de tal ordem (como já dissemos), são tão heterogêneos e tão

distantes do que antes era conhecido que nenhuma noção anterior teria podido

conduzir a eles.

Desse modo, é de se esperar que há ainda recônditas, no seio da natureza,

muitas coisas de grande utilidade, que não guardam qualquer espécie de relação

ou paralelismo com as já conhecidas, mas que estão fora das rotas da

imaginação. Até agora não foram descobertas.

Mas não há dúvida de que no transcurso do tempo e no decorrer dos séculos

virão à luz, do mesmo modo que as antes referidas. Mas, seguindo o caminho

que estamos apontando, elas podem ser mostradas muito antes do tempo usual,

podem ser antecipadas, de forma rápida, repentina e simultaneamente.

CX

Mas há outra espécie de invenções que são de tal ordem que nos levam a pensar

que o gênero humano pode preteri-las, e deixar para trás nobres inventos

praticamente colocados a seus pés. Pois, com efeito, se, de um lado, a invenção

da pólvora, da seda, da agulha de marear, do açúcar, do papel e outras do gênero

parecem se basear em propriedades das coisas e da natureza, de outro, a

imprensa nada apresenta que não seja manifesto e quase óbvio.

De fato, os homens não foram capazes de notar que, se é mais difícil a

disposição dos caracteres tipográficos que escrever as letras à mão, aqueles,

uma vez colocados, propiciam um número infinito de cópias, enquanto que as

letras à mão só servem para uma escrita. Ou talvez não tenham sido capazes de

notar que a tinta poderia ser espessada de forma a tingir sem escorrer

(mormente quando se faz a impressão sobre as letras voltadas para cima). Eis

por que por tantos séculos não se pôde contar com essa admirável invenção, tão

propicia à propagação do saber.93

Mas a mente humana, no curso dos descobrimentos, tem estado tão desastrada e

mal dirigida que primeiro desconfia de si mesma e depois se despreza. Primeiro

lhe parece impossível certo invento; depois de realizado, considera incrível que

os homens não o tenham feito há mais tempo. É isso mesmo que reforça os

nossos motivos de esperança, pois subsiste ainda um sem-número de

descobrimentos a serem feitos, que podem ser alcançados através da já

mencionada experiência literata, não só para se descobrirem operações

desconhecidas, como também para transferir, juntar e aplicar as já conhecidas.

CXI

Há ainda um outro motivo de esperança que não pode ser omitido. Que os

homens se dignem considerar o infinito dispêndio de tempo, de orgulho e de

dinheiro que se tem consumido em coisas e estudos sem importância e

utilidade! Se apenas uma pequena parte desses recursos fosse canalizada para

coisas mais sensatas e sólidas, não haveria dificuldade que não pudesse ser

superada. Parece oportuno acrescentar isso porque reconhecemos com toda

franqueza que uma coleção de história natural e experimental, tal como a

concebemos e como deve ser, é uma empresa grandiosa e quase real, que requer

muito trabalho e muitos gastos. 94

CXII

Contudo, ninguém deve temer a multidão de fatos particulares que, na verdade,

pode ser tida como mais um motivo de esperança. Pois os fenômenos

particulares das artes e da natureza, quando afastados e abstraídos da evidência

das coisas, são como manípulos para o trabalho do espírito. E a via dos

particulares conduz ao campo aberto e não está longe de nós. A outra não tem

saída e leva a emaranhados sem fim. Os homens, até agora, pouco e muito

superficialmente se têm dedicado à experiência, mas têm consagrado um tempo

infinito a meditações e divagações engenhosas. Mas se houvesse entre nós

alguém pronto a responder às interrogações incitadas pela natureza, em poucos

anos seria realizado o descobrimento de todas as causas e o estabelecimento de

todas as ciências.

CXIII

Pensamos também que o nosso próprio exemplo poderia servir aos homens de

motivo para esperanças e dizemos isso não por jactância, mas pela sua utilidade.

Os que desconfiam considerem a mim, que sou dentre os homens de meu tempo

o mais ocupado dos negócios de Estado,95 com saúde vacilante — o que

representa grande dispên dio de tempo e pioneiro deste rumo, pois não sigo as

pegadas de ninguém, e sem comunicar estes assuntos a qualquer outro mortal. 96

E no entanto prossegui constantemente, pelo caminho verdadeiro, submetendo o

meu espírito às coisas, tendo assim conseguido, segundo penso, algum

resultado. Considerem em seguida quanto se poderia esperar (tomando o meu

exemplo) de homens com todo o seu tempo disponível, associados no trabalho,

tendo pela frente todo o tempo necessário e levando-se em conta também que se

trata de um caminho que pode ser percorrido não apenas por um indivíduo

(como no caminho racional) 97 mas que permite que o trabalho e a colaboração

de muitos se distribuam perfeitamente (em especial para a coleta de dados da

experiência). Aí então os homens começarão a conhecer as suas próprias forças,

isto é, não quando todos se dediquem à mesma tarefa, mas quando cada um a

uma tarefa diferente.98

CXIV

Finalmente, ainda que não tenha soprado mais que uma débil e obscura aura de

esperança procedente desse novo continente,99 entendemos deva ser feita a

prova, se não quisermos dar mostras de um espírito completamente abjeto. Pois

não há paridade entre o risco que se corre ao não se tentar a prova e o

proveniente do insucesso. No primeiro caso nos expomos à perda de um imenso

bem; no segundo, há uma pequena perda de trabalho humano. Assim, tanto do

que se há dito como do que não se disse, parece subsistirem grandes motivos

para que o homem destemido se disponha a tentar e para que o prudente e

comedido adquira confiança.

CXV

Expusemos até aqui as diversas formas de se tolher a desesperação,100 apontada

como um dos principais obstáculos e causas poderosas de retardamento do

progresso das ciências. Concluímos também nossa explanação a respeito dos

signos e causas dos erros, da inércia e da ignorância até agora predominantes.

Deve ser lembrado também que as causas mais sutis desses óbices, que se

acham fora do alcance do juízo e observação popular, devem ser buscadas no

que já se disse a respeito dos ídolos do espírito humano.

Aqui termina igualmente a parte destrutiva de nossa Instauração,101 que

compreende três refutações: refutação da razão humana natural e deixada a si

mesma, refutação das demonstrações e refuta ção das teorias, ou dos sistemas

filosóficos e doutrinas aceitos. Essa refutação foi cumprida tal como era

possível, isto é, por meio dos signos e dos erros evidentes. Não podíamos

empregar nenhum outro gênero de refutação, por dissentirmos das demais

quanto aos princípios e quanto às formas de demonstração.

É tempo, pois, de passarmos à arte e às normas de interpretação da natureza.

Mas há ainda algo a ser lembrado. Como nosso propósito neste primeiro livro

de aforismos foi o de preparar a mente dos homens tanto para entender quanto

para aceitar o que se seguirá, e estando já limpo, desbastado e igualado o terreno

da mente, é de se esperar que ela se coloque em boa postura e em disposição

benévola em relação ao que a ela iremos propor.

Com efeito, quando se trata de coisa nova, induz ao prejuízo não apenas a

preocupação de uma eminente opinião antiga, como também a falsa concepção

ou representação antes formada a respeito do assunto. Por isso nos esforçaremos

para conseguir que sejam consideradas como corretas e verdadeiras as nossas

opiniões, mesmo que por algum tempo, como que em confiança, até que se

tenha adquirido conhecimento da coisa mesma.

CXVI

Em primeiro lugar, pedimos aos homens que não presumam ser nosso

propósito, à maneira dos antigos gregos, ou de alguns modernos, como Telésio,

Patrizzi e Severino, fundar alguma nova seita de filosofia.102 Não temos tal

desígnio, e nem julgamos de muito interesse para a fortuna dos homens saber

que opiniões abstratas pode ter alguém sobre a natureza ou os princípios das

coisas. Não há dúvida de que muitas opiniões dos antigos podem ser

ressuscitadas e outras novas introduzidas, assim como se podem supor muitas

teorias dos céus que, embora guardando muito bom acordo com os fenômenos,

difiram entre si.

Mas não nos ocuparemos de tais coisas suscetíveis de opiniões e também

inúteis. Ao contrário, a nossa disposição é de investigar a possibilidade de

realmente estender os limites do poder ou da grandeza do homem e tornar mais

sólidos os seus fundamentos. Ainda que isoladamente e em alguns aspectos

particulares tenhamos alcançado, assim nos parece, resultados mais verdadeiros,

mais sólidos, e ainda mais fecundos que aqueles a que chegaram os homens que

deles até agora se ocuparam (o que resumimos na quinta parte da nossa

Instauração),103 todavia não pretendemos propor qualquer teoria universal ou

acabada. Não parece ter chegado ainda o momento de fazê-lo. Por isso, não

nutrimos esperanças de que a duração de nossa vida chegue para concluir a

sexta parte de nossa Instauração,104 que está destinada a contar a filosofia

descoberta a partir da legítima interpretação da natureza. Mas nos daremos por

satisfeitos se conseguirmos agir com sobriedade e proficiência nas partes

intermediárias, e lançar aos pósteros as sementes de uma verdade mais sincera,

e não nos furtamos pelo menos ao início das grandes empresas.

CXVII

E do mesmo modo que não somos fundadores de uma escola, não nos propomos

a prometer ou desenvolver obras de caráter particular.105 Contudo, poderia

alguém nos exigir, como penhor, que apresentássemos de nossa parte alguma

produção, já que tanto falamos de obras e a elas tudo relacionamos. O nosso

plano e o nosso verdadeiro procedimento — como já o dissemos muitas vezes e

de bom grado o repetimos — consiste em não extrair obras de obras e

experimentos de experimentos, como fazem os artífices. Pretendemos deduzir

das obras e experimentos as causas e os axiomas e depois, das causas e

princípios, novas obras e experimentos, como cumpre aos legítimos intérpretes

da natureza.

Mas em nossas tábuas de descoberta 106 — que compreendem a quarta

parte 107 da nossa Instauração e também pelos exemplos particulares que

constam da nossa segunda parte — e ainda nas nossas observações sobre

história — que estão na terceira parte 108 qualquer pessoa de mediana

perspicácia e engenho notará aqui indicações e designações de muitas obras

importantes. Mas confessamos abertamente que a história natural de que

dispomos, seja a recolhida dos livros, seja a resultante de nossas próprias

investigações, não é nem tão abundante nem tão comprovada a ponto de satisfazer

e bastar às exigências da legítima interpretação.

Assim, se há alguém mais apto e preparado para a mecânica e mais sagaz para a

busca de novos resultados só com o uso dos experimentos, consentimos e

confiamos à sua indústria a coleta de minha história e de minhas tábuas, muitas

coisas pelo caminho, conferindo-lhe um uso prático e recebendo um interesse

provisório, até que alcance o êxito definitivo. Quanto a nós, na verdade, como

pretendemos mais, condenamos toda demora precipitada e prematura em coisas

como essas a exemplo das maçãs de Atalanta,109 como muitas vezes costumo

dizer. Com efeito, não procuramos puerilmente os pomos dourados, antes tudo

depositamos na marcha triunfal da arte sobre a natureza. Não nos apressamos a

colher o musgo ou as espigas ainda verdes: é a messe sazonada que

aguardamos.

CXVIII

Examinando nossa história natural e nossas tábuas de descoberta certamente

ocorrerá a alguém a existência, em nossos experimentos, de aspectos não bem

comprovados, ou, mesmo, serem eles totalmente falsos. Em vista disso, passará

a refutar os novos descobrimentos como se apoiados em fundamentos e

princípios duvidosos ou falsos. Na verdade, isso nada significa, pois é

necessário que tal aconteça no início. Seria como se na escrita ou na impressão

uma ou outra letra estivessem mal colocadas (ou fora do lugar), o que não

chegaria a confundir muito o leitor, uma vez que o próprio sentido acaba facilmente

por corrigir os erros. Da mesma maneira, reflitam os homens que na

história natural muitos falsos experimentos podem ser tomados e aceitos como

verdadeiros, e mais tarde facilmente rejeitados e expurgados, quando da

descoberta de causas e de axiomas. É igualmente verdadeiro que se encontra na

história natural e nos experimentos uma série longa e contínua de erros que,

todavia, não poderão ser corrigidos pela boa disposição do engenho.

Em vista disso, se a nova história natural que foi coligida e comprovada com

tanta diligência, severidade e zelo quase religioso deixa passar algum erro ou

falsidade nos fatos particulares, o que se poderá dizer então da história natural

corrente que é, em comparação com a nossa, tão negligente e superficial? Ou da

filosofia codificada sobre a areia ou sirtes? Portanto, ninguém se deve preocupar

com o que foi dito.

CXIX

Serão também encontradas em nossa história natural e em nossos experimentos

muitas coisas superficiais e comuns, outras vis e mesmo grosseiras, finalmente

outras sutis e meramente especulativas e quase sem qualquer utilidade. Coisas,

enfim, que poderiam afastar os homens do estudo, bem como desgostá-los.

Quanto às coisas que parecem comuns, reflitam os homens em sua conduta

habitual que não tem sido outra que referir e adaptar as causas das coisas que

raramente ocorrem às que ocorrem com freqüência, sem, todavia, indagar das

causas daquelas mais freqüentes, aceitando-as como fatos admitidos e

assentados.

Dessa forma, não buscam as causas do peso, da rotação dos corpos celestes, do

calor, do frio, da luz, do duro, do mole, do tênue, do denso, do líquido, do

sólido, do animado, do inanimado, do semelhante, do dessemelhante, e nem

tampouco do orgânico. Antes, tomam tais coisas por e videntes e manifestas e se

entregam à disputa e à determinação das que não ocorrem com tanta freqüência

e não são tão familiares.

Mas, quanto a nós, que sabemos não se poder formular juízos acerca das coisas

raras e extraordinárias e muito menos trazer à luz algo de novo, antes de se

terem examinado devidamente e de se haverem descoberto as causas das coisas

comuns, e as causas das causas, fomos compelidos, por necessidade, a acolher

em nossa história as coisas mais comuns. Por isso, estabelecemos que não há

nada tão pernicioso à filosofia como o fato de as coisas familiares e que

ocorrem com freqüência não atraírem e não prenderem a reflexão dos homens,

mas serem admitidas sem exame e investigação das suas causas. Disso resulta

que é mais freqüente recolh erem-se informações sobre as coisas desconhecidas

que dedicar-se atenção às já conhecidas.

CXX

Com referência a fatos considerados vis e torpes, aos quais (como diz Plínio),110

é necessário render homenagem, devem integrar, não menos que os mais

brilhantes e preciosos, a história natural. Não será a história natural maculada:

do mesmo modo que também não se macula o sol que penetra igualmente

palácios e cloacas. Não pretendemos dedicar ou construir um capitólio ou uma

pirâmide à soberba humana. Mas fundamos no intelecto humano um templo

santo à imagem do mundo. E por ele nos pautamos. Pois tudo o que é digno de

existir é digno de ciência, que é a imagem da realidade. As coisas vis existem

tanto quanto as admiráveis. E indo mais longe: do mesmo modo que se

produzem excelentes aromas de matérias pútridas, como o almíscar e a algália,

também de circunstâncias vis e sórdidas emanam luz e exímias informações. E

isso é suficiente, pois esse gênero de desagrado é pueril e efeminado.

CXXI

Há ainda outro assunto que deve merecer o mais acurado exame. É que muitas

das coisas da nossa história parecerão, ao intelecto vulgar e a qualquer mente

afeita às coisas presentes, curiosas e de uma sutileza inútil. Disso já tratamos e

vamos repetir o que antes dissemos: de início e por certo tempo, buscamos

apenas os experimentos lucíferos e não os experimentos frutíferos, tomando por

exemplo a criação divina que, como temos reiterado, no primeiro dia produziu

unicamente a luz, a ela dedicando todo um dia, não se aplicando nesse dia a

nenhuma obra material.

Se alguém reputa tais coisas como destituídas de uso, seria o mesmo que

entendesse não ter também a luz qualquer uso, por não se tratar de uma coisa

sólida ou material. E, a bem da verdade, deve ser dito que o conhecimento das

naturezas simples,111 quando bem examinado e definido, é como a luz, que abre

caminho ao segredo de todas as obras, e com o poder que lhe é próprio abrange

e arrasta todas as legiões e exércitos de obras e as fontes dos axiomas mais

nobres, não sendo, contudo, em si mesma de grande uso. Da mesma forma, as

letras do alfabeto, em si e tomadas isoladamente, nada significam e a nada

servem. Contudo, são como que a matéria -prima para a composição e

preparação de todo discurso. Assim também as sementes das cois as têm

virtualmente grande poder, mas fora de seu processo de desenvolvimento para

nada servem. E os raios dispersos da própria luz, se não convergentes, não

produzem beneficio.

Se alguém se ofende com as sutilezas especulativas, o que dizer então dos

escolásticos que, com tanta indulgência, se entregaram às sutilezas? Tais

sutilezas se consumiam nas palavras ou, pelo menos, em noções vulgares (o que

dá no mesmo), não penetravam nas coisas ou na natureza. Não ofereciam

utilidade não só em suas origens, como também em suas conseqüências. E não

eram, enfim, de tal forma que, como as de que nos ocupamos, não tendo

utilidade no presente, oferecem-na infinita em suas conseqüências. Tenham os

homens por certo que toda sutileza nas disputas ou nos esforços da mente, se

aplicada depois da descoberta dos axiomas, será extemporânea e que o

momento próprio, pelo menos precípuo do uso de sutile zas, é aquele em que se

examina a experiência, para a partir dela se constituírem os axiomas. Com

efeito, aquele outro gênero de sutileza persegue e procura captar a natureza, mas

nunca a alcança e submete. É muito certo, se transposto para a natureza, o que

se diz da ocasião e da fortuna, “que tem fartos cabelos vista de frente e é calva

vista de trás”.112

Enfim, a propósito do desprezo que se vota, na história natural, às coisas

vulgares, vis ou muito sutis ou de nenhuma utilidade, em sua origem, são como

oraculares as palavras de uma pobre mulher, dirigidas a um príncipe arrogante,

que rejeitara sua petição por ser indigna de sua majestade: “Deixa, pois, de ser

rei”.113 Pois é absolutamente certo que ninguém que deixe de levar em conta

essas coisas, por ínfimas e insignificantes que sejam, conseguirá e poderá

exercer domínio sobre a natureza.

CXXII

Costuma-se objetar também ser espantoso e muito rigoroso querermos, de um

só golpe, rechaçar todas as ciências e todos os autores e, isso, sem recorrer a

nenhum dos antigos, para auxílio ou defesa, valendo-nos apenas de nossas

próprias forças.

Entretanto, sabemos perfeitamente que, se quiséssemos agir com menos boa fé

não nos seria difícil relacionar o que vamos expor com os tempos antigos

anteriores aos dos gregos, nos quais as ciências, especialmente as da natureza,

mais floresceram, ainda em silêncio, antes de passarem pelas trombetas e flautas

dos gregos; ou, mesmo ainda que em parte, com alguns dentre os próprios

gregos, neles recolhendo apoio e glória, à maneira dos novos-ricos que, com

ajuda de genealogias, forjam e inventam a sua nobreza, a partir da descendência

de alguma antiga linhagem. Quanto a nós apoiados na evidên cia dos fatos,

rejeitamos toda sorte de fantasia ou impostura. E não reputamos de interesse

para o que nos ocupa o saber-se se o que vai ser descoberto já era conhecido dos

antigos ou se está sujeito às vicissitudes das coisas ou às circunstâncias desta ou

daquela idade. Tampouco parece digno da preocupação dos homens o saber-se

se o Novo Mundo é aquela ilha Atlântida, conhecida dos antigos, ou se foi descoberta

agora pela primeira vez. A descoberta das cois as deve ser feita com

recurso à luz da natureza e não pelas trevas da Antiguidade.

Quanto à censura universal que fizemos, é inquestionável, bem considerado o

assunto, que parece mais plausível e mais modesta se feita por partes. Pois, se

os erros não se tivessem radicado nas noções primeiras, não teria sido possível

que certas noções corretas não tivessem corrigido as demais (portadoras de

erros). Mas como os erros são fundamentais e não provenientes de juízos falhos

ou falsos, mas da negligência e da ligeireza com que os homens trataram os

fatos, não é de se admirar que não tenham conseguido o que não buscaram e que

não tenham alcançado a meta que se não tinham proposto, e, ainda, que não

tenham percorrido um caminho em que não entraram ou de que se transviaram.

E, se nos acusam de arrogantes, cumpre-nos observar que isso seria verdadeiro

de alguém que pretendesse traçar uma linha reta ou um círculo, melhor que

algum outro, servindo-se apenas da segurança das mãos e do bom golpe de

vista. No caso, haveria uma comparação de capacidade. Mas se alguém afirma

poder traçar uma linha mais reta e um círculo mais perfeito servindo-se da régua

e do compasso, em comparação a alguém que faça uso apenas das mãos e da

vista, esse com certeza não seria um jactancioso. O que ora dizemos não se

refere somente aos nossos primeiros esforços e tentativas, mas também aos dos

que se seguiram com os mesmos propósitos. Pois o nosso método de descoberta

das ciências quase que iguala os engenhos e não deixa muita margem à

excelência individual, pois tudo submete a regras rígidas e demonstrações. Eis

por que, como já o dissemos muitas vezes, a nossa obra deve ser atribuída mais

à sorte que à habilidade, e é mais parto do tempo que do talento. Pois parece não

haver dúvidas de que uma espécie de acaso intervém tanto no pensamento dos

homens quanto nas obras e nos fatos.

CXXIII

Assim, diremos de nós o que alguém, por gracejo, disse de si: “Não podem ter a

mesma opinião quem bebe água e quem bebe vinho”.114 Com efeito, os demais

homens, tanto os antigos como os modernos, beberam nas ciências um licor cru,

como a água que mana espontaneamente de sua inteligência, ou haurido pela

dialética, como de um poço, por meio de roldanas. Mas, de nossa parte,

bebemos e brindamos um licor preparado com abundantes uvas, amadurecidas

na estação, de racemos escolhidos, logo espremidas no lagar, e depois

purificado e clarificado em vasilhame próprio. Em vista disso, não é de se

admirar que não nos ponhamos de acordo com eles.

CXXIV

Podem fazer-nos ainda outra objeção: a de que mesmo nós não prefixamos para

as ciências a meta e o escopo melhores e mais verdadeiros, fato que censuramos

em outros. E que a contemplação da verdade é mais digna e elevada que a

utilidade e a grandeza de qualquer obra,115 e também que essa longa, solícita e

instante dedicação à experiência, à matéria e ao fluxo das coisas particulares

curva a mente para a terra ou mesmo a abandona a um Tártaro de confusão e

desordem e a afasta e distancia da serenidade e tranqüilidade da sabedoria

abstrata, que é muito mais próxima do divino. De bom grado assentimos nessas

observações, pois tratamos, precipuamente e antes de mais nada, de alcançar o

que os nossos críticos indicam e escolhem. Efetivamente construímos no

intelecto humano um modelo verdadeiro 116 do mundo, tal qual foi descoberto e

não segundo o capricho da razão de fulano ou beltrano. Porém, isso não é

possível levar a efeito, sem uma prévia e diligentíssima dissecção e anatomia do

mundo. Por isso, decidimos correr com todas essas imagens ineptas e simiescas

que a fantasia humana infundiu nos vários sistemas filosóficos. Saibam os

homens como já antes dissemos a imensa distância que separa os ídolos da

mente humana das idéias da mente divina.117 Aqueles, de fato, nada mais são

que abstrações arbitrárias; estas, ao contrário, são as verdadeiras marcas do

Criador sobre as criaturas, gravadas e determinadas sobre a matéria, através de

linhas exatas e delicadas. Por conseguinte, as coisas em si mesmas, neste

gênero, são verdade e utilid ade,118 e as obras devem ser estimadas mais como

garantia da verdade que pelas comodidades que propiciam à vida humana.119

CXXV

Pode ser também que sejamos tachados de fazer algo já feito antes e que mesmo

os antigos seguiram já semelhante caminho. Assim, qualquer um poderá tomar

como verossímil que, depois de tanta agitação e esforço, acabamos por cair em

uma daquelas filosofias instituídas pelos antigos. Também eles partiam em suas

meditações de grande quantidade e acúmulo de exemplos e fatos particulares e

os dispunham separadamente segundo os assuntos. A seguir compunham as

suas filosofias e as suas artes e, depois de procederam a uma verificação,

enunciavam as suas opiniões, não sem antes ter acrescentado, aqui e ali,

exemplos, a título de prova ou de elucidação. Todavia, consideraram supérfluo e

fastidioso transcrever suas notas de fatos particulares, apontamentos e

comentários e, dessa forma, imitaram o procedimento usado na construção:

depois de terminado o edifício foram removidos da vista as máquinas e os

andaimes. Não há motivo para crer que tenham procedido de outra forma. Mas

quem não se esqueceu do que dissemos antes, facilmente responderá a essa

objeção, que é, na verdade, mais um escrúpulo. A forma 120 de investigação e de

descoberta própria dos antigos, e sabemo-lo bem, se encontra expressa em seus

escritos. E essa forma não consistia em mais que galgar de um salto, a partir de

alguns exemplos e fatos particulares (juntamente com noções comuns e talvez

uma certa porção das opiniões mais aceitas), às conclusões mais gerais ou aos

princípios das ciências, Depois, a partir dessas verdades tidas como imutáveis e

fixas, por meio de proposições intermediárias, estabeleciam as conclusões

inferiores e, a partir destas, constituíam a arte. Se, porventura, surgissem novos

fatos particulares e exemplos que contrariassem as suas afirmações, por meio de

distinções ou da aplicação de suas regras encaixavam-nos em suas doutrinas ou,

quando não, grosseiramente os descartavam como exceções. E as causas dos

fatos particulares, não conflitantes com os seus princípios, essas eram pertinaz e

laboriosamente a eles acomodadas. Aquela experiência e aquela história natural

não eram, pois, o que deviam ser, estavam antes muito longe e, ademais, esse

vôo súbito aos princípios mais gerais punha tudo a perder.

CXXVI

Ainda nos pode ser endereçado o reparo de que, sob o pretexto de admitirmos

unicamente a enunciação de juízos e o estabelecimento de princípios certos, só

depois de se terem alcançado as verdades mais gerais, rigorosamente a partir de

graus intermediários, sustenta mos a suspensão do juízo e acabamos assim por

cair em uma espécie de acatalepsia. Mas, em verdade, não cogitamos e nem

propomos a acatalepsia, mas a eucatalepsia,121 pois não pretendemos abdicar

dos sentidos, mas ampará-los; nem desprezar o intelecto, mas dirigi-lo. Enfim, é

melhor saber-se tudo o que ainda está para ser feito, supondo que não o

sabemos, que supor-se que bem o sabemos, e ignorar totalmente o que nos falta.

CXXVII

Ainda nos pode ser indagado, mais como dúvida que como objeção, se

intentamos, com nosso método, aperfeiçoar apenas a filosofia natural 122 ou

também as demais ciências: a lógica, a ética e a política. Ora, o que dissemos

deve ser tomado como se estendendo a todas as ciências. Do mesmo modo que

a lógica vulgar, que ordena tudo segundo o silogismo, aplica-se não somente às

ciências naturais, mas a todas as ciências, assim também a nossa lógica, que

procede por indução, tudo abarca. Por isso, pretendemos constituir história e

tábuas de descobertas para a ira, o medo, a vergonha e assuntos semelhantes; e

também para exemplos das coisas civis e, não menos, para as operações

mentais, como a memória, para a composição e a divisão,123 para o juízo,124 etc.

E, ainda, para o calor, para o frio, para a luz, vegetação e assuntos semelhantes.

