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Fábula
do Demônio Cartesiano - Parte II
(continuação)
"Quem
é você?" indagou o Demônio Cartesiano.
"E-e-e-eu ssssou Da-da-dagan, senhor..." respondeu o homem
enquanto Cartesiano cortava as cordas que o prendiam.
"Por que estava pendurado?" perguntou Cartesiano, sentando-se
ao redor da fogueira.
"É uma lon-lon-longa história, se-senhor... senhores...
hã...."
"Eu sou o Demônio Cartesiano." sorriu "E este
é Penumbra." apontou "Na verdade, Penumbra não
é o nome dele, mas ele esqueceu o nome dele porque faz tempo
que ele não usa. Se bem que o dono da estalagem parecia saber
o nome dele..."
"Ca-Har intromete-se demais em assuntos dos quais não
lhe concerne." resmungou em tom severo, enquanto se junta aos
demais perto da fogueira.
"Você tem medo de mim..." resmungou Cartesiano ao
notar que Dagan não ousava olhar para seu rosto.
"Sim... de-devo confessar que-que é verdade, mas é-é-é-é
tu-tudo uma questão de costume. Com o pa-pa-passar do tempo
não o te-te-temerei mais..." respondeu Dagan com as
mãos trêmulas "... eu espero..." pensou.
"Então tá bom... agora conta sua história."
pediu Cartesiano.
"Bem... os fa-fatos sucederam-se desta forma: Meu pai, o senhor
das terras de Elspeth, arranjou-me um ca-ca-casamento com a filha
mais moça de Feleti, senhor das te-terras de Lynch, a bela
Lelia. E para minha irmã ca-caçula, Noreen, casou-a
com o conde de Ownah.
"Porém, Lelia tinha um irmão, Stoyan. Este armou
o maior e mais ousado plano da-da história de nossa gente.
Primeiro, pôs-se a dizer que eu havia desonrado sua jovem
irmã, traindo nossos laços matrimoniais, durante as
comemorações de Nosso Senhor da Boa Colheita e como
re-representante da parte lesada, desafiou-me para um duelo."
"Não tendo como provar minha inocência, fui obrigado
a aceitar e de-descobrir que meu cunhado era melhor diplomata que
duelista. Feleti, anulou meu casamento sustentando o mesmo discurso
de Stoyan e acusou-me da morte do único fi-filho varão,
declarando guerra."
"Para evitar derramamento des-des-desnecessário de sangue,
nosso bom rei, Tassos XIII, restabeleceu meu casamento, mas declarou
que sangue se paga com sangue e que minha morte selaria novamente
a paz. Então, aqui estava, aguardando pelo amanhecer de minha
execução. Adiada pela vinda dos se-senhores."
"Hum... não entendi... porque ele queria duelar com
você?" indagou o Demônio Cartesiano coçando
a cabeça.
"Ele pretendia me matar, depois, um de seus comparsas iria
espalhar a notícia de que meu suposto adultério não
passava de um mal-entendido, talvez até desmentissem o fato.
Então, o conde de Ownah, seria obrigado a de-desafiar Stoyan
pela honra do pai de sua mulher."
"Stoyan ma-mataria o conde e para evitar uma guerra, seus burocratas
fechariam um casamento com minha irmã Noreen, no fi-final
teriam o domínio das três terras."
"E você traiu ela, mesmo?"
"Eu... sinceramente não sei o que se pa-pa-passou naquela
noite. Estava tão bêbado que não me lembro de
nada."
"E como desvendou esse plano todo?"
"Accalia, uma amiga de infância, que se tornou uma das
a-a-amantes de Stoyan me contou, pouco antes de ser trazido para
cá."
"Por que ela não falou antes? Você não
precisaria morrer." retrucou Cartesiano indignado.
"Eu não sei. E tenho me in-indagado sobre isso até
agora." lamentou Dagan em um suspiro, porém mais calmo
agora.
"E agora... você vai morrer?" indagou o Demônio
Cartesiano.
"Bem... do jeito que o velho Cesn correu, não creio
que vá voltar."
"Então você vai poder voltar para casa."
sorriu Cartesiano.
"Não é tão simples assim... pelo bom nome
de minha família, devo desaparecer."
"Então vem conosco!" levantou-se alegremente "Estamos
indo pra casa, você pode ir com a gente e pode morar comigo!"
"Creio que não tenho outra escolha." sorriu Dagan,
tentando controlar seu medo.
"É uma boa idéia, né Penumbra?" indagou
Cartesiano saltitando de alegria.
"Oh? Hum... faça como quiser..." respondeu Penumbra
pensativo.
"O que aconteceu?" murchou Cartesiano, sentando sobre
seus calcanhares.
Penumbra
suspira e eleva seu rosto oculto pela sombra do capuz do manto,
pode-se ver apenas seus olhos azul-violáceo cravando-se em
sua alma. Cartesiano sente um arrepio correr por sua coluna e cai
sentando no chão.
"O
que havia dito sobre sair da estrada?" indagou severamente.
"Pra eu nunca sair dela..." murmurou Cartesiano cabisbaixo.
