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Lenda de Arkânis - Parte III (continuação)
Não
tardou para que o sol se pusesse, Andrew passou o dia todo se preparando.
Preparativos que ele nunca julgou que seriam necessários.
Um disfarce para acompanhar de bem perto a queda daquela que por
pouco não derrubou seu reino. Remexendo em velhos baús
ele conseguiu uma espécie de capa com capuz bastante surrada
pela idade e pelo seu intenso convívio com as traças.
Era um grande pedaço de pano de cor marrom, tinha um cheiro
acre, de algo que ficou muito tempo fechado. Mas apesar disso serviria
bem. O rei colocou suas botas de caça, uma velha camisa e
por cima de tudo a capa. Olhou -se em seu maravilhoso espelho de
cristal, e teve uma visão surpreendente, onde antes havia
um imponente monarca, agora se encontrava um sujo e maltrapilho
vassalo, um disfarce perfeito para se infiltrar no meio do pobre
e ignorante campesinato. Ele utilizou sua saída secreta habilmente
escondida atrás de sua cama. Construída para o que
para Andrew era impensável: uma invasão. O rei tinha
plena confiança em sua armada, mas seu pai sempre lhe disse
que aquele que corre, vive para lutar outro dia, o mesmo pai que
projetou essa saída, tão útil nesse momento.
A pequena portinhola de madeira que selava a passagem se abriu com
dificuldade, suas juntas enferrujadas produziram um forte rangido,
resultado e anos e anos de abandono. Do outro lado se encontrava
um túnel escuro e bastante apertado, com uma tocha Andrew
pode iluminar um pouco o caminho, as paredes feitas de pedra estavam
cobertas de limo e eram bastante úmidas. Ao final do túnel,
a explicação veio à tona. O rei desembocou
numa espécie de tanque de água, não devia ter
mais do que dois metros de profundidade, esse pequeno lago fechado
entre as densas paredes do castelo escapava por uma pequena abertura
na parede, um velho barco a remo estava amarrado próximo
da entrada do túnel. O rei rapidamente desamarrou a embarcação
e com duas ou três remadas chegou até o vão
na parede, do outro lado o que era esperado, o pequeno lago se interligava
com o rio que corria ao lado do castelo, uma estratégia sábia
de seu pai, já que ele sabia que nenhum camponês revoltado
pensaria em vigiar o rio.
Andrew
remou até a margem e saiu do barco, olhou em volta e percebeu
estar bem próximo da floresta, o tempo corria e ele tinha
de chegar rapidamente à clareira. Seguindo o mapa, ele se
embrenhou por entre as árvores por alguns minutos, até
que pôde ouvir vozes, um forte murmúrio vindo do norte,
ele andou disfarçadamente até o local e avistou uma
enorme clareira, grande o suficiente para abrigar boa parte de seu
exército, mas que apesar de disso parecia apertada tamanha
a quantidade de aldeões que lá se encontravam. Ele
arrumou a roupa, puxou o capuz escondendo seu rosto e rapidamente
se embrenhou entre a multidão. Com alguns empurrões
foi se aproximando do palanque improvisado sobre um tronco, e rapidamente
conseguiu o lugar que queria, um privilegiado espaço na frente
de onde poderia até mesmo tocar a sacerdotisa. Suas mãos
suavam ante a excitação. Ele olhava a volta em busca
do elfo, e a cada falha tinha mais certeza de que havia contratado
um profissional. Andrew sabia que o assassino estava à espreita
aguardando apenas que a oradora pronunciasse suas primeiras palavras
para disparar seu tiro fatal. Pouco a pouco os murmúrios
foram baixando á medida que a sacerdotisa envolta em seu
impecável manto branco se aproximava. Ela então parou
apenas a alguns metros do rei disfarçado. E então
com um leve aceno fez com que a ansiosa multidão se calasse.
