|
Crônicas
de Den, o velho bardo místico!
De
volta à Casa
Parte
I - Aniversário
Dessa
vez por Etiell Lannorian
Estava
eu acordando para mais um dia de monotonia, dias em que a Casa ficava
vazia e triste. Acordei tarde naquele dia, fiz um café sem
graça e mais uma vez me vi pensando em onde o Bardo Den estaria,
estava tentando calcular quanto tempo ele ficou fora. Perde-me na
contagem dos dedos, deixei para lá, e fui lavar os pratos.
Havia
pouco para se lavar, pois há muito tempo ninguém tomava
café comigo, por muito tempo pensei em fechar a Casa, mas
o medo do Bardo Den voltar e encontrá-la fechada me fez descartar
a hipótese. Com a mente perdida nestas coisas encontrei o
calendário e comecei a contar os dias que se passaram desde
a sua partida, mas outra coisa chamou-me a atenção,
o dia de hoje estava circulado. Por que? Quem marcou? E que importância
teria? Era a única marcação feita em vermelho,
pois todas as outras eram em preto e tinha sua nota no final da
página assim: dia do novo conto do bardo, dia de visitar
Sihn, aniversário do desgraçado do regente... Mas
para este não havia nota. 27 de Maio, o que acontece, aconteceu
ou teria que acontecer neste dia? Este exercício de raciocínio
me fez voltar ao costume de pensar e lembras do passado maravilhoso
da Casa, e consegui lembrar. Lembrei naquele momento. 27 de Maio,
o aniversário da Casa do Bardo!
Há
um ano, o Bardo Den abria sua estranha e extravagante Casa nas proximidades
da cidade de Sihn, ao centro de Lendell. E agora eu estava aqui,
num lugar afastado de Sihn numa nova Casa e havia esquecido o seu
aniversário. Resolvi fazer alguma coisa para comemorar este
dia. Fui até o armazém comprar algumas coisas para
enfeitar a mesa, encomendei alguns barris de hidromel na Taverna
do Pássaro Arissudo, e comprei alguma coisa para fazer um
bolo. Passei o resto do dia fazendo quitutes para minha festa solitária.
Ao
chegar a noite a mesa estava bem bonita e eu já podia me
esbanjar com toda a comida sozinho. Fiz uma oração
a Ellendora e a todos os deuses que lembrava, pedindo mais anos
de prosperidade e que Den, nosso querido Bardo, voltasse logo. Antes
que eu terminasse minhas ultimas palavras, ouvi batidas na porta.
Pensei se poderia ser alguém pedindo ajuda, ou algum desocupado
querendo visitar a Casa naquela hora da noite, ao menos faria companhia
a mim e trocaríamos histórias, não seria uma
noite tão triste assim. E não foi.
Ao
abrir a porta, vi uma figura com cabeça baixa, o braço
direito apoiado a parede, transpirando e bufando muito, usava um
manto que cobria a cabeça.
- Senhor,
posso ajudá-lo em alguma coisa? - Foi a primeira coisa que
veio à minha cabeça.
- Não diga que pode me ajudar seu orelha-pontuda desgraçado!
- Ouvi aquela voz desgastada e ofegante dirigindo-se à minha
pessoa, mas não fiquei com raiva ou medo, apenas queria ouvir
mais. - Nunca devia ter confiado em você Etiell Lannorian!
Ele
falou aquele nome e levantou a cabeça deixando o manto cair,
seu rosto suado e de expressão cansada olhava para mim com
um ar nervoso, mas a minha reação foi de abraçá-lo
e dizer:
- Senhor
Den! Não sabe como é bom vê-lo! Nem acredito
que é o senhor que bate minha porta está noite!!!
- "Minha
porta" você diz! É claro que é a sua porta!
Você destruiu minha casa Etiell, seu miserável! - Ele
tentou agarrar-me pelo pescoço, mas apenas coloquei minha
mão sobre sua cabeça de forma que ele não conseguia
me tocar, ele sempre foi baixinho.
- Calma senhor, está havendo um grande engano. - disse a
ele com um grande sorriso indisfarçado no rosto. - Entre,
por favor!
- É claro que eu vou entrar, você roubou minha casa
e vai impedir-me de entrar na sua, seu projeto de humano afeminado.
- Ele sempre fazia essa referencia quando queria insultar um elfo.
