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Fábula do Demônio Cartesiano - Parte I

A NARRAÇÃO

"E tudo porque, um dia, nasceu uma criança estranha que foi alimentada com um leite mórbido como a lua e envolta numa túnica lívida como a morte."
Eça de Queirós


Há alguns anos atrás, Berthold, um velho amigo da família, contou-me sobre esse fato. A princípio não acreditei, apesar de jovem, não costumava deixar-me levar por lendas e mitos. Mesmo assim, lembro que durante a narração, sob a propícia meia luz do lampião (ou eram velas?), fiquei intensamente inclinado a acreditar naquelas palavras.
Mas não. Mantive-me firme, solidamente fundado em minhas crenças racionais. No fundo, apenas uma estória, um conto da carochinha, recheada de moral, para assustar criancinhas.
Creio que dormi naquela noite, talvez tenha acordado uma ou outra vez, por causa de alguns vestígios de pesadelo, mas fui embalado por minha racionalidade. Dormia aos braços de bravos pensadores e cientistas.
Nunca gostei de escritores e poetas. Eram eles quem teciam histórias com fios de mentira ilógica, acobertando a razão com uma emoção barata. Idolatrando feitos barbáries como se dignos de reis. São eles os criadores do falso mito. Perdidos naquilo que chamam de "própria realidade".
Mesmo assim... anos mais tarde, fora a vez de Aletha contar sua versão dos fatos. Fiquei impressionado, afinal... sempre fora tão cética quanto eu. Mas ao proferir aquelas palavras... foi um choque tão grande que não dormi.
E hoje, justo hoje... chega a minha vez. Jamais pude acreditar que um dia eu contaria esta História.
Ouça, apenas ouça:

Era ele, um ser solitário, apenas um vago resquício de pensamento, sem ao menos uma forma definida, algo tão etéreo e palpável quanto um sonho.
Apreciava a escuridão, não por ser um espectro maligno, o conceito de bondade ou maldade era irrelevante. O fato é que a luz era um incômodo.
Todos os dias, sentia uma dor lacinate na perna, por isso não andava, arrastava-se. Quando bem humorado, flutuava por aí.
Alimentava-se de pequenos frutos - rubros como cerejas, do tamanho de avelãs, mas seu gosto assemelhava-se ao de damascos - não exatamente os ingeria, mas aspirava seu perfume - de maçã - e satisfazia-se com isso.
Sua solidão não era voluntária ou imposta, apenas uma constante.
Então, um dia, ele conheceu um pequeno ser. Não tinha um nome específico (nenhum dos dois), era o pequeno Demônio Cartesiano.

"O que faz por aqui?" indagou a etérea criatura.
"Eu me perdi..." choramingou o Demônio Cartesiano.

Era a primeira vez que ele via ou sentia aquelas lágrimas. Seu gosto era um misto de almíscar com vermelho. Eram como uma coceira: quanto mais se coça, mais se quer coçar, mesmo esfolando a pele.

"Onde estamos?" indagou o pequeno Demônio Cartesiano.
"Estamos em lugar nenhum." respondeu.
"Como eu volto?" questionou o pequeno Demônio Cartesiano.
"Não volta. Apenas continua." respondeu acompanhando, sedento, cada gota opaca que escorria daqueles olhos assassinos.
"Eu quero voltar pra casa..." choraminga o Demônio Cartesiano.
"O que é uma casa?"
"É o lugar onde vivo."
"Não está vivendo aqui neste instante?"
"Sim, mas minha casa é onde eu durmo, moro, como, onde eu habito."
"Mas, pode fazer isso em qualquer lugar."
"É diferente!"
"O que é diferente?"
"Lá estão minhas recordações."
"Oh... sim... isso é importante."
"Você pode me ajudar?"
"Talvez"
"Quem é você?"
"Eu sou... sou... como era mesmo? Há muito tempo atrás tive um nome e um título, mas agora... não me lembro mais..."
"Posso te chamar de Penumbra?"
"Penumbra? Hum, acho que sim... sim. Você pode. E quem é você?"
"Sou o Demônio Cartesiano."
"O Demônio de Abbott?"
"Não, do Norte."
"Oh... está bem longe de 'casa'. Como veio parar aqui?"
"Eu estava andando por aí, acabei me perdendo e chegando aqui."
"E o que encontrou em suas andanças?"
"Só dor."
"Dor... creio que foi por isso que vim para cá. Fugir da dor..."
"Você conseguiu?"
"Às vezes."
"Eu estava procurando um amigo. Você quer ser meu amigo?"
"Não. Isso nos destruiria."
"Ah... ... você vive sozinho aqui?"
"Sim. Há muito tempo. Bem antes do reino do seu pai existir."
"Nossa... faz muito tempo mesmo. Você vai me ajudar?"
"Não sei. O que você tem para me oferecer?"
"Não muita coisa agora, mas em casa posso te dar o que quiser."
"Qualquer coisa?"
"Qualquer coisa."
"Eu vou ajudar, mas teremos de caminhar durante a noite, a luz machuca.
"Você é mau?"
"Por quê?"
"Vive nas trevas."
"Ora... não seja tão maniqueísta!"
"Maniqui... o quê?"
"Maniqueísta, que acreditar na divisão exata do certo ou errado, bem ou mal. Ou algo nesse sentido."
"Oh..."
"Luz e trevas não são boas ou más. Apenas são o que são."
"Entendi... mas o escuro me dá medo..."
"O medo não vem do escuro, vem da dúvida em seu coração. Você pode sentir medo mesmo na luz."
"Estou com sono..."
"Então durma."
"Eu tenho medo..."
"Do quê?"
"Pesadelos."
"Sempre tem pesadelos?"
"Sim."
"Sobre o quê?"
"Eu estou sozinho, todo sozinho."
"Só isso?"
"Só."
"E seus pais? O que fazem a respeito disso?"
"Minha mãe chora, meu pai diz pra não ter medo. Mas eu tenho. Sempre."
"Por isso procurava um amigo?"
"Sim. Mas todos têm medo de mim..."
"Por quê?"
"Eu sou o Demônio Cartesiano."
"É... parece ser um bom motivo."
"Você não tem medo de mim..."
"Por que deveria ter medo?"
"Eu sou o Demônio Cartesiano."
"E eu, sou eu."
"Você é Penumbra."
"Pode ser."
"Estou com sono..."
"Durma."
"Tenho medo."
"Estarei aqui, guardando seu sonhos. Durma."
"Vai me ajudar?"
"Vou. Durma."

Continua... Voltar

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