Porém, como o nosso método de interpretação, uma vez preparada e ordenada a

história, não se dirige unicamente aos processos discursivos da mente, como a

lógica vulgar, mas à natureza de todas as coisas, tratamos de conduzir a mente

de tal modo que possa se aplicar à natureza das coisas, de forma adequada a

cada caso particular. É por isso que na doutrina da interpretação indicamos

muitos e diversos preceitos que, de alguma forma, ajustam o método de

investigação às qualidades e condições do assunto que se considera.

CXXVIII

Mas no que não pode pairar qualquer dúvida é quanto à nossa pretensa ambição

de destruir e demolir a filosofia, as artes e as ciências, ora em uso. Antes pelo

contrário, admitimos de bom grado o seu uso, o seu cultivo e o respeito de que

gozam. De modo algum nos opomos a que as artes comumente empregadas

continuem a estimular as disputas, a ornar os discursos, sirvam às conveniências

professorais e aproveitem os reclamos da vida civil e, como as moedas, circulem

graças ao consenso dos homens. Indo mais longe, declaramos abertamente

que tudo o que propomos não há de ser de muito préstimo a esse tipo de usos,

uma vez que não poderá ser colocado ao alcance do vulgo, a não ser pelos seus

efeitos e pelas obras propicia dos. São testemunho de nossa boa disposição e de

nossa boa vontade, para com as ciências ora aceitas, nossos escritos já

publicados, especialmente os livros sobre O Progresso das Ciências.125 Não

intentamos, por isso, prová-lo melhor com palavras. Contudo, advertimos de

modo claro e firme que com os atuais métodos não se pode lograr grandes

progressos nas doutrinas e nas indagações sobre ciências, e bem por isso não se

podem esperar significativos resultados práticos.

CXXIX

Resta-nos dizer algumas palavras acerca da excelência do fim proposto. Se as

tivéssemos dito logo de início, poderiam ser tomadas por simples aspirações.

Mas, uma vez que firmamos as esperanças e eliminamos os iníquos prejuízos,

terão certamente mais peso. Se tivés semos conduzido e realizado tudo sem

invocar a participação e a ajuda de outros para a nossa empresa, nesse caso,

abster-nos-íamos de quaisquer palavras, para que não fossem tomadas como

proclamadoras de nossos próprios méritos. Mas, como é necessário estimular a

indústria dos outros homens, e mesmo excitar e inflamar-lhes o ânimo, é de toda

conveniência fixar certos pontos em suas mentes.

Em primeiro lugar, parece-nos que a introdução de notáveis descobertas ocupa

de longe o mais alto posto entre as ações humanas. Esse foi também o juízo dos

antigos. Os antigos, com efeito, tributavam honras divinas aos inventores,126

enquanto que concediam aos que se distinguiam em cometimentos públicos,

como os fundadores de cidades e impérios, os legisladores, os libertadores da

pátria de males repetidos, os debeladores das tiranias, etc., simplesmente honras

de heróis. E, em verdade, a quem estabelecer entre ambas as coisas um

confronto correto, parecerá justo o juízo daqueles tempos remoto s. Pois, de fato,

os benefícios dos inventos podem estender-se a todo o gênero humano, e os

benefícios civis alcançam apenas algumas comunidades e estes duram poucas

idades, enquanto que aqueles podem durar para sempre. Por outro lado, a

reforma de um Estado dificilmente se cumpre sem violência e perturbação, mas

os inventos trazem venturas e os seus benefícios a ninguém prejudicam ou

amarguram.

Além disso, os inventos são como criações e imitações das obras divinas, como

bem cantou o poeta:

Primum frugiferos foetus mortalibus aegris

Dididerant quondam praestanti nomini Athenae

Et RECREAVERUNT vitam legesque rogarunt.127

E é digno de nota o exemplo de Salomão, eminente pelo império, pelo ouro,

pela magnificência de suas obras, pela escolta e famulagem, pela sua frota, pela

imensa admiração que provocava nos homens, e que nada dessas coisas elegeu

para a sua glória, e em vez disso proclamou: “A glória de Deus consiste em

ocultar a coisa, a glória do rei em descobri-la”. 128

Considere-se ainda, se se quiser, quanta diferença há entre a vida humana de

uma região das mais civilizadas da Europa e uma região das mais selvagens e

bárbaras da Nova Índia.129 Ela parecerá tão grande que se poderá dizer que “O

homem é Deus para o homem”,130 , não só graças ao auxílio e benefício que ele

pode prestar a outro homem, como também pela comparação das situações. E

isso ocorre não devido ao solo, ao clima ou à constituição física.

Vale também recordar a força, a virtude e as conseqüências das coisas

descobertas, o que em nada é tão manifesto quanto naquelas três descobertas

que eram desconhecidas dos antigos e cujas origens, embora recentes, são

obscuras e inglórias. Referimo-nos à arte da imprensa, à pólvora e à agulha de

marear. Efetivamente essas três descobertas mudaram o aspecto e o estado das

coisas em todo o mundo: a primeira nas letras, a segunda na arte militar e a

terceira na navegação. Daí se seguiram inúmeras mudanças e essas foram de tal

ordem que não consta que nenhum império, nenhuma seita, nenhum astro

tenham tido maior poder e exercido maior influência sobre os assuntos humanos

que esses três inventos mecânicos.

A esta altura, não seria impróprio distinguirem-se três gêneros ou graus de

ambição dos homens. O primeiro é o dos que aspiram ampliar seu próprio poder

em sua pátria, gênero vulgar a aviltado; o segundo é o dos que ambicionam

estender o poder e o domínio de sua pátria para todo o gênero humano, gênero

sem dúvida mais digno, mas não menos cúpido. Mas se alguém se dispõe a

instaurar e estender o poder e o domínio do gênero humano sobre o universo, a

sua ambição (se assim pode ser chamada) seria, sem dúvida, a mais sábia e a

mais nobre de todas. Pois bem, o império do homem sobre as coisas se apóia

unicamente nas artes e nas ciências. A natureza não se domina, senão

obedecendo-lhe.131

E mais ainda: se a utilidade de um invento particular abalou os homens a ponto

de levá-los a considerar mais que homem aquele que ofereceu à humanidade

inteira apenas um único beneficio, que excelso lugar não ocupará a descoberta

que vier abrir caminho a todas as demais descobertas? Contudo, e para dizer

toda a verdade, assim como devemos dar graças à luz, mercê da qual podemos

praticar as artes, ler e reconhecermo-nos uns aos outros, devemos reconhecer

que a própria visão da luz é muito mais benéfica e bela que todas as suas

vantagens práticas. Assim também a contemplação das coisas tais como são,

sem superstição e impostura, sem erro ou confusão, é em si mesma mais digna

que todos os frutos das descobertas.

Por último, se se objetar com o argumento de que as ciências e as artes se

podem degradar, facilitando a maldade, a luxúria e paixões semelhantes, que

ninguém se perturbe com isso, pois o mesmo pode ser dito de todos os bens do

mundo, da coragem, da força, da própria luz e de tudo o mais. Que o gênero

humano recupere os seus direitos sobre a natureza, direitos que lhe competem

por dotação divina. Restitua-se ao homem esse poder e seja o seu exercício

guiado por uma razão reta e pela verdadeira religião.

CXXX

Já é tempo de e xpor a arte de interpretar a natureza. A propósito devemos deixar

claro que, embora acreditemos ai se encontrarem preceitos muito úteis e

verdadeiros, não lhe atribuímos absoluta necessidade ou perfeição. De fato,

somos da opinião de que se os homens tivesssem à mão uma adequada história

da natureza e da experiência, e a ela se dedicassem cuidadosamente, e se, além

disso, se impusessem duas precauções: uma, a de renunciar às opiniões e noções

recebidas; outra, a de coibir, até o momento exato, o ímpeto próprio da mente

para os princípios mais gerais e para aqueles que se acham próximos; se assim

procedessem, acabariam, pela própria e genuína força de suas mentes, sem

nenhum artifício, por chegar à nossa forma de interpretação. A interpretação é,

com efeito, a obra verdadeira e natural da mente, depois de liberta de todos os

obstáculos. Mas com os nossos preceitos tudo será mais rápido e seguro.

Não pretendemos que nada lhe possa ser acrescentado. Ao contrário, nós, que

consideramos a mente não meramente pelas faculdades que lhe são próprias,

mas na sua conexão com as coisas, devemos presumir que a arte da invenção

robustecer-se-á com as próprias descobertas.

AFORISMOS SOBRE A INTERPRETAÇÃO DA NATUREZA E O REINO

DO HOMEM

LIVRO II

I

Engendrar e introduzir nova natureza ou novas naturezas 1 em um corpo 2 dado,

tal é a obra e o fito do poder humano. E a obra e o fito da ciência humana é

descobrir a forma 3 de uma natureza dada ou a sua verdadeira diferença ou

natureza naturante 4 ou fonte de emanação (estes são os vocábulos de que

dispomos mais adequados para os fatos que apresentamos). A estas empresas

primárias subordinam-se duas outras secundárias e de cunho inferior. A

primeira é a transformação de corpos concretos de um em outro, nos limites do

possível;5 a segunda, a descoberta de toda geração e movimento do processo

latente,6 contínuo, a partir do agente manifesto até a forma implícita 7 e

descobrir, também, o esquematismo latente 8 dos corpos quiescentes e não em

movimento.

II

A infeliz situação em que se encontra a ciência humana transparece até nas

manifestações do vulgo. Afirma-se corretamente que o verdadeiro saber é o

saber pelas causas.9 E, não indevidamente, estabelecem-se quatro coisas: a

matéria, a forma, a causa eficiente, a causa final.10 Destas, a causa final longe

está de fazer avançar as ciências, pois na verdade as corrompe; mas pode ser de

interesse para as ações humanas.11 A descoberta da forma tem-se como impossível.

12 E a causa eficiente e a causa material (tal como são investigadas e

admitidas, isto é, como remotas e sem o processo latente no sentido da forma)

são perfunctórias e superficiais, em nada beneficiando a ciência verdadeira e

ativa. Não nos esquecemos, porém, de antes ter notado e procurado sanar o erro

da mente humana que consiste em atribuir à forma o afirmado da essência.13

Ainda que na natureza, de fato, nada mais exista que corpos individuais que

produzem atos puros individuais, segundo uma lei, na ciência é essa mesma lei,

bem assim a sua investigação, na descoberta e explicação, que se constitui no

fundamento para o saber e para a prática. Pelo nome de forma entendemos essa

lei e seus parágrafos,14 mormente porque tal vocábulo é de uso comum e se

tornou familiar.

III

Quem conhece a causa de alguma natureza (como a da brancura ou do calor),

somente em determinados sujeitos, possui uma ciência imperfeita, que pode

produzir um efeito em apenas determinadas matérias (entre as que são

suscetíveis), esse possui igualmente um poder imperfeito. E quem conhece

apenas a causa eficiente e a causa material (que são causas instáveis e não mais

que veículos que em certos casos provocam a forma), esse pode chegar a novas

descobertas em matéria algo semelhante e para isso preparada, mas não

conseguir mudar os limites mais profundos e estáveis das coisas. Mas o que

conhece as formas abarca a unidade da natureza nas suas mais dissímeis

matérias e, em vista disso, pode descobrir e provocar o que até agora não se

produziu, nem pelas vicissitudes naturais, nem pela atividade experimental, nem

pelo próprio acaso e nem sequer chegou a ser cogitado pela mente humana.

Assim é que da descoberta das formas resultam a verdade na investigação e a

liberdade na operação.

IV

Ainda que as vias que levam ao humano poder e à humana ciência estejam

muito ligadas e sejam quase coincidentes, apesar do pernicioso e inveterado

hábito de se propender para as abstrações, é muito mais seguro urdir e derivar as

ciências dos mesmos fundamentos apropriados para o lado prático e deixar que

esta designe e determine o lado contemplativo. Em vista disso, para se gerar ou

introduzir em um corpo dado uma certa natureza, é necessário se considere

devidamente o preceito ou direção ou dedução que deve ser escolhido, e isso

deve ser feito em termos claros e não abstrusos.

Por exemplo, se alguém se propõe a dotar a prata da cor amarela do ouro ou

aumentar-lhe o peso (observando as leis da matéria) ou tornar transparente uma

pedra não transparente, ou dar resistência ao vidro, ou vegetação a um corpo

não vegetal, deve a veriguar a regra ou a dedução mais conveniente para o caso.

Com tal propósito, em primeiro lugar, estará, sem dúvida, interessado em um

procedimento que não frustre a empresa, nem leve ao malogro o experimento.

Em segundo lugar, estará igualmente interessado em um procedimento que não

o constranja nem o force ao uso de certos meios e modos particulares de

proceder. Pois pode ocorrer que não disponha de tais meios ou não tenha

possibilidade ou condições de consegui-los. E se há outros meios ou modos para

reproduzir a natureza desejada (além daqueles preceitos), eles poderiam estar ao

alcance do operador. E este poderia, pela rigidez dos preceitos, anular os

resultados. Em terceiro lugar, desejará que lhe seja indicado algo que não seja

tão difícil quanto a própria operação investigada, mas que seja mais próximo da

prática.

A regra verdadeira e perfeita para o operar pode ser assim enunciada: que seja

certa, livre e predisposta ou que esteja ordenada para a ação.15 O mesmo deve

ser levado em conta para a descoberta da forma. Pois a forma de uma natureza

dada é tal que, uma vez estabelecida, infalivelmente se segue a natureza. Está

presente sempre que essa natureza também o esteja, universalmente a afirma e é

constantemente inerente a ela. E essa mesma forma é de tal ordem que, se se

afasta, a natureza infalivelmente se desvanece; que sempre que está ausente está

ausente a natureza, quando totalmente a nega, por só nela estar presente.

Finalmente, a verdadeira forma é tal que deduz a natureza de algum princípio de

essência 16 que é inerente a muitas naturezas e é mais conhecido (como se diz)

na ordem natural que a própria forma.17 Por conseguinte, o enunciado e a regra

do verdadeiro e perfeito axioma do saber: que se descubra outra natureza que

seja conversível à natureza dada e que ainda seja a limitação de uma natureza

mais geral, à maneira de um verdadeiro gênero.18 Estes dois enunciados, um

ativo e outro contemplativo, são a mesma coisa, pois o que é mais útil na prática

é mais verdadeiro no saber.19

V

A regra 20 ou axioma para a transformação dos corpos é de duas espécies. A

primeira considera o corpo como um conjunto ou conjugação de naturezas

simples. Veja-se, no ouro estão reunidas as seguintes características: ser

amarelo, ter um determinado peso, ser maleável e dúctil até determinado limite,

não ser volátil ou perder a sua quantidade sob a ação do fogo, liquefazer-se com

determinada fluidez, separar-se e solver-se por determinados meios, e outras

naturezas semelhantes que se encontram no ouro. Desse modo, tal axioma

deduz a coisa das formas das naturezas simples. Quem conhecer as formas e os

modos de se introduzir o amarelo, o peso, a ductilidade, a fixidez, a fluidez, a

solução, etc., e suas graduações e modos, saberá como proceder para conjugar

em um único corpo essas qualidades, para conduzi-las à transformação em

ouro.21 Essa espécie de operação pertence à ação primária. Pois o método de se

produzir uma única natureza simples é o mesmo que o de muitas; apenas o

homem se sente mais limitado e tolhido nas suas operações, quando se trata de

várias, em vista da dificuldade de coordenar essas naturezas que não se unem

tão facilmente, como pelas trilhas ordinárias do mundo natural. Contudo, deve

ser lembrado que tal método de operar 22 que distingue as naturezas é constante,

eterno e universal, e abre amplas vias ao poder humano, e isso a um ponto tal

que, no estado atual das coisas, a mente humana pode sequer cogitar ou

representar.

A segunda espécie de axiomas (a que depende da descoberta do processo

latente)23 não procede das naturezas simples, mas dos corpos concretos, tal

como se encontram na natureza em seu curso ordinário. Por exemplo, se se trata

de investigar, a partir de sua origem, o modo e o processo de formação do ouro

ou de qualquer outro metal ou a pedra, a partir de seus primeiros mênstruos 24 ou

de seus rudimentos até o estado acabado de mineral; ou apreender o processo

pelo qual se gera a erva, a partir das primeiras concreções do suco na terra ou a

partir da semente até a planta formada, acompanhando toda a sucessão de

movimentos e todos os diversos e continuados esforços da natureza; igualmente,

investigar a geração dos animais, discernindo a partir do coito até o parto. E

proceder da mesma forma em relação aos demais corpos.

Mas, na verdade, essa investigação não se restringe à geração dos corpos, mas

se estende aos outros movimentos e operações da natureza. Assim, por exemplo,

se se trata de investigar a série completa e contínua da ação da nutrição, a partir

da ingestão inicial do alim ento até a sua perfeita assimilação; ou o movimento

involuntário dos animais, a partir da primeira impressão da imaginação e dos

continuados esforços do espírito 25 até as flexões e movimentos dos membros;

ou os distintos movimentos da língua, dos lábios e dos demais instrumentos até

a emissão de vozes articuladas, tudo isso, com efeito, também respeita às

naturezas concretas ou coligadas e conjugadas. Estas podem ser consideradas

como modos de ser habituais, particulares e especiais da natureza e não como

leis fundamentais e comuns que constituem as formas. Não obstante, deve-se

reconhecer que este segundo procedimento é mais expedito, mais disponível e

oferece mais esperanças que o primeiro.

E da mesma forma, a parte operativa, que corresponde a esta especulativa,

estende e promove a operação, a partir do que ordinaria mente se descobre na

natureza, indo para as mais próximas, até as que se não distanciam muito destas.

Mas as operações mais profundas e mais radicais na natureza dependem sempre

dos primeiros axiomas. Em vista disso, onde não é dada ao homem a faculdade

de operar, mas apenas de saber, como em relação às coisas celestes — pois não

é possível ao homem agir sobre as coisas celestes, para mudá-las ou transformálas

—, a investigação do próprio fato ou da verdade da coisa, bem como o

conhecimento das causas e dos consensos, refere-se tão somente àqueles

axiomas primários e universais,26 relativos às naturezas simples (como os

relacionados à natureza da rotação espontânea, da atração ou virtude magnética

e de muitas outras coisas, ainda mais comuns que os próprios corpos celestes).

E que ninguém espere resolver a questão de que se o movimento diurno é da

terra ou do céu antes de haver compreendido a natureza da rotação espontânea.

VI

O processo latente de que falamos está longe daquilo que pode ocorrer à mente

dos homens, com as preocupações a que ora se entregam. Não o entendemos, de

fato, como medidas, ou signos ou escalas dos processos visíveis dos corpos,

mas como um processo continuado, que na maior parte escapa aos sentidos.

Por exemplo, em toda geração ou transformação de corpos, e necessário

investigar o que se perde e volatiliza; o que permanece ou se acrescenta; o que

se dilata e o que se contrai; o que se une e o que se separa; o que continua e o

que se divide; o que impele e o que retarda; o que domina e o que sucumbe; e

muitas outras coisas.

E essa investigação não se deve limitar à geração e às transformações dos

corpos, mas deve estender-se, igualmente, ao que antecede e ao que sucede; ao

que é mais veloz e ao que é mais lento; ao que produz e ao que regula o

movimento; e assim por diante. Todas essas coisas são desconhecidas e

deixadas intactas pelas ciências, de textura grosseira e inábil, 27 como as que se

professam. De vez que toda ação natural se cumpre em mínimos graus,28 ou pelo

menos em proporções que não chegam a ferir os sentidos, ninguém poderá

governar ou transformar a natureza antes de havê-lo devidamente notado e

compreendido.

VII

A investigação e a descoberta do esquematismo latente 29 é igualmente coisa

nova, à semelhança da descoberta do processo latente e da forma. Ainda nos

encontramos nos átrios da natureza e não estamos preparados para adentrar-lhe

os íntimos recessos. E nenhum corpo pode ser dotado de uma nova natureza, ou

ser transformado, com acerto e sucesso, em outro corpo, sem um completo

conhecimento do corpo que se quer alterar ou transformar. Sem o que, acabarão

sendo usados procedimentos vãos, ou pelo menos difíceis e penosos e

impróprios para a natureza do corpo em que se opera. Daí ser necessária a nova

via, adequadamente provida.

Na anatomia dos corpos orgânicos (como os do homem e dos animais) foram

adotados procedimentos bastante acertados e fecundos; trata-se de tarefa

delicada e que efetua um ótimo escrutínio da natureza. Mas esse gênero de

anatomia dependendo do visível e dos sentidos, em geral, só vige para os corpos

orgânicos. E isso é, aliás, algo óbvio e pronto, em comparação com a verdadeira

anatomia do esquematismo latente dos corpos tidos por similares, especialmente

das coisas específicas e de suas partes, como o ferro e a pedra, nas partes

similares da planta e do animal, como a raiz, a folha, a flor, a carne, o sangue, o

osso, etc. E é de se notar que mesmo nesse gênero não se interrompeu a

indústria humana. Assim o indica a separação dos corpos similares pela

destilação, bem como outros modos de separação, que procuram fazer aparecer

a dessemelhança interna, congregando as partes homogêneas, e isso que é usual

atende também ao que buscamos; conquanto seja algo falaz, uma vez que

muitas naturezas são imputadas e atribuídas à separação, como se antes

existissem no composto, na verdade foram estabelecidas e superinduzidas

recentemente 30 pelo fogo, e pelo calor e por outros métodos de separação. Mas,

ademais, esta é uma pequena parte do trabalho de descoberta do verdadeiro

esquematismo do composto, uma vez que o esquematismo é algo tão sutil e

preciso que a ação do fogo mais confunde que elucida.

Em vista disso, a separação e solução dos corpos não devem ser feitas pelo

fogo, mas pela razão e pela verdadeira indução, com auxílio de experimentos; e

por meio da comparação com outros corpos e pela redução a naturezas simples

e a suas formas que se juntam e combinam no composto.31 Enfim, deve-se

deixar Vulcano por Minerva, se se almeja trazer à luz as verdadeiras contexturas

dos corpos e os seus esquematismos, de que dependem todas as propriedades

ocultas e, como se costumam chamar, propriedades e virtudes específicas das

coisas e donde, também, se retiram as normas capazes de conduzir a qualquer

alteração ou transformação.

Por exemplo, é de se investigar o que em todo corpo corresponde ao espírito 32 e

o que corresponde à essência tangível; e se esse mesmo espírito é copioso e

túrgido ou jejuno e parco; se é tênue ou espesso; se mais próximo do ar ou do

fogo; se é ativo ou apático; se é delgado ou robusto; se em progresso ou em

regresso; se é partido ou continuo; se concorde com as coisas exteriores e com o

ambiente ou em desacordo, etc . O mesmo deve ser feito em relação à essência

tangível (que não é menos passível de diferenciações que o espírito), e seus

pêlos, fibras e sua múltipla contextura, bem como a colocação do espírito na

substância do corpo e seus poros, condutos, veias e células, e os rudimentos ou

tentativas de corpo orgânico. Tudo isso faz parte da mesma investigação. Mas

mesmo aqui, como em toda investigação do esquematismo latente, a luz

verdadeira e clara, que desfaz toda obscuridade e sutileza, só pode provir dos

axiomas primários.

VIII

E nem por isso se deve recorrer aos átomos que pressupõem o vazio e matéria

estável 34 (ambos falsos), mas às partículas verda deiras,35 tal como se encontram.

Tal sutileza, tampouco, é de causar espanto, como se fosse inexplicável. Ao

contrário, quanto mais a investigação se dirige às naturezas simples tanto mais

se aplainam e se tornam perspicazes as coisas, passando o objeto do multíplice

ao simples, do incomensurável ao comensurável, do insensível ao calculável, do

infinito e vago ao definido e certo, como ocorre com as letras do alfabeto e com

as notas da música. Todavia, a investigação natural se orienta da melhor forma

quando a física é rematada com auxílio da matemática.36 E então, que ninguém

se espante com as multiplicações e com os fracionamentos, pois, quando se trata

com números, tanto faz colocar ou pensar em mil ou em um, ou na milésima

parte ou no inteiro.

IX

Das duas espécies de axiomas 37 antes estabelecidas 38 origina-se a verdadeira

divisão da filosofia e das ciências, devendo-se, bem entendido, ajustar

vocábulos comumente aceitos (os mais apropriados para indicar o que

pretendemos) ao sentido que lhes emprestamos.

Assim, a investigação das formas que são (pelo seu princípio e lei) 39 eternas e

imóveis constitui a Metafísica.40 A investigação da causa eficiente, da matéria,

do processo latente e do esquematismo latente (que dizem respeito ao curso

comum e ordinário da natureza, não a leis fundamentais e eternas) constitui a

Física. E a elas subordinam-se duas divisões práticas: à Física, a Mecânica; à

Metafísica, a Magia (depois de purificado o nome), em vista das amplas vias

que abrem e do maior domínio sobre a natureza que propiciam.

X

Uma vez estabelecido o escopo da ciência, passamos aos preceitos e na ordem

menos sin uosa e obscura possível. E as indicações acerca da interpretação da

natureza compreendem duas partes gerais: a primeira, que consiste em

estabelecer e fazer surgir os axiomas da experiência; a segunda, em deduzir e

derivar experimentos novos dos axiomas.41 A primeira parte divide-se em três

administrações,42 a saber, administração dos sentidos, administração da

memória e administração da mente ou da razão.43

Em primeiro lugar, com efeito, deve-se preparar uma História Natural e

Experimental que seja suficie nte e correta (exata), pois é o fundamento de tudo

o mais. E não se deve inventar ou imaginar o que a natureza faz ou produz, mas

descobri-lo.

Mas na verdade, a história natural e experimental é tão vária e ampla que

confunde e dispersa o intelecto, se não for estatuída e orga nizada segundo uma

ordem adequada. Por isso devem ser preparadas as tábuas e coordenações de

instâncias,44 dispostas de tal modo que o intelecto com elas possa operar.

Mas, mesmo assim procedendo, o intelecto abandonado a si mesmo e a o seu

movimento espontâneo é incompetente e inábil para a construção dos axiomas,

se não for orientado e amparado. Daí, em terceiro lugar, deve ser adotada a

verdadeira e legítima indução, que é a própria chave da interpretação. Contudo,

devemos começar pelo fim e depois retroceder em direção ao resto.45

XI

A investigação das formas assim procede: sobre uma natureza dada deve-se em

primeiro lugar fazer uma citação perante o intelecto 46 de todas as instâncias

conhecidas que concordam com uma mesma natureza, mesmo que se encontrem

em matérias dessemelhantes.47 E essa coleção deve ser feita historicamente,48

sem especulações prematuras ou qualquer requinte demasiado. Como exemplo,

imagine-se uma investigação sobre a forma do calor:49

Instâncias conformes (convenientes) na natureza do calor 50

1. Os raios do sol, sobretudo no verão e ao meio-dia.

2. Os raios do sol refletidos e condensados, como entre montes ou por

muros e sobretudo sobre espelhos.

3. Meteoros ígneos.

4. Raios flamejantes.

5. Erupções de chamas das crateras dos montes, etc.

6. Chamas de todas as espécies.

7. Sólidos em combustão.

8. Banhos quentes naturais.

9. Líquidos ferventes ou aquecidos.

10. Vapores e fumaças quentes, e o próprio ar que adquire um calor

fortíssimo e violento, quando fechado, como nas fornalhas.

11. Certos períodos de seca causados pela própria constituição do ar, fora de

estação.

12. O ar fechado e encerrado em certas cavernas, sobretudo no inverno.

13. Todos os corpos cobertos por pêlos, como a lã, os pêlos dos animais, a

plumagem, têm sempre alguma tepidez.

14. Todos os corpos sólidos, líquidos, densos ou rarefeitos (como o próprio

ar) aproximados por algum tempo do fogo.

