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Fábula
do Demônio Cartesiano - Capítulo III (continuação)
"Sim... estou..." respondeu
limpando o sangue de sua boca.
"Ehhh... obrigada por me salvar, senhor..." agradeceu
a menina, saindo de trás de Cartesiano.
"..." Dagan não conseguiu responder, agora notara
que o 'cachecol' da menina era na verdade uma cascavel esverdeada.
Era perto do meio-dia, Dagan, Cartesiano e a menina estavam sentados
sob uma árvore, desfrutando de sua sombra e do vento pela
campina.
"Meu nome é Laura... três dias atrás, quando
eu colhia flores perto do trigal, vi duas águias voando,
uma delas trazia uma cobra em suas patas e quando passaram por mim,
a cobra mordeu a águia e ela a soltou, ela caiu em cima de
mim e enrolou-se no meu pescoço..." relatou a menina,
coberta com o manto de Penumbra.
"As pessoas da vila ficaram com medo, tentaram de tudo quanto
é jeito tirar a cobrar do meu pescoço, mas não
conseguiram, daí começaram a me chamar de bruxa, principalmente
depois que descobriram que eu pudia conversar com ela..."
"Daí, hoje, pela manhã, aqueles três me
jogaram no rio, uma mancha de peixes mortos apareceu, daí
então ele me acusaram de ter matado os peixes, daí...
daí..." soluçou secando suas lágrimas
no manto.
"E seus pais?" indagou Dagan, enquanto Cartesiano assoava
o nariz e secava uma lágrima que corria em seu rosto.
"Ele foram mortos, o padre da igreja disse que eles eram bruxos...
e mandou os três me pegarem..."
Estavam por volta das três horas da tarde, Dagan tentava pescar
algo na margem do rio, Cartesiano cavava atrás de minhocas
para seu amigo, Laura dormia sob a sombra da árvore. Era
uma menina adorável, com cachos de finíssimos fios
de cabelo dourados, olhos azuis, pele alva, maçãs
do rosto levemente rosados, lábios de cereja... talvez tivesse
por volta dos dez ou onze anos.
Ela acordou com o cheiro de peixes sendo assados, faminta, seus
olhinhos brilharam ao ver três belos peixes sendo assados
em espetos.
Cartesiano estava longe, talvez caçando outro javali, já
era quase noite...
Penumbra surge no exato momento em que o sol se põe, mesmo
com a face, cabelos e roupas cheias de terra, sua altivez jamais
seria ofuscada.
"O grupo está aumentando..." Penumbra fez seu comentário
de modo ácido.
Dagan franze a testa em uma censura. Sentia uma certa afinidade
com Cartesiano, afinidade destinada às crianças, mas
com Penumbra... apesar de seu ar de nobreza lhe inspirar admiração,
suas palavras ásperas eram afiadas como agulhas e adagas,
que o levavam a cultivar uma antipatia. Pela primeira vez, dava-se
conta de que ao contrário de Cartesiano, nunca o havia visto
sorrir. Talvez fosse incapaz de realizar tal ato.
"Quem é a garota?" indagou Penumbra com um olhar
desdenhoso.
"Sou Laura, senhor..." murmurou a menina ensaiando uma
mesura, enquanto tentava limpar o rosto, lambuzado pelo peixe que
comera.
"Ela não tem ninguém, além da gente."
chegou Cartesiano trazendo uma corça sobre o ombro esquerdo.
"Há uma cerejeira mais adiante, vamos colher algumas..."
Penumbra apontou para algum lugar em direção ao riacho.
"Por quê?" perguntou Dagan confuso.
Penumbra apenas olha para a garotinha e depois para a corça
que Cartesiano iria eviscerar.
"Ah..." murmura pegando um galho e improvisando uma tocha,
pois era uma noite sem lua.
Caminham calados até a margem do riacho.
"Afaste essa luz de mim." ordenou Penumbra enquanto pegava
Laura no colo.
A contra gosto, Dagan se afasta imaginando o que ele estaria tramando.
Teria esperado a noite toda, se Penumbra não o mandasse atravessar
logo, mesmo assim, demorou até que achasse, lá longe,
um caminho de pedras por onde pudesse atravessar. Quando finalmente
chega à cerejeira, encontra Penumbra e Laura, sentados o
esperando.
"Está muito escuro... não podemos pegar as cerejas..."
lamentou Dagan imaginando se Cartesiano já havia terminado
sua refeição.
"Eu as colherei." declarou Penumbra "Precisarei do
manto, menina." virando-se para Laura e desfazendo o nó
que a prendia ao pescoço. Ao ver sua nudez, ergue um olhar
acusador para Dagan.
"Hey! Não pense besteiras!" ordenou ofendido.
