Encontro
marcado no Outro Mundo - O Abatedouro!
Narrado
por Anwor
Parte
I
Tlin......Tlin....Tlin...Tlin...
O som da chuva nas armaduras......Logo depois vários sons
misturados. Noite de chuva. Noite de guerra. Acordei. Ainda estava
ali naquele aposento, olhei lá pra fora. Muita chuva, e
homens com armaduras caminhando de um lado para outro, e lá
no horizonte sombrio, algumas luzes se movendo.
- Está chovendo! - um som saiu da minha boca junto com
uma fumaça que logo desaparecera. - Frio. - Disse novamente.
Tentei dormir mais um pouco, mas logo acordei com vozes atrás
da porta:
- Eles já estão vindo, com tochas, já estão
todos a postos?. - disse uma voz de comando.
- Esperamos suas ordens senhor! E quanto as cabeças? Já
resolveu sobre isso?
- Sim, é claro! Vamos fazer com que esses sais corram
para longe antes mesmo de ver nossas espadas. - Fez uma pausa
para uma gargalhada - Preparem os lançadores de pedra e
o óleo quente, vamos ter cozido de sais hoje!
- Sim senhor!
Quando o homem terminou de falar tive um calafrio e quase chorei,
pois sais era como os britânicos se referiam a nós,
saxões. Assim como nós os chamávamos de weahas,
os dois queriam dizer estrangeiro em sua língua mas de
uma forma pejorativa. Sabia dessas coisas pois minha mãe
já foi escrava de weahas, e por um milagre ela conseguio
fugir numa guerra, e voltou para casa, mas ela foi estrupada e
morta em outro ataque britânico. De qualquer forma aprendi
os costumes e a lingua britânica com ela, e com certeza
era o único dali que entendia tudo que as vozes falavam.
A última voz se aproximou e um homem abriu a porta, falou
para um outro homem, enconstado em uma outra porta a direita dessa,
homem esse careca e muito musculo, que só fui ver agora.
- Hei, Loholt! Capitão Owain disse para preparar as cabeças
nos lançadores, onde estão os prisioneiros?
- Ai! Não está vendo, todos dormindo, será
um prazer acordá-los.
Acho que ainda não tinham me visto, pois também
era um prisioneiro, pelo que entendi.
Fui capturado duas semanas atrás, meu pai era soldado e
estava acampado no último vilarejo britânico conquistado,
em Kernow, porém não esperavámos que eles
ficassem sabendo tão cedo do incidente, logo nos pegaram
desprevinidos, e eu estava lá com meu pai, na verdade muitas
famílias de soldados estavam lá também, e
quando fomos atacados capturaram quase todos os não-soldados
e mataram quase todos os outros, do meu pai não sei do
seu destino.
Agora todos estávamos num pequeno aposento úmido
e sujo, onde existia uma pequena fresta horizontal na parede,
provávelmente para os arqueiros, que dava para o campo
de batalha lá embaixo, pois, pelo que posso perceber, este
aposento fica na parte interna da muralha próxima ao portão,
sim, estávamos em algum tipo de forte britânico.
Existia também duas portas, uma por onde o homem entrou,
e outra, onde o outro estava encostado, de lá saia um cheiro
nauseabundo, um cheiro podre, de morte. Nesta porta ainda tinha
um papel pregado escrito na língua dos britânicos
"Bem vindo ao abetedouro", assim, conclui que aquele
aposento não era mais usado para arqueiros, mas tinha uma
finalidade cruel.
Loholt, o homem careca e musculoso encostado na porta, olhou atentamente
para todos os prisioneiros como se estivesse tentando escolher
algum, tentei me esconder atrás de um manto que ainda me
acompanhava. Não vi mais nada, mas ouvi o homem pesado
andando e arrastando alguém que se debatia e gritava. O
outro britânico falou:
- Faça um bom trabalho! Mas rápido, os malditos
já estão chegando, já podemos ver suas tochas
daqui, vou providenciar o óleo lá em cima, até
mais.