15. As faíscas produzidas por fortes impactos da pedra ou do aço.

16. Todo corpo que tenha um forte atrito, como a pedra, a madeira, o pano,

etc; como os lemes ou os eixos das rodas que às vezes provocam chamas, ou

como costumam fazer fogo os índios ocidentais, por atrito.

17. As ervas verdes e úmidas, juntadas e amassadas, como as rosas,

comprimidas nos cestos; como o feno que, guardado úmido, às vezes produz

fogo.

18. O ferro pode começar a dissolver com água forte (ácido) em recipiente de

vidro sem uso do fogo; e mesmo o estanho sob as mesmas condições, mas

menos intensamente.

19. A cal viva, aspergida com água.

20. Os animais, especialmente nas partes internas, ainda que o calor dos

insetos, pela sua pequenez, não seja percebido pelo tato.

21. O esterco do cavalo e semelhantes excrementos recentes de animais.

22. O óleo forte do enxofre e do vitríolo produzem o efeito do calor,

queimando linho.

23. O óleo de orégão, e outros semelhantes, produz os efeitos do calor,

queimando a parte óssea dos dentes.

24. O espírito do vinho forte e bem retificado produz os efeitos do calor, e

isso a tal ponto que, se lh e jogar uma clara de ovo, esta endurece e se torna

branca, quase como que ocorre com o ovo cozido, e também o fato, que fica

ressecado e com crosta, como quando é tostado.

25. Os aromas e as ervas quentes como o estragão, o mastruz velho, etc.,

ainda que na mão não pareçam quentes, nem inteiros ou em pó, mas quando

mastigados são quentes e parecem queimar à lín gua e ao paladar.

26. O vinagre forte e todos os ácidos, aplicados a partes sem pele, como o

olho, a língua, ou sobre uma parte ferida, produzem uma dor não muito

diferente da produzida pelo calor.

27. Mesmo o frio quando agudo e intenso produz sensação de queimadura.51

28. Outras instâncias.

A esta chamamos de Tábua de essência e de presença.

XII

Em segundo lugar, deve-se fazer uma citação perante o intelecto, das instâncias

privadas da natureza dada, uma vez que a forma, como já foi dito, deve estar

ausente quando está ausente a natureza, bem como estar presente quando a

natureza está presente.52

Contudo, se se fosse examinar todas as instâncias, a investigação iria ao infinito.

Por isso, é necessário que se limite o recolhimento das instâncias negativas em

correspondência com as positivas e considerem-se as privações apenas naqueles

objetos muito semelhantes a aqueles em que elas estão presentes e são

manifestas.53 E a esta resolvemos chamar de Tábua de desvio (ou declinação)

ou de ausência em fenômenos próximos.54

Instâncias em fenômenos próximos, privados da natureza do calor.55

Primeira instância negativa oposta à primeira instância afirmativa.

1. Os raios da lua, das estrelas e dos cometas não trazem calor ao tato, mas,

ao contrário, é no plenilúnio que se observam os frios mais rigorosos. Todavia,

acredita -se que quando há conjunção entre o sol e as estrelas fixas maiores, ou

quando delas está próximo, há aumento do calor solar; é o que ocorre quando o

sol está no signo de Leão e nos dias de canícula.56

2. (Oposta à segunda afirmativa.) Os raios solares na chamada região

intermediária não produzem calor; para o que o vulgo dá uma razão não de todo

má: esta região não está nem próxima do sol, donde vêm os raios, nem da terra,

que os reflete. É o que se observa nos picos das montanhas (a não ser quando

muito altos), onde se encontram neves eternas. Por outro lado, observou-se que

no pico de Tenerife, bem como nas cumieiras dos Andes do Peru, os cumes não

apresentam neve, que se fixa nas partes mais baixas. Fala -se ainda que no

vértice desses montes o ar não é frio, mas rarefeito e penetrante, e isso a tal

ponto que, nos Andes, magoa e ofende os olhos, pela sua intensidade, e irrita a

boca do estômago e provoca vômitos. Foi nota do pelos antigos que no vértice

do Olimpo era tal a tenuidade do ar que obrigava aos que o escalavam a levarem

esponjas embebidas em água e vinagre, para aplicação na boca e no nariz, por

não ser o ar suficiente à respiração.57 Relatam, ainda, aqueles que era tal a

serenidade e tranqüilidade do ar e ausência de chuvas, neves e ventos,58 que as

letras escritas com o dedo nas cinzas, sobre o altar de Júpiter, pelos fautores de

sacrifícios, duravam todo um ano, sem se alterarem. E ainda hoje os que sobem

aos cimos do pico de Tenerife caminham à noite e não à luz do dia; e ao surgir

do sol os guias os apressam a descer rapidamente, ante o perigo (segundo

parece) de que a rarefação sufoque e dissolva o espírito.

3. (Oposta à segunda afirmativa.) A reflexão dos raios do sol nas regiões

próximas dos círculos polares é muito fraca e ineficaz em calor, e os belgas que

invernaram na Nova Zembla 59 esperando a liberação e o desencalhe de sua

nave dos gelos (que a aprisionavam), no início do mês de julho, viram

frustradas as suas esperanças e tiveram que recorrer a botes. Assim os raios do

sol diretos parecem de pouco poder, mesmo sobre terreno plano; nem também

os seus reflexos, a não ser quando são multiplicados e reunidos, o que ocorre

quando o sol bate perpendicularmente, pois, em tal caso, os ângulos formados

pelos raios incidentes são mais agudos, e assim as linhas dos raios ficam mais

próximas entre si. E de outro lado, nas posições muito oblíquas do sol, os

ângulos são muito obtusos e por isso as linhas dos raios estão mais distantes

entre si. Mas deve ser notado que muitas podem ser as operações dos raios do

sol, com respeito ao problema da natureza do calor, que não estão ao alcance do

nosso tato, e, mesmo assim, afetam outros corpos.

4. Faça-se o seguinte experimento:60 Tome-se uma lente,61 feita de forma

contrária aos espelhos e seja ela colocada entre as mãos e os raios do sol.

Observe-se que nessa posição o calor do sol é diminuíd o, da mesma forma que

o espelho o aumenta e intensifica. Pois é manifesto que os raios ópticos, em um

espelho que apresenta diferença de espessura entre o centro e as partes laterais,

oferecem imagens 62 mais difusas ou concentradas. O mesmo deve ocorrer em

relação ao calor.

5. Faça-se cuidadosamente o experimento de se os raios da lua, passando

por espelhos ustórios bastante fortes e bem constituídos, podem produzir algum

grande calor, mesmo que diminuto. Mas como essa grande tepidez é de tal

forma sutil e fraca a ponto de não ser percebida pelo tato, seria necessário

recorrer àqueles vidros que indicam o estado frio ou quente do ar, 63 de modo

que os raios da lua, caindo em um espelho ustório, fossem refletidos sobre a

superfície do vidro, para se verific ar a ocorrência do abaixamento do nível da

água, devido ao calor.

6. (À segunda instância.) Experimente-se colocar um vidro ustório sobre um

corpo quente que não seja nem radiante, nem luminoso, como o ferro ou a pedra

aquecidos, mas não em ignição, ou água fervente e coisas semelhantes, e

observe-se se ocorre um aumento ou intensificação do calor, como nos raios do

sol.64

7. (À segunda instância.) Experimente-se ainda colocar um espelho ustório

sobre a chama comum.

8. (Em oposição à terceira instância.) 65 Não se pode deixar de observar o

constante e manifesto efeito dos cometas (se se reconhece como estando

compreendidos entre os meteoros)66 no aumento do calor na época de sua

oposição, embora tenha sido notado que em seguida surge um período de seca.

Contudo, as traves 67 ou colunas luminosas e as aberturas do céu 68 e fenômenos

semelhantes parecem mais freqüentes no inverno que no verão e especialmente

em épocas de intensos frios, acompanhados de seca. Mas os raios, os

relâmpagos e os trovões dificilmente ocorrem no inverno, mas na época dos

grandes calores. As chamadas estrelas cadentes supõe-se vulgarmente

constituídas de uma matéria viscosa, resplandecente e acesa, em lugar de

qualquer outra matéria ígnea mais consistente. Mas isso deve ser verificado

posteriormente.

9. (Oposição à quarta instância.) Há certas coruscações que produzem luz,

mas não queimam. E ocorrem sempre sem (troar) trovão.

10. (Em oposição à quinta instância.) As ejeções e erupções de chamas

ocorrem tanto nas regiões frias como nas quentes, como na Islândia e

Groenlândia. Por outro lado, as árvores das regiões frias são mais inflamáveis,

mais resinosas e de mais pez que as das regiões cálidas, como é o caso do abeto,

pinho e outras. Mas não se investigou satisfatoriamente em que lugares e em

que natureza de solo costumam ocorrer essas erupções, para que possamos opor

a negativa à afirmativa.

11. (Em oposição à sexta instância.) Toda chama é sempre mais ou menos

quente, não havendo assim instância negativa a se lhe opor; mas fala -se que o

chamado fogo-fátuo que às vezes é observado nas paredes não tem muito calor,

assim também a chama do espírito do vinho que é clemente e suave. Mas ainda

mais suave parece ser a chama que, conforme certas histórias fidedignas e

sérias, apareceu em torno da cabeça de meninos e meninas e que, sem queimar,

apenas circulava à sua volta.69 De qualquer forma, é absolutamente certo que,

em volta do cavalo que sua, durante viagens noturnas e em épocas de seca,

aparece certa fulguração, sem calor manifesto. Há pouco tempo ficou famoso, e

quase tomado como milagre, o fato do peito de uma menina, depois de algum

movimento e fricção ter emitido faíscas. Isso talvez tenha acontecido devido ao

alúmen ou aos sais com que se tinha tingido a veste e que acabaram colados e

incrustados, formando assim uma espécie de copa, que se abriu. Também é

igualmente certo que todo açúcar, tanto o refinado quanto o natural, quando se

encontra endurecido e é quebrado ou raspado no escuro, produz fulgor.

Da mesma forma, a água marinha e salgada, à noite, fortemente esbatida pelos

remos, pode fulgurar. E também, durante as tempesta des, a espuma do mar,

fortemente agitada, produz fulgor (fachos) e a que os espanhóis costumam

chamar de pulmão marinho. Nem foi adequadamente investigada aquela chama

que os antigos navegantes chamavam por Castor e Pollux e os modernos

designam por fogo de Santelmo.70

12. (Em oposição à sétima instância.) Todo corpo (ígneo) incandescente que

tenha o rubor do fogo, mesmo sem chama, é em qualquer caso quente, e para tal

instância afirmativa não há correspondente negativa. Mas o que parece mais se

aproximar desse fato é o da madeira podre, que resplandece à noite e não parece

conter calor. As escamas dos peixes em putrefação também resplandecem à

noite e não apresentam calor ao tato. Da mesma forma, o corpo do vaga-lume

ou mosca chamada Lucíola não oferece calor ao tato.

13. (Em oposição à oitava instância.) Não foi adequadamente investigado o

lugar de origem e a natureza do solo donde emanam as águas termais e por isso

não se lhes contrapõe instância negativa.

14. (Em oposição à nona instância.) Aos líquidos ferventes contrapõe -se a

instância negativa da peculiar negativa dos líquidos em geral. Pois não se

encontra na natureza que seja em si mesmo quente e assim permaneça. Ao

contrário, o calor ocorre por tempo determinado, como natureza que lhe é

acrescentada. Assim é que os líquidos que no seu poder e nos seus efeitos são

muito quentes, como o espírito do vinho, os óleos químicos aromáticos, e ainda

os óleos do vitríolo e do enxofre e outros mais, que queimam após certo tempo,

são frios ao primeiro contato. E a água termal, colocada em um recipiente e

longe de sua origem, perde a efervescência, como a água levada ao fogo. De

outro lado, é verdade que os corpos oleosos parecem ao tato menos frios que os

aquosos; da mesma forma o óleo menos que a água, a seda menos que o linho.

Mas isso de fato pertence à Tábua de Graus do Frio.

15. (Em oposição à décima instância.) De idêntica maneira, ao vapor quente

opõe-se a instância negativa derivada da própria natureza do vapor, tal como é

comumente encontrado. As exalações dos corpos oleaginosos, mesmo sendo

facilmente inflamáveis, não são quentes, quando não são exalações recentes de

um corpo quente.

16. (Em oposição à décima primeira instância.) De idêntica maneira, ao ar

quente se opõe a instância negativa derivada da própria natureza do ar. Não

encontramos entre nós ar quente, a não ser quando encerrado, submetido à

fricção ou aquecido pelo sol, pelo fogo ou por qualquer outro corpo quente.

17. (Em oposição à décima primeira instância.) A instância negativa das

estações frias é oposta mais devido aos outros períodos do ano, como acontece

quando sopram Euro ou Bóreas.71 O contrário acontece quando sopra o Austro

ou o Zéfiro.72 Mas uma tendência para a chuva, especialmente no inverno, vem

acompanhada de temperaturas tépidas, e o gelo, de temperaturas frias.

18. (Em oposição à décima segunda instância.) Contrapõe -se a instância

negativa do ar confinado nas cavernas no verão. E a respeito desse ar confinado

é necessária uma cuidadosa investigação. Em primeiro lugar, há dúvidas, não

sem motivo, a respeito da natureza do ar relacionado ao frio e ao calor. Pois o ar

manifestamente recebe o calor dos corpos celestes; o frio, ao contrário, talvez

por exala ção da terra, e na chamada região intermediária dos vapores das neves.

Dessa forma, não se pode estabelecer um juízo sobre a natu reza do ar através do

ar a céu descoberto e exposto, mas é possível um juízo mais seguro a r espeito

do ar confinado. Mas é necessário que o ar seja colocado em um recipiente de

material de tal ordem que não venha a impregná-lo de calor ou frio de sua

própria natureza e também que não receba influência do ar exterior. Faça-se,

pois, o experimento com um recipiente de argila, revestido várias vezes com

couro para protegê-lo do ar exterior e mantenha-se bem fechado por três ou

quatro dias. Uma vez aberto o recipiente, verificar-se-á a temperatura com a

mão e com o vidro graduado.73

19. (Em oposição à décima terceira instância.) Subsiste igualmente a dúvida a

respeito da tepidez da lã das peles, das plumas e coisas semelhantes; se é

resultante de algum débil calor que lhe é imanente, devido à sua origem animal

ou da matéria graxa e oleaginosa que por sua própria natureza é afim ao calor

ou simplesmente do ar fechado e separado, mencionado no parágrafo

anterior, O ar separado do ar externo parece guardar algum calor. Para tanto,

faça-se experimentar com material fibroso de linho, em vez da lã ou pluma ou

seda que são de origem animal. Deve ainda ser observado que todos os pós

(manifestamente misturados ao ar) são menos frios que os corpos íntegros de

que provêm. Pelo mesmo motivo, acreditamos que toda espuma (como tudo que

contém ar) seja menos f ria que o liquido que lhe deu origem.

20. (Em oposição à décima quarta instância.) Não há instância negativa a se

lhe opor. Com efeito, não se encontra entre nós nenhuma coisa tangível ou

gasosa que aproximada do fogo não adquira calor. Contudo, mesmo aí, é

necessário distinguir -se entre coisas que adquirem calor mais rapidamente,

como o ar, o azeite e a água, e outras mais lentamente, como a pedra e os

metais. Mas esses fatos pertencem à Tábua de Grau.

21. (Em oposição à décima quinta instância.) A esta instância não se opõe

qualquer outra negativa, exceção feita da observação de que não se conseguem

cintilações (ou fagulhas) do sílex ou do aço ou de outra substância dura, a não

ser com a fragmentação de pequenas partículas dessa substância, seja pedra ou

metal. Também o ar não pode produzir cintilações pelo simples atrito, como

julga o vulgo. Dessa forma, essas cintilações, devido ao peso do corpo em

ignição, tendem mais para baixo que para cima, e, depois de extintas, resultam

numa espécie de grãos de f uligem.

22. (Em oposição à décima sexta instância.) Pensamos não haver negativa a

ser oposta a essa instância. Não há entre nós corpo tangível (ou palpável) que

manifestamente não se aqueça pelo atrito. Tanto que os antigos imaginaram que

os corpos celestes não tinham outro caminho ou possibilidade de aquecimento

que o atrito do ar provocado pela sua rápida rotação.74 Neste assunto deve ainda

ser investigado se os corpos arruinados por máquinas, como as balas dos

canhões, pela própria percussão contraem algum grau de calor, que depois de

caídas ainda conservam, O ar agitado antes se resfria que aquece, como se

observa nos ventos, com o fole e com o sopro forte da boca. Mas tais

movimentos não são suficientemente rápidos a ponto de provocarem calor e

trata-se de movimentos do todo e não partículas, daí não ser de estranhar por

não haver ocorrência de calor.

23. (Em oposição à décima sétima instância.) A respeito desta instância, é

necessária uma investigação mais acurada. Com efeito, tudo indica que as ervas

e os vegetais verdes e úmidos encerram uma espécie de calor oculto. Mas é algo

tão tênue que em nenhuma planta isolada é perceptível ao tato, mas só depois de

reunidas e fechadas, e de tal forma que as suas exalações não se comuniquem

com o ar exterior, mas se misturem entre si, é que surge um calor perceptível e

às vezes flamas, se a matéria a tanto se presta.

24. (Em oposição à décima oitava instância.) Também a respeito desta

instância é necessária uma investigação mais acurada. De fato, parece que a cal

viva, quando aspergida de água, produz calor, ou pela concentração do calor

que antes estava disperso (tal como se diz ocorrer com as ervas abafadas) ou

pela irritação ou exasperação do espírito do fogo, em contato com a água, que

provoca uma espécie de conflito e antiperístase.75 Para se saber qual das duas é

a verdadeira causa, basta colocar-se óleo no lugar da água. O óleo vale tanto

quanto a água para concentrar o espírito encerrado, mas não para irritá-lo. E o

experimento deve ser ampliado às cinzas e aos resíduos de diversos corpos e

fazendo-se uso de vários líquidos.

25. (Em oposição à décima nona instância.) A esta instância se opõe a

negativa de alguns metais que são mais moles e instáveis. Assim, as lâminas de

ouro dissolvidas pela água-régia 76 não provocam qualquer calor ao tato quando

dessa operação, o mesmo se dando com o chumbo quando dissolvido em águaforte

77 e, pelo que recordamos, também com o mercúrio. Mas a prata provoca

algum calor e também o cobre, pelo que me lembro, e ainda de forma mais

manifesta o estanho, e os que vão mais longe são o ferro e o aço, que não só

produzem um forte calor ao se dissolverem como também uma violenta

ebulição. Dessa forma, tudo parece indicar que o calor se produz pelo conflito,

graças ao qual a água forte penetra, funde e desprende as suas partículas,

enquanto o corpo, por seu turno, resiste. Mas, quando os corpos cedem com

facilidade, a custo se produz o calor.

26. (Em oposição à vigésima instância.) Não se podem opor instâncias

negativas ao calor dos animais e nem tampouco ao dos insetos em vista das

reduzidas dimensões de seus corpos, como antes já foi dito.78 Com efeito, os

peixes, comparados com animais terrestres, apresentam algum grau de calor, em

lugar de sua absoluta ausência. Nos vegetais e nas plantas não se observa

qualquer grau de calor perceptível ao tato, o mesmo acontecendo em relação às

suas resinas e à sua medula recentemente aberta. Todavia, nos animais observa -

se uma grande variedade de calor, tanto em suas partes (de fato, não é o mesmo

o calor do coração, o do cérebro e o das partes externas do corpo) quanto em

seus estados acidentais, como nos exercícios veementes ou nas febres.

27. (Em oposição à vigésima primeira instância.) A esta instân cia é

muito difícil opor-se uma negativa. Pois mesmo os excrementos animais não

recentes têm manifestamente um calor potencial, como pode ser verificado pelo

untamento do solo.

28. (Em oposição à vigésima segunda e vigésima terceira instân cias.) Os

líquidos (chamem-se águas ou óleos) que têm grande e intensa acidez operam

com o calor na fragmentação dos corpos e queimam-nos depois de algum

tempo. Mas em princípio não são quentes quando em contato com a mão. Agem

por analogia 79 e segundo a porosidade dos corpos com os quais se unem. De

fato, a água-régia dissolve o ouro, mas não a prata; por outro lado, a água-forte

dissolve a prata, mas não o ouro. E nem um nem outro dissolve o vidro. O

mesmo acontecendo com os demais.

29. (Em oposição à vigésima quarta instância.) Faça -se experimento com o

espírito do vinho sobre madeira, ou sobre manteiga, cera ou peixe, para verificar

se o seu calor os liquefaz e até que ponto. De fato, a instância vinte e nove

mostra que este espírito tem um poder análogo ao do calor, em relação às

incrustações. Por isso deve ser feito o mesmo experimento para a liquefação.

Proceda-se também com o vidro graduado,80 côncavo na extremidade superior

externa. Coloque-se nessa cavidade exterior o espírito do vinho bem retificado e

tampe-se para que melhor retenha o calor e observe-se se o seu calor faz descer

o nível da água.81

30. (Em oposição à vigésima quinta instância.) As ervas aromáticas e as ervas

ácidas são cálidas ao paladar e isso é mais sentido nas partes internas do

organismo. Por isso é necessário que se verifique em quais outras matérias

igualmente provocam calor. Contam os navegantes que quando se abrem

subitamente montes ou maços de ervas aromáticas, guardados durante muito

tempo, os primeiros que as movem ou pegam correm perigo de febres ou de

inflamações.82 Igualmente poder-se-ia fazer experimento com o pó dessas ervas

para verificar se seca o toucinho e a carne, como a fumaça do fogo.

31. (Em oposição à vigésima sexta instância.) A acidez ou força penetrante

também pode ser encontrada seja em corpos frios, como o vinagre e o óleo de

vitríolo, seja em corpos quentes como o óleo de orégão e outros semelhantes.

Tanto uns como outros provocam dor nos animais e nos corpos inanimados,

fundem e consomem suas partes. A isso não se opõe instância negativa, pois nos

corpos animados não ocorre dor sem alguma dose de calor.

32. (Em oposição à vigésima sétima instância.) O frio e o calor têm muitas

ações em comum, ainda que em formas e proporções diferentes. Com efeito,

mesmo a neve parece queimar, depois de algum tempo, as mãos das crianças e o

frio preserva as carnes da putrefação 83 tanto quanto do fogo. E, tanto quanto o

frio, o calor contrai os corpos. Mas na verdade é mais oportuno tratar deste

assunto e de outros semelhantes quando da investigação do frio.84

XIII

Em terceiro lugar, é necessário fazer-se citações perante o intelecto 85 das

instâncias cuja natureza, quando investigada, está presente em mais ou em

menos, seja depois de ter feito comparação do aumento e da diminuição em um

mesmo objeto, seja depois de ter feito comparação em objetos diversos. Pois

sendo a forma de uma coisa a coisa em si mesma 86 e posto que a coisa difere da

forma tanto quanto difere a aparência da existência, o exterior do interior e o

relativo ao homem do relativo ao universo,87 segue-se necessariamente que se

não pode tomar uma natureza pela verdadeira forma, a não ser que sempre

decresça quando decresce a referida natureza e, igualmente, sempre aumente

quando aumenta a natureza. A esta tábua denominamos Tábua de Graus ou de

Comparação.

Tábua de Graus ou de Comparação do Calor

Em primeiro lugar, trataremos dos corpos que não apresentam qualquer calor ao

tato, mas que parecem possuir um calor potencial ou uma disposição ou

preparação para o calor. A seguir, consideraremos os corpos que são quentes em

ato, ou seja, ao tato, sua intensidade e seus graus.

1. Não há entre os palpáveis e sólidos nenhum corpo que seja naturalmente

quente. Não há uma única pedra, um único metal, nem enxofre, nem fóssil, nem

madeira, nem água, nem cadáver dos animais, que se apresentem com calor. As

águas quentes dos balneários parecem aquecer-se por acidente, ou por alguma

chama ou fogo subterrâneo, como os que vomitam o Etna e muitas outras

montanhas, ou por conflito de corpos, como ocorre com o calor produzido na

dissolução do ferro e do estanho. Dessa forma, não há qualquer espécie de calor

nos corpos inanimados perceptível ao tato do homem, e esses corpos se

diferenciam entre si pelos graus (de frio) de frigidez. Com efeito, não são iguais

o frio da madeira e o do metal. Mas esse assunto pertence à Tábua de Graus do

Frio.

2. Todavia, encontram-se muitos corpos inanimados com calor potencial e

com predisposição à chama, como é o caso do enxofre, da nafta e do petróleo. 88

3. O que antes estava quente, como o esterco eqüino, ou a cal, ou talvez as

cinzas, ou a fuligem provocados pelo fogo, conserva latentes resíduos do calor

anterior. Por isso se fazem certas destila ções e separações de corpos,

enterrando-os em esterco eqüino, e o calor da cal pode ser provocado com a

aspersão de água.89

4. Entre os vegetais não há qualquer planta ou parte (como resinas ou

medula) que se mostre quente ao tato humano. Mas, como foi antes dito,90 as

ervas verdes quando abafadas se aquecem, e parecem quentes ao tato interno,

isto é, ao paladar e ao estômago e mesmo a partes externas, depois de algum

tempo, como ocorre com emplastros e ungüentos vegetais que podem parecer

quentes ou frios.

5. Não há qualquer calor nas partes separadas dos animais mortos

perceptível pelo tato humano. Nem mesmo o esterco eqüino, se não for coberto

e abafado, conserva o calor. Contudo, todo esterco parece possuir

potencialmente calor, como se observa nas marcas que ficam pelos campos. E,

igualmente, os cadáveres dos animais parecem possuir também um calor latente

e potencial, e isso a tal ponto que nos cemitérios em que todos os dias se fazem

sepultamentos a terra conserva um calor oculto, que consome os cadáveres

recentes muito mais rapidamente que na terra comum. Segundo se diz, os

orientais usam um certo tipo de tecido tênue e suave, feito de plumas de aves,

que por qualidades próprias dissolve e derrete a manteiga. quando por ele

levemente envolvida.

6. Tudo o que aduba os campos, como todos os tipos de esterco, a greda, a

areia do mar, o sal e coisas semelhantes, possui alguma disposição ao calor.

7. Todo processo de putrefação possui traços de um tênue calor. ainda que

não alcance ser percebido pelo tato. Nem mesmo aquelas coisas, que na

putrefação se transformam em animálculos,91 como a carne e o queijo, chegam a

ser perceptíveis ao tato. Nem tampouco a madeira podre, que brilha à noite,

parece quente ao tato. Mas, às vezes, o calor das coisas em putrefação se faz

sentir por meio de odores fortes e repugnantes.

8. Assim, o primeiro grau de calor, entre as coisas perceptíveis ao tato

humano, parece ser o calor animal, que por sua vez se desdobra em muitos

graus. No seu grau mais baixo, como no caso dos insetos, é muito mal

percebido pelo tato, O seu grau mais alto é atingido pelo calo r solar, nas zonas e

nos climas tropicais, mas não chega a ser tão forte a ponto de não ser tolerado

pela mão. Contudo, conta-se que Constâncio 92 e alguns outros tinham certo tipo

de temperamento e hábitos físicos de tal modo secos que, atacados por febre

agudíssima, ficaram quentes a ponto de parecerem queimar as mãos de quem

deles se aproximasse.

9. Os animais aumentam o próprio calor pelo movimento e pelos exercícios

físicos, pelo vinho, pelos banquetes, pelo sexo, pelas febres ardentes e pela dor.

10. Os animais, durante os acessos de febres intermitentes, inicialmente são

acometidos de frio e tremores, mas depois adquirem um calor muito intenso. E

o mesmo acontece no início das febres ardentes e nas febres pestilentas.