"E onde estamos agora?"
"Fora da estrada..." choramingou Cartesiano em um bico
de arrependimento.
"Perdoe minha intromissão, senhor Penumbra, mas o que
se passa?" questionou Dagan apreensivo.
"O senhor Demônio Cartesiano requisitou meus serviços,
por uma boa paga, para que o levasse de volta ao seu lar. No entanto,
está a dificultar meu trabalho." respondeu Penumbra
dirigindo seu tom mordaz para Cartesiano, que encolhe-se mais afastado
da fogueira.
"E o qual é seu preço?" indagou Dagan tomando-se
de coragem.
"Isso, senhor, é um assunto que concerne apenas a mim."
respondeu Penumbra levantando-se "Vamos Cartesiano, graças
ao seu ato impensado, nossa jornada quadruplicou-se em extensão
e tempo."
"Mas... se a gente não tivesse saído, Da-da-dagan
teria morrido..." emburrou-se.
"Espero que isso lhe sirva de consolo durante nossa caminhada."
retrucou Penumbra tomando a frente.
"Ele é sempre assim?" indagou Dagan baixinho ao
ouvido de Cartesiano.
"Às vezes ele é bem pior..." respondeu Cartesiano
em um sussurro.
Perto
do amanhecer, como de costume, Cartesiano cavou um buraco para que
Penumbra pudesse se abrigar da luz.
"Quer
que eu te enterre também?" indagou ingenuamente o Demônio
Cartesiano.
"Nã... não... pelo Santo Justo... jamais sobreviveria
a isto..." gaguejou Dagan afastando-se de Cartesiano com dois
passos para trás.
"Ah..." resmungou Cartesiano um tanto magoado.
"Por favor, não se ofenda, senhor... eu apenas... apenas...
não preciso..." procurou dar uma desculpa.
"... se esconder da luz." o Demônio Cartesiano completou
a frase.
"Isso... isso mesmo, senhor." concordou Dagan enxugando
o suor frio de seu rosto.
"Não precisa me chamar de senhor. Eu sou o Demônio
Cartesiano." respondeu em um bico.
"Então... como devo chamá-lo?"
"Ah... Demônio Cartesiano. Apenas isso."
"Se me permite a intromissão, é este o seu verdadeiro
nome?"
"Não. Eu não tenho um nome."
"Por quê?"
"Eu sou o Demônio Cartesiano."
"Oh... bem... e o que é ser o Demônio Cartesiano?"
"Hum... não sei direito. É parte de uma lenda,
sabe? De tempos em tempos um Demônio Cartesiano morre e outro
nasce. Meu antecessor foi o Demônio de Abbott."
"Oh... ele era seu pai?"
"Não." riu Cartesiano "Eu nem sei onde fica
Abbott. Não é uma coisa que se escolha. Você
apenas é."
"Estou um pouco confuso. E seus pais?" indagou Dagan caminhando
para a sombra de uma árvore ao lado.
"Minha mãe chora todos os dias... meu pai... eu acho
que ele me odeia, ele vive decepcionado comigo."
"Por que é um demônio?"
"Porque sou o Demônio Cartesiano."
"E para que há Demônios Cartesianos? O que vocês
fazem?"
"Eu não sei. Minhas fadas-madrinha disseram que é
algo que tenho que descobrir sozinho. Eu não entendo muito
do que elas falam. Não gosto muito delas, elas me dão
medo."
"E quanto ao seu companheiro, Penumbra. O que ele é?"
"Acho que ele é um elfo, ou algo parecido."
"Sob aquele manto, parece um monstro." murmurou Dagan.
"Ele é legal, só que às vezes leva tudo
muito a sério."
"A propósito... o que houve com a perna dele?"
"Ah, é um verme."
"Um verme fez aquilo?" indagou Dagan assustado.
"É... parece que ele mora na perna dele."
"Você não tem mais medo de mim Da-da-dagan."
sorriu Cartesiano.
"É por que já me acostumei com você. Conhecendo-o
melhor sei que não preciso ter medo.
"Quer ser meu amigo, Da-da-dagan?"
"É Dagan. E sim. Eu gostaria de ser seu amigo."
Cartesiano
pula e bate palmas de alegria, causando abalos na terra e estrondos
como de trovão. Os pássaros voam de seus ninhos assustados,
os animais correm para longe, Dagan é atirado pelo deslocamento
do ar para longe.
Mas a euforia não dura muito, assim que percebe seu erro,
Cartesiano fica quieto.
Dagan levanta-se atordoado, seus ouvidos sangram. Cartesiano corre
em seu socorro.
"Desculpa. Você está bem?" indagou Cartesiano
ajudando-o a levantar.
"Estou surdo... sinto seu hálito, mas não ouço
suas palavras..." disse Dagan ainda cambaleante.
"PENUMBRAAAAAAAAAAAAAA..." clamou Cartesiano, jogando
Dagan sobre seu ombro e correndo para o local onde o havia enterrado.
E ainda eram por volta das nove horas da manhã.
Por Robin Leonor
([email protected])
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do Demônio Cartesiano - Parte III
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