Fábula do Demônio Cartesiano


Capítulo 6

 

DECISÕES


"Então disse o SENHOR Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal; assim, para que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente,
o SENHOR Deus, por isso, o lançou fora do jardim do Éden..."


Gênesis
Capítulo 3
Versículos 22-23a

E foram rumando, sempre ao leste, de baixo de uma fina garoa, todos em silêncio, temendo uma escuridão mortal, que tentava engolir a pouca luz do lampião, preso à haste da carroça. Penumbra, caminhando à frente, Cartesiano logo atrás, seguido por Dagan, Laura, as gêmeas e o alado na carroça.
"Por que estamos tristes?" pensou Laura consigo.
O fato é que desde que Penumbra voltara, um ar muito pesado paira sobre o grupo, como se o humor deste, contagiasse a todos.

"Para onde estamos indo?" perguntou o anjo, quebrando o silêncio.
"Pra minha casa, todo mundo podi morá lá comigo!" Cartesiano em um alegre, porém, assustador sorriso, apesar da sinceridade de suas palavras, foram obrigados a desviar seus olhares.
Cartesiano ao perceber seu erro, volta a se concentrar na caminhada.

A garoa dança sobre o grupo, gelando seus ossos, cada um lutando silenciosamente contra a cinzenta escuridão da noite; opressora da vontade, lançando-os para uma depressão assustadoramente nova e estranha.
A presença de Penumbra era um incômodo. Como se este fosse um elemento estranho ao grupo, um corvo entre os pombos, talvez; ninguém sabia como reagir a isto.
Arrastavam-se as horas e os dias escorriam junto com o chuvisco, gerando uma grande irritação em Dagan, que crescia ainda mais ao ver que os outros ignoravam tudo isso.
"Quando chegaremos? Quando chegaremos?" era o único pensamento que coçava furiosamente na mente daquele humano, tanto que seu estômago doía como se algo o mordesse por dentro.
A aurora despontava no horizonte, quando o distinto grupo deparou-se com um enorme portão dourado em forma de arco.

"Chegamos..." murmurou Penumbra, enquanto empurrava os portões, abrindo-os como se fosse o senhor do local.
"Uau! Aqui é sua casa, Cartesiano?" indaga Laura ao adentrarem em um vasto e magnífico jardim.
"Não... aqui não é minha casa..." choramingou Cartesiano "Onde é aqui?" indagou para Penumbra.
"Estamos em um jardim, que foi construído na aurora dos tempos desta terra, porém, o jardineiro que o criou está ausente." respondeu Penumbra sem parar de caminhar e o sol desabrocha no horizonte, dando início a um lindo dia "Desçam da carroça, continuaremos a pé." ordenou Penumbra com sua costumeira rispidez.
"E porque estamos aqui?" suspirou Dagan descendo da carroça, realmente, seria um crime continuar a destruir o gramado verde, ainda salpicado de orvalho, com a carroça.
"Estamos aqui possam encontrar seus destinos." respondeu Penumbra sem ao menos virar para trás.
"Qui distino?" perguntou Cartesiano em uma careta.
"A profecia..." murmurou Laura.
"Profecia...?" pensou o anjo, franzindo a testa.
"Num tô sabendo..." reclamou Cartesiano.
"Logo entenderá, vamos!" Penumbra apressou o grupo.

O grupo caminha, todos pasmos pela beleza do lugar, parecia que todas as plantas, pássaros e animais do mundo se reuniam naquele jardim, de todo o mundo para um único mundo em perfeita harmonia.
A grama era tão macia, o céu tão azul, que uma alegria parecia crescer no peito de cada um, era a mesma sensação de chegar em casa após uma longa jornada e cansativa jornada.

"Psss..." Cartesiano colocou Laura sobre seus ombros "Cê num acha que ele tá bem demais pra tá no sol?" apontando para Penumbra.
"Estranho... né?" concordou enquanto a cobra também sibilava afirmativamente "O qui é aquilo? apontou para uma montanha verdejante, de onde uma trilha se espiralava até longínquo topo."
"Num sei... mais parece que tamos indo pra lá..."
"Se pudesse... ficaria aqui pra sempre..." pensou Dagan embriagado pela beleza campestre "Nunca vi lugar mais lindo..."