11. Façam-se ulteriores investiga ções sobre o calor em animais diversos,

como peixes, quadrúpedes, serpentes, aves e também em suas diversas espécies,

como o leão, o abutre, o homem. Pois, conforme a opinião vulgar, a parte

interna dos peixes é pouco quente, as aves são mais quentes, especialmente as

pombas, os falcões e as avestruzes.

12. Façam-se ainda investigações ulteriores acerca dos diversos graus de

calor nas partes e nos membros do mesmo animal. Com efeito, o leite, o sangue,

o esperma, os ovos, são moderadamente quentes e menos quentes que as partes

externas de um animal em agitação e movimento. Ainda não foi feita uma

investigação do mesmo teor para se saber o grau de calor do cérebro e do

estômago, do coração, etc.

13. Todos os animais, no inverno e nas épocas frias, são frios nas partes

externas, mas nas partes internas crê-se encerrarem mais calor.

14. O calor dos corpos celestes, mesmo na região mais quente e durante a

estação e o dia mais quente, não atinge nunca um grau tal que chegue a

incendiar e queimar a madeira bem seca ou a palha ou um pedaço de trapo, a

não ser que seja auxiliado por espelhos ustórios. Mas pode sempre provocar

vapores das coisas úmidas.

15. Segundo a tradição dos astrônomos, algumas estrelas são mais quentes

que outras. Dentre os planetas, depois do sol, Marte é o mais quente, depois

vem Júpiter e depois Vênus. Estabelecem-se como os mais frios primeiro a Lua

e, mais que todos, Saturno. Entre as estrelas fixas estabelece-se como a mais

quente Sírio, vindo depois Coração de Leão, e a seguir Canícula,93 etc.

16. O sol mais aquece quanto mais se inclina na perpendicular ou no zênite; o

que também é de se crer verdadeiro para os demais planetas, em relação ao seu

próprio calor. Júpiter, por exemplo, aquece mais quando se encontra sob Câncer

ou Leão que quando sob Capricórnio ou Aquário.

17. Tudo leva a crer que o sol e os outros planetas aquecem mais quando

atingem o seu perigeu, pela maior proximidade da Terra, que quando do seu

apogeu.94 E se acontecer que, em alguma região, o sol esteja ao mesmo tempo

no perigeu e mais próximo à perpendicular, necessariamente será aí mais quente

que na região em que o sol também esteja em seu perigeu, mas em posição

oblíqua. Por isso deve ser notada a situação relativa de altitude dos planetas, nas

diversas regiões, em relação à sua posição vertical ou obliqua.

18. Supõe-se ainda que o sol, como os outros planetas, aqueça mais quando

se aproxima das estrelas fixas maiores. Assim, quando o sol se encontra em

Leão, mais próximo ao Coração de Leão, à Cauda de Leão, à Espiga da Virgem,

a Sírio, à Canícula, aquece mais que quando se encontra em Câncer, onde,

contudo, está mais na posição perpendicular. E é para se crer que as partes do

céu infundem um calor tanto maior (ainda que não perceptível ao tato) quanto

mais são ornadas de estrelas e especialmente das estrelas maiores.

19. Em suma, o calor dos corpos celestes pode ser aumentado em vista de três

fatores, ou seja, pela posição perpendicular, pela proximidade ao perigeu e pela

conjunção ou combinação das estrelas.

20. Em verdade, há uma grande diferença entre o calor dos animais e dos

raios dos corpos celestes, tal como chegam a nós, e o da mais tênue chama, e

mais ainda o dos corpos incandescentes, o dos líquidos e do próprio ar comum

aquecido pelo fogo. De fato, a chama do espírito do vinho, ainda que rarefeita e

difusa, pode incendiar a palha, um pano ou o papel. E tal nunca ocorre com o

calor animal ou solar, sem o emprego de espelhos ustórios.

21. Contudo, as chamas e as coisas incandescentes têm calor e múltiplos

graus, tanto em intensidade quanto em tenuidade. Mas sobre o fato ainda não foi

feita uma indagação diligente e, por isso, só é possível tratá-los de passagem.

Entre as várias espécies de chamas, a do espírito do vinho parece ser a mais

débil, a não ser que as chamas ou a luminescência produzidas pelo suor animal

sejam ainda mais débeis. A seguir, segundo nos parece, seria a chama dos

vegetais leves e porosos, como a palha, o junco e as folhas secas, cujas chamas

não estão muito longe das produzidas por pêlos ou penas. A estas seguem-se as

chamas das madeiras que não possuem resinas ou pez. Deve ser observado,

porém, que a chama proveniente de madeiras delgadas, que comumente são

juntadas em feixes, é mais fraca que a produzida por troncos de árvores e por

raízes. E isso pode ser facilmente experimentado nos fornos que fundem ferro,

onde o fogo produzido por feixes e ramos de árvores não tem utilidade. A

seguir, assim pensamos, vem a chama produzida por óleo, sebo, cera e por

outras substâncias oleosas e graxas, que não possuem muita força. Contudo, o

calor mais forte é encontrado no pez e na resina; mais forte ainda no enxofre e

na cânfora, na nafta, no petróleo, bem como nos sais, uma vez eliminada a sua

matéria crua, e em seus compostos, como a pólvora, o fogo grego (conhecido

como fogo selvagem)95 e seus diferentes tipos, todos portadores de um calor

obstinado, que não se extingue facilmente com água.

22. Cremos também que a chama produzida por certos metais imperfeitos é

sobremaneira forte e aguda. Mas sobre tudo isso são necessárias investigações

ulteriores.

23. A chama dos raios 96 parece superar todas as demais em potência, a ponto

de chegar a fundir o ferro perfeito, reduzindo-o a gotas, o que os outros tipos de

chamas não conseguem fazer.

24. Há nos corpos incandescentes diversos graus de calor, que ainda não

foram diligentemente investigados, O calor mais fraco pensamos ser o do pano

queimado, usado comumente para acender o fogo e também o proveniente das

madeiras esponjosas e das cordas secas que servem de rastilho para disparar a

artilharia. A seguir vem o carvão vegetal ou mineral, ou ainda o dos tijolos

queimados e coisas semelhantes. Cremos que, de todos os corpos

incandescentes, os mais quentes são os metais, quando acesos, caso do ferro, do

cobre, etc. Também esse caso deve ser investigado ulteriormente.

25. Entre os corpos incandescentes, alguns há muito mais quentes que certas

chamas. De fato, é muito mais quente o ferro em brasa que a chama do espírito

do vinho.

26. Entre os corpos não incandescentes, mas aquecidos pelo fogo, como a

água fervente e o ar encerrado nos fomos, há alguns que superam em calor, e

em muito, corpos incandescentes e mesmo inflamados.

27. O movimento aumenta o calor, como se pode ver pelos foles e pelo sopro;

por isso os metais mais duros não se fundem ou derretem com fogo morto e

parado, sendo necessário excitá-lo com o maçarico.97

28. Faça-se com espelhos ustórios o experimento seguinte, conforme

recordamos:98 coloca-se o espelho à distância, por exemplo, de um palmo, de

um objeto combustível. Não queimará ou inflamará tanto o objeto quanto se se

colocar o espelho a uma distância de, por exemplo, meio palmo e deslocá-lo

gradual e lentamente até a distância inicial de um palmo. O cone de

convergência e o feixe dos raios são os mesmos e é o próprio movimento que

aumenta o efeito do calor.

29. Acredita-se que os incêndios, quando acompanhados de fortes ventos,

mais progridem contra que a favor do vento. Isso porque as chamas se movem

mais rapidamente quando o vento as rechaça que quando as impele.

30. A chama não brilha, nem se produz, a menos que alcance algo de côncavo

em que se possa movimentar e dançar; exceção feita das chamas detonantes da

pólvora e análogas, caso em que a compressão e o aprisionamento da chama

aumentam o seu furor.

31. A bigorna se torna muito quente ante os golpes do malho. Se a bigorna

fosse feita de um metal mais mole, acreditamos que chega ria a ficar rubra, por

força dos duros e repetidos golpes do malho. Disso se deve fazer mais

experimentos.

32. Nos corpos incandescentes que são porosos, de tal forma que haja espaço

para o movimento do fogo, se o seu movimento for coibido por forte

compressão, logo o fogo se apagará. Assim, quando um pano queimado, o pavio

aceso de uma vela ou lâmpada, um pedaço de carvão vegetal ou uma brasa, são

abafados ou pisados, ou algo semelhante, interrompe-se subitamente a ação do

fogo.

33. A aproximação de um corpo quente de outro aumenta o calor na própria

razão dessa proximidade. Também é o que ocorre com a luz, p ois quanto mais

próximo da luz é um objeto mais visível ele se torna.

34. A união de calores de origens diversas aumenta o calor, desde que se não

misturem com corpos. Com efeito, um grande fogo e um fogo menor ateados no

mesmo local aumentam igualmente o calor tanto de um quanto de outro; mas

água morna misturada à água fervente esfria -a.

35. A permanência do calor em um corpo aumenta o calor. Pois o calor que

constantemente circula e emana mistura-se ao calor preexistente e assim

multiplica o calor. Por isso, o fogo aceso durante meia hora, em um cômodo,

não o aquece da mesma forma que um que dura uma hora inteira. Mas não se dá

o mesmo com a luz, que uma lâmpada ou uma vela acesa não ilumina mais

determinado lugar durante um dia inteiro que logo no in icio.

36. A irritação produzida por um ambiente frio aumenta o calor,99 como se

observa no fogo aceso durante uma forte nevasca. Supomos que tal sucede não

apenas devido à concentração e contra ção do calor, que é uma espécie de união,

mas devido à exasperação, como ocorre com o ar muito comprimido ou um

bastão violentamente desviado de sua posição natural anterior, que não

retornam ao mesmo ponto em que estavam, mas muito além dele, em uma

posição oposta. Faça -se um diligente experimento com um bastão, ou com algo

semelhante, colocando-o no fogo, para verificar se não se consome mais

rapidamente nas extremidades que no meio da chama.

37. Há grande diversidade de graus de suscetibilidade ao calor. Sobre isso

note-se, em primeiro lugar, que o calor, mesmo pequeno e fraco, sempre acaba

por afetar e aquecer um pouco até os corpos a ele mesmo receptivos. Assim é

que o mesmo calor da mão que aquece um pouco uma bola de chumbo ou de

outro metal qualquer, por ela segu rada por algum tempo, facilmente se

transmite e se provoca o calor, sem que haja aparência de modificação nos

corpos.

38. De todos os corpos conhecidos, o ar é o que mais facilmente recebe e

transmite o calor, o que é bem visível pelos termômetros, 100 cuja confecção é a

seguinte: toma-se um tubo de vidro delgado e oblongo. Submerge -se o tubo

com a boca para baixo em outro recipiente de vidro, com água, de modo que o

seu orifício alcance o seu fundo, apoiando-se o seu gargalo na sua borda. Para

mantê-lo nessa posição, coloca-se um pouco de cera nas bordas internas do recipiente,

sem, contudo, obstrui-lo, evitando-se, dessa forma, que falte o ar que é

indispensável ao movimento sumamente sutil e delicado de que vamos falar.

Deve-se, porém, aquecer ao fogo, antes de submergi-lo, a parte superior do

tubo. Depois de colocado o vidro, na forma indicada, o ar que foi aquecido vaise

pouco a pouco contraindo, durante o tempo necessário para a completa

eliminação do calor adquirido do exterior, até alcançar as mesmas dimensões do

ar circunstante no momento em que foi submergido na água, o que provocará a

subida da água, na mesma proporção. Deve-se ainda fixar ao longo do tubo uma

tira de papel comprida e estreita e graduada, conforme se queira. Verificar-se-á

então que, quando a temperatura do dia é fria, o ar se contrai em menor espaço,

e quando é quente, ele se expande. E isso será percebido através da água que

sobe, quando o ar se contrai, ou desce, quando o ar se dilata. A sensibilidade do

ar, tanto para o frio quanto para o calor, é sutil e delicada a ponto de superar de

muito a capacidade do tato. Pois um raio de sol ou o calor da respiração ou o

calor da mão, dirigido para a extremidade do tubo, faz baixar a água de modo

manifesto. Pensamos, todavia, que o espírito dos animais possui uma

sensibilidade ainda mais sutil, em relação ao calor ou ao frio, desde que não seja

impedida ou embotada pela massa do corpo.101

39. Depois do ar, acreditamos que os corpos mais sensíveis ao calor sejam os

que foram há pouco modificados e contraídos pelo frio, como a neve e o gelo,

pois, com apenas uma leve tepidez começam a dissolver e liqüefazer-se. A

seguir, vem o mercúrio. Em seguida, os corpos graxos, como o óleo, a manteiga

e similares; depois a madeira, depois a água e, por fim, as pedras e os metais,

que se não aquecem com facilidade, especialmente na parte interior. Mas estes,

depois de contraído o calor, conservam-no por muito tempo, como é o caso do

tijolo, da pedra, ou do ferro incandescentes colocados ou mergulhados na água

fria, que retêm o calor durante perto de um quarto de hora, a ponto de não

poderem ser tocados.

40. Quanto menor é a massa de um corpo tanto mais rapidamente se aquece

pela aproximação de um corpo quente; o que demonstra que todo calor

conhecido é infenso aos corpos tangíveis.

41. O calor, em relação ao tato e aos demais sentidos humanos, é coisa

variável e relativa. Por isso a água tépida, se a mão que a toca está fria, parece

quente; se a mão está quente, parece fria.102

XIV

O quanto é pobre a nossa história natural, qualquer um pode facilmente

perceber pelo fato de que nas tábuas precedentes inserimos simples tradições e

relatos de terceiros (mas sempre acrescentando e pondo em dúvida mesmo a

mais segura autoridade), em lugar da história provada e das instâncias certas. E

ainda tivemos que nos servir muitas vezes de locuções como a seguinte: “É

necessário fazer o experimento”, “é necessário comprová-lo com ulterior

experimento”.

XV

Objetivo e oficio destas três tábuas é o de fazer uma citação de instância

perante o intelecto 103 (como usualmente as designamos). Uma vez feita a

citação, é necessário passar-se à prática da própria indução. É necessário, com

efeito, descobrir -se, considerando atentamente as tábuas e cada uma das

instâncias, uma natureza tal que sempre esteja presente quando está presente a

natureza dada, ausente quando aquela está ausente, e capaz de crescer e

decrescer acompanhando-a; e seja, como se disse antes, uma limitação da

natureza mais comum.104 Assim, se a mente procura desde o início descobrir

essa natureza afirmativamente, como ocorre quando abandonada a si mesma,

ocorrem fantasias, meras opiniões e noções mal determinadas, e axiomas

carentes de contínuas correções, se não se quiser, segundo o costume das

escolas, combater em defesa de falsidade.105 Mas certamente os resultados serão

melhores ou piores conforme a capacidade e a força do intelecto que opera.

Contudo, só a Deus, criador e introdutor das formas,106 ou talvez aos anjos e às

inteligências celestes compete a faculdade de apreender as formas

imediatamente por via afirmativa, e desde o início da contemplação. Certamente

essa faculdade é superior ao homem, ao qual é concedida somente a via

negativa de procedimento, e só depois no fim, depois de um processo completo

de exclusões, pode passar às afirmaçõ es.1O7

XIV

Em vista disso, é necessário analisar e decompor, de forma completa, a

natureza, não certamente pelo fogo, mas com a mente, que é uma espécie de

centelha divina.108 A primeira obra da verdadeira indução, para a investigação

das formas, é a rejeição ou exclusão das naturezas singulares que não são

encontradas em nenhuma instância em que está presente a natureza dada, ou

encontram-se em qualquer instância em cuja natureza dada não está presente, ou

cresçam em qualquer instância em cuja natureza dada decresce, ou decrescem

quando a natureza dada cresce. Depois de ter feito as convenientes rejeições ou

exclusões na forma devida, restará no fundo, como resíduo donde se evolaram

como fumaça as opiniões, a forma afirmativa, sólida, verdadeira e bem

determinada. Tudo isso é breve para ser dito, mas é conseguido depois de

muitas tentativas. De nossa parte, acreditamos nada negligenciar do que é

necessário ao nosso propósito.

XVII

Devemos, no entanto, prevenir sem demora os homens de que se acautelem de

confundir as formas, de que falamos, com as que as suas especulações e

reflexões tratam habitualmente,109 o que pode ocorrer em vista da importância

que reconhecem às formas.

Em primeiro lugar, e por esse motivo, não nos ocuparemos das formas

compostas,110 que são, como se disse, combinações das naturezas simples

conforme o curso comum do universo, como a do leão, da águia, da rosa, do

ouro, e de muitas outras. Elas serão devidamente consideradas quando nos

ocuparmos dos processos latentes, dos esquematismos latentes e de sua

descoberta, na medida em que se encontram nas chamadas substâncias ou

naturezas concretas.

De outra parte, mesmo em relação às naturezas simples, não se devem confundir

as formas de que tratamos com as idéias abstratas, ou seja, com a s idéias mal ou

não determinadas na matéria.111 Com efeito, quando falamos das formas, mais

não entendemos que aquelas leis e determinações do ato puro, que ordenam e

constituem toda e qualquer natureza simples, como o calor, a luz, o peso, em

qualquer tipo de matéria ou objeto a elas suscetível. Falar em forma do calor ou

da luz é o mesmo que falar da lei do calor ou da luz;112 não nos afastamos ou

abstraímos do aspecto operativo das coisas. Assim, por exemplo, quando

falamos na investigação da forma do calor: rechace-se a tenuidade ou a

tenuidade não é a forma do calor; é como se disséssemos: o homem pode

introduzir o calor em um corpo denso ou o homem pode retirar ou colocar à

parte o calor de um corpo tênue.

Por conseguinte, se as nossas formas parecerem a alguém com algo de abstrato,

pelo fato de misturarem e combinarem coisas hete rogêneas (pois parecem, sem

dúvida, heterogêneos o calor dos corpos celestes e do fogo; o vermelho fixo da

rosa ou similares, e o que aparece no arco-íris ou nos sais da opala ou do

diamante; a morte por submersão e a por cremação, a por um golpe de espada e

a por apoplexia e a por atrofia; e isso apesar de todos esses caracteres pertencerem

à natureza do calor, do vermelho e da morte), reconheça ele que seu

intelecto está inteiramente preso e estacado pelo hábito, pelas coisas como um

todo 113 e pelas opiniões.

Está fora de dúvida que tais coisas, ainda que heterogêneas e diversas entre si,

coincidem na forma ou lei que ordena o calor, o vermelho ou a morte; e que ao

homem não é dado o poder de se emancipar e liberar-se do curso da natureza e

aventurar-se a novas causas eficientes e a novas de operar, afora da revelação e

da descoberta de tais formas. Porém, depois de haver considerado a natureza em

sua unidade, que é o principal, depois no seu devido lugar, tratar-se-á das

divisões e ramificações da natureza, tanto das ordinárias quanto das internas e

mais verdadeiras.

XVIII

É agora oportuna a apresentação de um exemplo de exclusão ou de rejeição de

naturezas, que nas tábuas de presença aparecem como não pertencendo à forma

do calor; mas também não deixando de se ter em mente que não apenas é

suficiente uma das tábuas de exclusão de uma natureza qualquer, mas que é

suficiente apenas uma das instâncias singulares nelas contidas. De fato, é

manifesto, pelo que se disse, que mesmo apenas uma só instância que

contradiga destrói qualquer conjetura sobre a forma. De qualquer maneira,

sempre que necessário, para maior evidência e para a demonstração clara do uso

das tábuas, repetiremos e duplicaremos as exclusões.

Exemplo da Exclusão, ou Rejeição de Naturezas da Forma do Calor

1. Pelos raios do sol exclua-se a natureza elementar.

2. Pelo fogo comum e, mais ainda, pelos fogos subterrâneos, que estão

muito longe e muito distantes dos raios dos corpos celestes, exclua-se a natureza

dos corpos celestes.

3. Pela propriedade de se aquecerem que têm todos os corpos (minerais,

vegetais, as partes externas dos animais, água, azeite, ar e similares) pela

simples proximidade do fogo de outro corpo quente, exclua-se toda variedade e

delicadeza de textura dos corpos.

4. Pelo ferro e pelos metais incandescentes que aquecem todos os outros

corpos, sem, contudo, diminuírem de peso ou de substância, exclua-se a

comunicação ou a mescla de outro corpo quente.

5. Pela água fervente e pelo ar e ainda pelos metais e outros sólidos

aquecidos, mas não até a ignição e a incandescência, excluam-se a luz ou o

lume.114

6. Pelos raios da lua e de outras estrelas (com exceção do sol), excluam-se

ainda a luz e o lume.

7. Pela tábua comparativa do ferro incandescente e da chama do espírito do

vinho (que conclui que o ferro incandescente tem mais calor, mas menos luz, e a

chama do espírito do vinho, mais luz e menor calor), excluam-se também a luz e

o lume.

8. Pelo ouro e por outros metais incandescentes, que são corpos de grande

densidade, quando considerados como um todo, exclua-se a tenuidade.

9. Pelo ar, mais comumente encontrado frio, mas sempre permanecendo

tênue, exclua-se também a tenuidade.

10. Pelo ferro incandescente, cuja massa não se dilata, mas permanece em sua

dimensão visível, exclua-se o movimento local ou expansivo do todo.

11. Pela dilatação do ar nos termômetros 115 e coisas semelhantes, onde o ar

manifestamente tem um movimento local e expansivo, mas nem por isso contrai

qualquer manifesto aumento de calor, exclua-se também o movimento local e

expansivo do todo.

12. Pela facilidade com que todos os corpos se aquecem, sem qualquer

destruição ou alteração digna de nota, exclua-se a natureza destrutiva ou a

introdução violenta de qualquer natureza nova.

13. Pelo consenso e conformidade dos efeitos semelhantes produzidos pelo

calor e pelo frio, exclua-se o movimento, tanto de expansão quanto o de

contração do todo.

14. Pelo aumento do calor oriundo do atrito dos corpos, exclua-se a natureza

principal. 116 Chamamos de natureza principal a que se encontra positivamente

na natureza e não é causada por uma natureza precedente.

Há ainda outras naturezas (a serem excluídas), pois não fizemos tábuas

perfeitas, mas apenas exemplos.

Todas, e cada uma das naturezas enumeradas, não estão compreendidas na

forma do calor. E de todas essas naturezas mencio nadas, o homem deve estar

livre ao operar sobre o calor.

XIX

Com as tábuas das exclusões estão colocados os fundamentos da verdadeira

indução; que, contudo, não será perfeita se não se apoiar na afirmativa. Mas

nem a própria exclusiva está completa, mormente logo de início. Com efeito, a

exclusiva (como é evidente) representa a rejeição das naturezas simples; mas se

ainda não possuímos noções justas e verdadeiras das naturezas simples,117 como

pode o procedimento exclusivo ser correto? Algumas das noções antes

mencionadas (como a noção da natureza elementar, como a noção da natureza

celeste, como a noção de tenuidade)118 são noções vagas e não bem

determinadas. Por isso, de vez que não ignoramos, nem nos esquecemos da

magnitude da obra que empreender (qual seja, a de colocar o intelecto humano

ao nível da natureza e das coisas), de nenhum modo nos podemos contentar com

o que até agora preceituamos; ao contrário, intentamos oferecer e subministrar

ao intelecto os mais poderosos auxílios, que é o que passaremos a indicar. E,

certamente, na interpretação da natureza deve-se formar e preparar o ânimo na

interpretação da natureza, de modo que, de um lado, detenha-se devidamente

nos vários graus de certeza e, de outro, pense também, especialmente no início,

que o que lhe é permitido examinar depende sobremaneira do que ainda está

para ser examinado.

xx

Contudo, como a verdade emerge mais rapidamente do erro que da confusão,

reputamos ser útil permitir -se ao intelecto, depois de elaboradas e devidamente

consideradas as três tábuas de primeira citação (ou comparecimento ou de

apresentação, tal como o fizemos), o empreendimento da obra de interpretação

da natureza na afirmativa,120 a partir das instâncias contidas nas tábuas, ou das

que ocorrerem fora delas. A essa espécie de tentativa continuamos a chamar de

Permissão ao Intelecto ou de Interpretação Inicial ou ainda de Primeira

Vindima.121

Primeira Vindima da Forma do Calor

Deve ter-se presente que a forma é inerente (o que deve ter ficado claro pelo

que antes foi dito) a todas e a cada uma das instâncias particulares, nas quais se

encontra a própria coisa; de outra maneira não seria forma, pois não pode

ocorrer nenhuma instância contraditória. Todavia, a forma é muito mais visível

em algumas instâncias que em outras; ou seja, nas que a natureza da forma está

menos coibida e impedida pelas outras naturezas e reduzida à sua ordem. A

estas instâncias costumamos chamar de instâncias luminosas ou instâncias

ostensivas.122

Em todas e em cada uma das instâncias em que a limitação é o calor, a natureza

parece ser o movimento. Isso é manifesto na chama, no seu perpétuo mover, nos

líquidos aquecidos ou ferventes, também sempre em movimento. Fica

igualmente claro, quando se excita o calor pelo movimento, como acontece com

os foles e com o vento (veja-se instância 29, tábua 3). O mesmo pode ser dito de

outros tipos de movimento, a cujo respeito veja instâncias 28 e 31, tábua 3. Isso

também se observa na extinção do fogo e do calor, por qualquer forte

compressão que refreia e interrompe o movimento (veja instâncias 30 e 32,

tábua 3). Fica igualmente claro que todos os corpos se destroem ou, pelo menos,

se alteram consideravelmente, por qualquer fogo ou calor forte e veemente, daí

se seguindo que o calor produz um movimento forte, um tumulto ou

perturbação nas partes internas do corpo, que gradualmente caminham para a

dissolução.

O que dissemos a respeito do movimento (ou seja, que é como o gênero em

relação ao calor) não deve ser entendido como significando que o calor gera o

movimento ou que o movimento gera o calor (embora nisso haja alguma

verdade), mas que o calor é em si, 123 ou que a própria qüididade do calor 124 é

movimento e nada mais; observando-se, porém, as diferenças específicas que a

seguir enumeraremos, depois de indicar algumas precauções contra os

equívocos.

O calor, enquanto coisa sensível, é algo relativo ao homem e não ao universo, e

é corretamente estabelecido como sendo efeito (do calor) sobre o espírito

animal. Pelo que, em si mesmo, é coisa variável, pois em um mesmo corpo

(conforme a disposição dos sentidos) produz tanto sensação de calor quanto de

frio, o que deve ter ficado patente pela instância 41, tábua 3.

Contudo, não se pode confundir a comunicação do calor, ou seja, a sua natureza

transitiva, graças à qual um corpo aproximando-se de outro quente, também se

aquece, com a forma do calor. Pois uma coisa é o quente e outra é o que

esquenta. E, como, com um movimento de atrito, se produz calor sem a

existência de um calor precedente, é necessário que se exclua o que se aquece

da forma do quente. É mesmo quando o calor sobrevém, pela aproximação de

algo quente, isso não se deve à forma do quente, mas resulta inteiramente de

uma natureza mais alta e comum, isto é, da natureza da assimila ção ou da

multiplicação de si mesmo, o que deve ser investigado separadamente.125

A noção de fogo é vulgar e de nada vale; é composta de combinação do calor e

da luz de um corpo, como na chama e nos corpos aquecidos até a

incandescência.

Uma vez afastado todo equívoco, passemos às diferenças verdadeiras, que

limitam o movimento e constituem-no na forma do calor.126

A primeira diferença é a seguinte: o calor é movimento expansivo, pelo qual o

corpo se dilata e tende a dilatar-se ou a passar para uma esfera ou dimensão

maior que a antes ocupada. Esta diferença se mostra sobretudo na chama, onde

o fumo e o vapor espesso se dila tam e convertem-se em chama.