Ao
entrar, ele tirou sua capa, estendeu-a no cabide, sem nem mesmo
perceber que era o seu cabide de estimação e ocupava
o mesmo lugar na outra casa. Ajeitou os cabelos louros, sua barba,
e parou espantado ao ver a mesa arrumada.
- O
que significa isso Etiell? - perguntou o bardo virando-se na minha
direção sem demonstrar nenhuma felicidade e uma desconfiança
no olhar que faria qualquer um se esconder debaixo da mesa. - Uma...
Festa. - deu um risinho com o canto da boca. - Está dando
uma festa seu elfo safado? - virou-se para mim com a mão
na cintura como quem reclama com uma criança, a diferença
é que eu sou maior que ele.
- É
claro, essa data merece uma comemoração o senhor não
acha? Vamos sente-se e faça-me companhia!
Ele
caminhou lentamente até a cadeira que eu tirei para ele sentar.
Estava pensativo, provavelmente tentando lembrar de que data se
tratava, mas sem demonstrar isso no seu olhar.
- Essa
data Etiell, é muito importante para você não
é? - perguntou tentando adivinhar de qual data eu estava
falando
- Sim, lógico! - falei servindo-lhe um pedaço de bolo,
e fingindo que acreditava que ele lembrava que dia era hoje. - Servido?
- Claro! Mas não mude de assunto, seu elfo descarado, quero
que me conte o que aconteceu todo esse tempo e o que aconteceu com
minha casa, logo hoje no dia que... - ele parou ao ver a faixa escrita
"Um ano de Casa do Bardo" - é o aniversário
da Casa do Bardo! - sussurrou ele lentamente cuspindo algumas migalhas
de bolo na mesa. - Etiell, você lembrou, é verdade,
há um ano eu inaugurava minha querida Casa. - Ele parou e
se perdeu nos próprios pensamentos e lembranças, que
pareciam muito distante de apenas um ano atrás. Ao voltar
para o tempo real ele fez uma cara má que não me assustava
e perguntou:
- Bom,
mas isso tudo não importa. O que aconteceu com minha Casa?
Eu cheguei lá e só vi um monte escombros.
- Aconteceram
algumas coisas desde o dia em que o senhor resolveu ir embora sem
nem avisar. - ele virou o rosto para o lado como quem não
tivesse culpa nenhuma no cartório. - Um tal de Lorde Negro
tomou posse daquelas terras.
- Lorde
Negro?
- Sim,
era assim que os mensageiros dele o chamavam.
- Nunca
vi nada mais manjado, mas continue!
- Bom
ele queria que todos pagassem tributos ou saíssem daquelas
terras dentro de um determinado tempo. Foi tempo suficiente para
tirar tudo de lá e me mudar para cá. Eu deixei um
recado para o senhor e para qualquer um que visitasse a casa, mas
pelo visto já destruíram tudo.
- Sim,
é verdade! - Ele parecia menos irritado agora, porém
parecia querer lembrar de mais alguma coisa!
- E
estas terras são muito bonitas, senhor! Precisa ver o Sol
nascendo e refletindo no Rio Verde, da para ver tudo desta janela!
É uma vista que não é fácil de se ver
em outros lugares de Lendell!
- Pode
ser visto em qualquer lugar à margem do Rio, Etiell. Mas
como eram esses mensageiros? O que mais eles exigiam?
- Pareciam
mensageiros muito comuns, sem armaduras ou insígnias, não
acho que posso ajudar muito nisso? Por que pergunta, senhor? Sabe
de alguma coisa?
- Talvez...
Sem insígnias, Lorde... Lorde Negro.
Esperei
ele continuar em silêncio, mas ele apenas disse animado para
servir mais um pouco de bolo.
- Está
muito boa sua comida Etiell! - Tentou desconversar.
- Senhor, o que sabe sobre o Lorde Negro.
- Calma Etiell, tudo no seu tempo meu jovem elfo-guardião.
"Tudo no seu tempo, e assim tudo será melhor".
Já dizia os sábios Homens do Deserto, que saudades
tenho deles. Gensai nunca lhe disse algo parecido?
- Não que eu lembre. - Gensai era um velho amigo, um Homem
do Deserto que fazia parte do Grupo de Elite Travelers do Reino
de Sihn.
- É uma pena, a sabedoria do Deserto deve ter se perdido
em todos esses anos. - Eu achava impressionante como ele conhecia
tanta coisa, e parecia ter vivido tanto tempo, sendo que eu sou
algumas décadas mais velho que ele, já que eu sou
da raça dos elfos e ele um Humano. - Mas conte-me, o que
tem feito na minha ausência? Deixei muita coisa para você,
não?