Então, no final da manhã, chegam ao sopé da montanha, onde uma estreita trilha a circunda, levando-os ao topo.

"Uaaaaau!!" olhou Laura para cima, na esperança de ver o que há lá.
"Vamos ter de subir tudo isso?!" indagou Cartesiano, meio desanimado.
"Sim..." respondeu Penumbra dando o primeiro passo rumo ao topo.

O
O, G
à R
T s o... U
N s o b e, P
E s o b e, s o b e O

Por volta do começo da tarde, uma das gêmeas se faz presente:

"Por favor... tenham... piedade de nós..." Georgia parou de andar e apoiou-se em sua irmã, assim que o grupo pára e volta-se para elas, desabam ao chão "Estamos exaustas..."

Cartesiano coloca Laura de volta ao chão, ainda encantada pela vista, do ponto em que estavam podiam ver toda a extensão do jardim, era um vale inteiro.

"Eu adoro esse lugar!!" sorria Laura, enquanto Dagan entregava o odre de água para as gêmeas.
"Eu me sinto tããão bem..." inspirou Cartesiano, tentando identificar todos os cheiros do lugar.
"É realmente um lugar muito agradável..." Dagan se junta aos demais na beirada da estrada.
"O sol num tá tincomodando...?" atreveu-se Cartesiano pela primeira vez.
"Não." respondeu Penumbra, também apreciando a paisagem, ao lado de Dagan.
"Num tá doendo...?" atreveu-se um pouco mais.
"Não. Neste lugar, não existe dor. Nem morte."
"HÃ??!!" o grupo arregala seus olhos, incrédulos, até mesmo as gêmeas ficam boquiabertas.
"Querem ver?" indaga empurrando Dagan montanha a baixo.
"Ai! Ele vai morrê!!!" gritou Cartesiano, cobrindo os olhos com as mãos, mas, vendo por entre os dedos, aquele humano bater de coluna na borda da estrada abaixo e rolar para a outra, mais a baixo.
"Não se preocupe." tranqüilizou Penumbra.
Estarrecido, o grupo vê Dagan se levantar e bater a poeira de suas roupas, então olhar para cima e acenar, indicando que estava tudo bem.

Cartesiano sente-se tão aliviado, que pula para baixo, escorregando pela encosta até chegar em seu amigo, coloca-o em suas costas e sobe, saltando como um cabrito montês, até o grupo, que cerca o humano, incrédulos sobre sua integridade física.

"Estou bem." respondeu Dagan, acalmando-os "Estou bem, mesmo! E o estranho, é que nem se quer senti medo durante a queda... é como se soubesse que estava a salvo..." coçou sua cabeça.
"Eu não disse...?" murmurou Penumbra "Vamos! Quero chegar ao topo antes do anoitecer."
"Então, tá... né...? Cartesiano voltou a colocar Laura em seus ombros.

Quando o grupo, finalmente chega ao topo da montanha, mais uma visão belíssima, a grama era ainda mais fina e verde, tão macia que fazia cócegas nos pés das gêmeas, lá na frente, uma árvore não muito alta, mas com um tronco muito grosso, tão grosso que somente com o grupo de mãos dadas, conseguiam abraçá-lo bem justamente.
Mas, a árvore estava morrendo, todos os seus frutos estavam no chão, pretos e secos, as folhas estavam marrons, caindo a menor brisa.

"Tadinha dela..." choramingou Cartesiano, passando a mão no tronco e circundando-a.
"Ssssss... tadinha messsssmo..." sibilou uma cobra gigante, saindo de um buraco na terra, empurrando as folhas que o haviam ocultado.
"Quem é você?!" Cartesiano afastou-se em um pulo, de susto.
"Ssssssou o antigo guardião dessssta árvore." a cobra se enrolou na base da árvore.
Sissi desenrola-se do pescoço de Laura e desliza pela grama verde até a cobra gigante, erguendo-se até a metade do corpo.
"Olá, criansssçasssss... essstava essssperando por vocêssss..." ergueu sua grande cabeça.
"Pra quê?" questionou Cartesiano sondando a cobra.
"Essstive esssperando meu sssssussscesssor há muito tempo..." tombou a cabeça "Essstou velho... pequeno, quero dessscansssçar..."
"Vai se aposentar?" perguntou Cartesiano imaginando quantos metros teria aquela cobra.
"Quasssse issso..." respondeu desenrolando-se.