O mesmo se observa em todo líquido fervente que se intumesce, de maneira

manifesta, eleva-se e emite borbulhas, e o processo de expansão se estende até

alcançar uma extensão muito superior e muito mais ampla que a do próprio

líquido, quer dizer, convertendo o líquido em vapor, fumo ou ar.

Observa-se também em toda madeira ou matéria combustível, em que às vezes

ocorre exsudação e sempre evaporação.

Observa-se ainda na fusão dos metais que como corpos muito compactos que

são) não se intumescem nem se dilatam com facilidade, porém, o seu espírito,

depois de se ter dilatado, tendendo dessa forma a uma maior expansão, força e

leva as partes mais graxas ao estado liquido. E se for aumentado em muito o

calor, dissolve e torna volátil grande parte delas.

Observa-se igualmente no ferro e nas pedras: que, embora não se liqüefaçam ou

fundam, tornam-se mais moles. O que também ocorre com varas de madeira,

que se tornam flexíveis quando aquecidas em cinza quente. E esse movimento

se observa de modo mais evidente possível no ar, que com pouco calor se dilata

de modo continuo e manifesto, como se pode ver pela instância 38, tábua 3.

Observa-se, ainda, na natureza contrária, que é o frio. Com efeito, o frio contrai

todos os corpos e leva-os a se encolherem. Isso vai ao ponto de, por ocasião de

intenso frio, os pregos caírem das paredes, o bronze se dessoldar, e o vidro

aquecido, e subitamente colo cado no frio, arquear-se e quebrar. Igualmente o ar,

submetido a um ligeiro resfriamento, se contrai em volume mais restrito, como

aparece na instância 38, tábua 2. Mas, sobre esse assunto, alongar-nos-emos

mais quando da investigação do frio.

Não é de estranhar que o calor e o frio produzam muitas ações comuns (a

respeito, veja-se instância 32, tábua 32), pois duas das diferenças que vêm a

seguir pertencem igualmente às duas naturezas; ainda que nesta diferença (a de

que estamos tratando) as ações sejam diametralmente opostas — pois o calor

engendra um movimento expansivo e dilatador, e o frio, ao c ontrário, engendra

um movimento de contração e de condensação.

A segunda diferença é uma modificação da precedente e reza que o calor é um

movimento expansivo ou orientado para a circunferência, mas com a condição

de que, ao mesmo tempo, o corpo tenda para o alto. Não há dúvida de que se

podem produzir muitos movimentos mistos. Por exemplo, uma seta ou um

dardo gira enquanto caminha e caminha enquanto gira. Da mesma maneira, o

movimento do calor é expansivo e ao mesmo tempo voltado para o alto.

Esta diferença fica bastante evidente ao serem colocadas tenazes ou atiçadores

de ferro no fogo. Se são colocados perpendicularmente, segurando-se na outra

extremidade, o calor rapidamente queimará as mãos, mas se são colocados

horizontalmente ou em nível inferior a o do fogo, as mãos se vão aquecer muito

depois.

É também evidente nas destilações, per discensorium, que são usadas pelos

homens para flores muito delicadas cujos aromas rapidamente se evolam. De

fato, a indústria humana descobriu uma maneira de colocar o fogo não por

baixo, mas por cima, para aquecimento mais lento. Não apenas a chama mas

também toda espécie de calor tende para o alto.

Faça-se um experimento disso, na natureza contrária do frio, para se verificar se

o frio não provoca a contração dos corpos para baixo, da mesma maneira que o

calor dilata os corpos para o alto. Para isso, tomem-se duas barras de ferro, ou

dois tubos de vidro, iguais em todos os outros aspectos, e levem-nos ao fogo

para se aquecerem um pouco; coloque-se uma esponja embebida em água fria

ou neve, em cima de uma e embaixo de outra respectivamente. Supomos que o

resfriamento no sentido das extremidades será mais rápido na barra em que a

neve esteja em cima do que naquela em que a neve venha colocada embaixo, ou

seja, exatamente o contrário do que ocorre com o calor.

A terceira diferença é a seguinte: o calor é um movimento expansivo, não

uniforme segundo o todo, mas segundo as menores partículas do corpo, e ao

mesmo tempo reprimido, repelido e afastado, de maneira que adquire um

movimento alternado e continuamente trêmulo e irritado pela repercussão 127 e

do qual se origina o furor do fogo e do calor.

Esta diferença aparece sobretudo na chama e nos líquidos ferventes, que

continuamente tremem e nas menores partes se intumescem e repentinamente

esmorecem.

Ocorre ainda nos corpos que têm tal densidade que aquecidos ou incandescentes

não se intumescem, nem se dilatam em sua massa; esse é o caso do ferro

candente, em que o calor é muito intenso.

Ocorre ainda no fato de o fogo arder mais intensamente por ocasião da estação

fria.

Ocorre ainda no fato de que, quando o ar se dilata, no termômetro, sem qualquer

impedimento ou força repulsiva, isto é, com uniformidade e conformidade, não

se percebe qualquer calor. Ainda nos ventos fechados, mesmo irrompendo com

a máxima força, mesmo assim não se percebe um calor significativo; isso

porque o movimento ocorre segundo o todo e não alternadamente nas partículas.

Faça-se um experimento a esse respeito para se verificar se a chama não queima

mais fortemente nos lados que no centro.

Ocorre também de forma clara no fato de que toda a combustão penetra pelos

diminutos poros do corpo, que se queima; de modo que a combustão o abate,

penetra, atravessa e perfura como se possuísse infinitas pontas de agulha. É por

isso que também todas as águas-fortes (se são adequadas ao corpo sobre o qual

agem) produzem os efeitos do fogo, devido à sua natureza corrosiva e

penetrante.

Esta diferença (a de que estamos falando) é comum à natureza do frio, no qual o

movimento de contração é contido pela força expansiva; do mesmo modo que

no calor é reprimido o movimento expansivo pela força de contração.

Por isso, tanto faz se as partículas do corpo o penetrem para dentro ou no

sentido do exterior, o processo é o mesmo, embora o grau de intensidade seja

muito diferente, pois, mesmo aqui bem perto de nós, na superfície da Terra,

nada temos que seja puramente frio (veja -se instância 27, tábua 1).

A quarta diferença é uma modificação da anterior, ou seja, o movimento

estimulante ou penetrante deve ser rápido, e não lento, e provir por partículas

não extremamente pequenas, mas um pouco maiores.

Observa-se esta diferença no confronto dos resultados que produz o fogo com

os resultados que produz o tempo ou a idade. O tempo tanto quanto o fogo

queima, consome, alui e reduz a cinzas, mas de forma sutil e delicada, isso

porque trata -se de um movimento muito lento, que procede por partículas

minúsculas e onde não se percebe o calor.

Ocorre também na comparação entre a dissolução do ferro e do ouro. O ouro de

fato dissolve sem provocar calor, enquanto o ferro produz um calor fortíssimo,

mesmo durante um tempo mais ou menos igual. Tal ocorre porque, com a

introdução da água, a solução se processa mais naturalmente e a dissolução das

partes advém sem esforço, mas com o ferro, ao contrário, a presença da água é

áspera e contrastante, porque as partes do ferro opõem uma maior resistência.

Ocorre ainda até certo ponto em certas gangrenas ou decomposições da carne

que não produzem grande calor, nem dor, mas cumprem-se pelo processo sutil

da putrefação.

Seja esta, pois, a primeira vindima ou interpretação inicial da forma do calor,

obtida por permissão do intelecto.

Desta primeira vindima, obtêm -se a forma ou verdadeira definição do calor (o

calor em relação ao universo e não apenas em relação aos sentidos), que pode

ser expressa brevemente do seguinte modo: O calor é um movimento expansivo,

reprimido e que atua sobre as partículas menores. A expansão pode ser

definida: Pela natureza de expandir-se em todas as direções, mas que, apesar

disso, se inclina um pouco mais para o alto. E o esforço sobre as partículas se

define dizendo: Que não se trata de algo lento, mas apressado e impetuoso.

Em relação à parte operativa, é a mesma coisa. De fato, o seu enunciado é o

seguinte: Se em algum corpo natural pode produzir-se um movimento de

dilatação e expansão e se se puder reprimi-lo e fazê-lo voltar sobre esse

movimento, de modo que a dilatação não transcorra uniformemente, mas por

partes e que seja em parte repeli da, nesse caso, sem dúvida, se engendrará

calor. É indiferente se se trata de corpo elementar (como se diz) ou se recebe as

suas qualidades dos corpos celestes; se é luminoso ou opaco; se é tênue ou

denso; se aumentado em seu volume ou contido nos limites da primeira

dimensão; se tendente a dissolver-se ou a permanecer no seu estado; se animal,

vegetal ou mineral; se água, óleo ou ar; ou de qualquer outra substância

suscetível do movimento mencionado. O calor sensível é, pois, a mesma coisa

que o calor em si, mas em relação aos nossos sentidos.128 Mas agora é

necessário passar aos outros auxílios do intelecto.

XXI

Depois das tábuas de primeira citação, depois da rejeição ou exclusão e depois

da primeira vindima, feita segundo aquela s tábuas, é necessário passar aos

outros auxílios do intelecto na interpretação da natureza, bem como à indução

verdadeira e perfeita. Nessa exposição, se se fizer necessário o uso das tábuas,

retomaremos as do calor e do frio. Mas quando houver necessidade de apenas

alguns poucos exemplos, esses serão recolhidos aqui ou ali, para que não se

torne confusa a investigação e a exposição muito restrita.

Em primeiro lugar, trataremos das instâncias prerrogativas;129 em segundo

lugar, dos adminículos da indução;130 em terceiro lugar, da retificação da

indução;131 em quarto lugar, da variação da investi gação segundo a natureza

do assunto;132 em quinto lugar, das prerrogativas da natureza 133 em relação à

investigação, ou seja, daquilo que se deve investigar antes e depois; em sexto

lugar, dos limites da 134 investigação ou sinopse de todas as naturezas do

universo; em sétimo lugar, da dedução à prática,135 ou seja, daquilo que está

relacionado como o homem; em oitavo lugar, dos preparativos para a 136

investigação; em último lugar, da escala ascendente e descendente dos

axiomas.137

XXII

Entre as instâncias prerrogativas, em primeiro lugar, proporemos as instâncias

solitárias. Solitárias são aquelas instâncias que apresentam a natureza que se

investiga, em coisas que nada têm em comum com outras, a não ser aquela

natureza; ou que não apresentam a natureza que se investiga em coisas que são

semelhantes a outras em tudo, exceto em relação a essa natureza. É claro que

estas instâncias eliminam palavras inúteis e aceleram e reforçam a exclu são;

bem por isso algumas poucas valem por muitas.

Assim, por exemplo, na investigação da natureza da cor, as instâncias solitárias

são os prismas e os cristais que fazem aparecer a cor, não somente em si

mesma, mas também a refletem sobre paredes externas, sobre o orvalho, etc.

Tais instâncias nada têm em comum com as cores fixas nas flores, com as cores

das gemas, dos metais, das madeiras, etc.; exceção feita da própria cor. Daí

facilmente se estabelece que a cor nada mais é que uma modificação da imagem

luminosa introduzida no corpo e recebida, no primeiro caso, com diversos graus

de incidência, no segundo como efeito de estrutura e esquematismos diversos.

Estas instâncias são solitárias por semelhança.

Ainda, na mesma investigação, os veios do branco e do negro e as variações de

cor, em flores da mesma espécie, constituem instâncias solitárias. Efetivamente,

o branco e o negro do mármore e as manchas de branco e de vermelho de certas

espécies de cravo parecem-se em quase tudo, exceto na cor. Daí facilmente se

conclui que a cor não tem muito em comum com as naturezas intrínsecas dos

corpos, mas que consiste tão -somente na disposição tosca e quase mecânica das

partes. A estas instâncias que são solitárias, por diferença a um e outro gênero,

chamamos de instância solitária, ou Ferinos,138 usando o termo astronômico.

XXIII

Entre as instâncias prerrogativas, colocaremos em segundo lugar as instâncias

migrantes.139 São aquelas em que a natureza investigada migra ou passa a um

processo de existência 140 se antes não existia, ou, ao contrário, migra no sentido

da corrupção, se antes existia. Em ambos os casos, simétricos da alternância, as

instâncias são duplas, ou uma única instância em movimento ou trânsito, que se

estende ao ciclo contrário. As instâncias desse tipo não apenas acele ram e

reforçam o processo de exclusão como também delimitam o afirmativo, isto é, a

própria forma investigada. É necessário, com efeito, que a forma da coisa seja

algo que, por meio das migrações, de um lado manifeste-se, de outro, destrua-se

e seja eliminada. E ainda que toda exclusão promova a afirmação, isso se

cumpre mais diretamente considerando-se um mesmo objeto, em vez de muitos.

A forma (como deve ter ficado claro por tudo o que foi dito), depois de

observada em um único, estende-se a todos os objetos. Quanto mais simples é a

migração tanto mais significativa é a instância. Além disso, as instâncias

migrantes são de grande utilidade na parte operativa (ou prática) do saber; isso

porque, mostrando a forma juntamente com a causa que a faz ser ou não ser,141

indicam de forma mais evidente a prática a ser seguida em certos casos, dos

quais é fácil passar a outros, mas há ai um perigo a ser evitado que exige

cautela, ou seja, tais instâncias conectam muito estreitamente a forma à causa

eficiente,142 confundindo assim o intelecto, ou pelo menos iludindo-o com uma

falsa opinião da forma, ao divisar a causa eficiente. E esta, para nós, nada mais

é que o veículo ou o condutor da forma. Mas se o procedimento de exclusão é

feito de maneira legítima, o remédio será facilmente encontrado.

Exporemos agora um exemplo de instância migrante. Seja a natureza a ser

investigada o candor ou a brancura: a instância migrante para a produção é o

vidro inteiro e o vidro pulverizado. Também a água comum e a água agitada, até

transformar-se em espuma. De fato, o vidro inteiro e a água comum são

transparentes, mas não são brancos; o vidro pulverizado e a água transformada

em espuma são brancos, mas não são transparentes. Por isso torna-se necessário

descobrir o que aconteceu ao vidro e à água por força dessa migração. É claro

que a forma do branco é comunicada e introduzida pela pulverização, no caso

do vidro, e pela agitação, no caso da água. Constatamos, então, que o que

ocorreu foi a comunicação das partículas do vidro e da água e a penetração do

ar. E não foi pouco o alcançado, com isso, para o descobrimento da forma do

branco, ao isolar o fato de que dois corpos em si transparentes, sendo um mais e

outro menos (ou seja, o ar e a água, o ar e o vidro), colocados juntos em

minúsculas partículas, produzem a brancura, devido à refração desigual dos

raios de luz.

Mas, a esse respeito, devemos ainda expor um exemplo do perigo antes

mencionado, bem como a forma de evitá-lo. Ao intelecto corrompido pelas

causas eficientes, facilmente pode ocorrer o pensamento de que a forma do

branco é sempre necessária ao ar, e que a brancura é engendrada unicamente por

corpos transparentes. O que é inteiramente falso e demonstrado por muitas

exclusões. Ver-se-á, por outro lado (deixando de lado o ar e coisas análogas),

que corpos inteiramente iguais, nas partículas visíveis, produzem a

transparência; que corpos desiguais, com estrutura simples, engendram o

branco; que os corpos desiguais, com estrutura complexa, mas ordenada,

engendram outras cores, com exceção do negro; que os corpos desiguais, com

uma estrutura complexa, mas desordenada e confusa, engendram o negro.

Assim apresentamos o exemplo de instância migrante, na geração da natureza

do branco. A instância migrante, para a corrupção da própria natureza do

branco, obtém-se com a espuma ou com a neve em dissolução. De fato, a água

perde o branco e retoma a transparência quando retorna ao seu estado íntegro,

sem ar.

De modo algum pode deixar de ficar bem explícito que, sob o nome de instância

migrante, compreendem-se não apenas as que migram passando à geração ou à

privação, mas ainda as que migram passando ao aumento ou à diminuição, uma

vez que também tais instâncias levam à descob erta da forma, como se observa

manifestamente pela, antes enunciada, definição da forma e pela tábua de graus.

Por isso o papel, quando seco, é branco; mas quando é molhado (ou seja,

quando se elimina o ar e se introduz a água), é menos branco e mais próximo da

transparência. O seu comportamento é semelhante aos indicados nas instâncias

anteriores.

XXIV

Entre as instâncias prerrogativas, colocaremos em terceiro lugar as instâncias

ostensivas, de que fizemos menção na primeira vindima do calor e a que

também chamamos de luminosas ou instâncias libertadas e predominantes.143

São as que mostram a natureza investigada nua e por si subsistente,144 e

ostentam-na no mais alto grau de sua potência, ou seja, emancipada e liberta de

impedimentos, ou pelo menos a eles se impondo pela força de sua virtude,

suprimindo-os e contendo-os. Pelo fato de todo corpo conter muitas formas de

naturezas combinadas e unidas no concreto, ocorre que cada uma entorpece,

deprime, quebranta e submete a outra, e com isso as formas singulares se

obscurecem. Mas objetos há em que a natureza investigada é predominante em

relação a outras naturezas, seja pela falta de impedimento, seja pela

predominância de sua própria virtude. Estas são as instâncias mais ostensivas

da forma.145 Mas, mesmo neste caso, é necessário o uso de cautela e da

moderação do ímpeto do intelecto. Com efeito, tudo o que apresenta uma forma,

e ostenta-a diretamente ao intelecto, deve ser tido por suspeito e deve ser

submetido a um rigoroso e diligente procedimento de exclusão.

Por exemplo, seja o calor a natureza a ser investigada. A instân cia ostensiva do

movimento de expansão, que (como se disse antes) é propriedade específica do

calor, é a do termômetro de ar. De fato, a chama, ainda que manifestamente

apresente expansão, contudo, pela sua grande facilidade de extinção, não

apresenta bem o processo dessa expansão. E a água fervente, pela sua facilidade

de se transformar em vapor e ar, não revela a expansão da água na sua própria

massa. Mesmo o ferro candente, assim como outros corpos semelhantes, está

muito longe de mostrar a expansão, porque o espírito é submetido pelas partes

compactas e densas, a ponto de refrear, conter o movimento expansivo, e assim

o processo não é perceptível pelos sentidos. Contudo, o termômetro mostra

claramente a expansão do ar de modo visível, progressivo, durável e

ininterrupto.

Por exemplo, seja o peso a natureza da instância investigada. A instância

ostensiva do peso é o mercúrio. Este supera de longe em peso todas as outras

substâncias, com exceção do ouro; e mesmo o ouro não é muito mais pesado

que ele. Mas a instância que melhor in dica a forma do peso é o mercúrio e não o

ouro. Pois o ouro é sólido e consistente, e tais qualidades se relacionam com a

densidade; enquanto o mercúrio é líquido e prenhe de espírito, e mesmo assim

tem peso muitos graus acima do diamante, e de todos os sólidos que se

conhecem. Daí se depreende claramente que a forma do peso predomina

simplesmente na quantidade da matéria e não em uma dimensão restrita.

XXV

Entre as instâncias prerrogativas, colocaremos em quarto lugar as instâncias

clandestinas,146 a que também costumamos chamar de instâncias do

crepúsculo.147 São, por assim dizer, as instâncias opostas às ostensivas; exibem,

de fato, a natureza investigada na sua ínfima força e, por assim dizer, em estado

de incubação e nos seus rudimentos; mostram-na nas suas primeiras tentativas e

ensaios, mas obscurecida e submetida por uma natureza contrária. Tais

instâncias são de grande importância para a descoberta da forma, pois, se as

ostensivas orientam facilmente a identificação das diferenças específicas, de sua

parte as instâncias clandestinas conduzem e facilitam a identificação dos

gêneros, ou seja, das naturezas comuns de que as naturezas investigadas são

simples limitações.

Por exemplo, seja a consistência a natureza a ser investigada: ou seja, aquilo

que fixa os limites do corpo e cujo contrário é a liquidez ou a fluidez. As

instâncias clandestinas são aquelas que mostram um grau ínfimo de consistência

em um fluido; é o caso da bolha de água que é uma espécie de película

consistente e delimitada, feita de água. O mesmo ocorre com as goteiras que,

quando há água suficiente para correr, formam um fio muito tênue e de tal

modo que a água não se interrompe; mas quando não há água suficiente para

cair numa sucessão continua a água cai em gotas redondas, a figura que melhor

se presta para evitar qualquer descontinuidade da água. Contudo, no exato

instante em que cessa o fio de água e tem inicio a queda das gotas, a água se

retrai em relação a si mesma para evitar a descontinuidade. Mesmo nos metais

que, em fusão, são líquidos mais espessos, muitas vezes as próprias gotas se

retraem em si mesmas e assim ficam. E semelhante à instância representada

pelos pequenos espelhos que as crianças costumam fazer com dois juncos,

unidos pela saliva, no meio dos quais se pode notar uma película consistente

feita de água. O mesmo fato pode melhor ser observado em outro brinquedo

infantil em que se usa a água (tornada mais consistente pelo sabão) e, com um

canudo, sopra-se, fazendo com essa água um verdadeiro castelo de bolhas; e

estas, pela intromissão do ar, conservam um grau de consistência capaz de

manter certa continuidade, mesmo que muitas bolhas se rompam. Isso é ainda

bem visível na espuma e na neve, que adquirem tal consistência que chegam

quase a ser passíveis de cortes, mesmo sendo corpos formados de ar e de água,

ambos líquidos. Todos esses exemplos indicam de maneira nada obscura que o

líquido 148 e a consistên cia são noções vulgares e relativas aos sentidos;149 mas

também que em todos os corpos está presente a fuga ou a tendên cia no sentido

de evitar a própria descontinuidade e que tal tendência nos corpos homogêneos,

como nos líquidos, é débil e frouxa; enquanto que nos corpos compostos de

partes heterogêneas é muito mais forte e viva. E isso porque a presença de um

corpo heterogêneo une os corpos, enquanto a introdução de um corpo

homogêneo os dis solve e relaxa.

Da mesma maneira, procure-se investigar, por e xemplo, a natureza da atração

ou coesão dos corpos.150 A mais notável instância ostensiva dessa forma é o

magneto. A natureza contrária à atração é a não -atração, como a que existe em<

substâncias semelhantes. O ferro não atrai o ferro, o chumbo não atrai o

chumbo, a madeira não atrai a madeira, a água não atrai a água, etc. Mas a

instância clandestina é o magneto armado de ferro, ou melhor, o ferro armado

em um magneto. A natureza é tal que o magneto, armado a uma certa distância,

não exerce mais atração sobre o ferro que o magneto desarmado. Mas se o ferro

é aproximado do magneto, armado até tocá-lo, então o magneto armado

sustentará um peso de ferro muito maior que um magneto simples e sem

armação, em vista da semelhança da substância do ferro com o ferro. Essa

propriedade de operar era completamente clandestina ou latente no ferro, antes

que o magneto dele fosse aproximado. Daí fica claro que a forma de coesão dos

corpos é algo de vivo e intenso no magneto, fraco e latente no ferro. Deve,

ainda, ser notado que pequenas flechas de madeira, sem ponta de ferro, disparadas

por bestas grandes, penetram mais a madeira (como os flancos do navio ou

coisas semelhantes) que essas mesmas flechas armadas com a ponta de ferro;

isso devido à semelhança da substância da madeira com a madeira, embora essa

propriedade antes estivesse latente na madeira. Da mesma maneira, apesar de

o ar manifestamente não atrair o ar e a água, água, uma bolha aproximada de

outra bolha dissolve-se mais facilmente que se tal não tivesse ocorrido, isso

devido ao apetite de coesão que tem a água para com a água e o ar para com o

ar. Tais instâncias clandestinas (que são de notável utilidade, como foi dito)

tornam-se visíveis sobretudo em porções pequenas e sutis dos corpos. As

massas maiores seguem formas mais gerais e universais, como se dirá no devido

lugar.

XXVI

Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em quinto lugar as instâncias

constitutivas,151 a que também costumamos chamar de manipulares.152 São as

que se constituem numa espécie da natureza investigada, à maneira de forma

menor. Com efeito, como as formas legítimas (que são sempre conversíveis nas

naturezas investigadas) são muito latentes e não são facilmente descobertas, a

vacilação e a fragilidade do intelecto humano requerem que as formas

particulares, que reúnem alguns punhados de instâncias, mas não todas em uma

noção comum, não sejam negligenciadas, antes notadas com toda diligência.

Pois tudo o que serve para conferir unidade à natureza, ainda que de modo

imperfeito, abre caminho à descoberta das formas. Portanto, as instâncias que

são úteis a esse propósito não podem ser desprezadas quanto à sua força e têm

até certas prerrogativas.

Mas o seu emprego deve ser feito com diligente cautela, para se evitar que o

intelecto humano, depois de ter descoberto muitas dessas formas particulares e

de ter estabelecido as partições ou divisões da natureza investigada, acabe se

contentando apenas com isso e não prossiga na investigação legítima da forma

grande;153 mas acabe supondo que a natureza, na sua própria raiz, é múltipla e

dividida, e descure e suponha a ulterior unidade da natureza como uma sutileza

vã, que conduz a meras abstrações.

Estabeleça -se, por exemplo, que a natureza a ser investigada seja a memória ou

aquilo que excita e ajuda a memória. As instâncias constitutivas são a ordem ou

a distribuição que manifestamente ajudam a memória, como também é o caso

dos tópicos 154 da memória artificial,155 que podem ser lugares, no seu

significado verdadeiro e próprio, como a porta, o ângulo, a janela e coisas

parecidas, e podem ser pessoas, familiares e conhecidas; podem ser, ainda,

outras coisas (desde que dispostas em uma determinada ordem), como animais

ou ervas; podem ser, ainda, palavras, letras, caracteres, personagens históricas,

etc. Para cada caso devem ser verificados os que são mais ou menos aptos e

cômodos. Tais tópicos ajudam significativamente a mente e predispõem-na em

relação a forças naturais. Por essa razão os versos permanecem e prendem mais

facilmente a memória que a prosa. O conjunto ou manípulo dessas três

instâncias, ou seja, a ordem, os tópicos da memória artificial e os versos,

constitui uma só espécie de ajuda à memória de tal espécie que pode chamar -se

justamente de corte do infinito.156 Com efeito, quando se procura recordar

alguma coisa ou buscá-la na memória, se não se conta com nenhuma prenoção

ou percepção do que se busca, a procura se cumpre de maneira errante, indo-se

aqui e ali, e assim quase ao infinito. Mas, se se dispõe de alguma prenoção

segura, subitamente é interrompido o vagar ao infinito e o discurso da memória

se torna mais próximo. Pois bem, na três instâncias supracitadas a prenoção é

evidente e certa: na primeira, trata-se de algo que retoma certa ordem; na

segunda, trata-se de uma imagem que tem alguma relação ou conveniência com

os tópicos estabelecidos; na terceira, trata-se de palavras que formam um verso.

E assim é que se interrompe o vagar ao infinito. Outras instâncias nos

oferecerão a seguinte segunda espécie: tudo o que conduz o que é do intelecto à

impressão dos sentidos 157 ajuda a memória (conforme uma regra muito seguida

pela memória artificial). Outras instâncias oferecerão esta terceira espécie: tudo

o que provoca uma impressão, sob um intenso afeto,158 ou seja, o que infunde

medo, admiração, vergonha, deleite, ajuda a memória. Outras instâncias

oferecerão esta quarta espécie: tudo o que se imprime na mente pura ou antes de

estar ocupada ou despreocupada de algo, como o que se aprende na infância ou

o que se pensa antes do sono e ainda o que acontece pela primeira vez, melhor

se fixa na memória. Outras instâncias oferecerão esta quinta espécie: o grande

número de circunstâncias e de ocasiões ajuda a memória como o hábito de

escrever-se por partes descontínuas e a leitu ra e recitação em voz alta. Outras

instâncias, finalmente, oferecerão esta sexta espécie: tudo o que se espera e que

excita a atenção grava-se na mente muito mais que o que transcorre sem

preocupação. Por isso, se se ler um escrito vinte vezes, não será aprendido de

memória com a facilidade resultante de dez leituras, nas quais se procure dizer o

texto de memória, apenas retomando o escrito quando aquela falhar.