- Não se preocupe, este é meu trabalho e sei como
fazê-lo. Apesar de querer brincar um pouco mais com esses
miseráveis, vou fazer o serviço rápido. -
Com isso ouvi uma porta bater. O outro homem havia partido.
O prisioneiro se debatia, e chorava, gritava, pregava maldições,
pelo que percebi todos os outros acordaram e ficaram quietos,
menos uma mulher, que tentava impedir o homem careca.
- Fique quieta! Sua hora vai chegar. Você tem sorte de não
termos tempo agora de fazer um belo serviço com você
sua vadia.
Ouvi a porta bater, saí do meu esconderijo. Olhei pela
fresta horizontal na parede, a chuva continuava e agora as luzes
pareciam bem mais próximas, eram as tochas do saxões.
- Eles vieram. - diziam uns.
- E são muitos. - diziam outros.
Muito movimento agora no forte, e o som da chuva nas armaduras
passavam despercebidos em meio a todo o barulho que os homesn
faziam. Concentravam seus arqueiros, os baldes de óleo
quente, vozes de comando, passos apressados, sons de rodas, e
atrás de mim, na porta com o inscrito aterrador, vinha
uma voz agora de terror que foi silenciada sufocada.
Loholt voltou, melado de sangue no peitoral nu.
- Muito bem quem será o próximo? Vamos ver... os
velhos primeiro, depois as mulheres... humm... vou deixar estas
por último, depois dos velhos as crianças. - Fez
uma pausa. - Você! apontou para um velho ao meu lado, e
uma lágrima de medo brotou dos meu olhos, pois o homem
agora me viu, e quase pensei que apontava para mim. - Não
chore assim garoto! Sua vez também vai chegar!!! - Disse
ele olhando para mim acreditando que ninguém entendia o
que ele dizia, e essa é a forma mais terrivel de demonstrar
superioridade, mas agora eu achava melhor não entender
o que ele dizia, nem ouvir os gritos, e nem mesmo estar acordado,
talvez a morte fosse melhor do que aquele show de terror. Ele
arrastou o velho para porta, mas este não tentou se livrar,
mas chorava em silêncio. A porta fechou.
- Temos que sair daqui! - disse um homem não muito velho,
mas o bastante para ser prisioneiro.
- Mas como? - indagou uma mulher.
- Somos muitos, ele é apenas um, só precisamos de
uma arma, la na sala fedida deve haver alguma. Hey! Garoto! -
disse ele apontado para mim. - você é o menor de
nós e parece ser o mais habilidoso, vai entrar lá
quando ele abrir a porta sem que ele perceba. - disse isso apontando
para a sala e no mesmo momento um som de um baque vinha de lá,
desta vez não houve grito de dor! - É agora, fique
perto da porta quando ele vier entre sem que ele perceba. Mas
neste momento um outro homem entrou pela outra porta gritando:
- Loholt seu bastardo, filho de saxã, onde estão
as cabeças droga... - mas interrompeu a fala quando viu
o velho em pé. - E você? Quer ir encontrar seus parente
lá fora? Eles já estão chegando, onde está
Loholt?
- Estou aqui, o que você quer atrapalhando meu trabalho,
Issa? - disse Loholt saindo da sala fétida.
- Cavan quer as cabeças agora mesmo, e Arthur disse para
não matar nenhuma mulher ou criança.
- O que esse Arthur quer, as putas saxãs só para
ele? Com certeza Owain não teria nenhuma advertencia. Só
tenho duas cabeças não poso fazer meu serviço
tão rápido assim.
-Duas!!! Seu monte de merda vou ter de ajudá-lo se não
vou perder a cabeça também. Vamos logo!
Com isso pegou o velho que falava e o arrastou para a sala. O
velho olhou para mim fixamente e depois balançou a cabeça
indicando a direção que eu deveria tomar, ao abatedouro.