Sissi abaixa a cabeça em respeito ao guardião, então desliza para sua cauda e começa a devorá-lo, no entanto, parecia que a antiga cobra estava vestindo-se de verde novamente.

"Peraí!" interviu Cartesiano voltando seu olhar para Penumbra "Qué dizer que ela vai morrer?" apontou para a grande cobra, que estava uma ponta mais verde.
"Mais ou menos..." respondeu Penumbra "O conhecimento passará para a cobrinha, mas ela não estará mais consciente."
"Tá dormindo, então?"
"Quase isso..." suspirou Penumbra, não querendo aprofundar-se na explicação.

E conforme Sissi ia devorando a grande cobra, a noite ia caindo, o céu pontilhou-se de luz e a lua nova sorria no céu azul escuro. Não haviam insetos hematófagos e a temperatura era amena. Um lugar perfeito para se viver, ou quase.

"Eu tô com fome..." queixou-se Cartesiano logo na terceira hora da noite.
"Eu também!" Laura pulou do colo de Dagan.
As gêmeas também consentiram com a cabeça.
"Sagrado Signo... as provisões ficaram na carroça..." lembrou-se Dagan.
"Eu posso caçar um javali bem gordinho..." Cartesiano lambeu os beiços.
"Já disse que aqui não há morte." observou Penumbra.
"Mas a árvore morreu!!!" Laura levantou-se em um pulo.
"Ela não está, exatamente, morta..." respondeu Penumbra.
"Ela parece bem mortinha, pra mim..." comentou Laura em um desafio.
"E o que isso tem a ver com meu javali...?" Cartesiano interrompeu Penumbra que iria responder um tanto rispidamente para Laura.
"Isso também vale para os animais." suspirou Penumbra aborrecido.
"Qui pena..." emburrou-se Cartesiano "Qui vamos comer agora?"
"Há muitas árvores frutíferas, lá embaixo." disse Penumbra que virou de lado e dormiu.
"Bem... já que é assim..." Cartesiano foi até a borda e pulou.

Após um tempo de constrangedor silêncio, Laura volta a falar:

"Eu quiria viver aqui pra sempre..."
"Eu também. Me sinto como se estivesse voltado para casa..." continuou Dagan deitado olhando para as estrelas.
"Como era sua casa?" perguntou Laura.
"Ah... era um lugar muito bonito... meu pai Boldon é o senhor das terras de Elspeth, os celeiros estavam sempre cheios e as moças eram belas."
"Por que saiu de lá?"
"Tive uns problemas..." respondeu Dagan evitando o tom de amargura.
"Que prob..."
"CHEGUEI!!!" Cartesiano voltara trazendo sua capa cheia de vários tipos de frutas: maçãs, pêras, uvas, mangas, goiabas, bananas, figos, pêssegos, cerejas e outras frutas desconhecidas.
"UAU!! Quanta coisa!!" Laura correu até o monte, pegando e olhando várias frutas "Quiqué isso?" perguntou apalpando uma fruta verde, que parecia ser feita de um amontoado de gotas escorridas.
"Num sei..." respondeu Cartesiano pegando outra igual "Mas tem um cheiro tão bom..."
"Será que é venenosa?" questionou Dagan também checando a fruta "Penumbra? Você conhece isso?"
Penumbra dorme.
"..." Dagan suspirou "Deixa pra lá."

E a noite passou, com o grupo se deliciando com as frutas e depois caindo, um a um em um reconfortante sono.

