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Húrin
de Lothail - Parte I
Como
é sabido, tínhamos uma tradição na velha
Europa. Nas famílias que possuíam títulos nobres
o primeiro filho era o herdeiro, o segundo faria parte do clero
e o terceiro era enviado para as guerras.
Eu sou Hurin, segundo filho de Galdor, conde de Lothail. Desde meu
nascimento conhecia meu destino: crescer para tornar-me um padre.
Embora minha sina não tivesse sido acompanhada de grande
vocação, a idéia de unir-me à igreja
nunca fora um fardo para mim. Ao menos não no início...
Quando criança, lembro-me de brincar nas matas que cercavam
o condado e de nadar no mar junto a meus irmãos. Eram momentos
felizes. Marcas indeléveis no tempo. Embora hoje me parece
que fazíamos apenas isso, eu sei que na realidade nossa família
era bastante reclusa e passávamos nossos dias aprisionados
dentro da propriedade de papai. Em sua juventude, ele próprio
lutara e viajara por terras distantes. Suas preocupações,
às vezes exageradas, em preparar-nos para o que estava por
vir tomou uma boa parte de nossa juventude. As incursões
às matas e praias próximas tornaram-se minhas melhores
lembranças.
De forma semelhante nossa mãe Harriet, muito religiosa, criou
seus filhos dentro da rígida disciplina católica da
época. Em parte, foi isso que me fez aceitar passivamente
meu destino junto à igreja. Eu via em seus olhos o orgulho
crescente de ter um filho pertencente a Deus muito antes que eu
entrasse para o seminário. Dela, Goll, meu irmão mais
novo, havia herdado os olhos azuis e uma contagiante alegria. De
meu pai, Goll herdou assim como eu a robustez de corpo e a grande
resistência física. Embora nenhum de nos tivéssemos
os cabelos loiros de minha mãe, apenas eu tinha os cabelos
negros de meu pai. Rápido em enervar-se, mas também
em perdoar, Goll não aprendera com nosso pai a arte de ponderar
longamente sobre os fatos. Arte a qual Thurstin, nosso irmão
mais velho, era mestre. Mesmo sendo o mais velho ele foi rapidamente
suplantado em altura e força por mim e em seguida por Goll.
Isso fez com que ele se dedicasse ainda mais aos estudos como forma
de compensação.
Mesmo que eu possa me recordar bem de nossos passeios e viagens,
nada está mais claro em minha memória que o sorriso
de Ravere... quando atingi idade apropriada, fui enviado para um
convento onde meus estudos teológicos deveriam se completar
para que eu fosse finalmente ordenado padre para a alegria de nossa
mãe. Mesmo que essa não fosse a prática da
época. Uma vez por ano, no inverno, eu voltava para a propriedade
de meu pai onde me escondia do rigor do clima da região.
Estes passeios eram recebidos por mim com grande alegria pois, mesmo
resignado a seguir meu fardo, pesava-me o coração
a falta daqueles que amava. Pelo menos era assim até a chegada
do inverno de meu décimo quarto ano de vida. Quando cheguei
em nossa casa naquele inverno entrei na sala iluminada pela lareira
para dar um beijo em minha mãe. Aproximei-me por suas costas
para dar um beijo de surpresa. Na verdade a surpresa fora minha.
Em seu lugar na cadeira estava uma jovem de cabelos longos e negros.
Seu rosto era alvo e seus olhos de um castanho claro como o mel.
Ela se virou enquanto eu me aproximava pregando-me um susto que
fez com que eu acabasse por tropeçar em minhas próprias
pernas. Ela olhou pra mim e sorriu. Jamais me esquecerei desta cena
ou do meu embaraço em explicar-lhe meu engano e a sutil aproximação.
Naquela mesma noite vim a saber que aquela garota pouco mais nova
que eu era agora moradora em nossa casa. Ravere era filha de um
grande amigo que meu pai conheceu na guerra. Amigo o qual, segundo
meu pai, salvara-lhe a vida em várias ocasiões, mas
terminou por não conseguir retornar para casa. Desde então
meu pai havia provido o sustento de sua esposa e filha. Infelizmente
sua mãe morrera de uma doença no outono passada e
Ravere foi trazida para morar com nossa família.
Em toda a minha vida, esta foi a única vez em que eu desejei
que a primavera não mais chegasse. O tempo em que passamos
juntos naquele inverno fez com que o retorno ao convento no fim
da estação fosse o mais difícil momento de
minha vida até então. Mesmo assim aceitei passivamente
o destino que me aguardava e embarquei de cabeça baixa na
carruagem que me levaria para longe de todos ante os olhos atentos
de minha mãe.
Solitário tornou-se meu dia-a-dia. Nunca recados ou notícias
de minha terra natal fora aguardados com tanta expectativa. Nunca
imaginei que pudesse pesar-me de forma tão dolorosa o fardo
que me haviam imposto. No início era grande minha ansiedade
e longa minha sentença de separação. Culpei
a igreja e sua fé distanciando-me um pouco de meus afazeres.
Culpei minha família e as tradições. Culpei
a mim por não ter tomado as rédeas de minha própria
vida nas mãos. Finalmente, ao fim do verão, parei
de procurar culpa ou entoar lamentos. Muito meditei e orei sobre
os fatos e descobri que assim ocorreu pois assim tinha de ser e
esses eram os desígnios e mistérios de Deus. Todavia,
teria sido minha a escolha de ficar ou partir. Neste momento jurei
a Deus e a mim mesmo que jamais seguiria novamente meu caminho sem
questionar. Jamais aceitaria passivamente meu destino e nunca mais
me permitiria ser um passageiro da vida como em um barco a deriva.
Com a chegada do inverno seguinte retornei para minha casa com um
futuro incerto a esperar-me. Havia muitos caminhos a serem seguidos
e em todos alguém seria profundamente magoado. Com isso em
mente novamente a sombra negra da dúvida abatia-se sobre
mim.
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