Esperei o homem entrar, quando o careca abaixou para pegar um
outro velho, que se debateu o máximo que pôde para
atrasar o serviço, aproveitei para correr para a sala,
olhei para ver se Issa, o outro homem, não estava me olhando,
mas ele parecia procurar alguma coisa enquanto o velho já
estava amarrado deitado numa mesa cheia de sangue, o velho olhou
para mim e mostrou com o olhar onde estava as armas, estava no
lugar oposto onde Issa estava. Corri para lá quase na mesma
hora que o Loholt voltava com o velho se debatendo, estava quase
de cabeça para baixo nas mãos do careca.
- Está ali! - apontou o careca, dizendo onde estava as
armas. - pegue o machado é mais prático para você
que nunca fez isso. - disse ele rindo.
Por sorte já tinha saído de lá, peguei uma
espada curta e me arrastei para trás de uma pequena estante,
só agora pude analisar o aposento: a primeira impressão
que tive foi o cheiro de sangue e podridão e a escuridão,
só havia uma pequena tocha acesa presa num pedestal próximo
a mesa do lado em que estava a cabaça do velho, por todo
lado havia muita sujeira e algumas estantes ou armários,
a maioria cheio de materiais de tortura, uns tão estranhos
que não conseguia imaginar onde se encaixavam no corpo,
além disso, num canto oposto ao da porta, havia um amontoado
de corpos, que pelo cheiro estavam ali havia muito tempo, estavam
cobertos por vários panos grossos mas ainda assim dava
para ver algumas pernas, braços, pés, e quase nenhuuma
cabeça.
Ao lado da mesa havia um saco com alguma coisa dentro e ao lado
do saco uma cabeça, a do último homem que morreu
em silencio, estava olhando para mim e no seu rosto não
havia dor, não havia nenhum sentimento.
Quase não consegui me mecher, mas precisava, a porta estava
fechada, mas como os dois homens estavam de costas para a porta
me arrastei até lá e me esconde atrás de
um cesto, deste também saía um cheiro horrível,
tapei o nariz enquanto esperava os homens abrirem a porta de novo,
quanto aos dois velhos não pude fazer nada.
Quando cheguei a porta, o primeiro, Issa, tentou manusear o machado,
mas tinha pouco jeito com a arma, então o careca falou.
- Saia dai, é melhor eu fazer isso, amarre este aqui enquanto
isso. - deu o outro velho para o homem amarrar enquanto pegava
o machado e levantava-o lentamente, começou assim a cantar
para o velho deitado a mesa, desta vez, para minha surpresa, em
saxão, para que o velho pudesse entender:
"Aproveite sua permanência aqui
Bem vindo ao abetedouro
Liberte-se dos pensamentos podres
Sem mais dor"
Com isso desferiu o golpe mortal, sem gritos também desta
vez. Tirei a mão do nariz e tapei meus olhos, aquilo era
pior que o cheiro ruim. O outro velho começou a gritar
e o careca começou a cantar novamente acompanhado do outro
homem, eu começava a achar que todos os weahas haviam
aprendido aquela música em saxão para torturar seus
prisioneiros, o velho gritava, e os outros cantavam. Tapei meus
ouvidos e fechei os olhos. Aquilo tudo era pior que a morte para
mim. Chorei. O grito foi interrompido.
Voltei a tapar o nariz e me coloquei atrás do cesto. Os
dois homens vieram, abriram a porta. Não me viram. Os dois
saíram, fui atrás o mais silenciosamente que pude,
mas não tinha onde me esconder. Peguei a espada segurei-a
com força, eu, apesar de jovem, já tinha força
suficiente para carregar uma espada, ao menos uma espada curta,
e o meu pai já havia me ensinado alguma coisa, apesar de
naquela hora ter esquecido de quase tudo que aprendi, respirei
fundo enquanto os homens escolhiam mais alguém, o Loholt
não parecia muito preocupado, mas Issa parecia apressado
e logo agarrou outro, não tive muito tempo, com um grito
estoquei a espada contra as costas do careca que estava mais próximo,
este não teve tempo de se virar, mas o golpe foi fraco
e o homem não havia morrido, mas nesta hora o velho que
Issa havia agarrado se desvencilhou e se jogou em cima do careca,
enquanto isso uma mulher sacava a espada que Issa guardava no
cinto sem banhia, o velho que se jogou em cima de Loholt o fez
cair em cima de mim, a espada atravessou o careca e feriu o velho
na altura do estômago.
