Húrin de Lothail - Parte II

Quando voltei a ver Ravere não pude crer em minhas lembranças. Ela estava ainda mais bela que antes me parecera. Seu sorriso era mais alegre e até as formas de seu corpo se tornaram mais definidas. As dúvidas em minha alma que haviam abrandado com o esquecimento de sua beleza cresceram com sua visão. Mesmo assim ainda era sério meu dilema. Sabia o que queria fazer, mas não sabia como. Teria de haver uma forma de libertar-me de minha sina sem tornar minha existência amaldiçoada aos olhos da família.
Haviam se passado apenas duas noites desde minha chegada quando um estranho bateu à nossa porta. A criada que o atendeu anunciou com o rosto pálido sua chegada a meu pai enquanto fazia o sinal da cruz. Ao acompanhar meu pai escadaria abaixo descobri o motivo de seu espanto. O estranho tinha pele escurecida e tratava-se certamente de um mouro. No momento em que colocou os olhos nele meu pai também empalideceu. Quando acreditava que ele estava pronto a colocar para fora de forma rude aquele estranho, sua voz soou quase como um murmúrio - Saudações Haymand. Sede bem vindo a nossa casa. - Em seguida meu pai encaminhou o estranho para uma sala onde conversaram longamente a portas fechadas.
No dia seguinte, meu pai nos informou que aquele era outro conhecido seu dos tempos que viajara pelas terras distantes. Seu nome era Haymand Abin Akil e ele ficaria alguns dias conosco. Ele nos disse que, dada a natureza de nosso visitante, seria imprudente que comentássemos sua presença e que, segundo o que tinham combinado, ele apenas sairia a noite depois que os criados se recolhessem. Neste momento notei o quanto às coisas mudaram durante minha ausência. Minha mãe como sempre concordara com a cabeça com os dizeres de meu pai, mas outra voz se ergueu. Era Thurstin que, fazendo-se ouvir, discordava da idéia de deixar que um mouro permanecesse em nossa casa. Contradizendo o que era de se esperar meu pai argumentou ao invés de simplesmente mandar que nosso irmão se calasse. Com um tom severo ele disse que o homem o ajudara no passado e que seria indelicado e indigno de nossa parte se o puséssemos para fora naquela hora. Naquele momento meu pai fitou Thurstin nos olhos de forma tão intensa que ele, como se empurrado, voltou a sentar. Percebi que se eu havia crescido de corpo e espírito tornando-me forte e decidido, meu irmão mais velho se tornara um homem completo. Embora se seu físico fosse débil comparado ao meu ou ao de Goll, ele agora tinha responsabilidade para com o condado e tomava decisões que pesariam em muitos. Observando-o naquele momento ocorreu-me que ele estava sendo preparado para substituir nosso pai como Conde de Lothail. Neste momento um frio correu-me a espinha e eu fitei Goll. Ele me olhou em resposta, mas seu olhar não refletia a seriedade de meus pensamentos naquele momento e eu percebi que ele ainda não compreendia o peso do fardo que cada um de nós teria de carregar.
Durante todo aquele dia eu me perdi em pensamentos e emoções conflitantes. Eu realmente amava aquela família. Mesmo assim entre todos, nenhum me fora tão companheiro ou eu sentira tanto a falta quanto a de Goll. Desde nossa infância ele fora meu amigo e companheiro. Enquanto Thurstin normalmente era individualista, Goll e eu formávamos uma dupla. Embora ele talvez não compreendesse isso naqueles dias, se a sina de Thurstin fazia com que as responsabilidades de papai pesassem cada vez mais sobre seus ombros e a minha arrastavam-me para o clericato, Goll logo seria enviado para a guerra. No convento, os ensinamentos que me foram passados mostraram um lado da guerra que eu não conhecia. Um lado terrível que nosso pai jamais nos contara. Lá eu soube que poucos dos que partiam em reluzentes armaduras voltavam para suas casas e suas famílias. Durante todo o dia o fantasma da perda de meu irmão me atormentou.
No fim da tarde eu me ausentei por uns momentos. Fui até a torre e fiquei observando o sol se encaminhar para o horizonte. Lentamente memórias surgiram em minha mente. Memórias de um passado recente onde eu não tinha de me importar com a perda daqueles que eram preciosos a mim. Senti grande nostalgia. Naquela época eu não tinha como prever por quanto tempo minha existência se estenderia, mas eu sentia que eu devia agarrá-la com todas as minhas forças e viver bem os meus dias do presente. Decidi-me naquele momento que não abriria mão de meus sonhos facilmente. Lutaria por eles, mas tomando o devido cuidado para não destruir os sonhos de outros.