Assim, seis são as formas menores de ajuda à memória: a inter rupção ou corte

do vagar ao infinito, a redução do intelectual ao sensível, a impressão recebida

sob intensa vibração de ânimo, a impressão feita em uma mente pura, a

multidão de ocasiões, a expectativa prévia.

Da mesma maneira, tome-se, por exemplo, para a investigação, a natureza do

gosto ou da degustação. As instâncias que se seguem são constitutivas: os

indivíduos que por natureza são destituídos do olfato são também providos do

gosto, assim não distinguem o alimento rançoso ou podre, como também não

distinguem o cheiro do alho ou da rosa e coisas semelhantes. Mesmo os

indivíduos que ficam com o nariz obstruído por catarro não distinguem nem

percebem o podre, o rançoso ou o odor da água de rosas aspergida sobre algo.

Porém, se se provocar a desobstrução do nariz com violento sopro, no mesmo

instante terão a percepção do mau cheiro ou do odor de qualquer coisa que

tenham na boca. Estas instâncias darão e constituirão esta espécie ou parte do

gosto, tornando claro que o sentido do gosto nada mais e, em parte, que um

olfato interno que passa e desce, dos canais superiores do nariz à boca, e ao

paladar, e, em contrapartida, o salgado, o doce, o acre, o ácido, o seco, o amargo

e semelhantes, tais sabores, todos eles são totalmente percebidos pelos que são

desprovidos do olfato ou o tenham obstruído. Assim, torna-se evidente que o

sentido do gosto é algo composto do olfato interno e de uma espécie de tato

delicado, do qual não cabe tratar aqui.

Ainda, do mesmo modo, tome-se, por exemplo, a investigação da natureza da

comunicação sem mescla de substância. A instância das luzes oferecerá ou

constituirá uma espécie de comunicação; o calor e o magneto uma outra. Com

efeito, a comunicação das luzes é momentânea e, subitamente, se desvanece

quando se tolda sua fonte de irradiação. Por seu turno, o calor e a força

magnética depois de transmitidos, ou melhor, excitados em corpo, aderem a ele

e nele permanecem por algum tempo, mesmo na falta do objeto que originou o

movimento.

Em suma, é sobremaneira grande a prerrogativa das instâncias constitutivas, por

serem de grandíssima valia no estabelecimento das definições (especialmente

particulares) e nas divisões ou partições da natureza, e a cujo respeito disse com

acerto Platão “que se deve considerar como um Deus o que bem souber definir e

dividir”.159

XXVII

Entre as instâncias prerrogativas, colocaremos em sexto lugar as instâncias

conformes ou proporcionadas,160 a que costumamos também chamar de

paralelas ou semelhanças físicas.161 E são as instâncias que ostentam as

semelhanças e as conjunções das coisas, não nas formas menores, como as

instâncias constitutivas, mas simplesmente no concreto. Constituem por isso

como que os primeiros e mais baixos graus de unificação da natureza. Não

constituem imediatamente, logo de início, um axioma, mas tão-somente indicam

e observam certa conformidade entre os corpos. Mesmo não sendo de grande

valia para o descobrimento das formas, revelam, contudo, de maneira útil, as

estruturas das partes do universo, perfazendo quase a anato mia de seus

membros; por isso, dirigem-se quase pelas mãos aos axiomas nobres e sublimes

e especialmente àqueles que se relacionam com a configuração do mundo, e

muito pouco servem para se chegar às naturezas ou formas simples.

Por exemplo, são instâncias conformes as seguintes: o espelho e o olho; a

estrutura do ouvido e dos lugares que produzem eco. A partir dessa

conformidade, deixando-se de lado a mera observação da semelhança, bastante

útil para muitas coisas, é fácil recolher e estabelecer o axioma de que os órgãos

dos sentidos e os corpos que comportam os reflexos sobre os sentidos são

semelhantes por natureza. Com isso em conta, o intelecto se eleva sem

dificuldade a um axioma mais alto e nobre, que é o seguinte: não há, entre os

consensos ou simpatias dos corpos dotados de sensação e os inanimados e

privados de sensação, outra diferença que a que os primeiros possuem um corpo

disposto de tal forma a poder receber o espírito animal, os segundos não. Assim,

quantos sejam os consensos nos corpos inanimados outros tantos poderão ser os

sentidos nos corpos dos animais, desde que para isso haja espaço no corpo

animado, suficiente para o espírito animal em um membro adequadamente

ordenado como um órgão idôneo. E, ainda, tantos sejam os sentidos dos animais

quantos serão, sem dúvida, os movimentos em um corpo inanimado, desprovido

do espírito animal. Mas é necessário que os movimentos nos corpos inanimados

sejam em muito maior número que os dos sentidos nos corpos animados, em

vista da pequenez dos órgãos dos sentidos. E disso há um exemplo bastante

manifesto nas dores. Pois, existindo muitos gêneros de dores nos animais e, por

assim dizer, distintos caracteres delas (uma é a dor da queimadura, outra a do

frio intenso, outra a de uma pontada, outra a de uma distensão e outras do

mesmo tipo), é absolutamente certo que todas ocorram em corpos inanimados,

em relação ao movimento. E o caso, por exemplo, da madeira e da pedra,

quando queimadas, ou quando contraídas pelo gelo, ou quando furadas, ou

quando partidas, ou quando dobradas, ou quando golpeadas, e assim por diante;

embora não haja sensação, devido à ausência do espírito animal.

Do mesmo modo (embora estranho para ser dito), as instâncias conformes são

as raízes e os ramos da planta. De fato, todo vegetal, crescendo, aumenta de

volume e tende a estender suas partes em cír culo, tanto para cima quanto para

baixo. Não há outra diferença entre as raízes e os ramos que o fato de as raízes

estarem sob a terra, enquanto os ramos se estenderem pelo ar e ao sol. Tome-se

um ramo tenro e verde e coloque-se em uma pequena porção de terra; mesmo

antes de se fixar ao terreno, o que logo aparece não é um ramo mas uma raiz. E

vice-versa, se se coloca terra na parte superior e por meio de uma pedra ou de

uma substância dura se arruma a planta de tal forma que ela fique comprimida e

não possa brotar para cima, ela soltará ramos no ar existente na parte de baixo.

Do mesmo modo, são instâncias conformes a resina das árvores e muitas gemas

de rubi. Umas e outras, de fato, são exsudações e filtrações de sucos, no

primeiro caso de árvores, no segundo, de seixos. Daí a existência em ambos do

esplendor e brilho causados, sem dúvida, pela filtração delicada e perfeita. Daí

procede também o fato de os pêlos dos animais não serem tão belos e de cores

tão vivas como as penas das aves — pois os sucos não se filtram pela pele com

a mesma delicadeza que pelos pequenos tubos das penas.

Do mesmo modo, são instâncias conformes o escroto nos animais masculinos e

a matriz nas fêmeas. Pois a notável estrutura que permite a o sexo se diferenciar

(pelo menos os animais terrestres) não parece ser outra coisa que a diferença

entre o interno e o externo; ou seja, o calor, que tem maior força no sexo

masculino, impele para fora as partes genitais; ao passo que nas fêmeas tal não

ocorre, porque o calor é mais fraco e as partes genitais ficam contidas no

interior.162 Do mesmo modo, são instâncias conformes as barbatanas dos peixes,

os pés dos quadrúpedes, os pés e as asas das aves, ao que Aristóteles acrescenta

as quatros flexões que fazem as serpentes.163 Assim, na estrutura do universo o

movimento dos seres vivos parece poder ser explicado com dois pares de

artelhos ou membros flexíveis.

E do mesmo modo são instâncias conformes os dentes dos animais terrestres e o

bico das aves: em vista do que se torna claro que todos os animais perfeitos têm

algo de duro na boca.

Do mesmo modo, não é absurda a semelhança e conformidade graças às quais o

homem parece uma planta invertida. De fato, a raiz dos nervos e das faculdades

dos animais é a cabeça; as partes seminais são as mais baixas, sem se levar em

conta as extremidades das pernas e dos braços. Na planta, ao contrário, é a raiz

que está no lugar da cabeça, que está situada na parte mais baixa, e as sementes

na parte mais alta.

Finalmente deve ser sempre lembrado que todas as investigações diligentes e

toda coleta de fatos empreendidas pela história natural devem mudar de direção

e voltarem-se para um fim contrário àqueles para os quais ora são dirigidas. Até

agora os homens tiveram grande curiosidade por conhecer a verdade das coisas

e por explicar de modo apurado as diferenças existentes entre os animais, entre

as ervas e entre os fósseis. Tais diferenças, na sua maior parte, são como que

caprichos da natureza e não coisas de alguma utilidade para a ciência. Prestamse,

certamente, ao divertimento, às vezes servem à práti ca, mas muito pouco ou

nada para a prospecção da natureza. Por isso toda obra deve voltar-se

inteiramente para a investigação e a observação das semelhanças e das

analogias, seja no todo ou nas partes. Estas são, com efeito, as que conferem

unidade à natureza e dão início à constituição da ciência.

Mas em tudo é absolutamente necessário observar-se uma grave e severa

cautela, pois se aceitam como instâncias conformes e proporcionadas apenas as

que denotam, como antes foi dito, semelhanças físicas, isto é, reais e

substanciais e fundadas na natureza, e não as meramente casuais e especiosas,

como as que exibem os escritores de magia natural (homens levianos que não

mereciam ser mencionados nos assuntos graves de que tratamos), os quais, com

grande vaidade e ignorância, descrevem imaginárias semelhanças e fictícia

simpatia entre as coisas, que eles mesmos inventam.

Mas, deixando isso de lado, acrescentamos que nem mesmo na configuração do

mundo, nos seus mais amplos espaços, devem-se negligenciar as instâncias

conformes. A África e a região do Peru, com seu continente que se estende até o

estreito de Magalhães, apresentam istmos e promontórios semelhantes, o que

não pode ocorrer por acaso.

Também o Novo e o Velho Mundo se correspondem no fato de que ambos se

alargam no sentido setentrional e, ao contrário, nos meridianos são estreitos e

terminam em ponta.

Do mesmo modo, notáveis instâncias conformes são os frios intensos que

reinam na chamada região média do ar, bem como os fogos fortíssimos que

muitas vezes irrompem das regiões subterrâneas; duas coisas que são limites e

extremas, ou seja, a natureza do frio que tende para a região do céu, e a natureza

do calor, que tende para as entranhas da terra. Isso ocorre por antiperístase ou

repulsão da natureza contrária.

Finalmente, é digna de nota, nos axiomas das ciências, a conformidade das

instâncias. Assim o tropo da retórica chamado Praeter Expectatum 164 está de

acordo com o tropo musical chamado Decli natio Cadentiae.165 Da mesma

maneira, o postulado matemático de que “os ângulos iguais a um terceiro são

iguais entre si” é conforme à estrutura lógica do silogismo, que une as coisas

que concordam ou convêm a um termo médio. É de muita utilidade, em

numerosas investigações, a sagacidade no descobrir e no indagar as

conformidades e as semelhanças físicas.

XXVIII

Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em sétimo lugar as instâncias

monádicas,166 a que também costumamos chamar de irregulares ou

heteróclitas,167 tomando o vocábulo dos gramáticos. São aquelas que mostram

ao concreto os corpos que parecem extravagâncias ou quase inesperados na

natureza e que não estão de acordo com as outras coisas do mesmo gênero.

Enquanto as instâncias conformes são semelhantes umas às outras, as instâncias

monádicas só são semelhantes a si mesmas. O seu uso é idêntico ao das

instâncias clandestinas, ou seja, servem para ressaltar e unir a natureza, na

identificação dos gêneros ou naturezas comuns, que depois devem ser

delimitados pelas diferenças verdadeiras. Não se deve desistir da investigação

enquanto as propriedades e as qualidades que se encontram nas coisas, e podem

ser consideradas espantosas na natureza, não fiquem reduzidas ou

compreendidas segundo alguma forma ou lei certa, de maneira a ficar indicado

que todo fenômeno irregular e singular depende de alguma forma comum; e que

o milagre, enfim, seja colocado na dependência de apenas algumas diferenças

específicas bem determinadas, e num grau e numa proporção raríssimos, e não

na dependência da própria espécie. Mas atualmente as preocupações dos

homens não vão mais longe que a determinação de tais coisas, como se fossem

segredos e significativas manifestações da natureza,168 como se se tratasse de

fatos sem causa, e assim acabam sendo consideradas como exceções das regras

gerais.

São exemplos de instâncias monádicas, entre os astros, o sol e a lua; o magneto,

entre as pedras; o mercúrio, entre os metais; o elefante, entre os quadrúpedes; a

sensibilidade erótica, entre as espécies de tato; o faro da caça nos cães, entre os

gêneros de olfato. Também a letra S entre os gramáticos é tomada como uma

letra monádica pela facilidade que tem de se combinar, seja com duas outras,

com outras três consoantes, o que não ocorre com nenhuma outra letra. As

instâncias deste tipo devem ser levadas em grande conta, porque aguçam e

estimulam a investigação e corrigem o intelecto depravado pelo hábito e pelas

ocorrências rotineiras.

XXIX

Entre as instân cias prerrogativas, colocamos em oitavo lugar as instâncias

desviantes,169 ou seja, os erros da natureza, as coisas vagas e monstruosas, nos

quais a natureza rompe e se desvia do seu curso natural. Os erros da natureza e

as instâncias monádicas diferem no fato de que os primeiros são milagres dos

indivíduos enquanto que as segundas são milagres da espécie. Mas o seu uso é

quase o mesmo, pois retificam o intelecto da experiência habitual e revelam as

formas comuns. Também aqui não se deve abandonar a investigação até que se

descubra a causa do desvio. Na verdade, essas causas não alcançam

propriamente qualquer forma, mas chegam até ao processo latente que conduz à

forma; e quem conhece com familiaridade os caminhos da natureza facilmente

observará os seus desvios. Por outro lado, aquele que está familiarizado com os

desvios mais acuradamente descreverá aqueles caminhos. As instâncias

monádicas também se diferenciam pelo fato de serem muito mais instrutivas

para a prática e para a parte operativa. De fato, seria algo muito difícil o

surgimento de novas espécies; mas a variação das espécies já conhecidas e, com

isso, a produção de uma infinidade de coisas raras inusitadas, seria tarefa menos

árdua. Com efeito, fácil é o passo dos milagres da natureza aos milagres da

arte.170 Uma vez que se surpreenda a natureza em uma variação, e se indique

claramente a sua razão, será depois fácil, pela arte, repará-la em seu descaminho

acidental. E não apenas em relação a este erro, mas ainda em relação a outros;

pois os erros em um determinado passo abrem caminho a erros e desvios por

toda parte. E aqui não é o caso de se indicar exemplos, dada a sua grande

abundância: deve-se proceder a uma coleta ou a uma história natural de todos os

monstros e partos prodigiosos da natureza; de tudo o que na natureza é novo,

raro e excepcional. Mas a escolha deve ser muito severa para que mereça fé.

Sobretudo devem considerar-se como suspeitos os milagres que se originam de

alguma maneira das superstições, como os prodígios relatados por Tito Lívio,

como também os que se encontram nos escritores de magia natural e de

alquimia, e pessoas do gênero, que são próceres e amantes das fábulas. Os

referidos fatos devem ser buscados em histórias sérias e em tradições seguras.

XXX

Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em nono lugar as instâncias

limítrofes e as que também costumamos chamar de partícipes.171 São as que

revelam aquelas espécies de corpos que parecem compostos de duas espécies ou

de rudimentos entre uma espécie e outra. Estas instâncias podem também ser

incluídas entre as monádicas ou heteróclitas, pois são raras e extraordinárias no

universo. Mas quanto ao seu valor devem ser consideradas à parte e por si

mesmas. Elas servem para indicar a estrutura e a composição das coisas, e

sugerem as causas do número e da qualidade das espécies ordinárias no

universo, e orientam o universo, daquilo que é para o que pode ser.

Como exemplos, têm-se: o musgo, que fica entre a matéria podre e a planta;

certos cometas, que ficam entre as estrelas e os meteoros incandescentes; os

peixes voadores, entre os pássaros e os peixes; os morcegos, entre as aves e

quadrúpedes; e também

“O símio, tão repugnante entre os animais

quanto próximo de nós”;172

e os partos de animais biformes ou mistos de diversas espécies; e coisas

semelhantes.

XXXI

Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em décimo lugar as instâncias de

potestade ou do cetro 173 (tomando o vocábulo das insígnias de império), as

quais também costumamos chamar de engenho ou das mãos do homem. São as

obras mais nobres e perfeitas e quase sempre as últimas de qualquer arte. Pois,

se se busca acima de tudo fazer com que a natureza atenda às necessidades e às

comodidades humanas, é natural que se considerem e enumerem as coisas que

já se encontram em poder do homem como muitas outras províncias já ocupadas

e antes subjugadas; especialmente as que são mais completas e perfeitas, pois

destas é mais fácil e próxima a passagem às obras novas e ainda não inventadas.

De fato, se alguém quiser, pela consideração atenta de tais obras, progredir nas

suas próprias com acuidade e inventividade, certamente acabará por conseguir

desviar aquelas até um ponto próximo das suas ou conseguirá aplicá-las ou

transferi-las para um uso mais nobre.

E não é tudo. Assim como das obras raras e fora da rotina da natureza o

intelecto se levanta e eleva-se até a investigação e o descobrimento de formas

capazes de incluir também aquelas, da mesma forma vê-se ser isso aplicável em

obras de arte excelentes e dignas de admiração ; e isso é tanto mais verdadeiro

quando se sabe que o modo de realizar e executar tais milagres da arte é, na

maior parte dos casos, simples, enquanto que na maior parte das vezes é

obscuro nos prodígios da natureza. Contudo, em tais casos devem-se tomar

todos os cuidados para que não deprimam o intelecto e, por assim dizer,

ponham-no por terra.

Há perigo de que por meio de tais obras de arte, que são consideradas como os

cumes e os píncaros da indústria humana, o intelecto humano chegue a ficar

atônito e atado e como que embaraçado em relação a elas, e isso a tal ponto que

não se habitue a outras, mas pense que nada mais pode ser feito naquele setor a

não ser com o uso do mesmo procedimento com que aquelas foram executadas,

desdenhando, assim, o emprego de uma maior atenção e de uma mais cuidada

preparação.

Mas, na verdade, é certo que os caminhos e procedimentos rela cionados com as

obras e as coisas, inventadas e até agora observadas, em sua maior parte são

muito pobres. Pois todo poder realmente grande depende e emana, de forma

ordenada, das formas, e nenhuma delas foi até agora descoberta.

Assim (como já dissemos),174 se se pensa nas máquinas de guerra e nas alhetas

usadas pelos antigos, ainda que em tal meditação se consuma toda a vida,

jamais se chegará à descoberta das armas de fogo que atuam por meio da

pólvora. Do mesmo, modo, quem puser toda a sua atenção e aplicação na

manufatura da lã e do algodão nunca alcançará, por tais meios, a natureza do

bicho-da-seda, nem a da seda.

A esse respeito, pode observar-se que todas as descobertas, dig nas de serem

consideradas como mais nobres, quando bem examinadas, não poderão ser

tomadas como o resultado do desenvolvimento gradual e da extensão, mas do

acaso. E nada há que possa substitui-lo, pois o acaso só atua a longos intervalos,

através dos séculos, e não intervém na descoberta das formas.

Não é necessário aduzirem-se exemplos particulares dessas instâncias, em vista

de sua grande quantidade. É suficiente passar em revista e examinar-se

atentamente todas as artes mecânicas e inclusive as artes liberais, quando

relacionadas com a prática, e delas se retirar uma coleção de história particular

das maiores, das mais perfeitas obras de cada uma das artes, ao lado dos

respectivos procedimentos de produção e execução.

Em tal coleção não queremos, porém, que o cuidado do investigador se limite a

recolher unicamente as consideradas obras-primas e os segredos desta ou

daquela arte, que é o que provoca admiração. Pois a admiração é filha da

raridade e as coisas raras, mesmo que em seu gênero procedam de naturezas

vulgares, provocam a imaginação.

E, ao contrário, as que deveriam realmente provocar admiração, pela

diversidade que revelam em relação a outras espécies, são pouco notadas e

tornam-se de uso corrente. As instâncias monádicas da arte devem ser

observadas com a mesma atenção que as da natureza, de que já falamos antes.175

Como entre monádicas da natureza colocamos o sol, a lua, o magneto, etc.,

coisas muito conhecidas, mas de natureza quase única, o mesmo deve ser feito

em relação às monádicas da arte.

Exemplo de instâncias monádicas da arte é o papel, coisa sobremaneira

conhecida. Com efeito, se bem observadas, ver-se-á que as matérias artificiais

são ou simplesmente tecidas, por urdidura com fios retos e transversais, como é

o caso dos gêneros de seda, de lã ou de linho e coisas semelhantes, ou são

placas de sucos endurecidos, como o ladrilho, a argila de cerâmica, o esmalte, a

porcelana e substâncias semelhantes, que, quando são bem unidas, brilham, e

quando o são menos, brilham, embora igualmente duras. Mas todas essas coisas

que se fazem de sucos prensados são frágeis e não possuem aderência ou

tenacidade, O papel, porém, é um corpo tenaz, que pode ser cortado e rasgado, e

tanto se parece com a pele do animal quanto com as folhas da planta, ou com

algum produto semelhante da natureza. E não é frágil como o vidro; não é

tecido como o pano; mas possui fibra e não fios separados, à maneira das

matérias naturais; entre as matérias artificiais não se encontra nenhuma

semelhante: bem por isso trata-se de uma instância monádica. Entre as

substâncias artificiais, devem preferir -se as que mais se aproximam da natureza,

em caso contrário devem ser preferidas as que a dominam e, com vigor,

modificam-na.

Entre as instâncias de engenho ou da mão do homem, não devem ser

desprezados a prestidigitação e os jogos de destrezas; muitos deles, mesmo

sendo de uso superficial e como diversão, podem propiciar informações úteis.

Finalmente, não podem também ser omitidas a s coisas supersticiosas e mágicas

(no sentido vulgar da palavra). Ainda que se trate de coisas recobertas de uma

pesada massa de mentiras e de fábulas, mesmo assim devem ser observadas

para se verificar, mesmo por acaso, alguma operação natural. Referimo-nos a

fatos como o do ilusionismo ou do fortalecimento da imaginação, ou da

simpatia das coisas a distância, o da transmissão de um espírito a outro, como

de um corpo a outro, e fatos semelhantes.176

XXXII

De tudo que foi dito antes, fica claro que as cin co instâncias de que tratamos (a

saber: instâncias conformes, instâncias monádicas, instâncias desviantes,

instâncias limítrofes e instâncias de potestade) não devem ficar guardadas até

que se estude uma natureza adequada (como deve ser feito com as outras

instâncias propostas e com outras que vêm a seguir); ao contrário, deve-se

imediatamente fazer uma coleção delas como uma espécie de história particular,

pois servem para digerir as coisas que penetram no intelecto e para corrigir a

própria constituição do intelecto, que não está infenso à perversão e à

deformação nas suas incursões cotidianas e rotineiras.

Essas instâncias devem ser utilizadas como uma espécie de remédio

preparatório para retificação e purificação do intelecto. Pois tudo o que afasta o

intelecto das coisas habituais aplaina e nivela a sua superfície para a recepção

da luz seca e pura das noções verdadeiras.

Além disso, essas instâncias abrem e preparam o caminho para a parte

operativa; como diremos no lugar próprio quando tratarmos das deduções para a

prática.177

XXXIII

Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em décimo primeiro lugar as

instâncias de acompanhamento e as instâncias hostis,178 a que costumamos

também chamar de instâncias das proposições fixas. São essas instâncias que

revelam algum corpo ou matéria, com o qual a natureza investigada sempre se

apresenta como com uma companheira inseparável; mas do qual, por seu turno,

a natureza se afasta sempre e procura exclui-lo como estranho e inimigo. A partir

de tais instâncias formam-se proposições certas e universais, afirmativas ou

negativas, nas quais o sujeito será o referido objeto concreto e o predicado a

própria natureza investigada. As proposições particulares não são de modo

algum fixas; em vista disso a natureza investigada se encontra, fluida e móvel,

em um corpo concreto ou assentada em condições de ser adquirida ou se

interrompe e é deposta. Por isso, deve ser lembrado que as proposições

particulares não têm maior prerrogativa, com exceção dos casos de migração de

que antes já falamos.179 Apesar disso, as proposições particulares, confrontadas

e comparadas com as universais, são de grande ajuda, como mais adiante

diremos. Contudo, nessas proposições universais já não se requer uma

afirmação ou negação absolutas, pois são suficientes para o seu uso, ainda que

haja alguma rara exceção.

O uso das instâncias de acompanhamento é o delimitar a investigação

afirmativa da forma. Como as instâncias migrantes delimitam a investigação

afirmativa da forma, estabelecendo como condição necessária que a forma seja

qualquer coisa que por qualquer ato de migração se adquire ou se perde, assim

também, as instâncias de acompanhamento estabelecem como condição

necessária que a forma seja qualquer coisa que penetre a concreção do corpo, ou

que dela se afaste. Em vista disso, quem conhece bem a constituição ou

esquematismo de um corpo não estará muito longe de trazer à luz a forma da

natureza investigada.

Por exemplo, suponha-se que a natureza investigada é o calor; instância de

acompanhamento é a chama. Na água, no ar, na pedra, no metal e em

muitíssimos outros corpos, o calor é móvel e pode ou não se exercer, mas toda

chama é quente e o calor é sempre encontrado na concreção da chama. Mas

entre nós não se encontra qualquer instância hostil ao calor. Os nossos sentidos

não conhecem com segurança a temperatura das entranhas da terra, mas de

todos os corpos conhecidos não há qualquer concreção que não seja suscetível

de calor.

Suponha-se, agora, que a natureza a ser investigada seja da consistência;

instância hostil é o ar. De fato, o metal pode ser fluido e pode ser consistente;

igualmente o vidro; e até a água pode se tornar sólida quando gela; mas é

impossível que o ar se torne consistente e perca a sua fluidez.

Restam-nos duas observações ou advertências sobre as instâncias dessas

proposições fixas, que são de utilidade para o nosso trabalho. A primeira é a de

que, se falta completamente a universal afirmativa ou negativa, com cuidado

nota-se como não existente; tal como fizemos com o calor, no qual falta uma

universal negativa (pelo que se conhece) na natureza das coisas. Assim, se a

natureza investigada é o eterno ou o incorruptível, entre nós falta a universal

afirmativa, pois não se pode predicar o eterno e o incorruptível de nenhum dos

corpos que se encontra sob o céu ou sobre a crosta da terra. A segunda

advertência é a de que às proposições universais, tanto negativas quanto

afirmativas, devem juntar-se aquelas instâncias concretas que parecem aderir ao

que é inexistente, como no c aso do calor as chamas muito fracas e que queimam

muito pouco; e no da incorruptibilidade, o ouro é o que dela mais se aproxima.

Todas essas coisas, de fato, indicam os limites da natureza entre o existente e o

não existente e constituem as circunscrições das formas,180 para que não se

desprendam e ponham-se a vagar fora das condições da matéria.