Quando o imaculado silêncio se estabeleceu ela iniciou seu
discurso:
- Sejam
bem vindo amigos, é bom saber que são tantos os que
vêm a mim em busca de conhecimento, um conhecimento que deve
ser espalhado para que ilumine não apenas suas mentes, mas
a de todos aqueles dominados pela escuridão da ignorância
Aquela
voz - pensou Andrew - aquela voz, como a melodia dos anjos, uma
voz doce e cativante, poderia ser
- A confirmação
se deu assim que a sacerdotisa retirou seu pesado capuz. O rei ficou
paralisado com a visão, não conseguia pronunciar nada
ao ver que por trás do manto estava aquela a quem tanto procurará,
sua filha desaparecida Arkânis. Os segundos que se seguiram
pareceram horas, o rei desesperado olhando para todos os lados,
a procura do maldito elfo. Ele tinha de pará-lo... Ele não
podia
Foi
quando seu plano tão meticulosamente preparado sucedeu Uma
flecha vindo do meio das árvores atingiu Arkânis no
peito. No local onde a flecha atingiu rapidamente se formou uma
pequena mancha de sangue enquanto a multidão assistia aterrorizada
seu corpo vir ao chão. Para Andrew aquele momento parecia
interminável, ele correu a amparar o corpo que desfalecia
enquanto sua voz saia lenta e monótona:
- Não!!!
E num
instante o tempo voltou a sua velocidade normal, o rei petrificado
segurava o corpo em seus braços, seu capuz sujo havia caído
diante de seu repentino movimento, a multidão em volta estranhamente
se manteve paralisada, incapaz de qualquer atitude, foi para todos
uma grande surpresa descobrir que a filha do rei era a tão
famosa sacerdotisa. Um sentimento de compreensão percorreu
aquelas pessoas, aqueles que antes eram apenas animas de carga,
agora possuíam um pouco de sabedoria, os ensinamentos de
Arkânis havia sucedido. Ninguém era capaz de sentir
raiva, ou de erguer seu braço para atacar o tirano, todos
permaneceram imóveis perante a cena.
Quanto a Andrew, ele permanecia imóvel. Não chorou,
não riu, simplesmente ficou paralisado, em estado de choque.
Por sua mente destruída pelos acontecimentos apenas pensamentos
simples e de fácil compreensão, ele estava incapaz
de calcular, julgar e até mesmo de planejar uma fuga. Sua
vida estava lá, morta em seus braços e a única
coisa que seus lábios petrificados conseguiram pronunciar
foi:
- Ela
era minha filha
Minha filhinha
Poderia
haver sentimento naquele coração esculpido no gelo,
Andrew foi capaz apenas de sentir uma mão sob seu ombro,
uma mão forte que apertou seu ombro de forma confiante, ele
vagarosamente olhou para trás e pode ver o rosto de um camponês,
um rosto familiar que só veio à tona quando o rapaz
se apresentou:
- Meu
nome é David... senhor
O jovem,
embalado pela tristeza e pela comoção foi incapaz
de reagir contra o velho rei, seu coração doía
pela perda de sua amada, e pelo sentimento de compreensão
de um pai que se encontrava no meio da floresta, com sua única
herdeira morta nos braços.
Andrew
olhou fundo nos olhos do rapaz. Seu rosto imóvel na mesma
expressão triste e sem vida, ele encarou o rapaz lhe dizendo
o óbvio:
- Ela
era minha filha, minha filhinha Arkânis.
O rapaz
num esforço de apresentar um olhar confiante respondeu:
- Sim
eu sei, era sua filha, mas também era minha esposa.
- Esposa?
- pronunciou o rei, sua voz não continha raiva ou ressentimento,
era apenas uma voz morosa, sem vida repetindo o que havia escutado.
Logo sua mente foi tomada por um pensamento óbvio, algo que
o rei estando consciente jamais ousaria pensar, muito menos dizer,
quase que num murmúrio ele falou:
- Sua
esposa, você era marido de minha única herdeira? Então
é você que deve me suceder no trono?
Os murmúrios aumentaram entre a multidão, David? Rei?
Era o que se escutava. O rei não pronunciou mais nada, voltou
seu olhar para o rosto de sua filha em seu colo.Tinha a face de
um anjo, como que enviada dos céus. Ele acariciava seus cacheados
cabelos loiros, e murmurava repetidamente:
- Você
veio do céu, sei que você foi enviada do céu,
um anjo sem asas para trazer paz a essa terra
Os murmúrios
mais uma vez mudavam, agora o que se podia ouvir eram as palavras
do rei sendo repetidas desordenadamente: Caída do céu?