"Foram os homens da minha vila..." Laura confirmou a inocência
de Dagan.
Penumbra suspira, retira sua camisa e a coloca em Laura, gentilmente
acaricia a cabeça da cobra em seu pescoço com uma
cocadinha, ela sibila de modo quase alegre.
Ele dobra o manto sobre seu braço e sobe na árvore.
"Ele nem se quer estranhou a cobra..." pensou Dagan "Laura...
como vocês atravessaram o riacho?" perguntou um tanto
temeroso.
"Ele andou sobre a água..." respondeu como se tal
fato fosse a coisa mais banal do mundo.
"O que ele é? Ou melhor... o que eles são?"
pensou Dagan aflito. Nisso, o manto amarrado em forma de um saco
é solto ao seu lado. Penumbra desce tão silenciosamente
quanto um gato.
"Quem é o senhor?" indagou Laura, assim que seu
rosto foi iluminado pela tocha.
"Eu sou Penumbra." respondeu em sua costumeira indiferença.
"Quem é o senhor?" voltou a questionar.
"Você tem uma história, conte-a!" ordenou
sentando ao lado da menina.
Antes que Laura pudesse abrir sua boca, a cobra desenrola-se de
seu pescoço (pela primeira vez), desce de seu corpo e sobe
pelo braço de Penumbra, até enrolar-se em seu pescoço,
empinando-se para manter sua cabeça alta encarando seu ouvinte,
enquanto sibila longamente, sendo intercalada pelo chocalho em sua
cauda.
"É uma grande história..." conclui Penumbra,
enquanto a cobra sibila uma agradecimento e volta para o pescoço
de sua menina.
"O que... o que ela disse?" perguntou Dagan, vencido pela
curiosidade.
"Uma profecia." respondeu Penumbra, sem ao menos dignar-se
a olhar para seu companheiro.
"Que profecia?" Dagan coçando-se de curiosidade.
"Uma que não se realizará." respondeu Penumbra
olhando seriamente para a cobra, que se retorce quase ao ponto de
estrangular a menina.
"Por quê?" perguntam Dagan e Laura ao mesmo tempo.
"Profecias só se realizam se alguém acredita
nelas. Como não acredito, não vai se realizar."
respondeu Penumbra novamente à margem do riacho.
"Que coisa mais horrível de se dizer à uma criança!"
enfureceu-se Dagan.
"É apenas a verdade." respondeu Penumbra jogando
o saco com cerejas para Dagan.
"Por que não pode acreditar na profecia?" questiona
fazendo um malabarismo com o saco e a tocha.
"Elas não tem nada, que me interesse, a me oferecer."
declarou com uma simplicidade irritante.
"Achei que fosse honrado, senhor... mas vejo que não
passa de um mero mercenário!" gritou Dagan furioso,
deixando a tocha cair e se apagar.
"Cuidado para não perder as cerejas." alertou Penumbra
pegando Laura no colo para atravessar o riacho, dessa vez usando
a trilha de pedras que Dagan havia encontrado.
"Seu..." é tudo que Dagan consegue dizer, antes
de sua voz ser sufocada pelo barulho de algo caindo na água.
Penumbra apenas ignora tudo isso.
Quando chegam à fogueira, Cartesiano havia acabado de devorar
a corça e estava palitando os dentes com algum pedaço
de graveto afiado. Logo, Dagan chega correndo, estava ensopado e
agarrado ao manto com cerejas.
"Oba! Sobremesa!" alegrou-se Cartesiano, assim que o embrulho
é aberto.
Penumbra pega duas cerejas, Dagan aborrecido, seca-se ao redor da
fogueira, Laura enche duas mãos com as frutinhas e Cartesiano,
abocanha de uma vez, metade do monte. Sons da polpa sendo amassada
e as sementes destroçadas, o suco escorre pelos cantos de
sua boca.
Laura ri, com a boca igualmente cheia da polpa vermelha e doce,
porém cospe as sementes para a fogueira. Penumbra come uma
e joga a semente para o lado. No instante que esta toca o solo,
uma muda de cerejeira cresce imediatamente.
"Uau! Faz isso de novo?" pediu Laura admirada.
Penumbra come sua segunda cereja e lança sua semente para
perto de Laura, novamente uma arvorezinha nasce.
"NOSSA!!! Como você faz isso?" indagaram Laura e
Cartesiano espantados. Dagan por sua vez, está aborrecido
demais para admitir que também estava interessado no curioso
fato.
Penumbra esboça uma tentativa de sorriso.
"Está muito claro aqui. Irei para um lugar mais escuro."
responde ignorando os demais.
Por
Robin Leonor ([email protected])
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Fábula
do Demônio Cartesiano Parte IV
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