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Húrin
de Lothail - Parte IV
Havia
no castelo uma sala que possuía três lareiras. Em tempos
de inverno as lareiras estavam sempre abastecidas com lenha o que
a tornava um dos locais mais aconchegantes do castelo. A sala era
um retângulo com as laterais bastante alongadas. As três
lareiras se encontravam postas lado a lado em uma das paredes. Do
lado oposto, grandes portas de madeira forneciam ao aposento sua
entrada principal. Uma porta lateral levava à cozinha passando
por um curto corredor. Ao contrário de outros cômodos
o teto deste era baixo e forrado com madeira. Bancos alongados feitos
de toras de madeira se encontravam junto a todas as paredes. Em
ocasiões especiais, eram trazidas três mesas para a
sala e dispostas de frente para as lareiras enquanto os bancos eram
colocados ao redor das mesas e cadeiras em suas pontas. Esta era
sem dúvidas a sala preferida de meu pai e também a
minha.
Na
noite em que os Templários chegaram houve naquela sala uma
comemoração especial. Junto à hoste que chegara
estava Alberic, que vim a saber, era grande amigo de meu pai. Certamente
mais moço, Alberic antes de se unir aos Templários
participara de guerras na época em que meu pai já
se preparava para voltar a Lothail. Pelos muitos contos que ouvi
aquela noite pude deduzir que meu pai havia colocado Alberic sob
sua proteção (em verdade, Alberic era um parente distante
de meu pai embora não me recorde de qual ramo da família).
Foi feliz o seu reencontro e muitos laços de amizade estabelecidos
durante a guerra foram reforçados.
Goll e eu permanecíamos sentados em uma das mesas junto a
dois dos cavaleiros. Thurstin que se sentava ao lado de nosso pai
trazia o semblante sempre sereno demonstrando pouco interesse na
festividade que reunia não mais que meia dúzia dos
cavaleiros que nos visitavam. A indiferença com que meu irmão
mais velho tratava a ocasião chegou a preocupar-me, pois
era fácil notar que ele era o único dos presentes
que não se divertia. Mesmo assim pude notar que ele permanecia
atento a tudo quanto era conversado e por vezes lançava uma
expressão mais fechada para os cavaleiros e especialmente
para Alberic como se desaprovasse sua presença.
Muitas
foram as conversas que se fizeram ouvir aquela noite, muitos foram
os brindes e muitas as gargalhadas mas uma em especial é
digna de nota: com o adentrar da noite e o escassear das histórias
as bocas e as mentes se distanciaram de tempos passados e retornaram
para o presente. Lembro me de Alberic praguejar longamente contra
Philip IV, rei de França, nome este que toda vez que dito
trazia severos semblantes aos rostos dos cavaleiros presentes. Segundo
as informações que nos traziam, Philip "O Justo"
(como era conhecido) havia aprisionado sob falsas acusações
o grão mestre da ordem, Jacques de Molay. Alguns diziam que
isso se dera pelo fato dos Templários não o terem
feito um Cavaleiro Honorário como fizeram com Richard I da
Inglaterra. Alberic afirmava repetidamente que seria necessário
toda a ajuda possível e que o apoio de meu pai seria fundamental
em sua empreitada. Meu pai concordava sempre com as frases desferidas,
mas sem se apegar ao assunto. Aparentemente Alberic não estava
satisfeito com o apoio que meu pai oferecera e exaltado insistia
em que todos os homens que houvessem disponíveis fossem enviados
junto com a hoste. Meu pai reforçava calmamente que não
poderia abrir mão de mais do que fora combinado, pois o que
lhe sobrara era necessário em suas terras. Após uma
última argumentação Alberic para um instante
e retoma sua posição no banco. Ele parece pensar por
um instante. Na luz da lareira sua figura era imponente. O bruxulear
das chamas imprimiam um poderoso efeito em seu rosto já escurecido
pelas sombras e sua barba. Ele proferiu severo - Manda então
teu filho conosco. Assim ficaria clara tua posição
de apoiar-nos. - Pela primeira vez na noite meu pai pareceu perder
a serenidade. Por um instante sua expressão foi de surpresa,
mas logo se recobrou. Olhou profundamente para Alberic e em seguida
para Goll e declarou - Mandaria com prazer meu filho contigo, pois
sei que lhe cuidaria tão bem quanto cuidei de ti. Observa
porém, que ele é ainda mais novo que eras tu quando
foste à guerra. - Goll que até então parecia
não perceber o que se tratava empalideceu. Sua expressão
era de absoluto espanto pela forma súbita com a qual a idéia
fora lançada.
Mesmo
assim sua personalidade não lhe faltou e como era de seu
costume lançou-se em uma empreitada impar sem antes refletir
nos resultados. Levantando-se ele proclamou - Pai. Mesmo sendo jovem
estou certo de que posso honrar a ti e a nossa casa. Que nosso Senhor
me empreste sua força enquanto não desenvolvo a minha
própria para lutar contra seus inimigos. - Neste momento,
Alberic seguido por outros presentes, levantaram suas canecas e
elevaram suas vozes em comemoração. O semblante de
meu pai era terrível. Com essas palavras Goll havia desequilibrado
a frágil balança que mantinha nossa casa fora desta
guerra. Embora apenas os acontecimentos futuros viessem a mostrar
a realidade, sei que meu pai havia previsto que Edward II, nosso
rei, penderia contra na balança e viria mais tarde a perseguir
e extinguir toda a ordem dos cavaleiros templários dentro
de suas terras trazendo desgraça a todos os que dela participaram.
Mesmo assim meu pai se via obrigado por sua honra e amizade a manter
sua ajuda. Se fosse decisão de Goll partir com a hoste ele
permitiria, sabendo porém, que uma criança como ele
iria perecer facilmente em batalha. Assim que meu pai ratificou
a decisão de Goll mas, mesmo antes que este pudesse comemorar
interrompi. Em toda minha vida até então tinha sido
mero espectador e ainda não estou bem certo sobre o que me
deu forças, mas minha voz ecoou na sala - Espera. Jamais
levantei minha voz contra decisão de meu pai e não
o farei agora. Mas sei que pesa teu coração o que
decidiste, pois sabes que permitindo que meu irmão se vá
agora estará perdendo um filho. - Eu olhei para Goll que
me encarava com ainda mais surpresa que antes tivera e completei
- Estou certo de que ele dará um grande cavaleiro. Talvez
o melhor que estas terras já viram. Mas por enquanto ainda
é novo e precisa de tempo para desenvolver-se. Assim, envia
a MIM em seu lugar. - Ao contrário do que antes havia ocorrido,
meu falatório provocou um prolongado silêncio. Percebi
que os olhos de meu pai estavam fixos em minha pessoa e que, pela
primeira vez que me lembro, tive a impressão de que ele lançava
sobre mim um olhar de orgulho. - Estás certo de que é
isso que desejas? - Perguntou. - Não... mas é assim
que tem de ser. - Respondi. Meu pai sorriu e concordou com a cabeça.
Neste momento Alberic, que já permanecia mais tempo do que
de costume calado, festejou e abraçou-me dando as boas vindas.
Um único fato estranhou-me no momento, mas fora esquecido
até tempos depois: quando anunciei minha decisão tive
a impressão de que Thurstin riu-se.
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