"Ssssss... bom-dia..." sibilou a nova Sissi para o anjo, que despertara, ao primeiro pontilhar do sol.
"Olá." respondeu o anjo, caminhando para a árvore, morta, onde a cobra se enrolara.
"Ssss é de cortar o corasssção... não? Sssssss..." olhou para os galhos secos e pelados da árvore.
"Sim... é verdade..." respondeu o anjo tocando em seu tronco, na esperança de sentir algum vestígio de vida.
"O que ssssente?"
"Nada..." respondeu o anjo com um tom levemente triste "Ela está morta."
"Isssssso... isssso sssssempre acontessssce... de tempossssss em tempossss..."
"É mesmo? E agora?"
"Ela sssssempre volta a viver... como aquele pásssssaro bonito."
"A fênix?"
"Ssssssim. Meu passsssarinho."
"Eu não sou um pássaro."
"Massss tem asssssassss, não têm? Issso é o que importa... Ssssssss."
"Não te compreendo."
"Venha passsssarinho bonitinho... ssssss... venha para a sua gaiolinha... sssssss..."

O anjo dá dois passos para trás.

"Sssssss... não tenha medo... passssarinho bonitinho... ssssss... venha para sua gaiolinha."
"NÃO!" gritou o anjo e se afastou.

O grupo desperta.

"Qui foi...?" indagou Cartesiano esfregando o olho esquerdo, em um longo bocejo.
"Ela quer me aprisionar! Não quero ser prisioneiro novamente... não daquele jeito..."

Todos voltam seus olhares pra Sissi, menos Penumbra que permanece dormindo, ou apenas fingindo.

"Eu ssssssssó dissssssse o que deveria dissssssser..." respondeu a cobra tombando a cabeça para a esquerda.
"E o que aconteceu?" indagou Laura aproximando-se da velha amiga.
"Disssse a ele que deveria sssssssss entrar em sssssssua nova gaolinha... sssss...
"Que hor-RORR!!" exclamou Laura boquiaberta.
"Por que você quer isso?" perguntou Dagan passando a frente de Laura e Cartesiano.
"Ssssssssssó asssssssim a árvore pode voltar a viver... ssssss..."

O grupo se entreolha pensativo, então, voltam-se para o anjo.

"Eu... eu... não quero voltar a ser engaiolado" desvia seu olhar para o gramado.
"Não tem outro jeito?" pergunta Laura fazendo um bico.
"Sssssss... é necesssssssário o esssssspírito de um anjo para reavivar a árvore, essssssa é a regra... não possssssso mudá-la... ssssssss."
"E o qui acontece si a árvore não voltar?" pergunta Cartesiano.
"Então... ssssssss... não sssssse cumpre a lei. Ssssss...."
"Que lei?" suspira Cartesiano, tentando manter a paciência.
"Sssssss... a garotinha não vai sssssssair do casssssssulo." responde a cobra dando mais uma volta na árvore.
"Será qui dá pra falar direito?!" aborreceu-se Cartesiano.
"É a tal profecia?" interrompeu Dagan, lembrando-se da conversa que tiveram com Penumbra há muito tempo atrás."
"Ssssssssim." respondeu Sissi.
"Qui profecia?!!? Agora, você deu di falar por eni... egui... eguiníguima, também!!?"
"É enigma; e eu também não sei do que se trata, só sei que há um envolvendo Laura e a cobra." responde Dagan tão curioso quanto Cartesiano.
"E desde quando a Laurinha está num casulo?" emburrou-se Cartesiano.
"Sssssse o passssarinho entrar na gaiolinha.... ssssssss... vossssscêsssss vão ver... ssss..." sorriu a cobra, voltando seu olhar para o anjo.
"Já disse que não quero ser engaiolado!!!" gritou o anjo dando dois passos para trás.
"Ora.... ssssss... vamossssss... não vai ssssssser tão ruim asssssssim..." sibilou a Sissi.
"AFASTE-SE DE MIM!!" gritou o anjo dando três passos para trás, esbarrando em Penumbra que havia se levantado.
"Bem... se é essa sua decisão..." interviu Penumbra dando os ombros.
"Ssssssssss..." Sissi ficou mal-humorada.
"I agora?" perguntou Cartesiano.
"Seria bom se pudesse pegar um pouco de água..." resmungou Penumbra "Nosso odre está vazio." sacudindo-o no ar.
"Ondi tem?"
"Ssssss... no riassssscho... pro norte... ssssss..." sibilou Sissi voltando para o buraco perto da árvore.
"Ah..." Cartesiano olhou para bem longe ao norte, fez um bico e pulou montanha a baixo pra ir buscar a água.