Tudo isso aconteceu rápido de mais e o homem agora desarmado
não sabia o que fazer, a mulher não sabia manejar
a espada mas apontava a espada desajeitada para o homem, este
ainda tentou bater na mulher mas não teve tempo, todos
os prisioneiros se jogaram para cima dele e o espancaram até
a morte, Issa não era tão forte para resistir, e
eram muitos, apesar de velhos. A mulher soltou a espada, tiraram
o velho e o careca de cima de mim. Acei que minha missão
havia terminado naquela noite.
Parte II
Alguns vieram me abraçar, outros cuidar do ferimento do
velho, e muitos outros ainda entraram na sala fétida para
pegar armas. Um destes saiu vestido de britânico.
-Achei
esta armadura e o elmo, devem ser do tal Loholt. Há armas
para todos aqui, e ainda podemos lutar. - Este velho era Dwyng,
um velho amigo de meu pai, mas que não lutava mais, pelo
mesno até o dia de hoje.
-Isso
mesmo! - disse um outro, e começou a tirar a armadura de
Issa. - Mas temos que nos desfarçar, ou seremos encurralados
como ratos.
-Não
tem mais armaduras lá dentro - disse Dwyng apontando para
a sala do abatedouro, depois ele se dirigiu a outra porta. - temos
que atrair mas soldados para cá e pegá-los de surpresa.
-Então
vamos fingir uma rebelião! - disse o outro velho já
vestido como britânico.
-Não,
Amorth, eles virão armados até os dentes. Não
teríamos chances. Temos que chamá-los aos poucos.
Um a um, e todos serão mortos.
-Sim,
acho que temos tempo até que nosso exército esteja
aqui, poderemos ajudá-los. - disse um outro olhando pela
fresta. - Parece que eles pararam no monte Ermech.
-Esta
bem, mas como vamos fazer isso? - indagou um velho mau humorado,
parecia não se importar mais com que estaria por vir, e
parecia preferir o abatedouro do que alongar aquela vida amarga.
- Por acaso algum de vocês sabe a lígua weaha
para chamá-los aqui?
-Eu
sei! - surgiu minha voz aguda espantando até a mim mesmo.
- Minha mãe já foi escrava na mão dos britânicos,
ela me ensinou.
-Ora!
Mas você é um garoto abençoado pelos deuses,
Anwor! Havia me esquecido da sua falecida mãe, você
e seu pai sabem falar a lígua weaha - disse Dwyng
dando tapinhas nas minhas costas, ele era o único que me
conhecia.
-E
o que uma criança iria querer chamando um weaha
aqui? - disse o velho rabujento cuspindo. - "Hey, meu pescoço
está muito duro, Loholt precisa de ajuda aqui!" -
acrescentou ele imitando minha voz fina.
-Isso
não será problemas! - disse Amorth, o velho vestido
de britânicom as roupas de Issa - aliás você
me deu uma ótima idéia. Durig é um ventríloquo
e imitador. Anwor, é este seu nome não é?
- perguntou ele para mim, confirmei com a cabeça. - você
terá que ensinar Durig a dizer algo do tipo: "Hey,
vocês ai em cima, eu e Loholt estamos precisando de ajuda
aqui, são muitos saxões, estão dando trabalho!".
Assim, Durig imitará a voz do falecido Issa.
-Perfeito!
- disse Durig se levantando e ajoelhando ao meu lado. -Vamos como
devo dizer?
Expliquei
direitinho a frase, lembrando de substituir os "saxões"
por "sais", e adicionar alguns palavrões ao que
o velho havia me dito. Durig pegou fácil até mesmo
o sotaque. Enquanto isso, os outros procuravam armas, a maioria
preferia machados, e já ensaiavam como iriam pegar os britânicos
desprevinidos.