XXXIV

Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em décimo segundo lugar as

instâncias subjuntivas,181 a que já nos referimos no aforismo anterior e a que

costumamos chamar também de instâncias da extremidade ou do termo.182 Tais

instâncias não são úteis apenas se juntas a proposições fixas, mas também por si

mesmas e em suas próprias propriedades. Indicam, de um modo não obscuro, as

dimensões das coisas e as verdadeiras divisões da natureza, o limite até o qual

atua a natureza e produz algo, e, enfim, a passagem da natureza a outra coisa. É

o caso do ouro em relação ao peso; do ferro em relação à dureza; da baleia em

relação ao tamanho dos animais; do cão em relação ao olfato; da inflamação da

pólvora em relação à expansão violenta; e coisas semelhantes. Tais coisas se

colocam no grau mais elevado, mas não se deve deixar de ter em igual conta as

coisas que estão nos graus inferiores mais baixos, como o espírit o do vinho em

relação ao peso; a seda em relação à suavidade; os vermes da pele em relação ao

tamanho dos animais, etc.

XXXIV

Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em décimo terceiro lugar as

instâncias de aliança ou de união.183 São as que confundem e reúnem naturezas

consideradas como heterogêneas, e que as divisões usuais designam e

consideram como tal.

As instâncias de aliança mostram que as operações e os efeitos que se atribuem

como próprios de qualquer das naturezas heterogêneas pertencem também a

outras naturezas heterogêneas. Com isso se comprova que aquela suposta

heterogeneidade não é verdadeira ou essencial, nada mais sendo que uma

modificação da natureza comum. Bem por isso, são de grande utilidade para

conduzir e elevar o intelecto das diferenças específicas aos gêneros, e para

dissipar as falsas imagens das coisas que constituem a máscara com que a nós se

apresentam as naturezas nas substâncias concretas.

Por exemplo, tome-se para investigação a natureza do calor. Tome-se como

completamente consagrada e autorizada a distinção do calor em três gêneros: o

calor dos corpos celestes, o calor dos animais e o calor do fogo, e que tais

gêneros de calor diferem, entre si, pela própria essência e pela espécie, ou pela

natureza específica, sendo dessa forma completamente heterogêneos.

Especialmente o calor do fogo se comparado com os outros dois, uma vez que o

calor dos animais e dos corpos celestes engendra e reanima enquanto o do fogo

destrói e consome. Pertence por isso às instâncias de aliança o conhecido

experimento no qual se introduz o ramo de vinha em uma casa onde permanece

aceso um foco de fogo, o que faz com que a uva amadureça até um mês antes do

que se estivesse fora. Assim, o amadurecimento da fruta ainda presa à árvore

pode ocorrer graças ao fogo, quando parecia um efeito reservado à ação do sol.

Desde o início o intelecto, deixando de lado a teoria da heterogeneidade essencial,

dispõe-se facilmente a investigar as verdadeiras diferenças que há na

realidade entre o calor do sol e o do fogo, das quais resulta que suas operações

sejam tão diversas, embora em si mesmos participem de uma natureza comum.

As diferenças são em número de quatro. A primeira é a de que o calor do sol,

comparado com o calor do fogo, é muito mais leve e moderado; a segunda é de

que em qualidade é muito mais úmido, especialmente porque chega até nós

através da atmosfera; a terceira (que é a mais importante) é sumamente

desigual: quando se aproxima aumenta, quando se distancia diminui, o que

contribui muito para a geração dos corpos. Aristóteles com razão assegura que a

causa prin cipal das gerações e das corrupções que ocorrem sobre a superfície da

terra reside no curso oblíquo do sol sobre o zodíaco,184 ocasião em que o calor

solar, quer durante a aproximação do dia e da noite, quer durante a sucessão das

estações, resulta sempre estranhamente diverso. Mas Aristóteles não deixa de

desfigurar e corromper essa correta sentença, porque, colocando-se como

árbitro da natureza, como era de seu feitio, indica, de modo autoritário, como

causa da geração a aproximação e como causa da corrupção o distanciamento

do sol. Na verdade, a proximidade e o distanciamento do sol, indiferentemente,

são causas tanto da geração como da corrupção. Pois a diversidade do calor

ajuda tanto a um como a outro processo, enquanto a sua constância serve apenas

para a conservação dos corpos. Mas há ainda uma quarta diferença entre o calor

do sol e o do fogo e que é muito importante: a de que as operações do sol se

desenvolvem durante um lapso bastante longo, enquanto a duração do fogo,

atiçada pela impaciência humana, desenvolve-se e é levada a termo em lapso

breve. Porém, se se procura amainar e reduzir o calor do fogo a um grau mais

moderado e mais leve de intensidade, o que é possível de muitas maneiras,

aspergindo ar úmido para reproduzir a diversidade do calor solar, depois de um

processo lento (não tão lento como o que ocorre devido às operações do sol,

mas mais longo do que o que ocorre comumente pelas operações comuns do

fogo), será então observado o desaparecimento de toda a heterogeneidade entre

os dois gêneros de calor, e será possível imitar a ação do sol e, até mesmo, em

alguns casos, superá-lo com o calor do fogo. Uma outra instância de aliança é a

revivescência, colocada em estado letárgico e quase morta pelo frio, graças à

ação de um débil torpor do fogo. Daí facilmente se retira a conseqüência de que

o fogo tanto serve para restituir a vida aos animais como para sazonar os frutos.

Também é célebre a invenção de Fracastoro,185 da ventos a muito quente, que os

médicos colo cam na cabeça dos apopléticos em gravíssimo estado, a qual lhes

devolve a vida, colocando em movimento os espíritos animais, comprimidos e

sufocados pelos tumores e pelas obstruções do cérebro. É exatamente como age

o fogo sobre a água ou sobre o ar. Ainda, às vezes, o calor do fogo abre os ovos,

reproduzindo o próprio calor animal. E há ainda muitos exemplos semelhantes

que não são passíveis de dúvida, de que o calor do fogo em muitas ocasiões

pode ser substituído eficazmente pelo calor dos corpos celestes e pelo calor dos

animais.

Igualmente, tomem-se para investigação as naturezas do movimento e do

repouso. Parece haver uma solene diferença, extraída dos arcanos da filosofia,

de que os corpos naturais ou giram ou seguem em linha reta, ou ficam em

repouso e quietos. Pois pode ocorrer o movimento sem término ou o repouso

sem término, ou movimento para o término. Pois bem, o movimento de rotação

perene parece ser próprio dos corpos celestes, o repouso ou a quietude parecem

pertencer ao globo terrestre; e os outros corpos que são chamados pesados e

leves, colocados fora do seus lugares naturais, movem-se em linha reta no

sentido da massa ou agregado dos corpos semelhantes, isto é, leves, para cima,

em direção ao sol; os pesados, para baixo em direção à terra. E são belas

palavras para serem ditas!186

Uma instância de aliança é um cometa qualquer, mesmo dos mais baixos, que,

apesar de estar muito abaixo do céu, mesmo assim tem movimento circular. E já

foi abandonado o juízo de Aristóteles,187 segundo o qual haveria um

encadeamento de cometas, ligando-os a alguma estrela, o mesmo não

acontecendo com os satélites. Não só as suas razões são improváveis como

também a experiência mostra o percurso errante e irregular que têm os cometas

no céu.

Outra instância semelhante de aliança sobre esse assunto é o movimento do ar,

que nos trópicos (onde os círculos de rotação são mais amplos) gira do oriente

para o ocidente.

E uma outra instância poderia ser o fluxo e o refluxo do mar, se se conseguisse

averiguar que as próprias águas têm um movimento de rotação (ainda que débil

e lento), do oriente para o ocidente; mas de forma tal que haja um movimento

completo duas vezes por dia. Se assim são as coisas, é evidente que o

movimento de rotação não se limita aos corpos celestes, mas que também se

comunica ao ar e a água. Também a propriedade dos corpos leves de tenderem

para o alto é duvidosa. Em relação a isso pode-se tomar uma bolha de água

como instância de aliança. De fato, quando se introduz ar debaixo da água,

aquele sobe rapidamente para a superfície, por um movimento de percussão,

como o chama Demócrito,188 isto é, graças ao próprio golpe da água que desce é

que o ar é expelido, e não por alguma força própria. E, quando chega à

superfície, o ar é impedido pela própria água de sair rapidamente, pois, mesmo

que a resistência da água seja muito débil, ela não suporta com muita facilidade

a interrupção da sua continuidade, por mais forte que seja o impulso do ar no

sentido das regiões superiores.

Tome-se igualmente para a investigação a natureza do peso. A distinção,

comumente aceita, é a de que os corpos densos e sólidos movem-se em direção

ao centro da terra e os corpos leves e tênues em direção aos céus, como seus

lugares naturais . Mas tal opinião (ainda que bem aceita nas escolas), de que os

lugares têm alguma força, é inteiramente estúpida e pueril. Provoca o riso dos

filósofos que afir mam que, se a terra fosse perfurada, os corpos pesados

parariam ao chegar ao centro. Na verdade seria uma grande força do nada, ou de

um ponto matemático, a de atrair para si os corpos, ou o que se queira! Um

corpo só pode ser afetado por um outro corpo e a tendência a subir e a descer

está ou no esquematismo que se move ou no seu consenso ou simpatia com um

outro corpo. E, se se encontrasse um corpo denso e sólido que caísse para a

terra, estaria já refutada essa distinção. Mas se se aceita a opinião de Gilbert 189

de que a força magnética da terra para atrair os corpos graves não vai além da

órbita de sua atividade (pois ela atua sempre até uma certa distância e não

mais), e se se pudesse provar isso com algum exemplo, teríamos por fim uma

instância de aliança nessa matéria. Contudo, até agora não se observou nenhuma

instância certa e evidente a esse respeito. Uma instância próxima é dada pelos

caracteres do céu conhecidos dos navegantes do oceano Atlântico a caminho

das Índias Orientais ou Ocidentais. Repentinamente vertem os céus tanta água

que parece se ter formado, nessas alturas, com antecedência, uma porção de

água, que ai permaneceu suspensa, e que foi desalojada e arremessada por uma

causa violenta, não parecendo dever-se o fenômeno ao movimento natural da

gravidade. Em vista disso pode-se chegar à conclu são de que uma massa de

matéria densa e compacta, colocada a grande distância da terra, continuaria

suspensa, como a própria terra, sem cair, a não ser se provocada. Mas não se

pode ter muita certeza disso. Deste e de outros exemplos pode-se chegar à

conclusão do quanto falta à história na tural de que dispomos, pois somos

obrigados a servirmo-nos de seus exemplos no lugar de instâncias certas.

Igualmente, tome-se como exemplo para investigação o discurso da razão.190

Parece bem fundada a famosa divisão da racionalidade do homem e da

instintividade dos animais. Contudo, algumas ações das bestas parecem indicar

que elas quase que sabem fazer uso do silogismo. Conta-se, por exemplo, que

um corvo, estando quase morto de sede, devido a grande seca, encontrou água

na cavidade de um tronco de árvore, e como não pudesse penetrar pela estreita

abertura, pôde a jogar pedras até que, subindo o nível da água, por fim, pôde

matar a sede, passando tal fato a provérbio.191

Da mesma maneira, proceda-se à investigação da natureza do visível. Para não

comportar objeções, a distinção entre a luz, que é o meio comum que permite a

visão dos objetos, e a cor, que é o meio subordinado, porque não pode surgir

sem a luz, da qual parece nada mais ser que uma imagem ou modificação: a

respeito, constituem instâncias de aliança, de um lado a neve em grande

quantidade, e de outro, a chama do enxofre. No primeiro caso parece haver uma

cor primariamente reluzente, no segundo, uma luz em vias de assumir uma cor.

XXXVI

Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em décimo quarto lugar as

instâncias cruciais,192 vocábulo tomado às cruzes que se colocam nas estradas

para indicar as bifurcações. Também as costu mamos chamar de instâncias

decisivas e judiciais 193 e, em alguns casos, de instâncias de oráculo e

mandato.194 São elas descritas como se segue. Quando, na investigação de uma

natureza, o intelecto se acha inseguro e em vias de se decidir entre duas ou mais

naturezas que se devem atribuir à causa da natureza examinada, em vista do

concurso freqüente e comum de mais naturezas, em tais situações, as instâncias

cruciais indicam que o vínculo de uma dessas naturezas com a natureza dada é

constante e indissolúvel, enquanto o das outras é variável e dissociável. A

questão é resolvida e é aceita como causa da primeira natureza, enquanto as

demais são afastadas e repudiadas. Tais instâncias são muito esclarecedoras e

têm uma significativa autoridade. Muitas vezes, nelas termina o curso da

investigação ou em muitas outras este é por elas completado. Mas às vezes as

instâncias crucia is aparecem entre as instâncias antes indicadas; mas, em sua

maior parte, são buscadas, aplicadas intencionalmente e estabele cidas com

trabalho árduo e diligente.

Como exemplo para a investigação, tome-se o fluxo e o refluxo do mar, que se

repete duas vezes por dia, durante seis horas o fluxo e seis horas o refluxo, com

intervalos regulares, e com alguma diferença que coincide com o movimento da

lua. Tem-se aí uma bifurcação ou encruzilhada.

Esse movimento necessariamente é provocado por uma das seguintes causas: ou

pelo movimento da água de um lugar para outro, como acontece quando se agita

uma vasilha, ou pela subida e descida da água a partir do fundo, como acontece

com a água fervente, que sobe borbulhando e depois se acalma. O problema

reside em se relacionar o fluxo e o refluxo a uma dessas causas. Se é a primeira

escolhida, segue-se que enquanto há fluxo de um lado do mar em algum outro,

ao mesmo tempo, deve haver refluxo. E necessário verificar se isso é

verdadeiro. Contudo, as observações feitas p or Acosta,195 ao lado das de outros

observadores cuidadosos, testemunham que o fluxo ocorre ao mesmo tempo

sobre as costas da Flórida e nas costas do lado oposto, da Espanha e da África, o

mesmo ocorrendo com o refluxo. Ao contrário, portanto, do que se poderia

esperar, ou seja, havendo fluxo na costa da Flórida teria de haver refluxo nas

costas da Espanha e da África. Examinando o assunto mais atentamente, não

fica rechaçado o movimento de progressão em favor do movimento de elevação.

De fato, poderia ocorrer que o movimento de progressão provocasse, ao mesmo

tempo, a inundação das praias opostas de um mesmo leito, como acontece nos

rios, quando as águas trazidas de outra parte sobem e baixam em ambas as

margens nas mesmas horas. Mas, assim mesmo, trata-se de um movimento de

progressão. Desse modo, pode ocorrer que as águas provenientes em grande

quantidade do oceano Oriental Indico sejam lançadas no leito do oceano Atlân -

tico, provocando a inundação simultânea das praias opostas. O fluxo poderia

assim se v erificar no mar Austral, que na verdade não é menor que o Atlântico,

mas mais largo e extenso.

Com isso chegamos, finalmente, a uma instância crucial. Se soubéssemos

seguramente que, quando ocorre o fluxo nas duas praias opostas da Flórida e da

Espanha no Atlântico, o mesmo ocorre no Peru e no dorso da China, no mar

Austral, então, essa seria uma instância decisiva que conduziria ao repúdio do

movimento progressivo como causa, pois não haveria outro mar ou lugar onde

pudesse ocorrer o retorno ou o refluxo ao mesmo tempo. Tal fato pode

facilmente ser verificado através dos habitantes do Panamá e de Lima (onde se

localiza o pequeno istmo que separa o oceano Atlântico do Austral), que podem

observar se o fluxo e o refluxo ocorrem ao mesmo tempo em uma e outra face

do istmo ou não. Esta seria a solução, considerando-se a terra como imóvel; mas

se a terra gira, poderia ocorrer, devido à desigualdade do movimento de

velocidade e de aceleração da terra e das águas do mar, que isso provocasse

violenta agitação das águas, que seriam arremessadas para o alto, produzindo o

fluxo; e que depois, caindo, abandonadas a si mesmas, ocasionariam o reflu xo.

Mas esse seria assunto para outra investigação. Porém, deve ficar assentado que,

se ocorre o fluxo em algum lugar, há necessidade de que em algum outro ocorra

o refluxo ao mesmo tempo.

Semelhantemente, tome-se como objeto de investigação a natureza do

movimento que acabamos de supor, ou seja, o movimento marinho de subida e

de descida das águas, para que se possa (depois de um diligente exame)

rechaçar o mencionado movimento progressivo. Deparamo-nos, então, com

uma trifurcação. É necessário que este movimento, graças ao qual as águas

sobem e descem, sem o concurso do impulso das águas de outro mar, ocorra de

uma dessas três maneiras seguintes. Que tal quantidade de água surja das

entranhas da terra e para elas de novo se recolha; ou que não haja qualquer

quantidade maior de água, mas que as mesmas águas, sem aumentar a sua

quantidade, dilatem-se ou rarifiquem-se a ponto de ocupar maior espaço e

dimensão, e depois se contraiam para o volume inicial; ou que não haja aumento

nem de quantidade e nem de extensão, mas que as mesmas águas (tal como são

em quantidade, densidade e rarefação) subam e depois desçam em razão de uma

força magnética que as atrai para o alto e por simpatia. Assim, deixando de lado

os dois primeiros movimentos, vamos restringir a questão (se assim se desejar)

a este último movimento, procurando investigar se há a ele vação por consenso,

simpatia ou força magnética.196 Em primeiro lugar, é manifesto que a totalidade

das águas contidas no vão do mar não se pode elevar de uma vez, por falta de

algo que a substitua no fundo; se houvesse nas águas uma tendência nesse

sentido, ela seria reprimida e interrompid a pela força de coesão das coisas ou

(como se diz vulgarmente) para se evitar a produção do vazio. Em

conseqüência, o que resta é que as águas se elevam de um lado e de outro

diminuem e abaixam. Donde, também, a necessidade de que a força magnética,

não podendo exercer -se sobre o todo, atua mais intensamente no centro, de

maneira a atrair as águas que se elevam e deixam livres e descobertas as praias.

Chegamos, com isso, a uma instância crucial sobre esse assunto, e que é a

seguinte: se se descobrir que no refluxo a superfície do mar é mais arqueada e

redonda, elevando-se as águas no centro do mar e retirando-se das praias;

enquanto que no fluxo a superfície é mais plana e lisa, voltando as águas à sua

posição anterior; então, em virtude dessa instância decisiva, pode ser aceita a

força magnética como causa das marés; caso contrário, deverá ser inteiramente

afastada. Esse experimento não deveria apresentar dificuldade se levado a efeito

nos estreitos, por meio de sonda, e possibilitaria estabelecer se o mar no refluxo

no centro é mais alto, ou seja, mais profundo que no fluxo. É necessário, porém,

observar, se este for o caso, que, ao contrário da opinião corrente, as águas se

elevam no refluxo e se abaixam no fluxo, banhando o litoral.

Da mesma maneira, tome-se para a investigação a natureza do movimento

espontâneo de rotação e procure-se verificar especialmente se o movimento

diurno, pelo qual o sol e as estrelas nascem e põem-se diante dos nossos olhos,

corresponde a um verdadeiro movimento de rotação daqueles corpos celestes,

ou trata-se de um movimento aparente causado pelo movimento da terra.

Instância crucial a respeito poderia ser a seguinte: se se puder constatar sobre o

oceano um movimento de oriente a ocidente, mesmo muito fraco; se tal movimento

parece um pouco mais rápido no ar, especialmente entre os trópicos,

onde é mais perceptível pela maior amplitude da volta, se se torna ainda mais

vivo e visível nos cometas mais próximos da terra; se também aparece nos

planetas com intensidade crescente, proporcional à sua distância da terra,

tornando-se muito veloz no céu estrelado; então se estabelecerá como certo que

o movimento diurno é próprio do céu e se o recusará à terra; pois tornar-se-á

claro que o movimento de oriente a ocidente pertence aos céus, na sua

universalidade, e diminui aos poucos à medida que se distancia das alturas do

céu, finalmente se interrompendo com a terra imóvel. 197

Da mesma maneira, tome-se para a investigação o movimento de rotação que é

difundido entre os astrônomos, que vai no sentido contrário ao do movimento

diurno, isto é, de ocidente a oriente; movimento que os astrônomos antigos

atribuíam aos planetas e ao céu estrelado, mas Copérnico e seus seguidores

também o atribuem à terra. Observe -se desde logo se se encontra na natureza

um movimento desse tipo, ou se foi suposto e estabelecido pela comodidade e

pela brevidade dos cálculos científicos, ou seja, para explicar os movimentos

celestes com círculos perfeitos. Contudo, não se pode provar que se encontre,

nas regiões celestes, um verdadeiro movimento desse gênero; nem pelo fato de

que o movimento diurno num planeta não retorna ao mesmo ponto do céu

estrelado, nem com a posição diversa dos pólos do zodíaco em relação ao da

terra, que são os dois caracteres pelos quais esse movimento se nos apresenta. O

primeiro fenômeno pode muito bem ser explicado pelo adiantamento do céu

estrelado que deixa para trás os planetas, o segundo pelas linhas espirais, de

modo a haver desigualdade no retorno dos planetas e a sua inclinação no sentido

dos trópicos pode ser antes modificação do movimento único diurno, que

movimentos recalcitrantes em volta de pólos diversos. E é mais do que certo

que aos sentidos esse movimento se apresenta exatamente na forma que

indicamos, sempre que queremos contemplar um pouco o céu com olhos de

leigo, sem nos dar conta do que dizem os astrônomos e as escolas, que com

freqüência ambicionam contradizer injustamente os sentidos, preferindo o que é

mais obscuro, O sentido do movimento, antes, já representamos como fios de

ferro como em uma máquina.

Instância crucial nesse assunto poderia ser a seguinte: se em alguma história

fidedigna for indicado um cometa, mais alto ou mais baixo, que não tenha

girado de acordo com o movimento diurno (ainda que de forma irregular), mas

que tenha tomado uma direção contrária, então, com certeza, poder-se-á

estabelecer a realidade daquele movimento. Se, contudo, nada for encontrado de

semelhante, será necessário duvidar, e ter-se-á que recorrer a outras instâncias

cruciais a respeito do assunto.

Da mesma maneira, tome-se para investigação a natureza do peso e da

gravidade. De imediato, apresentam-se duas orientações. Ou os corpos pesados

e graves tendem, por natureza, ao centro da terra, isto é, graças ao seu

esquematismo; ou são atraídos e arrastados pela força da própria massa

terrestre, como por efeito de agregação dos corpos de igual natureza e a ela

levados pelo consenso. Se se tomar por verdadeira a segunda hipótese, segue-se

que quanto mais os graves se aproximam da terra tanto maiores são a força e o

ímpeto com que são impelidos para ela; enquanto, quanto mais se distanciam

tanto mais fraca e lenta torna-se essa força, exatamente como acontece na

atração magnética. Por outro lado, a atração deve ocorrer a partir de uma certa

distância, senão o corpo se distanciaria da terra a ponto de fugir ao seu influxo e

permaneceria suspenso como a própria terra, sem nunca cair.198

A respeito desse assunto, poderia ser a seguinte a instância crucial: seja o caso

de dois relógios, um dos quais movido por contrapeso de chumbo, outro movido

por compressão de uma mola de ferro; verifique-se se um é mais veloz que o

outro; coloque-se o primeiro no ápice de algum templo altíssimo, tendo antes

sido regulado com o outro de forma a funcionarem de modo correspondente,

deixando o outro embaixo; isso para se verificar cuidadosamente se o relógio

colocado no alto se move mais devagar em vista da menor força de gravidade.

A experiência deve ser repetida com a colocação do relógio nas profundezas de

alguma mina situada muito abaixo da superfície da terra, para ser verificado se

ele se move mais velozmente que antes, em razão de maior força de atração. Se

se verificar que efetivamente o peso dos corpos diminui com a sua colocação no

alto e que aumenta embaixo, quando mais próximos do centro da terra, então

estará estabelecido que a causa do peso é a atração da massa terrestre.

Da mesma maneira, tome-se para investigação a natureza de polaridade que tem

a agulha de ferro quando tocada pelo magneto. A explicação a respeito de tal

natureza se bifurca na ordem seguinte: é necessário que seja o magneto que

comunique à agulha a sua capacidade de se voltar para o pólo; ou que o ferro

simplesmente seja excitado e predisposto pelo magneto, mas que o movimento

em si mesmo tenha sido causado pela presença da terra; é o que Gilbert afirma e

procura demonstrar com muitos exemplos. Pois para isso tendem as

observações que levou a efeito com muita perspicácia e que foram por ele

colecionadas. Uma é a de que um cravo de ferro que tenha permanecido por

muito tempo na posição norte -sul adquire uma tendência à polaridade, sem ter

sido tocado pelo magneto; como se a própria terra, que pela sua distância atua

muito debilmente (estabelece Gilbert que de fato a superfície ou crosta terrestre

é desprovida de força magnética), apesar disso, fosse capaz de substituir o toque

do magneto da excitação do ferro, pela longa permanência e depois de excitado

ser capaz de dirigi-lo e voltá-lo no sentido do pólo. A outra explicação é a de

que o ferro vermelho ou branco de calor colocado a esfriar na direção dos pólos,

contrai a capacidade de para ele voltar-se sem o contato do magneto; como se as

partes do ferro colocadas em movimento pelo fogo, quando de sua retração à

posição original, isto é, durante o processo de esfriamento, fossem mais aptas e

mais sensíveis à virtude emanada pela terra, permanecendo excitadas. Mas tais

observações, embora cuidadosas, não chegam a provar de fato o que ele

sustenta.

A propósito desse assunto, poderia ser a seguinte a instância crucial: tome-se

um magneto esférico como a terra. Assinalados os seus pólos, voltem-se-nos,

não a norte e a sul, mas a oriente e a ocidente, mantendo-o nessa posição; sobre

ele coloque-se depois uma agulha de ferro, ainda não tocada pelo magneto,

assim permanecendo durante seis ou sete dias. A agulha, depois de colocada

sobre o magneto, perde contato com os pólos do mundo, tornando seus os do

magneto (sobre isso não há qualquer dúvida); por isso, enquanto permanece

nessa posição, volta-se a oriente e ocidente do mundo; mas se a agulha tirada do

magneto e colocada sobre um eixo voltar-se na direção do eixo da terra

subitamente ou se tomar essa posição pouco a pouco, pode-se dizer, sem

dúvida, que a causa é a presença da terra; mas se a agulha se voltar como antes,

na posição oriente-ocidente, ou perder sua capacidade de apontar para os pólos,

se isso ocorrer, considere-se a causa como duvidosa e prossiga-se na

investigação.

Da mesma maneira, tome-se para investigação a substância corpórea que forma

a lua, a fim de se verificar se se trata de uma substância tênue, feita de fogo ou

de ar, como muitos dentre os primeiros filósofos acreditaram; ou se é sólida,

consistente, como Gilbert e muitos modernos e não poucos dentre os antigos

asseveram. As razões desta última opinião residem sobretudo no argumento da

reflexão dos raios solares por parte da lua, porque não parece possível uma tal

reflexão a não ser nos sólidos. A respeito desse assunto, poderiam ser (se é que

as há) instâncias cruciais todas as que demonstram a possibilidade de haver

reflexão em um corpo tênue como a chama, mas com espessura suficiente. Entre

outras, uma das causas do crepúsculo é a reflexão dos raios do sol na região

superior do ar. Em tardes calmas pode-se, às vezes, observar os raios solares

refletidos nas bordas das nuvens radiosas, de resplendor não menor, mas até

mais brilhante e mais majestoso que o proveniente do corpo da lua. E, contudo,

não se tem prova de que tais nuvens encerrem um corpo denso de água. Vê-se

também que o lume da vela, à noite, reflete -se na escuridão de fora da janela,

como se se tratasse de um corpo sólido. Poderia ser tentado o experimento de se

fazerem passar os raios do sol por um furo sobre uma chama azulada. É sabido

que os raios solares, incidindo a céu aberto sobre uma chama não muito clara,

ofuscam-na a ponto de parecer mais uma fumaça branca que uma chama. Essas

são as instâncias cruciais que ora ocorrem a propósito do assunto em questão,

mas certamente se podem encontrar outras e melhores. Mas, em qualquer caso,

deve-se considerar como estabelecido que apenas a chama de uma determinada

espessura é capaz de refletir os raios; em caso contrário, eles se desvanecem na

transparência. E tenha-se como certo que um raio luminoso, caindo sobre um

corpo plano, ou é refle tido para trás ou é recebido e enviado para outro lado.