Novamente, um silêncio constrangedor paira sobre o grupo, durante algum tempo.
Penumbra se espreguiça ruidosamente. Todos olham para ele.
Então de dentro da terra, as raízes secas da árvore, saem agarrando repentinamente o anjo, que ao se debater as quebra, fazendo com que as farpas enterrem-se em sua carne, junto com a ponta aberta da raiz, que crava em seu corpo, sugando avidamente seu sangue, mesmo não havendo dor, o desespero tomou conta de seu ser.
Dagan tentou ajudá-lo, mas Penumbra entrou em sua frente, olhou em seus olhos e disse:

"Fique aí mesmo. Bem quietinho."

E o corpo de Dagan o obedeceu, mesmo contra sua vontade.
O anjo gritava e se debate, tentando livrar-se das raízes que o arrastavam para o tronco da árvore, as gêmeas se abraçaram, seguraram Laura que esperneia tentando acudir o amigo, e cobriram-lhe a visão.
Penumbra apenas observa.
Cartesiano teria ouvido os gritos e voltado para acudi-lo, se um auspicioso vento não os soprasse pra o sul.

Foram minutos, que se estenderam por uma eternidade, enquanto o anjo grita, se debate, agarra-se à grama arrancando tufos, crava os dedos na terra, mas nada disso bastou para livrá-lo de seu faminto algoz que o arrasta pra dentro de si.
Laura sabia que não podia fazer nada e reagia a aquela frustração esperneando, na tentativa de livrar-se do forte abraço duplo das gêmeas, gritando pela ajuda de Cartesiano e tapando os ouvidos, na esperança de não ouvir mais o desespero de seu amigo alado, até finalmente ser tragado para dentro da árvore. Momento que assombraria os sonhos de Dagan pelos próximos anos.
Quando a base do tronco da árvore, finalmente se fechou e o anjo se calou, Laura ainda chorava puxando seus cabelos entre um ou outro espasmo, as gêmeas choravam murmurando preces para deuses há muito esquecidos, Dagan mal conseguia respirar, enquanto Penumbra parecia normal, admirando o fato de como todos os animais calaram-se e esconderam-se, até mesmo vento parou, como se o jardim prendesse sua respiração, o único som era das garotas chorando.
À medida que o jardim, aos poucos, retoma ao normal as garotas se silenciavam, tanto que nem se deram conta, quando as marcas deixadas pelo anjo foram cobertas pela grama, que cresceu com uma rapidez estupenda, junto com a terra voltando ao seu lugar, em poucos instantes, o chão estava perfeito novamente.
Enfim, Dagan cai sentando no chão, sentido suas pernas e braços tremerem como se os tivesse forçado ao máximo. É nesse momento que Cartesiano chega com o odre amarrado na cintura e um cacho de cocos verdes sobre o ombro.

"Enchi o odre, mas então, achei melhor trazer mais e lembrei que dentro dessa fruta tem água... com um gosto diferente, mas é água..." comenta Cartesiano colocando o cacho no chão "... que qui houve?" franze a testa ao sentir os estranho clima que emana do grupo.
"É que..." Dagan tenta contar.
"Cale-se!" ordenou Penumbra, novamente fixando-se nos olhos do jovem humano.
E a boca de Dagan travou, como havia acontecido com seu corpo.
"Eu contarei o que houve..." completou Penumbra voltando seu olhar para Cartesiano "O alado nos deixou." respondeu calmamente.
"Pra onde ele foi?" indagou Cartesiano, sabia que algo estava errado, muito errado.
"Para lá!" Penumbra apontou para a árvore.
"Mas ele não queria entrar..." Cartesiano fechou a cara em desconfiança.
"Você não confia em mim?" olhando nos olhos de Cartesiano, como muito poucos já ousaram.
"Confio..." respondeu Cartesiano virando-se para a árvore "... mas qui tem algo muito estranho, isso, têm..." voltando-se para o grupo "Por que elas tão chorando, então?" apontou para as garotas no chão, limpando os olhos e assoando o nariz num lenço.
"A partida costuma ser triste." respondeu Penumbra.
"Dagan? É verdade? Ele foi embora mesmo?" olhou para o humano sentado no chão, que engoliu em seco.
"Responda a pergunta, Dagan. Ele se foi?" novamente cravando seus olhos nos dele.
"Sim... ele... se foi..." Dagan fechou os olhos e balançou sua cabeça, aborrecido.
"Istranho, istranho, muito istranho..." reclamou Cartesiano emburrado "Por que ele não disse 'tchau' pra mim?"

