Húrin de Lothail - Parte VI

(Interrupção. Aqui eu fiz uma falha no tempo. Resolvi me adiantar e escrever capítulos cronologicamente mais á frente. Espero algum dia voltar e escrever o que aconteceu aqui.)

Ato *Volta para Lothail*

Era noite e chovia quando meu cavalo pisou a estrada que levava ao castelo de Lothail. A chuva e o frio ajudavam-me a permanecer acordado e a desviar minha atenção de pensamentos obscuros. Da floresta nada podia ver, pois praticamente não havia iluminação e não tivesse eu vivido toda minha vida nessas terras jamais teria encontrado o caminho. Meu ímpeto era grande, pois meu coração não suportaria passar mais um dia a carregar a dor da mácula de meu pai e contrariando o bom senso eu partira de minha última parada sabendo que só alcançaria a floresta de minha infância quando a noite já me tivesse alcançado. Quando virei a última curva e pude ver a silhueta do castelo a se formar na escuridão puxei as rédeas de forma a reduzir o passo do cavalo. Cavalguei de forma lenta os últimos metros até meu antigo lar. Meu rosto molhado escondia as lágrimas que derramava e que eram a única prova exterior de uma tristeza grande e profunda que se apoderara de minha alma nos tempos que se passaram.
Em meus pensamentos o retorno não seria simples, mas não acreditava que mesmo minha entrada no castelo fosse dificultada. No portão grande se encontravam dois guardas que eu desconhecia de meus tempos de moradia no castelo. Como não me conheciam não havia sentido em identificar-me e decidi por fazer surpresa a meu pai usando o nome que ele escolhera para proteger sua identidade e que eu próprio tomara para mim nesta época atribulada. As sentinelas se entreolharam e com grande desinteresse um deles proclamou - O conde está dormindo. Não temos ordens de acordá-lo. Volta amanhã quando o sol estiver alto no céu. - Depois de tão longa jornada e grande sofrimento a recepção que tive não poderia ser mais frustrante. Contada hoje essa cena certamente me divertiria. Mas naquele momento a fúria se apossou de mim. Eu não havia atravessado metade das terras da Europa para ser obstruído por guardas mesmo que eles fossem os guardiões do castelo de outrora fora minha morada. Arremessando para traz a capa que me servira de abrigo contra o mau tempo pus-me ereto expondo minha armadura e minhas vestes. Desembainhei a grande espada que meu pai me dera perante o observar incrédulo dos guardas que certamente não previam tal reação e, antes mesmo que esboçassem débil reação, cravei-a na terra a minha frente com um golpe. - Eu sou Zweihander, Cavaleiro do Templo de Salomão. Trago a espada do conde de Lothail e por vós não serei detido. - Tamanha fora a surpresa que um dos guardas encolheu-se protegendo a cabeça enquanto o outro se afastou desembainhando sua espada. Sem recuar ordenei - Vai agora e acorda teu mestre. - O guarda com a espada na mão olhou-me assustado por alguns instantes e depois se pôs a correr para dentro sendo rapidamente seguido pelo outro guarda.
Havia se passado algum tempo até que novamente a porta do aposento em que me encontrava fosse aberta. Eu permanecia sentado em um banco de madeira junto à parede oposta à porta de entrada. Também encostada na parede a meu lado estava a grande espada de Lothail. O aposento não era grande e estava bem iluminado por duas lanternas. Dentro, encontravam-se além de mim três outros guardas que, com armas em punho, mantinham distância. O reabrir da porta fez com que meus olhos se voltassem para sua direção e que meu coração se apressasse em meu peito. Depois de anos afastado eu finalmente retornara e estava para reencontrar meu pai. Levantei-me prontamente gerando hesitação aos guardas presentes na saleta. Quem primeiro pisou o aposento, porém não foi meu pai, mas sim um antigo sargento, velho conhecido de nossa família. Mesmo tendo eu reconhecido-o logo que entrou, ele não demonstrou ter feito o mesmo comigo, pois se posicionou carrancudo à minha frente sem nada dizer. Imaginei que pela barba que agora era abundante em meu rosto, poucos seriam capazes de ver em mim o antigo morador desta casa. Resolvi que deixaria meu pai tentar encontrar em mim o filho que há muito partira. Passaram-se alguns instantes em que eu esperei a figura de meu pai surgir por detrás do ombro do sargento. Em vão. Em seu lugar uma voz firme e ríspida soou vinda de lugar algum. - Quem é aquele que se diz “cavaleiro” e invade minha casa? - Espantado, dei um passo para o lado na tentativa de confrontar meu interlocutor. Escondido atrás do avantajado sargento se encontrava uma figura frágil e pálida de cabelos castanhos e olhos profundos. Suas vestes eram levas, mas cobriam-no completamente exceto o próprio rosto. Apesar da aparência debilitada seria impossível que os poucos anos afastado me impedissem de reconhecer meu próprio irmão. - Thrustin!?! - Exclamei. Ele pareceu apertar a vista como se tentasse ver através de minha veste e barba. - Hurin? - Indagou em tom baixo comentando para si mesmo. Deu um sorriso quase sarcástico que ocupava apenas metade de sua boca e retomou - Então estás vivo? Depois de tanto tempo sem dar notícias acreditávamos que havia perecido em batalha. - Neste momento o carrancudo sargento pareceu se assustar. Olhava-me dos pés à cabeça descrente que ali se encontrava o garoto que carregara. - Senhor Hurin?!? - Exclamou ele sem se conter. - Sim Godefrei meu amigo. Mas não me trata por “senhor”; afinal, nunca o fizera antes. - completei, agora com um largo sorriso. Ocorreu-me que o sargento jamais me chamara de “senhor”. Esse título era reservado unicamente para meu pai, o único nestas terras que suplantava Godefrei em estatura. Desde quando posso me lembrar ele já era o sargento de meu pai e nós, filhos do conde, pouco nos aproximávamos dele até que um dia meu pai nos punira (ou punira a Godefrei não estou certo) ordenando que ele nos ensinasse a arte da luta. Inicialmente as aulas se mostraram um fracasso, mas com o passar do tempo e a insistência de meu pai, o que se mostrava pouco proveitoso em técnicas foi muito útil como convivência. Godefrei era um homem bom, mas fechado e, como nunca se casara, tinha pouco tato ao lidar com as pessoas principalmente com crianças. Mesmo assim o que lhe faltava em trato social sobrava em experiência de guerra e as sessões que eram aterradoras quando começaram (acreditava que Godefrei estava pronto a descer-nos o braço) tornaram-se valiosas lições sobre como devem ser guiados os atos de um homem. Grande era minha admiração por aquele homem e por muito tempo aguardei os ensinamentos que por ele me foram passados. - Mas o que te trazes de volta a estas terras? - indagou Thrustin de forma indiferente interrompendo o reencontro. - Venho ter com nosso pai. - declarei lembrando-me da verdade e selando aquele curto momento de reencontro. Thrustin riu-se novamente - Então perdeste a viagem.

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