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Eu o Cavaleiro
Negro
Narrado Por Scytherus Saiazi, legionário
Muito já foi lido e contado sobre importantes personagens
que ficaram presos por anos para depois por pura sorte do destino
serem libertados e encontrar o sucesso, bem eu não sou importante
e nunca acreditei em contos de fada por isso não estava no
melhor dos humores na cela fria, fedorenta e úmida de Triessa.
O meu crime? Poupar uma vida! Como
soldado da gloriosa décima legião minha obrigação
era matar os inimigos de Aquae Calidae, uma das poucas regiões
de Marduk aquecidas por fontes termais onde a natureza é
bem mais clemente com o homem permitindo plantações
e criação de animais que nunca seriam possíveis
no clima gelado que nos cerca por todos os lados.
É natural que estes vales
aquecidos não comportem um número excessivo de pessoas,
e é natural também que as pessoas não respeitem
esse fato e tenham um número muito maior de filhos que deveriam
e assim sendo logo alguém tem de sair para que os outros
sobrevivam, os escolhidos no começo foram os idosos mas como
o problema continuou os fracos foram expulsos pelos fortes e mantidos
fora.
O homem possuí uma capacidade
toda especial de sobreviver as mais duras condições,
apesar de difícil e cheia de sofrimento a vida nas florestas
geladas de Marduk não é impossível, e nem todos
que foram expulsos encontraram seu fim e aqueles que viveram se
tornaram fortes e selvagens assim como seus filhos e passaram a
clamar por um lugar junto a seus outrora irmãos.
E isso deu lugar a uma guerra que
dura muito mais que a vida de cem homens, pelo menos o problema
de natalidade terminou e qualquer um que se aliste pela causa da
alta nobreza de Aquae Calidae tem uma vida muito melhor do que um
dos bárbaros que lutam a cada dia para sobreviver no gelo.
Eu fui um destes que se alistou e
foi mandado combater nas fronteiras geladas para que um nobre gordo
que nunca fez esforço maior na vida que limpar o traseiro
pudesse ficar aquecido e feliz em sua mansão. Depois de alguns
anos eu estava irremediavelmente cansado de morte e destruição,
por ser um plebeu sabia que nunca iria subir muito na hierarquia
militar mas pelo menos era respeitado pelos colegas, nem que fosse
por medo de minha habilidade em matar.
Consegui um lugar na cavalaria da
legião e muitas vezes perseguimos os bárbaros que
fugiam diante do troar dos cascos de nossos sh'arin , as renas de
montaria, e destruímos muitas aldeias. Foi numa dessas aldeias
que fiquei totalmente farto de sangue, me lembro muito bem da mulher
apertando a criança em seus braços apenas esperando
que eu a transpassasse com a espada, ao invés disso abri
um buraco na cabana de terracota e disse "Vai".
Sempre há alguém ciumento
pronto para nos denunciar e foi isso que aconteceu comigo, fui acusado
de traição e agora apenas aguardo minha sentença
numa cela fedorenta e fria não sei se vão simplesmente
me matar, expulsar para o gelo ou para o subterrâneo o resultado
de todas essas alternativas geralmente é o mesmo.
Cinco Anos Depois
Narrado pelo senador Caius Severus,
antigo general da legião do império
O império já não é o mesmo, lembro de
que tudo começou dois anos após condenarmos um legionário
aos subterrâneos por traição. Os elfos da profundeza,
antes um bando mal organizado e na idade da pedra que nos serviam
fielmente fornecendo metais e produtos do mar subterrâneo
passaram a atacar nossos postos de troca.
Forjaram de alguma maneira armas
mais eficazes com os metais que deviam nos fornecer e como conhecedores
das profundezas armavam emboscadas a todas as forças que
enviávamos contra eles com enormes perdas para nós.
Logo rumores sob um exército melhor treinado e equipado que
aqueles pequenos grupos de guerrilha foram ouvidos e um dia esse
mesmo exército tomou os portões do subterrâneo
nos isolando completamente dos recursos de que precisávamos
tão desesperadamente e o estandarte do leopardo de prata
foi erguido nas muralhas.
Desde então eles guarneceram
e reforçaram as defesas dos portões tornando impensável
qualquer tentativa de retoma-los nos forçando a manter grande
parte de nossas forças estacionadas em constante vigilância
ao redor dos portões e para piorar mais a situação
tropas destes mesmos rebeldes foram encontradas lutando ao lado
dos bárbaros de gelo numa união completamente impensada
até anos atrás, seguindo por caminhos secretos eles
haviam chegado a superfície e forjado uma aliança
com os clãs bárbaros e agora começam a lentamente
empurrar nossas legiões de volta aos vales.
Só me resta agora esperar
que um milagre nos salve antes que as forças selvagens daqueles
que considerávamos escravos ou bárbaros cheguem a
nossos portões berrando por sangue.
Elfos das Profundezas
Narrado por Sirka Saiazi
Nossa vida mudou desde que ele chegou até nós de remanescentes
exilados dos elfos do luar e escravos do império para guerreiros
orgulhosos que não abaixam mais os olhos de vergonha. Ainda
me lembro quando estava chegando as armadilhas para peixes nas praias
rochosas do mar das profundezas quando ele chegou até mim,
estava praticamente nu e com o corpo mostrando as marcas da longa
jornada que havia feito das regiões mais perigosas do mundo
subterrâneo até a região relativamente pacífica
perto do mar onde vivíamos.
Apesar de não gostarmos de
humanos eu sabia que ele fora rejeitado por seu próprio povo,
senão porque estaria ali, assim como nós mesmos o
fôramos e por isso como eu poderia deixar de ajuda-lo? Foi
bem recebido pela maioria dos meus pares, afinal uma mão
a mais é sempre útil no trabalho e fomos ficando cada
vez mais próximos.
Apesar de sua pele branca e olhos
claros sua alma parecia falar diretamente com a minha e como todos
na aldeia já o estimavam não houve impedimentos em
nossa união, só uma sombra nublava nossa vida em comum
a exploração que os soldados do império submetiam
meu povo.
Meu marido começou a se reunir
com os jovens da aldeia em longas conversas junto as fogueiras,
aos poucos foi assumindo a liderança e passou a secretamente
forjar armas de metal, arte que havíamos esquecido após
séculos vivendo na escuridão do mundo subterrâneo,
e a treinar escondido nas poucas horas de ócio que possuíamos
junto com sua legião crescente de seguidores e quando os
soldados do império voltaram foram emboscados e sumariamente
executados.
Foi fácil para nós
nos escondermos no mundo subterrâneo, esse era nosso lar e
conhecíamos cada recanto dele, sempre atacando e nos escondendo
e crescendo em número quando os demais clãs de nosso
povo perceberam que podiam lutar com vantagem nos corredores rochosos
de nosso mundo.
Agora nós que antes éramos
relegados as sombras lentamente estamos voltando para a luz e com
as alianças que temos feito com os bárbaros da superfície
é apenas uma questão de tempo até que a situação
se inverta e o pendão do leopardo de prata seja erguido acima
das mansões de mármore de Aquae Calidae e o cavaleiro
negro nos permita uma vez mais ver as estrelas e o céu.
Por Grão Mestre
Dark Heart([email protected])
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