Penumbra deu os ombros.

"Ah..." resmungou Cartesiano murchando "... acho que ele não gostava muito de mim..." lamentou.
"NÃO! Ele..." Dagan tentou, mas foi rapidamente fulminado pelo olhar de Penumbra "... ele... ele... apenas... não teve tempo... de se... despedir..." respondeu sentindo um amargor em sua boca. Cartesiano apenas suspirou e foi sentar-se afastado dos outros, olhando fixamente para a árvore.

E todos permaneceram calados durante o resto da tarde e da noite inteira.

Cartesiano passou a noite acordado, olhando para a árvore, às vezes para o céu estrelado, apenas pensando e quando a manhã chegou, Sissi saiu de sua toca.

"Bom-dia... ssssssss..." sibilou a cobra colocando a cabeça para fora do buraco.
"... oi..." respondeu Cartesiano chateado.
"O que foi? Esssssssssstá trisssssssste?" perguntou a cobra.
"Tô meio triste, sim..." respondeu arrancando folha por folha da grama.
"Por caussssssa do anjinho?" perguntou rodeando Cartesiano.
"É... ninguém me conta nada... eu sei que tem alguma coisa errada, muito errada, mas ninguém me diz o que é..." esbravejou, acordando os demais.
"Ssssssss... errado? Não há nada de sssssss... errado." disse a cobra indo enrolar-se no tronco da árvore.
"Como, não?" indaga Cartesiano meio ofendido, sem perceber que o grupo se aproxima.
"Ssssss... veja..." Sissi esfrega uma parte do tronco com a cauda, derrubando grandes lascas de madeira podre "... ela esssssstá viva de novo... ssssss... não há nada de errado... sssssss..." revelando um tronco jovem.

Cartesiano arregala os olhos e engatinha até a árvore, onde ao passar sua mão, derruba mais lascas de madeira, revelando sua parte viva.

"Vê? Sssssss... nada de errado." repete satisfeita.
"Ele fez a árvore voltar a reviver?" indaga Cartesiano surpreso.
"Agora ele é o essssspírito da árvore... sssssss... desssssa forma vão viver milêniosssss..." Sissi desceu do tronco, deixando uma boa parte dela livre das cascas "... olhem para sssssscima." aponta com a cauda.
"Ah..." sorriu Cartesiano ao ver os brotos saindo das pontas dos galhos, aparentemente secos, onde folhas novas crescem.

A árvore leva a manhã toda para encher de verde claro a sua copa e a tarde toda para fazer abrir suas flores brancas de miolo vermelho, qual parecia haver sido borrifado com sangue.
Cartesiano fica tão entretido com tal espetáculo, a ponto de nem perceber que seus companheiros de viagem, com exceção de Penumbra, que permanecia o mesmo, continuam entristecidos.
As flores caíram, junto com a noite, formando um grande tapete onde Cartesiano pode deitar e sobre elas e teve o sonho mais lindo de toda sua vida. Dormira tão bem que só despertou por volta da quarta ou quinta hora da manhã.

"Olha! Frutas!!" sorriu Cartesiano olhando para a árvore, carregada frutos dourados e reluzentes.
"Sssssss... agora é ssssssssua vezzzz, menina..." Sissi subiu pelo tronco e buscando um fruto diferente, ao invés de dourado, parecia feito de bronze polido; o ofereceu à Laura.