Depois
de ums dez minutos, Durig já havia ensaiado. Nossos parentes
no exército lá fora ainda não havia saído
do monte Ermech. E agora me perguntava se meu pai estaria ali,
olhei para fora, ainda estava chovendo e as tochas haviam se apagado,
so as sombras deles era vista com a luz da lua.
Durig
colocou o elmo britânico de Dwyng e colocou a cabeça
para fora do aposento. Havia uma escada que subia provavelmente
para as muralhas. Ele gritou na língua deles: "Hei,
venham aqui em baixo, precisamos apressar as coisas com esses
sais disgraçados." Algúem gritou lá
de cima: "Ora vocês não acabaram com isso ainda?
Não acredito que vou ter de descer ai, Issa molenga de
uma figa!". Não traduzi, mas mandei Durig falar: "
Pois então venha e traga quantos puder!". Apesar de
não ter ensaiado esta parte ele falou perfeitamente bem,
imitando até o sotaque, fiquei impressionado com a perícia
dele nisso, fiquei até com vontade de vê-lo imitando
o capitão Cerdic, o capitão tinha uma voz rouca
e ao mesmo tempo aguda que lembrava um balir de um carneiro, seria
interessante ver Durig imitando-o.
-Venha!
- disse ele sorrindo e me puchando para um canto, enquanto os
outros se colocavam nas suas posições. - O que você
disse para eu dizer?
-Para
ele vir e trazer mais se pudesse.
-Então
não vem só um? - Perguntou Dwyng.
-Não!
Mas não virão preparados para a batalha ao menos.
E não poderão lutar ao mesmo tempo, já que
a escada é estreita. - respondi, e todos me olharam surpresos
com minha análise tática.
Alguns
deram de ombros, como se aquilo fosse óbvio (e era), depois
prepararam-se. Ouvimos passos descendo, um primeiro homem abriu
a porta escancarando-a, Dwyng o puxou com força assim que
o viu e estocou uma espada cuta nas suas costas, enquanto Amorth
puxou o outro e fez o mesmo.
Haviam ainda dois escada acima, estes sacaram as espadas, um dos
velhos armados avançou para cima do primeiro com um machado
simples, o britânico ainda tentou aparar desprevinido com
a espada, mas acabou escorregando nos degraus e caiu cortado pelo
machado. O outro britânico atônito correu escada a
cima.
-Não
o deixe fugir, Musterg, ele irá chamar reforços
- disse Amorth tirando a espada das costas do britânico
morto.
Com
isso Musterg arremessou o machado que cravou nas costas do britânico,
morto.
Recolhemos
os corpos. E outros quatro de nós vestiu suas roupas e
armaduras. Mas eu permanecia no mesmo lugar de antes, juntou a
fresta. Parece que nosso exército saxão estava se
preparando para partir, os que pareciam deitados ou sentados agora
estavam levantando, e eu procurava inutilmente a figura do meu
pai. Avisei a todos do que vi.
-Mas
conseguimos apenas quatro corpos, somos apenas seis disfarçados.
-Agradeça
por terem vindo apenas quatro para vocês lutarem - resmungou
o velho rabujento. - E de qualquer forma, quantos mais de vocês
estão aptos a lutarem nessas condições. Seis,
sete, dez contra quantos? Cem? Duzentos?
Aquilo
pareceu intimidar alguns e a resposta de Dwyng não animou
o restante:
-Mas
nossos irmãos estão vindo ai... - não houve
resposta. O velho rabujento cuspiu mais uma vez. - Ok! Quantos
ainda estão dispostos a lutar? Consiguiremos quantas armaduras
precisarmos!
Todos
se entreolharam, apenas um homem, que estava ao meu lado se levantou:
-Eu!
Estou velho como todos aqui, mas minha energia voltará
quando segurar uma espada ou um machado, o que é difícil
de encontrar com esses weahas maricas! - falou ele seguido
de uma gargalhada.
-Isso
é ótimo! - Amorth se aproximou dele e o abraçou.