O sol já se encontrava próximo ao horizonte e eu estava deitado em um monte de palha a observar o céu pela lateral da torre. Nuvens brancas seguiam lentamente seu caminho. Levantei-me e observei pela lateral a região. A Floresta de Lothail. Era a mais bonita região que já havia visto. Fiquei por instantes contemplando a paisagem vista da mais alta torre do castelo.
Subido, uma palavra faz meu coração disparar. Era apenas um "Olá!" vindo de minhas costas mas foi o suficiente para fazer minhas pernas fraquejarem. Não foi preciso que eu me virasse para saber quem disse essa única palavra. - Olá ! - respondi com voz rouca e virando-me para contemplar Ravere. Seus olhos encontraram os meus e neste instante eu percebi um olhar nervoso estampado em seu rosto. Engoli seco. Caminhei até ela e perguntei se tinha vindo ver a paisagem. Ela confirmou com a cabeça. Andamos até a lateral e olhamos em volta. Por três vezes quis dizer algo, mas as palavras não saíram. Na quarta tentativa elogiei a paisagem. Ela concordou monossilábica. Apoiei no parapeito e respirei fundo. Disse-lhe que eu sentia falta daquilo. Contei que crescera naquele lugar e que me pesava o coração cada vez que eu tinha de abandonar aquela terra. Falei sobre meu destino junto à igreja e disse que temia nunca mais ver essas matas. Falei também várias outras coisas às quais hoje não me lembro mais. Naquele momento mostrei para a pessoa a quem mais queria impressionar todos os meus temores e receios. Disse tudo o que um homem jamais teria a liberdade de dizer e apesar de minha voz permanecer firme, lágrimas escorreram de meus olhos.
Quando cansei de falar calei-me ainda observando a paisagem. Ravere tocou meu ombro causando um congelamento imediato de todos os músculos de meu corpo. Ela me abraçou de lado e encostou sua cabeça em meu peito enquanto eu permanecia imobilizado. Sem levantar a cabeça ela disse que nunca teve realmente uma família antes. Não chegou a conhecer seu pai, pois ele morreu na guerra quando ela era ainda muito pequena. Sua infância fora atormentada, pois, sem seu pai para sustentar a família, ela e sua mãe passaram muitas dificuldades. Apesar disso ela sempre soube que "alguém" ajudava sua mãe. Ela secretamente desejava que fosse seu próprio pai que não havia morrido na guerra, mas sim estava fora por algum motivo. Ela esperava que algum dia ele voltasse para leva-las para um castelo. Quando sua mãe ficou doente ela veio a saber que era na verdade meu pai que as sustentava. Ela levantou a cabeça e disse - Bem. Ao menos agora estou em um castelo. - Neste momento eu vi que ela chorava. Antes que eu soubesse o que estava fazendo eu a abracei de forma terna. Tudo o que queria naquele momento era consolá-la e dizer que agora estaria tudo bem. Mesmo assim tudo o que pude fazer foi olhá-la nos olhos. Imaginei que mesmo que seus atos ao dia mostrassem uma garota alegre e cheia de vida, seu sono era cercado por fantasmas de tempos difíceis. Neste momento ela olhou-me novamente nos olhos e eu inclinei a cabeça até que sua face tocasse a minha.
- Ravere !?! - pronunciou uma voz vindo das escadas.
Como que por reflexo afastei seu corpo do meu com os braços. Mesmo assim era impossível esconder a expressão de meu rosto. A imagem de Thurstin apareceu à porta com um sorriso. Expressão esta que rapidamente se transformou.
- O que está acontecendo aqui? - indagou com um semblante carregado olhando-me fixo nos olhos.
Não pude responder.
- Nada. - disse a própria Ravere que estava de costas.
Ela se virou para fitá-lo limpando as lágrimas com um gesto de mão. Pude ver a expressão de meu irmão se transformar novamente quando ele viu que ela chorava. Ele se aproximou dela e limpou as lágrimas de seu rosto. Olhou para mim como se indagasse novamente o que havia ocorrido, mas eu apenas abaixei os olhos. Passaram-se alguns instantes de um silêncio pesado e então Thurstin completou - Está ficando escuro. Vamos todos descer.

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