Anjo sem asas?
Andrew
então sentiu uma forte pontada em seu coração
que se mostrara não ser tão duro quanto se pensava.
Um coração que havia se petrificado quando sua amada
rainha partiu e que agora se descongelava perante a cena. A dor
lascinante por todo seu corpo não era importante, nada mais
era e assim, ali mesmo, sem pronunciar mais nenhuma palavra, o coração
do rei parou. Em seu ultimo suspiro a tristeza que causara sua morte.
Seu corpo caiu para trás e a multidão calou perante
a cena inesperada. Ali estava a prova definitiva que até
mesmo o impiedoso Andrew era humano, ele morreu afogado em sua tristeza,
sentimento esse que apenas aqueles dotados de coração
são capazes de sentir.
Não
demorou muito para que o dia amanhecesse, a multidão em muito
dispersa preparou o cenário para seu ultimo adeus. Andrew
foi sepultado ali mesmo naquela clareira, uma singela pedra demarcava
o lugar. Algo muito distante da opulência que o enterro de
um rei exigiria.
Quanto
ao corpo da sacerdotisa, foi carregado para a pequena cabana próxima
a clareira, a fim de ser preparado para a última jornada.
Este foi carregado pessoalmente por David que pediu àquele
que agora seria seu povo, alguns momentos a sós com sua amada.
Mas depois de se embrenhar pela floresta, David tomou um rumo diferente
do caminho da cabana, e após alguns minutos encontrou um
local, um lugar que ninguém jamais soube dizer a localização,
e ali sem colocar marcas ou sinais, ele enterrou sua amada. Para
Ter certeza que seu corpo gozaria de descanso achou por bem contar
uma lenda, quando finalmente foi questionado sobre o corpo, David
contou a todos, que colocou sob sua cama, ajoelhou-se aos pés
e começou uma oração, naquele momento, uma
luz brilhante e intensa teria atravessado o teto e coberto o corpo
da sacerdotisa. Seu corpo brilhou e vagarosamente desapareceu enquanto
ascendia aos céus. Sua história rapidamente se espalhou,
e os esperançosos camponeses jamais sonharam em questiona-la.
Para muitos, Arkânis era realmente uma deusa, e as palavras
do rei em seu leito de morte e o milagre da ascensão foram
apenas a confirmação.
David,
porém, não deixou que a morte de sua amada destruísse
seu trabalho de tantos anos. Ele escolheu vinte dos mais antigos
estudantes de Arkânis, vestiu-lhes com mantos semelhantes
ao de sua amada e deu-lhes uma missão. A de espalhar por
toda Mirr as palavras por ela ensinada. Com os tesouros deixados
por Andrew, no mesmo local onde jazeram dois corpos foi colocado
a fundação de uma ambiciosa construção,
uma grande livraria, que conteria segundo seu sonho todo o conhecimento
do universo, os livros vindo de todos os cantos de Mirr, trazidos
pelos devotos na fé de Arkânis e algumas vezes até
mesmo pelo próprio David. Os livros eram catalogados, organizados
e estudados, a livraria cresceu, e a cada anexo se tornava mais
imponente e visível. Onde antes havia uma clareira, surgiu
um grande monastério. O que era inevitável aconteceu:
lendas sob milagres realizados por Arkânis rapidamente surgiram
por toda a parte. A grande biblioteca passou a receber grandes quantidades
de pessoas em busca de conhecimento ou de um milagre. David sabia
que muitas dessas histórias eram falsas, talvez meros enganos,
mas tinha certeza que onde quer que o espírito de sua amada
estivesse, ela estaria trabalhando incansavelmente para erradicar
o ódio, as guerras e a ignorância que habitam a mente
humana.
Levou
apenas trezentos anos para que a fé em Arkânis percorresse
todo o mundo, para que incontáveis templos fossem erguidos
em seu nome e para que milhares de pessoas se convertessem a sua
fé. Quanto à localização do corpo, esse
foi um segredo que David levou para o túmulo.
Por
Claudio Villa ([email protected])
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