Húrin de Lothail - Parte III

O sol encoberto por nuvens de chuva já devia ter passado do ponto mais alto no céu quando eles chegaram. Era uma hoste pequena, cerca de 15 cavaleiros pelo que me lembro, mas sua chegada ao castelo provocou uma certa exaltação. Era muito rara a visita daqueles designados Templários em nossas terras. Pelo que sabia na época esta era a primeira.
Chegaram com vestimenta de campanha, mas sem estar vestidos com suas armaduras. Não trajavam elmo e apenas dois deles trajavam fina malha metálica tecida na forma de um gorro a cobrir-lhes a cabeça. Sobre os corpos, longas túnicas brancas com uma destacada cruz vermelha estampavam a tradicional marca destes cavaleiros. Doze destes cavaleiros foram encaminhados a meu pai que se apressou em atendê-los. Uma grande sala destinada a comemorações especiais foi o palco de seu encontro.
Diverte-me agora lembrar que senti ciúmes de Thurstin que fora chamado como herdeiro para participar deste encontro. Penso agora que naqueles dias os cuidados extras direcionados a meu irmão mais velho afim de prepará-lo como herdeiro, criava com freqüência um certo desentendimento entre os filhos de meu pai. Thurstin era quem mais longamente conversava com nosso pai e quem desfrutava de maiores regalias no castelo. Mesmo compreendendo que estes "benefícios" vinham também acompanhados de responsabilidades, em meu ímpeto juvenil desejava provar-me valioso aos olhos de nosso pai assim como Thurstin o fazia. Embora muitas vezes tivesse eu desejado ter sido o primogênito de nossa família, jamais proclamara tal sentimento em voz alta. Acho mesmo que era de minha natureza aceitar tais fatos. Na verdade, até aquele momento, muitos tinham sido meus planos e minhas juras prometendo libertar-me de minha maldição, mas minhas formulações careciam de ações reais pois continuava a seguir cegamente os desígnios que me eram impostos. Que o leitor não confunda a determinação do autor destas páginas com a apatia do personagem que por elas é narrado, pois muitos foram os anos que se passaram desde aqueles tempos. Eu era uma criança e as dúvidas em meus olhos eram maiores que minhas certezas.
Eu estava no corredor. Andava de um lado ao outro fingindo fazer algo quando um passante surgia. Faria de tudo para tentar escutar o que acontecia naquela sala. Estava com o ouvido colado à porta quando um raspar de garganta a poucos passos de onde estava me pegou totalmente desprevenido. Viro sem jeito imaginando que tipo de desculpa poderia dar para quem quer que ali estivesse presente. Apesar de meus olhos procurarem um adulto, (provavelmente um de nossos conselheiros a espezinhar tudo quanto planejávamos) acabo por encontrar a figura de Ravere com uma das caras mais engraçadas de que me lembro. Ela tentava parecer brava com o senho franzido e as mãos na cintura inclinando o corpo para frente. Fiz menção de rir da cena, mas fui rapidamente dominado por Ravere com perguntas sobre o que fazia escutando o que acontecia além daquela porta. Tentei explicar-me em meio a gaguejos e embaraços, mas fui novamente interrompido por ela que, com o ouvido colado à porta, fazia sinais para calar-me. Desconcertado, cessei meu falatório e me pus fita-la. a Ela trajava um vestido longo como era costume (jamais veria uma mulher, mesmo uma criança, vestindo calças naquela época). O vestido possuía mangas largas com alças bem definidas e pálida tonalidade como um amarelo ou bege claro. Era certamente de bom corte e passaria facilmente por uma das nobres do condado. A forma, porém como se contorcia para por entre as frestas da porta parecia-me não mais apropriada que para um moleque. Imaginei que por ter sido criada longe de castelos e em uma família onde não existia sequer um homem era de se esperar que ela não se comportasse exatamente como uma das damas da corte. Não me surpreenderia se a própria Ravere já tivesse usado calças. Acho que neste instante eu comecei a me perder em pensamentos apropriados apenas para um garoto de minha idade (os quais não descreverei aqui), mas fui tomado pelo susto quando Ravere se afastou repentinamente da porta. Um som do lado de dentro deu-me a entender que a porta se abriria. Saímos em disparada e atravessamos alguns corredores. Parei recuperando o fôlego de costas para a parede após transpor uma porta. Ravere ao meu lado ria-se entre uma arfada e outra. Inspirei fundo e dei uma risada. Olhávamos um para o outro e a cena desenrolou-se rapidamente de cômica para embaraçosa. A saleta não era bem iluminada e continha apenas alguns barris vazios com cerca de uma braçada e meia de um lado a outro. Ela aproximou o rosto do meu e perguntou - Você acha que nos escutaram? - Eu respondi com um balanço negativo de cabeça que era o máximo que minha coordenação permitiria naquele momento. Como que perseguido pelo destino novamente, vozes e passos se elevam pelo corredor. Removido do transe fiz que iria correr, mas fui surpreendido por um fato obvio que até então me havia faltado. O quarto era pequeno e não possuía outras portas. Caso alguém empurrasse a porta semi-aberta não teríamos o que fazer. Quando o pânico já se apossava de mim fui puxado pelo braço por Ravere que apontava para um barril vazio que estava posto de lado. De forma relutante entrei de gatinhas dentro do reduzido espaço do barril. Antes que pudesse ajeitar-me Ravere lançou-se também para dentro do barril e, com a tampa na mão, fechou sua abertura jogando-nos em completa escuridão. A porta se abriu e pessoas conversaram; eu acredito. Mesmo que fossem dezenas de pessoas a festejar entusiasticamente não me faria diferença, pois em nada recordo dos sons de fora do barril. Eu estava deitado e Ravere deitava sobre mim. Todo seu corpo pesava contra o meu. Meus braços, que haviam tentado instintivamente impedi-la de pisotear-me quando entrou no barril, agora se encontravam presos entre seu corpo e o meu, tocando nas mais variadas partes de sua anatomia. Como se na tentativa de não chamar sua atenção para o que estava acontecendo eu permanecia completamente imóvel. Estático mesmo a ponto de prender a respiração até que o ar me faltasse completamente. Certo tempo depois Ravere abriu o barril. Quem quer que estivera ali parecia ter ido embora. Ravere falou duas ou três frases comigo, mas eu não prestei atenção. Ela colocou a mão sobre o meu rosto e disse de forma clara - Cubra os olhos. - Em seguida saiu do barril passando praticamente por cima de minha cabeça. Pude notar que em sua ânsia de entrar no esconderijo sua saia havia se elevado até uma posição... inconveniente. Na seqüência, insistiu ela para que eu saísse, mas problemas com algumas reações do meu corpo e uma boa quantidade de vergonha me impediam de desejar ganhar um local mais iluminado. Após alguns instantes me pus para fora do barril colocando-me de costas para Ravere. Ela rapidamente pegou-me pelo braço e estava a me conduzir para fora quando eu interrompi sem virar-me - É... é melhor que saiamos separados... para o caso de ter alguém olhando... - Ela respondeu com uma confirmação, entreabriu a porta e saiu. Eu sentei no chão e passei os próximos minutos ali.


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