A garota olha para as gêmeas, depois para Dagan, Cartesiano e Penumbra. Temendo ter o mesmo fim do anjo, corre e se agarra em Cartesiano, sabendo que ele a protegeria, caso a árvore tentasse engoli-la. Hesitantemente, estende suas mãos onde Sissi deixa cair o fruto.
Mesmo desconfiada, morde, o barulho é de maçã, a casca cor de bronze é azeda, enquanto a polpa branca e suculenta, tem um gosto semelhante à da romã, mas desce queimando pela garganta, incendiando seu estômago.

"Tá doendo..." geme Laura largando o fruto e se encolhendo.
"Será qui é venenoso!?" assustou-se Cartesiano pedindo ajuda a Penumbra com o olhar.
"Não ssssssse preocupe... sssssss... a dor é normal... ssssss..." tranqüiliza Sissi.
"Você não disse que aqui não tinha dor nem morte!?!" Cartesiano gritou com Penumbra, apontando para Laura gemendo e se contorcendo no chão enquanto as gêmeas tentavam inutilmente acudi-la.
"Hunf..." Penumbra lhe dá as costas como se estivesse gravemente ofendido.
"Socorro!!" gritou Georgia, levantando-se e abraçando sua irmã, enquanto apontava para Laura, que estava ficando transparente como um fantasma.
"Ssssss... ssss... sssssssss!! Já dissssssse que é normal!!! SSSSSSSS!!" Sibilou Sissi irritada, afastando as gêmeas de perto de Laura e enrolando-se ao seu redor, ocultando-a dos demais "Já disssssssse!!! É normal que issssso acontesssssssça!! Ssssssxô... ssssssxôôôô!!" enxota-os.
"Qui faremos?" indaga Cartesiano, mordendo o lábio inferior, preocupado, a ponto de gotejar sangue, que ao cair, mata a grama e deixa o solo estéril.
"Ouviram a cobra, não faremos nada." declara Penumbra aborrecido "... será que não aprenderam nada, durante todo esse tempo?" resmunga para si mesmo, afastando-se do grupo, que se entreolha indecisos.

Por fim, afastam-se.