- Durig, suba lá e pegue mais um uniforme para nosso amigo
Breguir. Anwor ensine-o como se deve fazer.
Durig
pegou rápido, pois fiz o máximo para ficar parecido
com o que ele tinha falado antes, enquanto isso Amorth dava seu
uniforme para Durig, pois este estava sem manchas de ferimentos.
Durig
saiu, fechamos a porta e esperamos. Não demorou muito até
ouvirmos som de espadas sendo sacadas na escada. Musterg abriu
a porta, Durig acabará de matar o britânico ali mesmo,
e outro estava descendo a escada com a espada desembanhada. Musterg
não pensou duas vezes antes de arremessar seu machado mais
uma vez. Por pouco não acertava Durig, e agora tinhamos
dois corpos mortos. Recolhemos e tiramos suas roupas, mas ninguém
queria usar a vestimenta do segundo homem, ninguém mais
queria lutar. Olhei lá pra fora, nosso exército
começou a se movimentar, e não sei por que tive
uma certeza estranha de que meu pai estava lá, e alguma
coisa no meu coração me chamava para a guerra, talvez
minha primeira, e muito provavelmente minha última.
-Eu
vou! - mais uma vez me espantei com minha própria voz falando.
- Meu pai me ensinou a lutar, pelo menos um pouco. Acho que posso
ser de alguma ajuda, afinal ninguém mais irá, e
eles já estão vindo. - Apontei lá pra fora.
Vesti,
a roupa manchada de sangue e a cota de malha. estava um pouco
folgado mas apertaram bem com um cinto, e com certeza passaria
despercebido.
Oito
sairam, Eu; Dwyng, o amigo do meu pai; Durig, o ventríloquo;
Amorth, o que vestiu a roupa de Issa; Musterg, o que arremessou
o machado; Breguir, o que se propôs a lutar e mais dois:
Meutor e Juster. Subimos as escadas, por sorte todos também
conseguiram elmos, por isso foi fácil esconder nossas faces.
No final da escada não havia ninguém, parece que
haviamos matado todos que estavam de guarda ali, ou todos já
haviam subido para a muralha. Pois, nos encontravámos em
um corredor que seguia numa só direção: para
uma outra escada curta. Subimos, dava na muralha externa, muito
movimento, muitos soldados passando de um lado para o outro, nos
espalhamos.
O
plano era fazer dois grupos: um ficaria na muralha em cima do
portão, onde estariam os baldes com óleo. "Vamos
ter cozido de weaha, isso sim!" disse Dwyng, quando
eu disse o que ouvi mais cedo. Aqui ficariam Dwyng, Durig, Breguir
e Meutor. O outro grupo desceria para o pátio e faria seu
estrago lá, quando o nosso exército chegasse ao
portão. Desci com Amorth, Musterg e Juster.
Parte III
Lá em baixou todos estavam arrumados em várias filas
horizontais, nos colocamos atrás da última. Eu fiquei
na ponta esquerda, aqui havia uma catapulta, e um saco. Neste
saco, como já presumia, havia algumas cabeças, e
pelo que percebi o operador da catapulta estava brigando com um
soldado, reclamando sobre as cabeças que estavam faltando.
Me afastei pois não queria sentir aquele cheiro novamente.
Lá
em cima das muralhas os arqueiros começaram a atirar. E
alguém aqui em baixo gritou alguma coisa que não
entendi direito fazendo todos correrem para o portão. Fui
atrás, eles esbarraram no portão. Amorth fez o sinal
para mim e começamos a matança. Sempre no ventre,
estocamos nossas espadas nas costelas deles, e demorava tempo
suficiente para eles cairam e nós sairmos corredo para
o meio da multidão, assim acertei três sem nem saber
se tinham morrido ou não, quando matei o meu quarto, houve
a primeira batida no portão. "Segurem o portão!"
Diziam os weahas aqui dentro, matei mais um e deixei seu
corpo agonizante espremido entre outros dois e fui para frente,
foi ai que um corpo caiu lá de cima das muralhas, no mesmo
momento que houve uma segunda batida no portão.