Da mesma maneira, tome-se para investigação a natureza dos corpos projetados

ao ar, como dardos, flechas e balas. Os escolás ticos, segundo o seu costume,

tratam esse movimento com muita negligência, satisfazendo-se com dizer que é

um movimento violento, mas distinto daquele que chamam de movimento

natural. Descartam o problema da causa ou do primeiro impulso dado nesse

movimento refugiando-se no axioma que diz que “dois corpos não podem estar

no mesmo lugar sem se penetrarem”. E não se preocupam com o modo de se

desenvolver desse movimento. E, a propósito dessa questão, tem-se a bifurcação

seguinte: esse movimento, ou é produzido pelo ar que atua sobre o corpo

arremessado, como a correnteza sobre o casco da nave ou vento sobre a palha;

ou é produzido pelas partes do corpo, que, não podendo agüentar a violenta

pressão, lançam-se sucessivamente à frente para dela se libertarem. Com a

primeira solução está Fracastoro 199 e quase todos os outros que estudaram a

fundo o assunto. Não há dúvida de que o ar toma parte, e muito, nesse

movimento, mas há infinitos experimentos que confirmam a segunda como

verdadeira causa. Entre outras, poderia se constituir na instância crucial do

assunto a seguinte: uma lâmina ou um arame de ferro um pouco resistente, ou

uma pena de ave, encurvados, por pressão do dedo polegar e do indicador, que

em tal circunstância saltam bruscamente. E claro que esse fenômeno não r esulta

do ar que se reúne atrás do corpo em movimento, porque o ponto preciso em

que o movimento se manifesta é o centro e não a extremidade.

Da mesma maneira, tome-se para investigação a natureza do movimento súbito

e violento de expansão, que é provocado pela pólvora, graças à qual massas tão

grandes são levantadas e pesos tão consideráveis são arremessados como se

observa nas grandes minas e nos canhões. Eis a bifurcação a respeito dessa

natureza: o movimento ou é produzido por mero desejo do corpo em e xpandirse,

logo que pega fogo ou é produzido pelo desejo misto do espírito cru 200 em

fugir rapidamente do fogo, pelo qual é circundado, e por isso escapa

violentamente como de um cárcere. Os escolásticos e a opinião vulgar só

conhecem a primeira causa e acreditam estar fazendo boa filosofia dizendo que

a chama eclode em virtude da própria forma de seu ele mento, na sua

necessidade de se expandir para ocupar um espaço maior do que o que ocupava

o corpo quando se encontrava sob a forma de pólvora, e que daí advém aquele

movimento. Não pensam, no caso, que se isso fosse verdadeiro poder-se-ia

impedir a chama com corpo que tivesse uma massa capaz de comprimi-la e

sufocá-la, e, assim sendo, não haveria a necessidade do que falamos. Estão corretos

ao pensar que se se produz a chama é necessário que se produza uma

expansão e que daí segue-se uma explosão ou a remoção do corpo que se opõe.

Mas tal necessidade será evitada se a massa do corpo pesado chegar ao ponto de

sufocar a chama antes que se produza. Observa-se que a chama, especialmente

no seu início, é débil e leve, e requer uma cavidade na qual se possa exercitar e

ganhar forças. Com efeito, não se pode atribuir à chama, tomada isoladamente,

qualquer força extraordinária. Mas é verdade que as chamas explosivas, ou seja,

os ventos inflamados, são produzidas pelo contraste de dois corpos que possuem

naturezas contrárias, completamente inflamável um, como é o caso do enxofre;

e não inflamável outro, como é o caso do nitro; daí se produzindo um violento

contraste (uma vez que o terceiro corpo, isto é, o carvão de sálcio, não tem outra

função que a de amalgamar e juntar os outros dois corpos), tendendo o enxo fre,

a todo custo, a se inflamar, e procurando subitamente o espírito do nitro fugir

com toda força e, ao mesmo tempo, se dilatando (como o fazem também o ar, a

água e todas as demais substâncias cruas que se dilatam pelo calor), e nessa

fuga, unida à erupção, alimenta -se de todos os lados a chama do enxofre, como

por meio de foles ocultos.

De dois tipos podem ser as instâncias cruciais a respeito. Uma é oferecida pelos

corpos que são inflamáveis ao máximo, como o enxofre, a cânfora, a nafta e

semelhantes, como também os seus compostos. São mais aptos e mais fáceis de

se inflamarem que a pólvora, se não são impedidos; o que demonstra que a

simples tendência para se inflamar não é suficiente para a produção daquele

espantoso efeito. A segunda é oferecida pelos corpos infensos à chama e que a

incomodam, como é o caso de todos os sais. Estes, jogados no fogo, emitem um

espírito aquoso com peculiar ruído antes de se inflamarem; o mesmo, mas

menos intensamente, acontece com as folhas, ainda não completamente secas,

que se liberam da parte aquosa antes de pega rem fogo. Esse fenômeno observase

ainda no mercúrio, que não de todo mal é chamado de água mineral. O

mercúrio, realmente, sem se inflamar só com a explosão e a expansão, quase se

iguala à pólvora; e a ela misturado diz -se que multiplica a sua violência.

Da mesma maneira, tome-se como objeto de investigação a natureza transitória

da chama e a sua extinção momentânea. Com efeito, parece a nós, que a

natureza da chama não se fixa, nem adquire consistência, e que se renova a cada

instância e continuamente se vai extinguindo. E, de fato, manifesto que, nas

chamas que persistem e duram, tal duração não é a continuação ininterrupta de

uma mesma determinada chama, mas sucessão de chamas novas, que se engendram

em série e, na verdade, não permanecem idênticas em nenhum momento;

como se depreende do fato de sua súbita extinção, se se corta o sebo ou o

alimento. E, a respeito, defrontamo-nos com a seguinte bifurcação: ou a duração

momentânea deriva da interrupção da causa que engendra a chama, como

acontece com a luz, os sons, os movimentos tidos por violentos; ou a c hama é

levada a persistir pela sua natureza, mas é afetada e destruída pelas naturezas

contrárias.

A tal respeito a instância crucial poderia ser a que segue. Nos grandes incêndios

notam-se chamas altas; tanto mais altas quanto maior a área incendiada. A causa

da extinção parece situada nas bordas dos lados, onde a chama parece reprimida

e combatida pelo ar. Mas as chamas do meio, não circundadas pelo ar mas

unicamente por outras chamas, permanecem idênticas e não se extinguem, até

que o ar se acerque e acabe por ocupar, pouco a pouco, toda a área. Isso faz com

que a chama se assemelhe a uma pirâmide, mais ampla na base, onde está o

alimento, e mais estreita no vértice, onde o ar a combate. A fumaça, ao

contrário, é mais estreita na base, aumentando depois, formando uma espécie de

pirâmide invertida; isso porque o ar acolhe o fumo e comprime a chama.

Ninguém pode supor que a chama acesa seja feita de ar, uma vez que são dois

corpos, sem dúvida, heterogêneos.

Uma instância crucial mais acurada poderia ainda ser a da chama de duas cores.

Coloque-se no fundo de um recipiente de metal uma pequena vela acesa;

coloque-se o recipiente em uma vasilha e jogue-se em volta espírito de vinho

em quantidade suficiente para alcançar a borda da vasilha; a seguir acenda-se o

espírito de vinho. A sua chama será mais azulada e a da vela mais amarelada

(como as chamas, ao contrário dos líquidos, não se fundem rapidamente, será

fácil observar a diferença das cores). Nota-se, então, se a chama da vela

permanece em forma piramidal ou tende mais para a forma de um globo, desde

que não haja nada que a destrua ou constranja. Se assume a forma de um globo,

é necessário tomar-se por certo que ainda dura a mesma chama, mesmo inserida

na outra e dessa maneira protegida de força contrária do ar.

E aqui deixamos as instâncias cruciais. Foram tratadas um pouco longamente

para, aos poucos, habituar a mente humana a julgar por seus próprios meios e

segundo experimentos lucíferos, e não a partir de razões prováveis.201

XXXVII

Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em décimo quinto lugar as

instâncias de divórcio,202 que indicam a separabilidade de naturezas que em

grande parte se encontram juntas. Diferem das instâncias que se ligam às

instâncias de acompanhamento 203 pelo fato de que estas indicam a

separabilidade de uma natureza de um corpo concreto, que parece familiar, ao

passo que as de divórcio indicam a possibilidade de separação de uma natureza

de outra natureza. Diferem também das instâncias cruciais porque nada

determinam, apenas se limitam a indicar a separabilidade de uma natureza de

outra. Servem para a indicação de formas falsas e para refutar especulações

levianas, nascidas de coisas óbvias; constituem uma espécie de peso ou lastro

para o intelecto.204

Por exemplo, tomem-se para a investigação as quatro naturezas que Telésio

considera como companhias indivisíveis (ou inseparáveis)205 e da mesma

morada, que são as do calor, da luz, da tenuidade e da mobilidade ou da

prontidão para o movimento. Encontram-se entre elas muitas instâncias de

divórcio, tais como: o ar é tênue e móvel, mas não quente, nem luminoso; a lua

fornece luz, mas não calor; a água fervente é quente, mas não fornece luz; a

agulha de ferro, presa a um eixo, é ágil e móvel, embora se trate de um corpo

frio, denso e opaco, etc.

Da mesma maneira, tomem-se para investigação a natureza corpórea e ação

natural.206 Parece não poderem ser encontradas, a não ser subsistindo em um

corpo natural. Mas há entre elas um grande número de instâncias de divórcio.

Por exemplo , a ação magnética, pela qual o ferro é atraído pelo magneto e os

corpos pesados pelo centro da terra. Podem-se também acrescentar algumas

outras operações a distância. Tal ação atua no tempo, em momentos sucessivos,

e em um instante, no espaço, por graus e distâncias. Há, pois, um momento no

tempo e um intervalo no espaço no qual essa virtude ou ação permanece em

suspenso entre os dois corpos que provocam o movimento. O problema fica,

assim, colocado nos seguintes termos: os dois corpos que são os termos do

movimento dispõem ou modificam os corpos intermediários de modo a passar a

virtude, insensivelmente, de um termo a outro, por uma série de contatos reais,

não deixando de subsistir, nesse entretempo, no corpo intermediário, ou nada se

passa entre os dois corpos além da troca da sua virtude através do espaço. Em

todo caso, através dos raios luminosos, dos sons e através de outras virtudes que

atuam a distância, é possível que os corpos intermediários sejam dispostos e

alterados, tanto mais que se exige um meio adequado para levar a cabo a

operação, como vetor da força atuante. Mas a virtude magnética, ou de união

dos corpos, admite indiferentemente qualquer corpo intermediário e a força não

é por ele impedida, qualquer que seja a sua natureza. Se, pois, essa virtude ou

ação não tem necessidade de nenhum corpo intermediário, segue-se que se trata

de uma virtude ou ação natural que, por algum tempo e em algum lugar,

subsiste sem corpo, uma vez que não subsiste num dos corpos terminais nem

nos intermediários. Em vista disso, a ação magnética pode ser considerada uma

instância de divórcio entre a natureza corpórea e a ação natural. Pode-se

acrescentar como corolário ou vantagem, a não ser desprezado, o seguinte:

mesmo quem faz filosofia segundo os sentidos 207 pode encontrar a prova da

existência de entes ou substâncias separadas e incorpóreas. Com efeito, se uma

virtude ou ação natural, que emana de um corpo, pode subsistir, por algum

tempo, em algum lugar, separada do corpo, pode ser também que na sua origem

possa emanar de uma substância incorpórea. E isso contra a opinião de que

compete à natureza corpórea não apenas a conservação e a transmissão da ação

natural mas também a sua estimulação e produção.

XXXVIII

Seguem-se cinco ordens de instâncias a que costumamos chamar, com o mesmo

termo genérico, de instâncias de lâmpada ou de primeira informação,208 pelo

socorro que prestam aos sentidos. Toda interpretação da natureza começa pelos

sentidos e, das percepções dos sentidos e por uma via direta, firme e segura

alcança as percepções do intelecto, que constituem as noções verdadeiras e

axiomas. Em vista disso, quanto mais copiosas e exatas forem as representações

e provisões dos sentidos necessariamente tanto mais felizes e fáceis serão os

resultados finais.

Dentre os cinco tipos de instâncias de lâmpada, o primeiro revigora, amplia e

retifica as ações imediatas dos sentidos; o segundo torna sensível o que não é

diretamente sensível; o terceiro indica os processos continuados ou séries de

coisas e de movimentos que (em sua maioria) apenas são notados ao seu final

ou periodicamente; o quarto fornece matéria aos sentidos, quando o objeto se

encontra completamente ausente; o quinto estimula a atenção dos sentidos, a sua

vigilância e ao mesmo tempo limita a sutileza das coisas. Trataremos, a seguir,

de cada um deles.

XXXIX

Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em décimo sexto lugar as

instâncias deporta ou entrada.209 Com esse nome indicamos as instâncias que

ajudam as ações imediatas dos sentidos. A vista é manifestamente dos sentidos

o mais importante para a investigação, daí ser importante procurar

proporcionar-lhe ajuda. Estas podem ser de três espécies: as que podem

possibilitar-lhe perceber o que é invisível; as que lhe possibilitam ver mais

longe; as que lhe permitem perceber mais exata e distintamente.

Do primeiro gênero são (deixando de lado os óculos e similares, que apenas

servem para corrigir e atenuar a insuficiência da vista ou a má conformação do

órgão e, por isso, não nos oferecem nada de novo) as lentes recentemente

inventadas 210 que revelam as minúcias invisíveis e latentes dos corpos, seus

ocultos esquematismos e delicados movimentos, com um considerável aumento

das imagens. Com esse concurso, distinguem-se, não sem espanto, a figura do

corpo, os seus delineamentos, como também as cores e os movimentos antes

invisíveis da pulga, da mosca e dos vermes. Diz -se que uma linha reta traçada

com lápis ou pena, através dessas lentes, parece desigual e torta, pois nem os

movimentos da mão, a judados pela régua, nem a tinta ou a cor são realmente

iguais, embora tais diferenças sejam tão minúsculas que não podem ser

percebidas sem o auxílio dessas lentes. Os homens, a tal respeito, logo fizeram a

observação supersticiosa (como ocorre com todas as coisas novas e estranhas)

de que aquelas lentes iluminam as obras da natureza, mas deturpam as da arte,

O que demonstra somente o seguinte: que as estruturas naturais são muito mais

sutis que as da arte. De fato, aquelas lentes só servem para as coisas d iminutas;

e se as tivesse conhecido Demócrito, ter-se-ia ale grado muito, pensando ter

encontrado a forma de ver os átomos, que ele considerava invisíveis.211 Mas elas

só são de utilidade em relação aos corpos pequenos. Se servissem para observar

corpos gr andes ou partes pequenas desses para fazerem ver, por exemplo, o

tecido da tela como uma rede ou as particularidades ou irregularidades das pedras

preciosas, dos líquidos, da urina, do sangue, dos ferimentos e muitas outras

coisas, em tais casos se constituiriam em grande vantagem.

Do segundo gênero são as lentes inventadas com admirável esforço por

Galileu,212 por meio das quais é possível entrar em mais estreito contato com os

corpos celestes, como o fazem as naves nas instâncias marítimas. Por seu

intermédio sabemos que a Via Láctea não é mais que um aglomerado de

pequenas estrelas, distintas em número e natureza, fato de que os antigos mal

suspeitaram. Por seu intermédio fica demonstrado que os espaços dos chamados

mundos planetários não estão vazios de outras estrelas, mas que o céu começa a

se tornar cheio de estrelas antes do próprio céu estrelado; embora se trate de

estrelas menores, invisíveis sem esses instrumentos. Por eles pode-se observar o

movimento de rotação das pequenas estrelas em torno de Júpiter, o que nos leva

a supor a existência de vários centros dos movimentos estrelares. Por seu

intermédio, podem-se observar e determinar claramente as diversas zonas de luz

e de sombra da lua; bem como se torna possível uma descrição aproximada de

seu corpo.213 Por seu intermédio, descobrimos, também, as manchas solares e

coisas semelhantes. Trata-se, sem dúvida, de descobertas notáveis, se se puder

dar crédito a tais demonstrações. Mas estas são tanto mais passíveis de suspeita

quanto o experimento se atém a esses poucos descobrimentos e por seu

intermédio não foram descobertas outras coisas igualmente dignas.

Do terceiro gênero são os bastões usados para medir as superfícies, os

astrolábios e outros instrumentos semelhantes próprios para dirigir e retificar,

mas não ampliar, a vista. As outras instâncias, que servem de auxílio aos outros

sentidos, em suas operações imediatas e particulares, se não aumentam a sua

capacidade de percepção, nada dizem ao nosso propósito. Por isso, não nos

ocuparemos delas.

XL

Entre as instâncias prerrogativas, colocamos em décimo sétimo lugar as

instâncias de citação,214 vocábulo tomado dos tribunais civis, que citam para

comparecimento o que ainda não compareceu, e a que também costumamos

chamar de instâncias evocantes,215 porque tornam sensível o que antes não o

era.

As coisas escapam aos sentidos devido a várias causas: pela distância em que

está colocado o objeto; pela intervenção de outros corpos entre o objeto e os

sentidos; pela natureza do objeto não facilitar a sua percepção; pela dimensão

muito pequena do objeto, não chegando a impressionar os sentidos; por não

haver tempo suficiente para impressionar os sentidos; pela prévia ocupação dos

sentidos por outro objeto, não possibilitando nova impressão. Tudo isso se relaciona

principalmente com a vista e um pouco com o tato, que são os sentidos

mais informativos em relação a tais objetos, enquanto os outros sentidos quase

não dão informação, a não ser imediatamente e de objetos que lhes são próprios.

No primeiro gênero, não há meios de se fazer redução ao sensível, a não ser que

a uma coisa que não pode ser vista, em razão da sua distância, se acrescente ou

se substitua outra que possa impressionar os sentidos, mesmo de longe: é o caso

de quando se faz uso de fogueiras, sinos e coisas semelhantes para se comunicar

alguma coisa.

No segundo gênero, pode-se obter a redução ao sensível por meio de alguma

coisa que se encontre na superfície de um corpo, e que revele o que se passa em

seu interior; isso numa posição em que não é possível a observação direta, em

vista da interposição de outras partes do referido corpo, que se não podem

remover. E o caso do estado geral do corpo humano, que se conhece pelo pulso,

pela urina e outros signos semelhantes.

O terceiro e o quarto gêneros são os mais freqüentes e, por isso, é possível

encontrar-se um grande número de exemplos. Assim, o ar, o espírito e coisas

semelhantes, que estão em todos os corpos sutis, mas que se não podem ver,

nem tocar. Por essa razão, o estudo desses corpos não pode prescindir das

deduções.

Por exemplo, tome-se para investigação a natureza da ação e do movimento do

espírito encerrado nos corpos tangíveis. Pois não há corpo tangível sobre a terra

que não cubra um espírito invisível, como uma veste. Aí tem origem a tríplice

fonte tão admirável e poderosa do processo do espírito em um corpo tangível: se

o espírito se desprende, o corpo se contrai e seca; se permanece dentro dos

corpos, abranda-os e os torna fluidos; se não se desprende nem nele permanece

por c ompleto, empresta forma, cria membros, assimila, digere, etc.. tornando-se

um organismo. Todas essas coisas se manifestam aos sentidos por seus efeitos

aparentes.

Com efeito, em todo corpo tangível e inanimado, começa por se multiplicar,

como que se nutrin do das portas tangíveis que são mais fáceis e estão para isso

preparadas; assimila -as, consome-as, convertendo-as em espírito, e depois

escapam juntos. Essa consumação e multiplicação do espírito se torna sensível

pela diminuição de peso. Em toda dessecação, efetivamente, ocorre perda de

uma parte da quantidade; e isso não tanto pelo espírito que aí antes se

encontrava, posto que o espírito por si mesmo não tem peso, mas devido ao próprio

corpo, que antes era tangível, mas que agora não o é mais. A saída ou

emissão do espírito se faz sensível pela ferrugem dos metais e outras

putrefações do gênero que ficam em seu início e não chegam ao ponto em que

começa a vivificação, e essas coisas pertencem ao terceiro gênero de processo.

De fato, nos corpos mais compactos, o espírito não encontra furos ou poros por

onde escapar; portanto, vê-se obrigado a empurrar e pressionar as partes

tangíveis, de maneira a fazê-las sair juntamente para a superfície, onde formam

a ferrugem e incrustações semelhantes. Os sinais sensíveis da contração das

partes tangíveis, depois da emissão de parte do espírito (que é a causa da

dessecação do corpo), são dados pela sua própria dureza, e mais ainda pelas

fendas, gretas, enrugamentos, dobras, etc., que são efeitos que a ela se seguem.

Por isso, as partes da madeira arqueiam-se e contraem-se; as peles se enrugam.

E não é só isso: sob a ação do fogo, que acelera a emissão do espírito, a

contração chega a fazer com que os corpos se dobrem e enrolem.

Se, ao contrário, o espírito é retido, mas se dilata e se excita pelo calor, e por

outras causas (como ocorre com os corpos duros), então os corpos amolecem,

como o ferro candente; outros metais se fluidificam, liqüefazem-se, como as

resinas, a cera e outras substâncias semelhantes. E as operações contrárias do

calor, endurecendo certos corpos e liquefazendo outros, conciliam-se facilmente

ao ser levado em conta que no endurecimento o espírito se evapora, na

liquefação é agitado, mas retido no corpo; é que, enquanto a liquefação é ação

própria do calor e do espírito, o endurecimento é ação das partes tangíveis

motivada pela saída do espírito.

Mas quando o espírito não está nem completamente retido nem completamente

desprendido, mas apenas faz esforços e tentativas na sua prisão corpórea, e se

depara com as partes tangíveis que lhe são obedientes e inclinadas a

acompanhar as suas operações e de fato o seguem, disso resulta a formação do

organismo, com seus membros e demais ações vitais, quer animal, quer vegetal.

Tal desenvolvimento pode ser tornado sensível especialmente com a cuidadosa

observação dos primeiros movimentos e das primeiras manifestações ou nas origens

da vida, nos animálculos que nascem da putrefação, como, por exemplo, os

ovos das formigas, vermes, moscas ou rãs que surgem depois da chuva, etc.

Para lhes dar a vida, é necessário um calor tênue e uma certa viscosidade da

matéria, para que o espírito não escape e para que a rigidez das partes não lhe

ofereça excessiva resistência e possa plasmá-las e modelá-las como à cera.

Outra diferenciação do espírito, respeitável e de freqüente aplicação (ou seja,

interrompido, ramificado e, ao mesmo tempo, ramificado e celulado,216 sendo o

primeiro o espírito de todos os corpos inanimados, o segundo o dos vegetais, o

terceiro o dos animais). Também essa diferenciação pode ser colocada diante

dos olhos, por várias instâncias de redução.

É evidente que as mais sutis configurações e os esquematismos das coisas

(mesmo que os corpos sejam inteiramente visíveis e tangíveis) não se pode nem

ver nem tocar. Por isso também aqui a informação procede por redução.

Contudo, a diferença fundamental primária dos esquematismos é obtida pela

maior ou menor massa de matéria que possa ocupar um mesmo espaço ou

dimensão. Os demais esquematismos que consistem na diversidade das partes

contidas em um mesmo corpo e na sua diversa colocação ou posição são

secundários em comparação com o primeiro.

Tome-se, pois, para investigação a natureza da expansão ou força de coesão da

matéria em relação aos vários corpos, para saber que quantidade de matéria se

contém em uma mesma dimensão de cada corpo. Nada há de mais verdadeiro na

natureza que a proposição “do nada nada provém” e que a outra sua parceira

“nada há que se reduza ao nada”; quer dizer, a quantidade em si da matér ia ou a

sua soma total permanece inalterada, sem aumentar ou diminuir.217 E não é

menos verdadeiro que “essa quantidade total de matéria se contém, mais ou

menos, nos mesmos espaços ou dimensões, conforme a diferente natureza dos

corpos”; assim é que a água contém mais, o ar menos; de modo que, se alguém

assegurasse que um mesmo volu me de água pode ser convertido em um volume

igual de ar, seria o mesmo que dissesse que se pode reduzir algo a nada; e, no

caso inverso, se alguém dissesse que um volume de ar pode ser convertido em

um igual volume de água, seria o mesmo que dissesse que se pode produzir algo

a partir do nada. É dessa diferente distribuição de matéria que se formam os

conceitos de raro e denso, usados depois de várias e confusas maneiras. Devese

também tomar como axioma a asserção bastante acertada: o mais ou o menos

da matéria deste ou daquele corpo pode ser reduzido a proporções exatas ou

quase exatas por meio de cálculos comparativos. Pelo que não estaria enganado

quem dissesse que em um determinado volume de ouro há tal acumulação de

matéria que o espírito do vinho necessitaria, para igualar tal quantidade de

matéria, de um espaço vinte e uma vezes maior que o ocupado pelo ouro.

A acumulação da matéria e suas proporções se tornam sensíveis pelo peso. O

peso, de fato, corresponde à quantidade de matéria em relação às partes de uma

coisa tangível, mas o espírito e a sua quantidade de matéria não podem ser

computados pelo peso, já que o corpo se torna mais leve e não mais pesado.

Mas elaboramos com bastante cuidado uma tábua disso, na qual são expostos os

pesos e os respectivos volumes de cada um dos metais, das principais pedras,

das madeiras, dos líquidos, dos óleos e de muitos outros corpos naturais e

artificiais. É um verdadeiro policresto, para fornecer tanta luz às informações

quanto as normas das operações e que pode levar à des coberta de muita verdade

insuspeitada. E não se deve subestimar o fato de que a referida tábua demonstra

que o peso específico dos corpos tangíveis observados (referimo-nos aos corpos

bem unidos, não os esponjosos, ou cavernosos e em boa proporção cheios de ar)

não ultrapassa a relação de vinte para um (um a vinte), já que assim limitada é a

natureza, pelo menos nos aspectos com que nos preocupamos.

Sentimos também que o espírito de exatidão de que nos ufanamos obriga-nos a

tentar descobrir uma proporção entre os corpos não tangíveis ou pneumáticos e

os tangíveis. E o tentamos da seguinte maneira: tome-se uma ampola de vidro

de uma onça de capacidade, aproximadamente, pequena o suficiente para

conseguir evaporação com pouco calor; coloque-se quase até o gargalo espírito

de vinho (que é o corpo mais rarefeito e o que contém menos quantidade de

matéria entre os corpos tangíveis da tábua precedente, pelo menos entre os bem

unidos e não cavernosos) e se anote cuidadosamente o peso. Depois disso,

pegue-se uma bexiga que contenha uma ou duas pintas;218 retire-se todo o ar

possível da bexiga, até que os seus dois lados se toquem em todas as partes.

Antes a bexiga deve ter sido friccionada com azeite para tapar todos os poros. A

seguir, coloque-se a boca