Pela manhã, quando todos haviam despertado, Sissi se desenrola, liberando uma Laura adulta, ela usa uma toga do mais puro linho branco, com amarras douradas, seus cabelos formavam lindos cachos que desciam até sua cintura.
Dagan, Cartesiano e as gêmeas estavam boquiabertos com a transformação, ela sorriu e caminhou até eles.
"Acabou." sorriu Laura, sua voz em nova melodia "A profecia se cumpriu e agora estou livre."
"... hum... ainda não entendi..." Cartesiano franziu a testa choramingando.
"O que acabaram de ver..." respondeu Laura.
"Foi o nascimento de uma nova divindade." adiantou-se Penumbra, parecia ter voltado ao seu mau-humor habitual.
Cartesiano, Dagan e as gêmeas arregalam os olhos.
"É verdade... agora eu entendi tudo." continuou Laura "Quando Sissi me encontrou e prendeu-se ao meu pescoço, tive a certeza que teria um futuro grandioso, mas não imaginava que seria tanto assim..." sorriu.
"Muito, bem... e agora o que pretende fazer?" indagou Penumbra sem olhar para ela.
"Primeiramente, gostaria de lhe agradecer por ter nos guiado a este lugar, mesmo sabendo o preço que pagaria..."
"Você saberia..." lamentou-se Penumbra cabisbaixo.
"Agora eu sei..." concordou Laura, em meio pesar.
"Oláááá... nós ainda não tamo tintendendo!!" Cartesiano acenou para os dois.
Penumbra suspirou "Para sua felicidade ou infelicidade, acabaram de ver como as divindades menores, nascem."
"Tá... você já disse isso antes, mais i aquilo de saber que saberia, mas só soube sabido de saber?" atrapalhou-se Cartesiano.
"Isso... isso é uma outra história..." respondeu Laura, ainda um tanto pesarosa "Mas... agora, preciso fazer uma pergunta, a vocês..." voltou-se para as gêmeas, que se abraçavam e tremiam, amedrontadas.
"Agora, precisarei de seguidores... vocês gostariam de ser minhas sacerdotisas?" perguntou em um doce sorriso.
"Nó... nó... nós...?" gemeram as gêmeas entreolhando-se.
"Vocês cuidaram de mim quando era criança, agora, quero cuidar de vocês." sorriu de modo reconfortante.
Elas se entreolham, como se travassem uma longa conversa, apenas com os olhares, enfim, consentem com a cabeça.
"Obrigada" Laura as abraçou.
"Agora é ssssssua vezzzzz, humano..." Sissi sibilou enroscando-se no tronco da árvore.
"Heh?" Dagan virou-se assustando.
"Desssssseja tomar do fruto também?" indagou Sissi esticando-se um pouco mais.
"Eu...? Também vou virar um deus?" questionou Dagan, incrédulo.
"Não. Asssss divindadesssss menoressss nasssscem provando o fruto de bronzzzzze... osssss douradossss conssssssscedem vida eterna..." delicadamente, Sissi pega um dos frutos e deposita nas mãos de Dagan, que pode ver seu rosto refletido na casca "... então? Vai provar... sssss? Vai viver para sssssempre?"
Dagan permanece parado, por longos minutos, apenas olhando para seu próprio reflexo naquele fruto dourado.
"Você... está me... tentando?" perguntou mordendo o lábio inferior.
"Minha funsssssção aqui não é tentar, masss ssssim sssseparar ossss sábiosss dossss não-ssssábiossss."
"O que eu devo fazer?" recorreu os olhos para Cartesiano, que deu os ombros e depois para Penumbra que mantinha vazio o seu olhar.
"Vai fazzzzzer o que deve fazzzzer..."
"Então... o meu destino é comê-lo?" voltou-se para Sissi.
"Não... o dessstino é apenas um fato... ssss, não uma desssscissão... era ssseu desssstino encontrar com o Demônio Cartesssssiano, tê-lo acompanhado ou não, foi desssscissão ssssua..."
"Não sei se entendi direito..." respondeu Dagan olhando para o fruto.
"Ssss... o dessstino não é arbitrariedade... o dessstino é um fato. É sssseu desssstino encontrar o fruto da vida eterna... comê-lo ou não, é dessscissão ssssua."
"Agora eu entendo... mas... e eles?" apontou para Cartesiano e Penumbra.
"Cartessssiano é indiferente ao fruto... comê-lo não irá acressscentar-lhe maissss um dia... não comê-lo não lhe subtrairá um dia... ssss. Quanto ao Penumbra... ele essstá vivo há muito tempo e poderá viver por muito maisss... não pressscissa do fruto..."
"Viver para sempre..." murmurou Dagan olhando para o fruto, para seu reflexo, para Sissi, Cartesiano, sempre a sorrir, Laura entre as gêmeas, Penumbra... e ao olhar nos olhos daquele elfo, soube o que deveria fazer.
"Eu não quero." declarou Dagan soltando o fruto, assim que este toca o chão, seca e escurece.
"Ssssábio... muito ssssábio..." declarou Sissi, aparentemente sorrindo.
"Bem... acho que agora, devemos ir..." lamentou Laura aproximando-se da árvore "Adeus, Sissi, sentirei sua falta." beijou sua cabeça.
"Adeus, Estrela Cadente, eu nunca me esquecerei..." beijou o tronco da árvore.
"Adeus, Dagan." beijou-lhe a fronte.
"Até mais, Cartesiano" beijou-lhe a bochecha.
"Snif... Vou sentir sua falta..." Cartesiano secou uma lágrima.
"Penumbra..." ambos despediram-se com uma mesura.
E tomando as gêmeas pelas mãos, desvanece no ar como um sonho ao despertar, indo para no panteão dos deuses, reclamar o seu lugar.
"Que faremos agora?" indagou Cartesiano ainda acenando para o espaço vazio, onde Laura e as gêmeas estavam.
"Agora, continuaremos tentando voltar para Salém e de lá retomaremos o caminho para sua casa. Já estou mais que farto desta missão..." então Penumbra deu as costas e começou a descer da montanha.

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