- É, realmente... Mas...
- Mas o que?...
- Aconteceram alguns problemas.
- Que problemas? - Seu mau humor começava a voltar.
- Não deu tempo para postar tudo...
- Não deu tempo? Etiell, eu passei mais de meio ano fora,
e você diz que não deu tempo?
- É que as mudanças, o problema com transporte, estas
estradas são terríveis (o servidor do yahoo).
- Sim! E o que mais?
- E também...
- Também o que Etiell Lannorian?
- Eu fui preso! (perda do HD, moden, e memória).
- O que? Como assim? Você...Você esteve aprontando Etiell?
- Não! Não é nada disso! Esse tal de Lorde
Negro. Parece que suas influencias chegaram até aqui. Ele
soube que eu estava difamando o seu nome e mandaram me capturar,
mas não fiquei preso por muito tempo, eles se perderam no
bosque e eu fugi. Voltei para a Casa e havia dezenas de guardas.
Tive que ficar alguns meses esperando eles saírem, acho que
pensam que eu morri no bosque assim como seus guardas.
- Humph! Mas que estória hein?
- Bom, por isso a Casa estava abandonada, eles pregaram um monte
de madeira na porta para ninguém mais entrar (a página
estava sem index =P). Demorei algum tempo até ajeitar as
coisas, e o pior é que depois deste incidente o número
de visitas caiu muito.
- Bom, neste caso este Lorde Negro é pior do que eu imaginava...
- E o que o senhor imaginava? - indaguei curioso.
- Calma, ainda não terminei minhas perguntas. Sirva-me um
pouco mais de hidromel, sim?
- Ah! Claro! - Enchi seu copo e cortei mais um pedaço de
bolo.
- Mas o que você fez de útil afinal?
- Bom, escrevi uma resenha sobre a peça de teatro "O
Retorno do Rei", adicionei algumas informações
sobre a peça "O Rei Artur", e sobre o novo livro
que o autor vai publicar.
- Ah! Sim! T.H. White, já li muita coisa dele. Continue.
- Publiquei a segunda parte das suas crônicas.
- Ah! Que bom que não publicou a terceira, eu escrevi algumas
alterações na minha viagem. E quanto à votação?
Você fez uma nova?
- Sim! A urna está ali. - Fui até junto à porta
e trouxe a urna entupida de papéis com mensagens. - Eu perguntei
o que os visitantes queriam ver aqui na Casa, veja! - mostrei o
papel com a pergunta e as opções todo enfeitado.
- É, são boas opções, eu escolheria
os Contos de Lendell é claro! Mas, quem ganhou?
- Sessão sobre autores famosos. Foram mais de trinta votos
de diferença para o segundo colocado.
- Hum! É uma boa escolha, existem muitos escritores bons
que não são bardos aqui em Lendell. Apesar de eu não
ver a utilidade de se criar histórias sem música para
acompanhá-las.
- Bom, eu não digo o mesmo, é muito fácil para
o senhor falar, mas para quem nunca tocou um instrumento basta a
música está na sua cabeça, e os pensamentos
virão caminhando sobre as pautas imaginárias no qual
a estória é construída. E acontece o mesmo
para quem lê.
- Está melhorando o seu dom poético Etiell, eu também
comecei péssimo assim. Bom passe-me todo material, a resenha,
os contos novos, minhas crônicas. Já pegou material
dos autores?
- Pouca coisa, eles estão espalhados em lugares distantes
de Lendell.
- Devia ter pensado nisso antes de colocar essa opção.
- Desculpa! - Falei meio sem graça. Fui até o quarto
onde estava guardado tudo. Entreguei a pilha a ele, e ele se deliciou
entre os papéis.
Den ainda passou algumas horas lendo todo material que a Casa havia
acumulado no tempo em que ficou fora, comemos um bocado, tirei um
cochilo, acordei, e ele ainda estava lendo.
- Bom, acho que por essa noite chega de leitura! - disse ele espreguiçando-se.
- Então conte como foi a sua viajem, e o que sabe sobre o
Lorde Negro!
- O que? Nem pensar! Estou muito cansado Etiell, mostre-me onde
fica o meu quarto e amanhã contarei tudo.
E a
história acabou mesmo ficando para outro dia.
Voltar
|