Houve
muita confusão nesta hora pois quem estava mais próximo
ao portão segurava-o e quem estava atrás queria
olhar o corpo, e eu fiz o mesmo, com minha cara de espanto, depois
todos olharam para cima, não havia ninguém. Mas,
no círculo feito para olhar o corpo morto, olharam para
a espada de Amorth, ele também estava com a cara de espanto,
mas sua espada estava pingando em sangue, um deles falou "Sangue
na sua espada!" e apontou para a espada de Amorth, ele olhou
para os lados, e houve a terceira batida no portão. Num
movimento brusco cortou a cabeça do homem, todos sacaram
suas espadas, mas Amorth, apesar de velho, era rápido e
conseguio se esquivar de muitos golpes e matou muito homens.
Musterg e Juster lutaram também contra os britânicos,
e muitos começaram a não entender nada e ficavam
na dúvida em quem atacar, olhei lá pra cima e vi
Breguir e Meutor descerem correndo para o pátio e já
chegaram desferindo golpes. Meutor morreu rápidamente,
mas nós ainda resistiamos e sempre saiamos correndo e escondiamos
o rosto com a capa para os britânicos ficarem confusos.
Matei mais ums cinco quando vi Juster cair morto em cima de mim,
não pensei duas vezes antes de falar "Traidor miserável!"
e joguei seu corpo longe.
A quarta batida veio acompanhada do som do óleo quente,
nove baudes foram derramados, correria para todos os lados , aproveitamos
para matar mais weahas desesperados, o chão antes
molhado da chuva, agora estava escorregadio com o óleo,
muitos sairam correndo para as muralhas ou para o forte, agora
achei melhor fingir ser um deles e sair corendo também.
Houve a quinta e última batida, os saxões entraram
fazendo uma chaçina com quem restava no pátio. Mas
a maioria dos britânicos estava agora correndo para o forte,
fizemos com que ficassem tão confusos que tiveram de recuar
extamento na hora em que seu inimigo entrava. De qualquer forma,
preferi não seguir os britânicos para o forte, lá
seria mais fácil me reconhecerem.
Vi
Breguir escondido atrás da catapulta, ele me chamou, corri
até lá. Ele estava ofegante.
-Todos
estão mortos. Só Dwyng e Durig que ficaram lá
em cima sobreviveram. - Fez uma pausa para respirar e deu uma
gargalhada. - Se fosse para morrer gostaria que fosse deste jeito
mesmo. Vendo a cara de terror deles, confusos e desnorteados.
Mas agora é melhor esperarmos que os covardes voltem.
Enquanto
isso os saxões avançaram para o pátio, não
havia mais britânico lá, todos haviam recuado. Alguns
dos saxões entraram na torre de menagem e outros subiram
para o forte. Descanssamos ali, e vimos a luta na muralha. Os
saxões já subiam a muralhas do lado de fora pelas
escadas móveis, e alguns já começavam a descer,
a vitória parecia iminente.
Mas
o cenário mudou, de repente uma multidão de soldados
saxões vinha descendo da ladeira que levava ao forte, estavam
sendo empurrados pelos britânicos.
-Vamos
é agora. Se vamos morrer que seja agora! - Com isso Breguir
saiu correndo e se enficou no meio dos soldados britânicos
arrancando algumas cabeças. Nós ainda erámos
maioria, por isso resolvi ter mais cautela e me enfiei no meio
dos britânicos sem atacar ninguém ainda.
No
meio do empurra-empurra não conseguia nem mesmo me mecher,
apenas virar a cabeça. Foi numa dessas viradas que vi atrás
dos batalhões britânicos, mais saxões saindo
da torre de menagem, encurralando os weahas, e mais ainda
saxões ainda vinham das muralhas. Haviamos ganhado. Fourmou-se
um anel de escudos, um de costas para o outro, e cada vez mais
este círculo diminuia com os ataques saxões. Foi
ai que começei a me preocupar: como iria sair dali?
