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Húrin
de Lothail - Parte V
Quando
lancei meu brado e pedi para ser enviado no lugar de meu irmão
havia muitos pensamentos em minha cabeça e muitas eram minhas
razões para fazê-lo. Gostaria de dizer que meu principal
motivo fora altruísta e que desejava salvar meu irmão;
mas isso não seria verdade. Meu irmão fora meu melhor
amigo, parceiro e, em alguns casos, exemplo durante toda nossa convivência,
antes e depois do ocorrido, mas garantir sua segurança não
foi minha única preocupação naquele momento.
Ocorreu-me que os votos assumidos pelos Templários eram severos.
Mais até que os votos de um cônego. Mas não
tinham a mesma perenidade. Ao fim da guerra, caso eu retornasse
com vida, poderia casar-me e constituir família. Projetava
um sonho de futuro que, por insano que parecesse, poderia torna-se
verdade: iria a guerra, salvaria nosso grão mestre e retornaria
triunfante. Na volta tomaria Ravere como minha esposa e teria ao
mesmo tempo quebrado minha maldição e adquirido o
respeito de meu pai. Muitas eram as incertezas, mas naquele momento
minha confiança fora aumentada dado minha vitória
pessoal contra o que acreditava ser minha sina. Ajudara-me também
o fato de que, nos poucos dias entra a decisão e minha partida,
muitas foram as horas que partilhei com meu pai.
Muitos
foram os ensinamentos e conselhos que ele me passou e grande parecia
ser a sua satisfação em preparar-me. Lembro-me claramente
do momento em que fomos escolher a armadura que usaria. Pelo pouco
tempo que dispúnhamos deveria usar algum equipamento já
pronto. Eu havia experimentado entre algumas que havia disponíveis
no castelo e entre elas escolhido uma armadura de placas. Foi quando
meu pai se adiantou dizendo - Não ajas com imprudência.
Tens hoje o corpo de um homem, mas ainda irás crescer mais.
Escolha uma armadura de placas e em breve se verá obrigado
a substituí-la ou morrer comprimido em seu interior. Escolhe
antes uma cota de malha metálica mais larga que teu corpo
e poderá crescer dentro dela. - E assim foi feito. Peguei
para mim uma larga cota de malha que me cobria os braços
e o tronco. Para as pernas uma sinta feita de semelhante forma.
Também manoplas de metal e um elmo aberto. Apesar da relutância
de meu pai escolhi ainda algumas placas que protegiam meu peito,
pernas e quadril, mas tive o cuidado de providenciar tiras de couro
mais longas para amarra-las de forma que caso crescesse ainda poderia
por um tempo usa-las. Como arma escolhera uma espada de lâmina
larga, mas que pudesse ser manuseada com apenas uma mão de
forma que também pudesse utilizar um escudo. Quando tudo
estava pronto e eu vestia a armadura para experimenta-la meu pai
veio e desembrulhou de panos uma enorme espada. Deu-me a espada
dizendo que ainda era muito grande e pesada para que usasse com
apenas uma mão, mas que eu poderia guardá-la por hora.
Completou afirmando que a estava guardando para quando um de seus
filhos pudesse substitui-lo a serviço de uma nobre causa.
Aquele gesto muito me agradou e lágrimas banharam meus olhos.
Jurei que a usaria com nobreza e que ela jamais conheceria sangue
inocente.
De
meus irmãos tive poucas notícias durante aqueles dias.
Goll parecia triste e notei que me evitou por várias vezes.
Quando foi a hora de despedir-me, ele estava presente e com lágrimas
nos olhos disse uma única frase sem se aproximar - Adeus
meu irmão. - Já Thurstin, que sempre acompanhara meu
pai, nestes dias pouco o fez. Nas vezes em que nos encontramos ele
esforçava-se em encorajar e elogiar-me pelo meu ato, mas
sua voz soava vazia. Esteve presente quando meu pai deu-me sua espada
e quando eu parti. Nas duas ocasiões pude ver ligeiro sorriso
e na última certa exaltação.
Com
Ravere pude me encontrar em alguns momentos e todos eles foram preciosos.
Ela parecia triste e em meu íntimo isso me alegrava, pois
significava que se importava comigo. Eu por outro lado mal podia
conter-me ao encontrá-la, pois se iria perdê-la por
algum tempo adquirira a chance de tê-la para todo o sempre.
Quando se despedia ela disse palavras de encorajamento. Aproximou-se
e beijou minha face e em seguida ordenando-me - Não morra.
Além
dos que citei outros estavam presentes à minha despedida.
Alguns dos criados e todos os nossos conselheiros estavam ali. Os
rostos exprimiam, em sua maioria, pesar pela minha partida. Não
imaginava que tantos fossem aqueles que sentiriam minha falta. Cheguei
a ver o senhor Osbern, nosso mais antigo conselheiro, a enxugar
os olhos. Eu, por outro lado estava excitado e me encaminhava à
minha despedida como se estivesse a viajar de férias. Talvez
por estar acostumado com minhas partidas para o mosteiro no fim
do inverno ou talvez meu coração quisesse realmente
buscar terras distantes. Quando cavalgávamos para longe me
lembro de me voltar e observar novamente as terras de Lothail e
de me imaginar voltando vitorioso para este castelo.
Saímos
pelo portão principal e cavalgamos pela estrada com um galope
acelerado. Fazia duas semanas desde minha chegada do mosteiro e
o inverno já começava a mostrar sua face. O tempo
todo Alberic cavalgou a meu lado. Ele contou-me que a hoste pretendia
alcançar as terras de França antes do cair do inverno,
mas foram atrasados por "empecilhos" no caminho. Agora
teriam de correr e alcançar os portos a sul tão rápido
quando possível. Alberic parecia realmente inclinado a cuidar-me
como havia prometido a meu pai. Fora ele quem me dera o manto branco
com a tradicional cruz vermelha para que eu usasse em minha despedida.
Ele foi enfático, porém, ao explicar-me que isso não
me fazia um Templário e que eu teria de ser aceito pela ordem
embora tenha me confessado em segredo que isso já estava
arranjado. No momento isso me confortou, mas com o passar do tempo
a idéia da minha união aos Cavaleiros do Templo de
Salomão ser forjada mostrou-se não ser do meu agrado.
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