Quando
só restavam pouco mais de vinte britânicos contra
uns oitenta saxões, e mais de cem lá fora esperando
para entrar, vi um homem voando na direção da muralha,
não sei como ele fez isso, e não tive muito tempo
para pensar. Estava sendo atacado pelos saxões, pois agora
estava na beirada do círculo, apenas aparava os golpes
o máximo que podia e recuava.
Me
sustentei até ficarem apenas eu e um outro homem. Ele era
forte, musculoso, e não usava armadura alguma, e parecia
ser o capitão. Minha aflição começou,
pois agora era iminente a minha morte depois a dele. Ainda cheguei
a aparar alguns golpes, mas fazia de tudo para não matar
ninguém. Uma grande tensão se formava agora, pois
ninguém ousava atacar o homem musculoso, fez-se um círculo
saxão em volta de nós dois, quem ousava atacar o
homem forte, era morto com um só golpe, e a cada morte,
mais apreensivos ficavam os saxões. Até que ele
disse:
-
Quem desafia Owain, o campeão da Dumnonia?
Alguns
ainda tentavam atacar, mas eram mortos. E parece que não
havia dúvida quanto atacar a mim primeiro, para depois
matar Owain. Pois agora todos recuavam e olhavam para mim com
fome de morte. Só havia uma maneira. Me virei para Owain
e estoquei minha espada no seu ventre, mas eu não esperava
que ele fosse tão forte. Se virou e meu coração
disparava como nunca, meu plano havia dado errado, senti sua lâmina
no meu pescoço.
Parte IV
Meu pai me falava algumas coisas sobre a morte. E uma delas era
sobre como morrer degolado. É claro que ele nunca tinha
passado por isso, mas ele me contou uma vez que quando uma pessoa
é degolada ela ainda vê durante uns dois segundos.
Estes segundos foram suficientes para ver vultos e mais vultos,
dentre eles reconheci um, enquanto minha cabeça girava
e caia no chão, reconheci meu pai correndo em direção
do campeão da Dumnonia. Depois vi a chuva mudando de cor.
E agora sabia que não estava vendo com meus olhos do corpo,
e sim com os olhos de um morto. Me senti leve o suficiente para
voar.
Agora
conseguia ver meu corpo separado de minha cabeça, mas ao
contrário do que esperava, não sentia desespero.
Tudo estava meio embaçado, mais uma cena se destacava na
minha visão. Meu pai havia matado Owain. E lá fora
cavalos chegavam. Me senti sonolento, e resolvi não ver
mais nada, ouvia os cânticos do Outro Mundo, os deuses estavam
a me chamar.
Fui
em direção ao som mas uma coisa me fez voltar, uma
grande correria havia começado, olhei para baixo, vi o
meu pai subindo como eu, sorri para ele, finalmente o havia encontrado,
ele sorriu para mim, e ouvi ele dizer algo como não ser
lembrado com glória, então eu disse:
-
Mas você matou o campeão, e eu também o acertei!
-
Sim! É verdade.
E
agora por um momento eu me vi cantando aquela música que
ouvi na sala do abatedouro. E aquilo não me parecia tão
medonho e tenebroso, os sentimentos parecem mudar quando você
morre.
Em meio a minha cantoria ouvi o meu pai dizendo:
-
Melhor do que morrer pela espada de qualquer britânico,
é morrer pela espada do lendário Rei Artur, o rei
sem coroa. Excalibur fez minha passagem para o Outro Mundo. Vamos
meu filho, você também veio não é?
E
agora sabia quem havia matado o meu pai.
A
música agora parecia mais alta, o chamado dos deuses, então
resolvi ir logo.
-
Sim pai, estou aqui! Não achava que isto poderia acontecer,
mas estou com fome, os deuses nos esperam, se eles realmente existem.
-Sim você veio! Mas não poderá tomar hidromel,
é muito novo para isso.
-Tudo bem, mas vamos logo, estou louco para vê-los. Vamos!
- Puxei ele pelo braço e começamos a flutuar para
o Outro Mundo.
Fomos embora.
Por
Marcelo Etiell ([email protected])
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